COLÓQUIOS
DOS
SIMPLES E DROGAS
DA índia
POR
GARCIA DA ORTA
EDIÇÃO PUBLICADA
POR DELIBERAÇÃO DA
>
ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
DIRIGIDA E ANNOTADA
PELO
CONDE DE FICALHO
Sócio eíTectivo da mesma academia
VOLUME II
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1895
COLÓQUIOS
DOS
SIMPLES E DROGAS
DA ÍNDIA
COLÓQUIOS
DOS
SIMPLES E DROGAS
DA índia
POR
GARCIA DA ORTA
EDIÇÃO PUBLICADA
POR DELIBERAÇÃO DA
>
ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
• DIRIGIDA E ANNOTADA
PELO
CONDE DE FICALHO
Sócio effectivo da mesma academia
VOLUME U
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1895
R
/
COLÓQUIO VIGÉSIMO SEXTO DO
GENGIVRE, E NAO SERVE ESTE COLÓQUIO SENÃO PÊRA
Europa porque tudo isto he noto na índia porque he do Gengivre.
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVA
RUANO
Seguese o gengivre, que nos dias de peixe nos dá sabor
ás mesas, e excita o apetito com as saladas feitas delle em
conserva (a que as vosas escravas chamam achar); e pare-
çeme que isto foi pêra reitificar o peixe, e está escrito pollos
nosos doutores.
ORTA
Certamente não era neseçario fallar neste simple, porque
nelle não ha duvida alguma que escrever; mas dirvosei delle
o que sabem todos, com tal condiçam que não amostreis isto
a nenhuma pesoa na índia, senão lá em Espanha; porque
nam cuidem todos que quanto vos diguo he desta manei-
ra. Mas porque não vades debalde, diguovos que se chama
gengivre acerca de nós, e acerca dos Arábios e Pérsios e
Turcos, giniiibil, e os Guzarates e Decanins e Bengallas,
quando he verde lhe chamam adrac, e sequo siicte; e o Ma-
lavar em verde e em sequo imgi, e em Malaio se chama
alia. E he huma raiz e erva como espadana, ou como lirio
espadanai; e a raiz he tam grande, e a folha he mais verde
escura, e a asta com a folha he de dous e três palmos;
e em verde não he tanto agudo no sabor, em especial o que
naçe em Baçaim, que he mais doce, ou, por fallar mais
direitamente, nam he de sabor tam agudo, por ser da terra
mais húmida; porque a secura maior do neseçario faz a
cousa ser mais quente*, e daqui veo aquelle dito comum,
que a secura he lima do calor, e casi isto sentem os autores
* Avicena, Prima primi (nota do auctor).
6 Colóquio vigésimo sexto
falando do gengivre, dizendo que não esquenta tão asinha
por sua humidade, como esquenta a pimenta. Este geiígivre
verde comese meudo na salada, mesturado com outras her-
vas e azeite e vinagre e sal, e nos pasteis de peixe fresco; e
alguns o comem nos pasteis da carne. Naçe em todos estes
portos da índia, scilicet, os que sabemos, se o semeão, por-
que todo he de semente e raiz; e não duvido aver algum
que naçe sem se semear, mas he tam pouco que delle nam
se faz caso; o mais que naçe he no Malavar, e he o com que
mais folgam os Arábios e Pérsios; e o outro ha em Bengalla,
e outro em Dabul e Baçaim, e em toda esta costa. Dentro
no sertam ha muyto pouco, e não vem a nós algum; nas
ilhas de Sam Lourenço e do Comaro, que confinão com a
Etiópia, também o ha, e dahi tomarão ocasiam os que dixe-
rão que o havia na Trogoldita e na Arábia. Colhese em de-
zembro e janeiro, e secase, e embarramno pêra lhe tapa-
rem os buracos por nam apodrecer, nem o embarram por
pesar mais, nem o picam pêra o embarrar, nem lhe pÕem
este barro senam por estar mais fresco, e porque lhe con-
serve sua humidade natural; e se o não barrão bem, co-
memno os bichos, por o achar mais húmido e de mais sabor.
RUANO
Poucas duvidas se levantam neste simple, mas Sarapio*
lhe chama lingibil; he chamado asi de algumas nações?
ORTA
Já O perguntei, e não achei quem o asi chanaáse; por
onde deve ser este nome corruto.
RUANO
Galeno diz** que vem a nós de Barbaria.
• Sarapio, cap. 36 (nota do auctor).
** Galenus, Simplicium (nota do auctor).
Do Gengivre 7
ORTA
Se por Barbaria entende a costa de Berbéria, não tem
razam nem he verdade; mas se por Barbaria entende re-
giam estrangeira, diz verdade, porque riam pode ser mais
estrangeira que a índia: mas isto he falar muito em geral.
RUANO
Dioscorides diz* que o ha na Trogoldita e na Arábia?
ORTA
Na Trogoldita e nas ilhas de Comaro o ha, as quaes con-
finam com essa mesma terra; e também o ha na Etiópia,
segundo tive por informaçam; mas he pouco, e não he mais
que o que abasta pêra a terra; e o que dixe Dioscorides que
o ha na Arábia, com seu perdão, não falou verdade, antes
he mercadoria pêra lá; e no que diz que se usa muyto no
principio da mesa verde, dixe verdade, e conforme ao que
fazemos os dias de peixe, porque o comemos feito em sa-
lada, como já dixe: e também põe exemplo dizendo, como
nós** arruda, e pode ser que arruda se usáse mais nesse
tempo que agora, por ser forte cheiro; e mais entonçes usa-
riam da arruda medicinalmente, por ser contra a peste e
contra o veneno ; e também alguns práticos receitam salada
feita de arruda e de outras cousas, no regimento da peste.
RUANO
Diz que sam as raízes pequenas, como as da Junca ave-
lanada.
ORTA
Não sam, senão grandes no comprimento e na grosura,
e também sam maiores muyto que a junca.
* Dioscorides, lib. 2, cap. i52 (nota do auctor).
*♦ Quer dizer «como nós comemos arruda». O texto de Dioscorides
na versão diz : Hujus herba virente cocta ad multa, perinde ac nos ruta,
utuntur. . .
8 Colóquio vigésimo sexto
RUANO
Todavia dizeis que se am de escolher as raizes que não
sejam furadas ou tapadas com barro; porque dizem que, por
ser podre, as tapam.
ORTA
Não diguo eu que o que for buracado com o bicho he
bom; mas, que o barrado não tamsomente não he tam bom;
mas antes diguo que he melhor, porque aquelle barro o
guarda do ar e do bicho, e pêra este efeito se lhe faz isto.
E ao que diz que o levam em canteiros pêra a Itália, pode
ser isto, mas fazse melhor embarrandoo primeiro. E dizer
que fazem camará com elle traz razam, scilicet, fazendo boa
digestam: e os outros que dizem que estanca o ventre, tam-
bém tem razam, porque as camarás causadas de indigestam
sesam.
RUANO
Diz que se extende e trepa como grama.
ORTA
Não ha tal cousa, mas está hirto como espadana; nem
se pode dizer arbusto como diz Sarapio.
RUANO
Pois O Musa, deligente escriptor, diz também que trepa
como grama, e que tem a folha como cana.
ORTA
Não fez boa comparaçam porque o gengiin-e he hirto das
folhas, como a espadana, e as folhas da cana não sam hirtas.
RUANO
E também diz que o feito em conserva leixa fios na boca.
ORTA
Isso he em o que não he bom, ou he falseficado, e podre
o fizeram em conserva por encobrir a malicia; porque nam
o ha máo se o fazem em conserva de açucare maduro e bem
Do Gengivre g
curado em muytas agoas; e he picado com buracos para
lhe entrar a agoa, e se lhe fazem isto muytos dias, e o fartam
bem de açucare, he muyto bom, e nam queima, nem leixa
fios na boca; e porque o açucare lhe lançam em abastança
em Bengala, por isso he melhor-, e também o fazem bem
as molheres em Chaul e Baçaim e Dabul; e o de Batecalá,
por não ser feito como disse, e ser escala onde o compram
e fazem, não he tam bom, nem com tam bom açucare.
RUANO
O que me destes os outros dias onde he feito?
ORTA
Em casa; e doutro tam bom como este vos darei huma
jarra, que me veo de Bengala. Trazelha, moça, á mostra.
SERVA
Eyla aqui.
RUANO
Sam ambos tam bons, que não sey qual he melhor: beijo
as mãos de vossa mercê (i).
Nota (i)
O gengibre, muito «noto» na expressão de Orta, é effectivamente
uma planta bem conhecida e vulgarissima na índia, Zingibex' of-
ficiiia,le, Roscoe {Atnomum Zingiber, Linn.), pertencente á grande
família das Scitaminece, da qual já temos fallado varias vezes e ainda
teremos de fallar muitas mais.
Os nomes vulgares, citados no texto, são também conhecidos e fá-
ceis de identificar, postoque estejam um tanto alterados:
— «Gimzibil» entre «Arábios e Pérsios e Turcos»; é a conhecida
designação oriental J-^-nst^J ^indjebil, empregada por árabes e per-
sianos.
— «Adrac», applicado ao gengibre verde pelos Guzerates e outros
indianos, é o sanskrito 5T^^ ãrdraka, simplificado em adrak nas
línguas modernas; emquanto «sucte», applicado ao mesmo rhizoma de-
1 o Colóquio vigésimo sexto
pois de secco, é uma corrupção dos nomes sukku, sont, sTinthi, pelos
quaes em diversas partes da índia se designou e designa esta droga.
— «Imgi» no Malabar; encontra-se na forma inji, ou inchi, como sendo
o nome tamil da droga fresca.
— «Aliáo em «Malayo»; vem citado na mesma forma em diversos li-
vros modernos de auctoridade (Cf Dymock, Mat. med., 762; Ainslie,
Mat. Jnd., i, i52; Crawfurd, Dict., 142).
O rhizoma do gengibre era conhecido, como vimos, de Dioscorides;
e depois, durante toda a Idade media, continuou a ser trazido á Eu-
ropa, como de resto succedeu com quasi todas as especiarias mais
importantes da índia. Vinha, porém, pelos caminhos demorados e dif-
ficeis do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico, e chegava aos mercados me-
diterrânicos sobrecarregado com muitas despezas de transporte. Sendo
assim uma especiaria conhecida e apreciada, devia desde logo attrahir
as attenções dos portuguezes, como de feito attrahiu. O anonymo auctor
do Roteiro da viagem de Vasco da Gama notava que em Alexandria
podia valer um:
«quintall de gingivre onze cruzados.»
E logo em seguida, pondo em relevo o que se podia ganhar n'esta
mercadoria, acrescentava:
«e em Calecut vali hum bachar, que tem cinquo quintaees, vinte
cruzados.»
Sem adquirir a importância que a pimenta tomou desde logo no
nosso commercio com a índia, nem a que um pouco mais tarde ad-
quiriu o cravo, o 'gengibre figurou largamente nas cargas das naus
da índia. El-rei D. Manuel recommendava a Affonso de Albuquerque,
que lhe enviasse grandes quantidades de gengibre; e este respondia
em carta de 20 de Agosto de i5i2: «quanto he ao jemjivre, cada vez
averá vos alteza mayor soma dele, porque espertou muito aos laura-
dores dele procurarmos nós pollo aver, e não duvido aver se dobrada
a soma do que desejaes». Esta passagem é interessante, porque mos-
tra como em volta dos portos do Malabar mais frequentados pelos nos-
sos navegadores, Cananor, Cochim e outros, a procura da especiaria
havia já feito desenvolver a cultura da planta.
Por estes primeiros tempos do nosso commercio deviam provavel-
mente usar-se umas designações de procedência, conhecidas nos sécu-
los anteriores dos negociantes italianos, os quaes distinguiam o gengi-
vre belledi ou beladi, o colombina e o mecchino: o primeiro procedente
de diversas regiões, pois beladi se pode traduzir pela expressão portu-
gueza da terra; o segundo mais especialmente do porto de Coulão,
então chamado Colombo; o terceiro da Mecca, não que ali cultivassem
a planta, mas provavelmente porque por ali conduziam parte da droga.
Vê-se que isto devia ser assim, porque Duarte Barbosa ainda falia do
gengibre beledi de Calecut e de Bengala, e do gengibre dely do norte
Do Gengivre 1 1
do Malabar; assim como Affonso de Albuquerque falia do jemjivre
beledy. Estas designações, porém, pertenciam propriamente aos há-
bitos do commercio mediterrânico, e seriam pouco usadas na índia,
vindo depois a cair em completo desuso, pois Orta nem as menciona.
Como vimos, unicamente se refere ao estado de conservação do rhizoma,
e ao facto de estar mais ou menos «embarrado». E esta era a distin-
cção, que se fazia geralmente no seu tempo: gengibre sem barro, ou
argilla, chamado branco; e gengibre coberto de argilla, chamado ver-
melho. Gaspar Corrêa explica muito bem a operação e os seus mo-
tivos :
: . . . «e diante um grande terreiro (na fortaleza de Cananor, man-
dada fazer por D. Francisco de Almeida) em que se concertava o gen-
gibre com barro pêra a carga, porque sem assy ser barrado entrava
nelle o bicho que lhe fazia muyto dano, e o barro o conserva e faz
mais forte em sua perfeição pêra sempre.»
As vezes, porém, o barro era posto em excesso, como meio de au-
gmentar fraudulentamente o peso, e assim succedeu no primeiro gen-
gibre que levaram a Vasco da Gama :
«Mas o barro era tanto sobejo do que abastara» — diz o mesmo Gas-
par Corrêa — «que muito mais pesava o barro que o gengivre, no que
aos nossos fazião grande roubo, que o feitor bem entendia. . . »
D'este peso do barro, resultava que o gengibre branco, sem ser me-
lhor que o verynelho, era no emtanto um pouco mais caro, como se vê
bem do Lyvro dos Pesos e da Letnbrança das cousas da Imdea.
(Cf. Rot. da Viagem de Vasco da Gama, ii5; Cartas de Affonso de
Albuquerque, 70 e 268; Yule, Marco Polo, 11, 370; Duarte Barbosa, Li-
vro, 383; Gaspar Corrêa, Lendas, 1, 92 e 728; Subsídios, no Lyvro dos
Pesos, 16, e na Lembrança, 42.)
COLÓQUIO VIGÉSIMO SÉTIMO DE
DUAS MANEIRAS DAS HERVAS CONTRA AS GAMARAS,
os nomes das quais se diram neste colóquio, e de huma herva que
nam se leixa tocar sem se fazer murcha.
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVA, MOÇO
RUANO
Segundo vejo nos emfermos que neste esprital ha, e nos
que vos vejo curar, as peiores emfermidades sam colérica
passio e as camarás; e por isso queria que falasemos na
agoa da lierva com que curais as camarás; porque, segundo
se diz em Portugal, muito estanca.
ORTA
A colérica passio, segundo vistes, he muyto forte e peri-
gosa emfermidade; e as camarás que ficam antigoas (a que
chamamos crónicas) sam muyto más de curar; e as de hu-
mor quente sam mu3rto periguosas, as quaes curamos cá
com mais medo que em Portugal, e com mais cuidado, por-
que qualquer error nelas cometido he dificultoso de emen-
dar. Chama-se a herva, ou frutiçe mais verdadeiramente
dita, em lingoa canarim, que he a de Goa, coru; e nós a
chamamos herva do Malabar, porque os Malavares curam
bem desta emfermidade; e aqui andam alguns que vos
amostrarei; e certamente que asi elles como nós outros cu-
ramos bem desta emfermidade, depois de muyta parte da
matéria evacuada. A maior parte destas matas sam do ta-
manho de medronheiro, e mais pequenas, e as folhas sam
como pexegueiro, e as flores que deitam sam brancas e
cheirão a madresilva, e das cortezas da raiz usamos secan-
doas primeiro, porque frescas deitam algum leite.
RUANO
Deve ser quente.
14 Colóquio vigésimo sétimo
ORTA
Asi o cuidava eu ante que a prováse, e desque a provei
que a achei emsipida e fria, e lhe vi os efeitos que fazia, a
graduei em fria e seca, com mais secura que frialdade; e
asi a graduam cá os desta terra.
RUANO
Vede o que dizeis, porque o licenciado Álvaro Fernan-
des (i) me dixe o outro dia, que, tendo humas camarás muito
periguosas, tomara per vosso conselho a herva 7iialapar da
maneira que a dam os Malavares, e nam estilada como a dam
os Portuguezes, e que sentio a mais amarga cousa que avia
no mundo, por onde me parece que cousa tam amarguosa
não pode ser fria.
ORTA
Bem pode ser ter diversas conpreisÕes em diversas par-
tes, asi como tem a \argatoa; e quanto ao sabor amarguoz
que tem, não he muyto, porque o ópio, sendo tam frio como
he, amargua; e por esta rezam me parece ser fria: ao me-
nos sejamos conformes em dizer que estanca. Tornando ao
caso, diguo que fazemos as cortezas desta raiz em pó, e to-
mamos deste pó quanto cabe em huma caçola de alambi-
que, e amaçamolo muyto bem com leite azedo; e tomamos
ameos*, semente de aipo e coentro sequo, e cominhos pi-
sados pretos, dos que vem de Ormuz; tudo isto torrado
misturam em huma onça de manteigua crua, e asi o pomos
a estilar; e desta aguoa estilada damos ao enfermo quatro
onças, misturadas com duas onças de aguoa rosada, ou de
pés de rozas, ou de chantagem. E, quando he mais neseça-
rio, lhe misturamos pós de trosiscos de hei^va malavar, os
quais se fazem da mesma maneira que se faz a aguoa, ti-
rando que não levam manteiga, e sam formados com alguma
aguoa das sobreditas. E também usamos dar esta aguoa em
cristeis, pêra ter de noite; e he cousa com que me a mi so-
cedeo muyto bem muitas vezes; e deitamos estes cristeis
* No Colóquio undécimo, Orta explicou que ameos é o cominho rús-
tico, provavelmente a semente de uma espécie de Ammi, ou de Sison.
Das herras contra as camar^as i5
autoalmente frios, por a terra ser muyto quente, por se re-
ter mais, e também he isto custume dos físicos indianos: nam
vos pareça mal. E se a neseçidade he muyta, damos esta
aguoa duas vezes a beber no dia, scilicet, huma polia ma-
nhãa ás seis horas, e outra ás duas depois do meo dia.
Nestes dias damos a comer ao emfermo leite azedo mistu-
rado com arroz, e franguos delidos em aguoa deste arroz
(a que elles chamão canjej e segundo vemos na fraqueza do
emfermo, asi lhe damos a comer: ao menos vinho em ne-
nhuma maneira o dam os Malavares, nem nós o damos,
senão avendo muytas causas pêra isso em camarás antiguas.
E posto que esta mesinha seja muyto boa, e com ella me
soçedeo bem muyto tempo, não posso leixar de confesar
que não faz obra tam apresurada e tam certa como a erva
que dam os Malavares, a qual he muyto toscamente feita, e
fazse das mesmas cousas que estoutra se faz, pulverisa-
das e delidas em leite azedo, ou em aguoa de arroz muyto
cosido e casi desfeito; outros fazem esta aguoa desta erva
verde pisada, e he muyto forte de tomar, e muito amar-
guoza; e desta potagem dam- ao emfermo polia manhãa
sete onças e outras tantas á tarde, se ha neseçidade disso.
E porque a erva nam he aprazível no gosto, lhe dam pêra
emxagoar a boca algum leite azedo.
RUANO
Com qual maneira de aguoa se acham milhor os emfer-
mos?
ORTA
Com a dos Malavares se acham muyto milhor; e nós
quando vemos que a nosos emfermos não lhe aproveitam
nosas mezinhas brandas, entregamollos ao Malavar, pêra
que lhe dê a sua mezinha rija; e nós ja aguora sem os Ma-
lavares lhe damos a aguoa sua; e ha já feyta no esprital de
elrey, e se os Malavares vêem que ha necesidade maior,
mesturam ópio a esta mezinha: e alguns Arábios curam to-
das as camarás com ópio retificado com iio:{. E eu vi curar
asi a hum Arábio, quando andava com aquelle grande sul-
i6 Colóquio vigésimo sétimo
tam Badur na guerra, em companhia de Martim Aífonso
de Sousa, meu amo (2). E hum íidalguo onrado e descreto
que de Portugal veo, me dixe que Dom Manoel Telo de Me-
nezes curava em Portugal algumas pessoas desta maneira ao
parecer; porque a mezinha estancava, e juntamente com isto
cheirava a ópio, a qual física aprendeo em Xael sendo lá
cativo (3); mas eu não tenho isto por cousa segura.
RUANO
E a mim asi me parece usada, ao menos no principio,
porque outras couzas ha melhores pêra retificar o ópio, que
a 1107.
ORTA
Os Malavares nunca querem confesar que lhe deitam ópio;
e eu curei a hum fidalgo mu3'to onrado, o qual tem nome
em toda Espanha, e estava á morte; e porque teve devaçam
a hum Malavar que o avia restituído á vida de humas ca-
marás deficultosas, e achandose doente em esta cidade de
Goa de humas camarás muj^to faciles, o mandou chamar;
e elle por yr por caminho mais curto curouo loguo com
a mezinha que levava ópio; e sendo eu chamado o achei
casi á morte, estúpido, e parecendo nelle mu3'tos sinaeis
de homem que tomava ópio; o qual eu curei, e ouve cedo
saúde; e o mesmo Malavar nunqua quis confessar que levava
ópio a mezinha que lhe dera, e mostrava as mezinhas com
que o curava, as quais eu conhecia tam mal como minha
may; e porque esta mezinha sara de improviso, me parece
que lhe deitam ópio. E fui mais certificado disso quando
curei este fidalguo. Aproveita esta mezinha em grande ma-
neira, quando he muyta parte da matéria evacuada, e doutra
maneira recaem muitas vezes (4).
RUANO
Aproveita esta mezinha pêra mais emfermidades?
ORTA
Pêra vómitos, e pêra fraquezas do estomaguo, tomada com
alguma mistura de agiioa de ortelãa e alguns pós de almé-
Das herpas conU\i. as camarás 17
cega. Ha também nesta ilha uma arvore pequena, e porém
de maior cantidade que estoutra frutiçe; tem as foUias e a
flor como murta, e dá a fruta como murtinhos, e do mesmo
sabor e mais estiticos, e chamão esta erva avacarí. Esta,
me dixe hum português velho de muito tempo nesta terra,
que mora no monte em huma sua quinta, que aproveita
muito pêra camarás antiguoas de causa fria; e que teve,
por espaço de hum anno, huma filha emferma de camarás,
e que as outras mezinhas lhe nam aproveitavam, e com
esta foy restituida á saúde; e pergunteilhe quem lhe dixera
que esta pranta era boa para camarás, e dixe que hum
destes físicos da terra lhe dava a corteza pisada e lançada
em agoa de arroz, feita a modo de tisana, que he o modo
que tem no esprital de curar. Esta raiz desta mata dizem
que cheira a trevo; e perguntei aos físicos desta terra por
ella, e dixeramme que era boa pêra camarás, e que mistu-
ravam com outra herva chamada coru: e que he muyta boa
mesturada (5). Isto he o que sey destas mezinhas, e eu vos
levarei a ver emfermos que curam os Malavares e os Ca-
narins, e sabereis melhor tudo.
SERVA
Esta ahi um moço dos frades de Sam Francisco, com
hum cesto.
ORTA
Não será cheo de cousas pêra comer, pois são frades
que tem necesidade.
MOCO
Eis aqui as hervas que pedistes.
. RUANO
Humas sam roseiras; e estoutra he medicinal?
ORTA
Não, mas tem huma propriedade estranha, que he nam
querer que a toquem; he herva que nam se consente tocar,
porque pondolhe a mam vereis como se encolhe loguo.
i8 Colóquio vigésimo sétimo
RUANO
Cousa he essa muyto de notar, ser esta herva tam limpa
e tam ciosa, que não consente tocarse; vós especulai esa fi-
losofia; porque se parece ás folhas que deita o polipodio;
tem flores amarelas, e desta herva não falaram Plinio, nem
Dioscorides (6); mas o autor do livro da Nova Espanha diz
que ha no Peru huma herva que, como lhe tocam, as folhas
se secam, E porque me parece que estareis já emfadado, será
bem que comamos.
Nota (i)
O licenceado Álvaro Fernandes devia ser um dos médicos do Hos-
pital de Goa. No Regimento do hospital real da cidade de Goa, assi-
gnado pelo provedor e irmãos da mesa a 23 de agosto do anno de i585,
em tempo do vice-rei D. Francisco Mascarenhas, vem a seguinte nota:
. . .«e o provedor da Santa Miseiicoidia Dom Christovão de Menezes,
e outros provedores que lhe socederáo. acrecentarão o ordenado do
medico em vinte e cinco xerafins cada mez, que era o licenciado Ál-
varo Fernandes, e assi foi correndo». Esta nota refere-se evidentemente
a uma determinação tomada muitos annos antes do de i585, e por-
tanto nos tempos do nosso Orta, o que torna provável ser este o Álvaro
Fernandes dos Colóquios (Cf. Arch. port. oriental, fascículo 5.", 1044).
Nota (2)
Esta phrase, e outra igualmente succinta em um dos Colóquios se-
guintes, são as únicas referencias de Orta a um successo importante
da sua vida — ao facto de elle ter acompanhado o conhecido Bahadur
Scháh na sua aventurosa expedição contra os soldados mongões de Hu-
máyun. N'essa expedição, Orta, que seguia o seu amo Martim AfFonso
de Sousa, atravessou toda a peninsula de Kathiawar desde Diu até ás
portas de Ahmedábád, e teve assim a única occasiao de examinar o
aspecto e vegetação do norte da índia, pois não nos consta que ali vol-
tasse depois. Pode ver-se o que eu disse acerca d'esta viagem em Gar-
cia da Orta e o seu tempo, p. 99 e seguintes.
Nota (3)
O D. Manoel de Menezes, de quem falia o nosso escriptor, havia sido
njandado por Nuno da Cunha á costa da Arábia em um galeão, a fim
Das herpas contra as camarás 19
de se informar do fundamento que tinham certas queixas do rei de Xael,
relativas a desmandos e violências feitas por alguns portuguezesn'aquel-
la costa. As queixas tinham todo o fundamento, pelo menos assim se
deprehende da própria narrativa de João de Barros; mas, como muitas
vezes succede, pagou o justo pelo pecador, e D. Manoel ficou retido
pelo povo e rei de Xael, sendo entregue mais tarde, quando se assenta-
ram de novo pazes com Xael, e D. Fernando de Lima foi ali expressa-
mente buscal-o. Vê-se pelos Colóquios, que este D. Manoel de Menezes,
filho bastardo de D. Tello, voltou para Portugal e se entretinha em
applicar na sua pátria as noções de medicina que recebera na Arábia.
Gaspar Corrêa conta também a historia do captiveiro e resgate de
D. Manoel; mas a sua versão afasta-se bastante da que encontramos
em João de Barros.
(Cf. Barros, Ásia, iv, vui, i5 e 16; Gaspar Corrêa, Lendas, iii, 844.)
Nota (4)
A herva malavar de Orta deve ser a Holax^i-lieiia a.iiti-
dlysenterica, Wall., uma planta da familia dos Apocynace<^. Em
primeiro legar, a curta descripção de Orta concorda de modo bastante
satisfactorio com os caracteres da planta; a forma das folhas, a côr
e perfume das flores, a presença de leite ou látex na casca, o sabor
extremamente amargo d'esta mesma casca, tudo isto não desdiz do que
sabemos dos caracteres d'aquella apocynacea. Unicamente poderia le-
vantar alguma duvida o facto de Orta lhe chamar herva ou mesmo
«frutice», pois a Holarrhena tem um porte arbóreo; mas o próprio
Orta diz que a sua herva chegava a ter a dimensão dos medronheiros,
e a Holarrhena não é uma arvore grande, attingindo apenas — segundo
dizem — de 20 a 3o pés de altura. Alem d'isso é possivel que Orta não
visse exemplares bem desenvolvidos. Em segundo logar, o nome vul-
gar de «coru», citado por Orta, parece-se bastante com os nomes hin-
dustanis, vulgares em Bombaim, de kureya, ou kúra; e sobretudo com
a ultima parte do nome de khaocurro, que, segundo Dymock, applicam
á casca da Holarrhena nas terras de Goa. Por ultimo as propriedades
medicinaes attribuidas á herva malavar e á Holarrhena são absoluta-
mente idênticas.
A Holarrhena antidysenterica, também chamada Wrightia antidy-
senterica, Echites antidysentericum e Nerium aníidysentericum, porque
acerca da sua classificação se deram bastantes erros e confusões, gosa
na índia de uma grande reputação. Não só os médicos indianos, senão
também muitos inglezes concordam com a opinião favorável do nosso
medico portuguez do xvi século; e sir Walter EUiot, por exemplo, con-
siderou-a um dos mais valiosos productos medicinaes da índia. A casca.
20 Colóquio vigésimo sétimo
que se encontra no commercio local, e é conhecida pelos nomes de
codaga pala, de conessi bark, e ainda por outros, chegou a ser impor-
tada na Europa; mas perdeu depois parte da sua acceitação, talvez
pelo facto de lhe misturarem a casca, relativamente inerte, da Wri-
ghtia tiiictoria. Continua, todavia, a ser applicada na índia, e — como
o seu nome especifico indica — no tratamento das mesmas enfermida-
des para que Orta a recommendava. Dos curiosos artigos, que acerca
d'esta planta se encontram na Matéria medica of Western índia do
sr. Dymock, e na Pharmacopceia of índia, se vê que o modo de fazer
os preparados da casca, misturando-lhe algumas vezes substancias aro-
máticas, e outras ópio, não differem essencialmente dos que descrevia
ha três séculos o nosso medico portuguez. Este foi, em todo o caso,
o primeiro europeu, que mencionou a planta e as suas propriedades
medicinaes (Cf. Dymock, 1. c, 497; Pharmac. of índia, iSy e 455).
Nota (5)
Não me foi possível averiguar o que seja este «avacari», posto que
não julgue difficil essa averiguação para quem esteja familiarisado com
a flora local das terras de Goa. Pelo que diz Orta se vê, que não era
um medicamento largamente conhecido e de uso geral, como a casca
da «herva malavar», ou Holarrhena; mas pelo contrario uma receita
particular e pouco vulgarisada. Um portuguez velho, que vivia na sua
quinta, fora de Goa, soubera de um medico gentio, um vydia, que a casca
do «avacari» aproveitava no tratamento da dysenteria, ou das «cama-
rás antigas de causa fria». É claro que estes remédios caseiros deviam
abundar e variar de localidade para localidade, e não se identificam
tão facilmente como outros de maior nomeada. A única cousa que é li-
cito affirmar, é que o avacari era uma planta da familliá das Myrta-
cecv; Orta tinha bastante tacto botânico, para se não enganar quando
insistia na semelhança da planta com a «murta». As Myrtacece abun-
dam na índia, nomeadamente as espécies do género Eugenia; algumas
têem cascas notavelmente adstringentes que podem ter a applicação
indicada, e é provável que entre ellas se encontre o avacari.
Nota (6)
Esta entrada em scena do moço dos frades, é uma d'aquellas notas
familiares, que Orta gostava de introduzir nos seus Colóquios, e tanto
contribuem para lhes dar vida e caracter. Vê-se que o nosso velho
medico devia ser um commensal do grande convento de S. Francisco,
junto do qual e ao longo de cuja cerca elle passava todas as manhãs.
Das liervas contra as camarás 2 í
quando descia do centro da cidade para o hospital, situado no cães de
Santa Catharina.
Quanto áquella planta que «se nam leixa tocar sem se fazer murcha»,
a primeira impressão seria identifical-a com uma espécie de Mimosa,
mas nem a côr das flores, nem o porte da planta concordam com as
espécies sensitivas d'aquelle género. Christoval Acosta, cujo livro tenho
citado poucas vezes, porque em geral é uma simples paraphrase do de
Orta, dá-nos n'este ponto esclarecimentos valiosos. Não só descreve
mais detidamente a planta, sob o nome de Yerva Biva, como a desenha,
posto que grosseiramente; e das suas indicações, concordes com as de
Orta, deduz-se dever ser uma espécie muito sensitiva da familia das
Geraniacece, Biopliytxiiii sensitlATim, D. C. (Oxalis sen-
sitiva, Willd.J, que é bastante frequente na índia, e da qual Rumphius
fallou também, dando-lhe o nome de Herba sentieyis. Segundo diz
Acosta, era considerada na índia uma planta sagrada, ou feiticeira,
especialmente consultada em questões amorosas (Cf. Acosta, Tractado
de las drogas, 236, Burgos, iSyS).
COLÓQUIO VIGÉSIMO OITAVO
QUE TRATA DA JACA E DOS JAMBOLÕES E DOS JAMBOS
E DAS JANGOMAS
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVA, CAPITÃO
RUANO
Que fruita he aquella que he do tamanho de nozes gran-
des?
ORTA
Já comestes das castanhas que tem dentro, e dixestes que
asadas sabiam a castanhas; e agora comereis as cascas que
a cobrem, e sam amarelas e tem bom sabor.
RUANO
Sabem a melam, não tam bom como os milhores.
ORTA
Asi he; e sam per sua viscusidade más de degerir, ou,
por milhor dizer, não se degereín; e muitas vezes saiem
pola camará sem nenhuma permutaçam; e eu nam uso muito
delias. Chamamse em ma\a.\ ar Jdcas; em canarim e guza-
vaXQ panai ; ^ ^^ fralda do mar as ha. Somente se sequam
estas castanhas de dentro, e comemnas asadas e ás vezes
cozidas. O arvore delias he alto e grande, e ellas nacem no
pao do tronquo pêra sima, e não nos ramos como as outras
fruitas; e por fazer mais certo, aqui vos amostrarei a jaca,
donde estas foram tiradas. E vedela aqui, que he tamanha
como hum melão muyto grande, e ha outras maiores; e a
corteza que cobre estas castanhas todas he muita grossa,
como vereis, e dura, e pêra nada serve.
RUANO
Não ha melão tam grande, nem tam fermoso, como estç
pomo.
24 Colóquio vigésimo oitavo
ORTA*
He verde escuro, e todo cercado de espinhos, mais pe-
quenos que os do ouriço quacheiro; mas estes não picam,
como o piquo delle: e não me parece bem comerdes esta
jaca senão ao cabo de comer, e entonçes comereis as casta-
nhas assadas deste mesmo pomo, que já o outro dia co-
mestes (i).
RUANO
Comerei estas azeitonas, que asi o parecem^ mas sam
muyto ponticas, porque apertam muyto; e no demais pa-
recem azeitonas cordovesas já maduras.
ORTA
Chamamse^aw^o/óes^ e naçem no campo em huma mata
que parece como murta, e nas folhas parece medronho; mas
asi esta fruita como s^jáca não se tem por fruita muito sadia
da gente desta terra (2). Mas esta que vos mostro he muyto
estimada nesta terra; veo de Malaca a esta terra ha pou-
quo tempo, porque ha muytas naquellas partes. Mas dizei
a que vos parece este pomo, pois he do tamanho de hum
ovo de pata, e algum tanto maior: já vedes como a cor
delle he feita de branco e vermelho, e cheira a aguoa ro-
sada, de maneira que aos dous sentidos he aprazível. Agora
he necesario, porque parece bem á vista e ao cheiro, que
seja ao gosto; e por isso provaio.
RUANO
Já o provei, e sabe muito bem; convém a saber, hum
sabor que não emsita muito o gosto por ser aquoso este
fruito; e pêra mim o sabor he muyto bom; mas o cheiro
e a vista parece como humas bugualhas grandes, quando sam
novas (a que chamamos maçans de cuquo), e dizeime como
se chama esta fruita nesta terra onde a ha.
* Falta a palavra «Orta» na edição de Goa; o que se torna evidente
pelo sentido, e por que vem a seguir as duas observações de Ruano.
Da Jaca 25
ORTA
Em Malaca he chamada jambos; e asi lhe chamão nesta
terra.
RUANO
Melhores sam estes que os Jatiibolóes; porque já ouvi gua-
bar muyto esta fruita; diguo que também he aprazível aos
ouvidos com a fama, de modo que apraz a quatro sentidos.
He certo que he esta fruita pêra comer hum príncipe na
nossa Espanha; e mais não me parece que fará mal, se a
comerem antes do comer; e bem vejo que he fria e húmida;
e portanto me dizei a feiçam do arvore.
ORTA
Desta varanda vereis nesta orta minha os arvores: aqueles
pequenos sam postos ha dous annos, e em quatro dão muyto
boa fruita, e carreguão muyto, muitas vezes no anno; asi o
arvore como a fruita sam de feição oval*, e sam do tamanho
como huma amexeira; a frol he mu3'to cheirosa e he roxa;
e o sabor he das azedas; a folha he como hum ferro de
lança, grande e larguo, e de hum verde muyto aprazível;
as raizes deste arvore entram muito dentro na terra, pêra
sustentar o arvore quando carrega, porque dá muytas vezes
fruita no anno : asi da fruita como da frol se faz conservas (3) .
SERVA
Hum homem está aly, que traz requado do rendeiro de
Bombaim.
ORTA
Venha qua.
C\PITÃO
Estas cartas me deu o vosso rendeiro, e este cesto de
jamgomas.
* Comprehende-se que o fructo seja oval, mas não sei bem o que
Orta quer dizer em relação á arvore.
26 Colóquio vigésimo oitavo
ORTA
As cartas lerei despois; a fruita provemos, e apertaia pri-
meiro entre os dedos, porque se quer asi.
RUANO
Sabe bem, e parece na feiçam como sorva pequena, e
no sabor como ameixa; he no sabor estitiqua.
ORTA
Ha muitas nas ortas de Baçaim e Chaul, e também as
vi em Batecalá; o arvore delias he como amexieira e asi
na folha; enfloreçe com flores brancas; tem mu3^tos espinhos
no tronquo ao sobir, a modo de pinha. Chamam-seyamg*o-
mas, e pella ma3'or parte naçem no campo: também se dam
trasplantadas; e homens dinos de fé me dixeram que a me-
lhor maneira de semear era comendoas huma certa ave, e
no esterquo delia se acha a simente, a qual semeam, mistu-
rada com este esterco (4); e naçe e dá mais asinha fructo (5).
Nota (1)
A jaqueira — designação applicada á arvore pelos portuguezes, e
derivada do nome do fructo — é o bem conhecido Artocarpixs
integ^i-ifolia, Linn., Jack-tree dos inglezes, da grande familia das
Urticacece. Chamam-lhe no norte da índia phanas ou panasa, o «panaz»
de Orta; e em lingua tamil pila ou pala, sendo, porém, o nome de jaca,
com variadas orthographias, aquelle que todos os viajantes da Europa
e do Occidente adoptaram sempre de preferencia.
O nosso escriptor está longe de ser o primeiro que fallou d'esta
planta, de porte muito notável, e que em todos os tempos attrahiu a at-
tencão dos viajantes, mesmo d'aquelles que se não dedicavam espe-
cialmente ao estudo da historia natural. Vimos nas notas ao Colóquio
vigésimo segundo, como sir H. Yule pretendeu identificar a pala de Plí-
nio com a jaqueira. Esta opinião — guardado todo o respeito devido
áquelle illustre indianista — levanta, porém, não pequenas objecções;
e eu julgo mais segura a que identifica simplesmente a pala de Plí-
nio com a bananeira. Posto de lado Plinio, ficam-nos muitos viajantes
da Idade media, os quaes fallaram da jaqueira de modo tão claro, que
Da Jaca
27
nos não podem deixar duvidas. O ingénuo fr. Jordão, por exemplo, tem
nas suas Mirabilia a seguinte phrase : . . . nam sunt qua'dam arbores quce
fructus fachint valde grossos, qui Chaqtii vocantur, et sunt friictus tantce
magmtudinis, qiiod unus sufficiet circiterpro quinque personis, phrase que
sem duvida alguma se applica ájaca q jaqueira. Ainda mais explicito é fr.
João de MarignoUi; descrevendo as arvores do paraiso terrestre, e pa-
recendo que, em tão difficil assumpto, se devia limitar a algumas vagas
indicações, dá-nos no emtanto uma descripção exactíssima e correctís-
sima da Jaca, a que chama chakebaruhe. Depois de fr. João, vários via-
jantes, como Ibn-Batuta,Varthema e outros, fallaram áajaca, e da ar-
vore que a produz. É certo, pois, que Garcia da Orta nos não diz nada
de novo, dando-nos no emtanto algumas indicações interessantes e exa-
ctas (Cf. Mirabilia no Recuei! de Voyages, iv, 42; Yule, Cathay, 362;
e para mais indicações o interessante artigo de Yule e Burnell, no
Gloss. 335).
Nota (2)
Os jambolões de Orta são o fructo da Eug-enia janiljo-
lana, Lam., uma arvore da familia das Myrtacece, bastante com-
mum na índia. O nome hindustani do fructo é .^o^sa. djamún; e em
Bombaim chamam-lhe lamhtTnjámbúl, pare^cendo que o nome dejam-
bolão — pelo menos na sua desinência — seria um arranjo portuguezi.
Este fructo, que comem na índia apesar de muito «pontico», tem uma
notável semelhança com as azeitonas, semelhança que um puro alem-
tejano, como era o nosso escriptor, não podia deixar de notar. Dois
séculos antes, um viajante também *das nossas partes do Occidente
e da Hespanha, o mouro Ibn Batuta, tinha do mesmo modo comparado
o jdmún com a azeitona.
Nota (3)
O jambo é o fructo de uma espécie do mesmo género Eugenia
—posto que planta e fructo, e sobretudo este, sejam no gosto e no
aspecto muito diversos— a Eug-enia malaccensis, Linn,
Note-se que Orta conhecia a sua procedência de Malaca, e nos indica
que a introducção d'esta planta, depois vulgarissima na índia, não era
então muito antiga.
Nota (4)
As jangomas são o fructo da Elacourtia catapln'a-
cta, Roxb. fFlacourtia jangomas, Miq., Stigmarosa jangomas, Lou-
reiro, Roíimea jangomas, Sprengel). Esta synonymia, assim como a
' Se não é simplesmente o nome malayo /j^*?") djambelan.
28 Colóquio vigésimo oitavo da Jaca
descripção de Orta, a menção dos numerosos espinhos do tronco, o
aspecto do fructo, não podem deixar duvida sobre a identificação. Ainda
hoje em Bombaim chamam ao ívuciojaggam, o que Dymock considera
como uma corrupção dejangoma. Este ultimo nome, que era vulgar no
tempo de Orta, e foi adoptado pelos antigos botânicos que descreve-
ram a planta, devia ser — como já observámos a propósito áosjambo-
lões — um arranjo portuguez, especialmente usado nos nossos estabe-
lecimentos da costa, onde, nas hortas de Chaul, Baçaim e outros pontos,
'se encontrava com frequência a planta cultivada (Cf. Dymock, Mat.
med., 74; para a synonymia, Hooker, Fl. of British índia).
Nota (5)
Este Colóquio dá-nos duas indicações valiosas para a biographia do
nosso escriptor. Em primeiro logar mostra-nos, que elle habitava em
Goa uma casa sua, em cuja horta fazia plantações de arvores, com a
segurança de um proprietário, ou pelo menos de um arrendatário a
longo praso; e em segundo diz-nos que elle tinha arrendado da sua
mão — como foreiro que era — a ilha de Bombaim. De um e outro
ponto, e particularmente do ultimo, tratei já com certa largueza na
Vida de Garcia da Orta.
COLÓQUIO VIGÉSIMO NONO
DO LACRE
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Aguora cae a vez do lacre que tanto se gasta nesta terra
em serrar cartas e pôr outros sêllos, em lugar de cera.
ORTA
Antes a cera se gasta por falta do lacre; porque o lacre
he mau de despegar, e não se tira o sêllo senão quebrando.
Chamase lacre o que nos livros de botica chamamos laca;
em arábio e pérsio e turquesco locsiimiitri , casi lacre de
Çamatra; e nam porque Çamatra confine com Pegú, onde
o^ ha, senam porque vinha dessas partes, cuidaram os Ará-
bios e outras nações que era delia, e por isso lhe puseram
o tal nome; em Bengala e no Balagate e no Malavar, onde
o ha, também lhe chamam asi, porque aprenderam dos
Mouros, mas na lingua da propia terra he lac; e em Pegú
e Martabam, donde he o milhor, chamamlhe trec; e alli
dizem alguns que vem de Jamay, e daly vem também o
almiscre; e levam os Martavanes e Pegús a vender esta fa-
zenda a Çamatra; e por isso lhe chamaram os Arábios loc-
sumiitri; e os Pegús traziam em retorno pêra sua terra pi-
menta.
RUANO
Dizei que cousa he, e como se faz, e em que se cria, por-
que des que dixerdes a verdade que sabeis, virei com meu
contraponto, e dirvosei o que acho escrito nos livros anti-
guos e modernos.
ORTA
Muyto tempo fui emganado; porque diziam que em Pegú
saiam os rios da madre, e que na lama que ficava punham
3o Colóquio vigésimo nono
paos pequenos, e que ali se criavam humas formiguas mu3^to
grandes, com asas, que avoavam e punham o lacre muito
nos paos; e que por isso avia lacre muito nos paos metido.
E eu perguntava isto a estes homens, se o viram com seus
olhos; e porque lá se ganhava mais em comprar robis, e ven-
der roupa de Paleam e de Bengala, diziamme que não esta-
vam lá tam ociosos como isso; mas que ouviram aquillo, e
que era a fama comua : até que falou comiguo hum homem
bem criado que lá estivera, e era curioso, e me dixe que era
hum arvore grande em cantidade, com folhas que pareciam
de amexueira, e que lavravam nos ramos pequenos daquelle
arvore este lacre as formigas grandes, criadas na vasa e em
outras partes; e que tiravam deste arvore, como de causa
material, esta guoma, lavrando no pao como a abelha faz
no mel; e que esta era a verdade. E que depois tiravão os
ramos daquele arvore em pedaços, e os punhão a secar á
sombra, até que despediam o pao, e ficava em canudos, e
em alguns delles ficava o pao metido dentro; e quanto me-
nos pao tem deste se ha por melhor, porque dizem loguo,
tem muyto pao este lacre, ou tem pouco. E mais me dizia
que algum era muyto cujo, e punhamno a derreter, e que
fazião pó, e que este era o somenos, por ser mesturado com
terra; e despois mandei saber a Pegú isto, e achei ser muita
verdade. E andando eu no Balagate, onde ha algum, e o
ajuntam pêra o trazerem a vender aos portos do mar, que
vem da terra do Cotamaluco, me dixeram o mesmo; e aqui
em Goa me trouxe hum moço hum ramo delle tirado de
huma arvore que chamamos maçeira, e os Decanins ber,
de que acima faley já, e aqui está nesta orta, e por meus
olhos o vi; e porque este he pouco lacre não fazem conta
delle, que não será a terra disposta pêra o gerar. E muytos
me dixeram que o viram nas maçeiras, e que as formigas
o geravam nellas; e he claro ser isto verdade, porque muytas
vezes vem as asas das formigas mesturadas no lacre. E este
lacre de que falamos, quando he mastiguado, tinge de fino
roxo, e asi o provam e delle fazem estes paos que vedes
pêra cerrar, e os tingem, e acrescentamlhe a cor neçesaria
Do Lacre 3i
de que querem os paos, scilicet, a tinta que faz a tal cor;
e destes paos ou de pastas larguas tingem os carpinteiros
ou torneiros ao torno os paos que querem, trazendo o lacre
pollo pao ao torno; e com este lacre enchem a prata e o
ouro, que he vazio, para fazer suas obras maiores. E por-
tanto sabei que não he o arvore similhante á murta, nem
na folha nem na grandura; senão he ás vezes tamanho como
uma nogueira, e ás vezes mais pequeno; nem se chama aec,
como lhe chamava o Pandetario, nem ancusal, que sam no-
mes corrutos (i).
RUANO
Aviçena* lhe chama luc**, na traduçam emendada pello
Belunense, e alegua a Paulo, que diz que o arvore delle he
semelhante ao arvore da mirra, e que he bom cheiro, e mais
que he neçesario que se administre com cautela, e que ou-
tros erraram e dixeram que era como carabe, e que a ver-
dade he que tem a virtude do carabe em muitas cousas:
que sentis disto?
ORTA
Que Aviçena não conheceo o lacre, senão falou congeitu-
rando; e pôde ser que o não vio em pao; e ao que diz que
o arvore he similhante ao da mirra, por isto juraria eu que
Aviçena não vio arvore delle. E eu também não conheço
o da ynirra, pêra confutar seus ditos; mas sey que a goma
do lacre he feita per cima dos paos forrandoos, e a outra
he estilandose do arvore; e a mirra tem cheiro, e o lacre
não o tem, posto que Aviçena diz que o tem. E chamárse
luc por o Belunense, pode ser que asi o achou escrito nos
originaes antigos; porém aguora os Arábios todos o chamam
locsumiííri; e em reprender aos que dizem que é carabe.
* Aviçena, Livr. 2, 482 (nota do auctor).
•* Esta passagem é uma das que mereceram mais severa correcção
da parte de Scaligero, o qual, notando que '>jju tanto se pôde ler
loc como luc, acrescenta : quare cum Garcias ubique Arabismi se peri-
tum habere vult, satis prodit se ne legere quidem scivisse.
32 Colóquio vigésimo nono
bem fez Aviçena; mas errou em dizer que tem as proprie-
dades do carabe, que isto he falso, porque o carabe he con-
glutinativo e estitico, e o lacre aperitivo; e por ser muyto
aperitivo diz Aviçena que se ha de administrar com cautela;
e asi como vós melhor sabeis, primeiro usamos de cousas
aperitivas, menos que usemos delle; senão o que sinto de
Aviçena he, que creo elle que o lacre era o cancamo* de
Dioscorides; porque Paulo parece que fala por a sua boca;
e craramente consta ser falso; porque o nosso lacre carece
de cheiro, e o cancamo he cheiroso e auto pêra perfumes;
e outra cousa diz Aviçena dina de reprensam, que faltando
o lacre se ponha em seu logar sangue de drago, que também
he mezinha estitica.
RUANO
Porque lhe chamam locswmitri? Ha o por ventura em
Camatra?
ORTA
Não, senam, como vos já dixe, ha o em Jamay, e dahi o
levavam a Camatra; e de lá trazião em voXovno pimenta:
mas agora este caminho não he tam usado, porque o lacre
não o vendem senão Pegús aos Portuguezes, e nós o ven-
demos aos Arábios e Pérsios e Turcos ; e o levamos a Por-
tugal, onde se gasta pêra Africa e outros cabos; por onde
agora não ha rezam de lhe chamar locswmitri, como ante,
que os Chins que o levavam a Ormuz e a esoutras terras
não cuidavam que era senão de Camatra, e por de Camatra
o vendiam; mas em Camatra não o ha; e se ha algum he
tão pouquo que não sae da terra; mas até o presente não
soube senão que o não avia lá.
* A palavra cancamo vem escripta na edição de Goa com variadas
orthographias, cuhamo, cauchomo, cauchamo, que em parte são erros
de imprensa, e reduzimos á mais geralmente usada. A forma preferida
por Orta é evidentemente cauchamo, o que seria uma incorrecta tran-
scripção do grego /.5t7)ta{i.5v, ou do latino cancamum, como escrevem
Dioscorides e Plinio.
Do Lacre 33
RUANO .
Ora já examinamos Avicena, examinemos a Serapiáo*,
que diz sac, scilicet, laca, e alega a Dioscorides, por tra-
duçam do Abtabharic, que diz que he goma que naçe na
Arábia, similhante ao arvore da mirra; e alega a Rasis, que
diz que cae do ceo sobre os ramos da giibera, e alega Isac
e diz que he cousa vermelha, que cae sobre os paos su-
tis, e que tingem com elles os panos; e também diz que o
trazem da Arménia, terra bem sabida na índia; por onde
me direis a verdade de tudo isto.
ORTA
Sac he nome corruto; e o lacre de Dioscorides não es-
creveo Dioscorides delle, nem Serapiam o conheceo; porque
elle cuidou que era o cancamo de Dioscorides, e diz ser si-
milhante á mirra e ao estoraque: bem vedes que este la-
cre não cheira cousa alguma; e onde alega o Galeno por a
traduçam do Abathabarich**, alguns presumem ser Paulo***,
porque falia da mesma maneira; e nem Serapio nem Paulo,
com seu perdam, dizem verdade, nem ainda que o dixera
Galeno, não lhe déramos fé; pois diz que he goma de hum
arvore que naçe na Arábia, similhante a jnirra; e se este
lacre não o ha em Arábia, pois he mercadoria pêra lá, le-
vada de cá da índia, pêra que he dar fé a taes ditos? Tam-
bém alega a Rasis que diz que cae do çeo sobre os ramos
* Lib. 2, cap. 432 (nota do auctor). Isto é evidentemente um erro;
Orta repete a citação do logar de Avicenna, querendo citar o cap. 181
de Serapio.
** O nome vem escripto acima com uma orthographia um tanto di-
versa. Deve dizer-se, que não foi só o nosso escriptor quem o alterou;
na versão latina de Serapio (edição de Brunfels, i53i) encontram-se
as formas Athabarich, Albatarich, Atabari, que julgo se devem applicar
todas ao mesmo escriptor arábico, traductor de Galeno.
*** Ser Paulo e não Galeno, é o que Orta quer dizer; a versão de
Clusius n'este ponto não é exacta.
3
34 Colóquio vigésimo nono
da gubera, e he falso, porque guhera no arábio quer dizer
sorva, e não ha sorva em toda a índia; e ao Nizamoxa
lhas trazem da Pérsia e do Coraçone, e eu as vi em sua caza.
RUANO
Oulhai se por ventura he nespra; porque outros livros di-
zem sobre os ramos da nespereira.
ORTA
Está mal treladado; porque gubera he soj^va, e aniurut
he nespra; quanto mais que nem huma nem outra ha em
toda a índia; e ao que diz que se traz da Arménia he falso,
porque na Arménia não o ha também.
RUANO
Dizem os Frades italianos que escreverão sobre Mesue,
que não vio homem algum o verdadeiro lacre em nossas
partes; e que nam he de crer que a natureza faltase aguora
nelle; ainda que muitos cream ser o cancamo de Dioscori-
des, porque a descriçam delle por Paulo e Dioscorides lhe
convém; mas este cancamo não o vio pesoa alguma; posto
que alguns dizem ser o que chamamos benjoim; e que pois o
não conhecemos, per conselho de muitos bons físicos se pôde
pôr sangue de drago.
ORTA
A mim me parece bem o que dizem os Frades em dizer
que a natureza não avia de faltar neste simples; e dizem
nisto bem, porque as terras sam mais sabidas, e o uso das
mezinhas he mais conhecido; mas em dizer que o não ha,
dizem mal, e milhor diriam em dizer que o ha; pois o trazem
da índia cada dia e o usam por lacre todos os Mouros e
Gentios. E porém fora muito milhor dito que o não conhe-
ceram Serapio nem Avicena, ou quem treladou os sinais de
Paulo e Dioscorides no cancamo de que carecemos; mas
que he este que usamos, e que o cancamo não sabemos
delle, pois não he benjoim; e isto he noto, pois não o ha na
Arábia, como vos já dixe, falando do benjoim; e que se po-
Do Lacre 35
nha no seu logar sangue de drago, já reprovei isso acima;
por onde, levandovos Deos a Espanha, usai lá do lacre com
muyta ousadia; porque cá os físicos mouros letrados no Ba-
legate usam de dialaca, a que chamam dallaca; e ai he ar-
ticulo do genitivo, e asi o diatiirbit chamam daltiirbit, que
he composição de tiirbit; e asi chamão todos os mais das
composições, onde nós pomos dia, pÕe elles dal. E vós que
sois bom grego, sabeis se he bem dito dia, porque eu já
ouvi dizer que não he bom grego; e nisto não fallo mais,
por não meter a mão em a fazenda alhea.
RUANO
Isso derradeiro vos diguo que me parece bem, mas nam
posso julgar nisso porque não sam bom grego; e Ruelio,
escritor douto e curioso, se acha nisto duvidoso.
ORTA
Tem rezão; mas vós, se lhe falareis, o tirareis de duvida.
RUANO
Bem será que vos diga o que sinto neste caso, não obstante
quanto dixestes; e he que não ha verdadeiro lacre; por-
que, se os Gregos o conheceram, he por cancamo; e se
o não conheceram, he o de Avicena e Serapio: e asi hum
como outro não tem cheiro nem aproveita pêra profumar as
vistiduras; e misturado com mirra e estoraque não acresenta
e causa cheiro, antes o diminue. E asi concluo que não
temos o lacre, nem o cancamo.
ORTA
Vós o dizeis e o desdizeis; porque dixestes primeiro que
a natureza não avia de ser defeituosa em estas mezinhas
tam celebradas dos Gregos e Arábios, e aguora dizeis que
carecemos delias.
RUANO
Assi o torno a dizer, até que me deis rezão por onde
mude o propósito.
36 Colóquio vigésimo nono
ORTA
Não he menos inconveniente nam conhecer Serapio nem
Avicena o lacre, e errar em dizer que falece* natureza;
pois sabeis que o lacre he este que vedes hir da índia a Por-
tugal; e por tal o tem todas estas regiões, e Ásia, e Africa,
e muita parte da Europa ; e o que mais he chamarse asi acerca
dos índios; e por vós nam terdes que o he, nem os Frades,
nem outros, não se mudam as cousas do que sam**. E diguo,
como já dixe, que Serapio se emganou, crendo ser o cancamo
de Paulo e de Dioscorides; e Avicena mu3'to mais se emga-
nou, pois dixe as cousas do cancamo, e fez capitulo de chei-
chem*** como se fossem duas cousas; e o que dixe do outro,
como se foram duas mezinhas: ora pois quem tam crara-
mente errou, não he muyto errar em não conhecer o lacre.
RUANO
Bem me persuadis nisso; mas o cancamo, como carece-
mos delle?
ORTA
Menos mal he carecermos de hum simple, que de dous;
e porém eu vos direi qual he o cancamo, segundo meu pa-
recer, posto que pêra concluir isto não tenha rezÕes eviden-
tes; mas quem me der outras milhores estou aparelhado pêra
aprovar o contrario.
* Parece faltar a palavra «na».
** Arip. I, Periarmemas (nota do auctor); nota cheia de erros de im-
prensa, e que se deve ler, creio eu, Arist. i, Peri Hermenias. No tratado
de Aristóteles, intitulado em algumas versões latinas antigas Peri Her-
menias sivc de interpretatione, vem no livro i. cap. 2, De nomine, varias
phrases, que Orta podia citar em apoio do seu dito, de que os nomes
não influem na natureza das cousas.
*»* Por outra keiken ou keikhem, de que Avicenna falia no cap. Sgi;
e que é a mesma substancia de que volta a tratar no cap. 432. Este
nome keikhem, lido como quer Sprengel jL^;:Í, kankeham ou melhor
qanqeharn, deve ser a transcripção arábica de xá-jxajAov.
Do Lacre 3 7
RUANO
Pareceme que quereis dizer que he benjoim, e isso não
me quadra, porque benjoim nam o ha na Arábia, como já
discotimos.
ORTA
Nem isso diguo, senão que he anime; porque he bom pêra
cheiro e em perfumes usado. E vem a Portugal de Etiópia,
terra confim á Arábia.
RUANO
Certamente que me contenta isto ; mas alguns dizem que
o anime he uma especia de carabe?
ORTA
Isso me ajuda mais, porque, segundo alguns, o cancamo
he espécie, e Avicena, reprendendo estes, diz que não he
carabe, mas que he na virtude como elle; mas cá não o ha,
scilicet, o anime.
RU.VNO
Hum coronista das índias de Castella diz que ha anime
em Çirvamlha, perto de Maluco, e que o ha em as terras
do Brasil.
ORTA
Os Castelhanos, se me derdes licença, sam gente que
acresenta muyto; e porém não diz verdade, porque o que
diz he hum certo breu pêra calefetar os navios, do qual vem
muyto cá, por o aver em Çamatra, e em muitas partes; mas
não tem o cheiro do cancamo, nem cheira senão como qual-
quer goma outra; e per esta maneira tendes lacre, e tendes
cancamo, até que achais outra mezinha a que mais verda-
deiramente convenhão os sinaes delia (2).
RUANO
Deos seja louvado, eu sam satisfeito do cancamo e lacre,
e por aguora me parece bem; mas pois na terra onde* esta
goma principalmente se chama trec, donde veo a lhe chamar
lac, ou loc ou luc?
* Deve faltar o verbo «ha».
38 Colóquio vigésimo nono
ORTA
Falais como que esse error não seja muyto comum ás
pesoas, porque essa foi causa de muitos errores: se ao es-
podio que aguora chamamos, chamaram tabaxir, como se
chama onde naçe, como ao diante vos direi, nam ouvera
tantos erros, nem tantas contendas entre os Arábios e La-
tinos e Gregos; porque as mezinhas não conhecidas ande
ter o nome que tinham no seu naçimento; mas esta goma
vendoa, e tendo neçesidade delia pêra tingir e curar, porque,
deretida, ficava basta como loc (que he hum ponto alto mais
que xarope) chamaram entam a esta guoma luc; e asi lhe
ficou o nome dos Arábios, que desta terra a levavam, ou
lá a compravam aos Chins. E depois de a pedirem, ha mu3to,
cá por este nome lac, ficou também em uso ás gentes Índias
de a chamar asi; e isto que vos digo he mujto verisimile,
€ sem duvida passou asi (3).
RUANO
Afirmailo tanto, que já não posso negarvolo; e em espe-
cial pois dais razões tam verisimiles. E aguora vos quero
perguntar huma pergunta de mercadoria; e he que traz meu
cunhado licença pêra poder levar loo quintaes de lac?'e pêra
Portugal ou pêra Ormuz, e parece-me que o levará pêra
Portugal; porque lhe dizem que vai aguora quatro vezes
menos, do que valia quando elle cá andou.
ORTA
Eu volo direi: tinhao os capitães de Ormuz trato e fei-
toria em Bácora, cidade de Mesopotâmia, a que vinham com-
prar os de Alepo mercadorias; e vendendose seo lacre muito
bem primeiro, o tornou a trazer o feitor do capitão de Or-
muz, que tinha sem o vender, nem avendo esperança disso;
e quando elle vio isto, sem síiber a causa, lhe dixe hum
mercador muyto grande de Alepo, que elle lhe daria a re-
zam disso, dizendo desta maneira — havia hum tintureiro
muyto rico em Alepo, e foy mixiricado ao guovernador (a que
elies chamam baxáj dizendo que aquelle muito dinheiro que
Do Lacre 89
tinha pertencia a elrey, e dando busca na sua casa acha-
ram que tinha 100 mil venezeanos, e dixelhe o guovernador:
tu es tintureiro e hum tintureiro riquo não pôde ter mais
que mil venezeanos e pois como tens tu 100 mil venezeanos?
E asi lhos tomou todos; e porque contra os reis mouros
não se acha justiça, fez este homem queixume ao gram rey
dos Turcos, e per concerto lhe descubrio huns montes na
sua terra, cheos de tinta, ou de arvores ou matas que a
dam, os quais sam milhor tinta que o lacre, e escusam
este lacre, e não he neçesario nas suas terras; e estas terras
que a dam rendem ao Gram Turco mais de 100 mil cruzados
cada anno; e por o serviço que fez ao Gram Turco, lhe deu
o seu dinheiro todo, e lhe deu grandes liberdades outras;
e por esta causa ora se não gasta em Ormuz senam muito
pouquo lacre pêra a Pérsia, com que trazem as alcatifas;
e pêra a Turquia e Arábia e outras partes não levam cousa
alguma delle.
RUANO
E que tinta he esa? olhai não seja grãa, porque também
gi^ãa ha em Espanha, e em outras partes.
ORTA •
Isso nam soube até aguora, e porém podeo ser; mas o
que vos dixe, sey que pasa asi. Huma cousa vos peço, por
merçe, que levandovos Deos a Espanha, nam consentais
que deitem, por lacre, sangue de drago na confeiçam da
laca, nem creais que laca seja o que chamam os Arábios
quermes, porque hum he guoma, e outro he semente, da
qual ha muita em Espanha (4).
Nota (1)
Toda esta pagina, na qual se concentra o interesse particular do Co-
lóquio, porque o resto é uma discussão muito confusa e bastante ociosa
de textos e opiniões antigas, toda esta pagina é extremamente curiosa
e notavelmente bem deduzida.
4o Colóquio vigésimo nono
Em primeiro logar, Orta reconhece que a lacca é uma producção
animal, «lavrada» nos ramos pequenos de uma arvore por um insecto.
Somente engana-se quanto á natureza do insecto, suppondo ser uma
formiga grande. É de notar, que esta falsa opinião, communicada por
"hum homem bem creado», o qual estivera em Pegu, esta opinião era
a que vogava n'aquella região. No seu livro sobre o Burmá, o dr. Ma-
son diz : the Karens think that ihe lac is produced by an ant, and call
it the lac ant. Portanto, Orta unicamente repetia o que tinham dito ao
seu informador na própria região productora. A verdade era, porém,
que o insecto gerador da lacca é um hemiptero, da familia dos Coc-
cidcp e do género Coccus, o Coccus lacca. N'este género e es-
pécie, o macho, munido de azas, voa livremente, emquanto a fêmea
_fica toda a sua existência fixada ao ramo e é a verdadeira geradora
da lacca. E possível que as azas, observadas por Orta na lacca, fossem
as do insecto macho, assim como é possível que fossem azas de ver-
dadeiras formigas, pegadas casualmente áquella substancia, emquanto
se achava pastosa.
Ao mesmo tempo, porém, que Orta reconhecia ser a lacca uma pro-
ducção animal, reconhecia não ser uma producção puramente animal,
e notava acertadamente que se não podia formar sobre os troncos sec-
cos. Era uma substancia «lavrada» pelo insecto á custa da planta viva
sobre a qual se fixava. A sua phrase é muito curiosa : . . . «tiravam deste
arvore, como de causa material, esta guoma, lavrando no pao como
a abelha faz no mel». Esta phrase mostra uma comprehensão per-
feita da natureza d'estas substancias, semi-animaes e semi-vegetaes,
que, como a lacca, o kermes, a cochenilha, algumas variedades de
manná, são o producto de uma espécie de collaboração do insecto
com a planta. Para sermos justos, devemos notar, que outro portuguez
muito menos instruído do que Orta, Duarte Barbosa, teve a mesma com-
prehensão da natureza da lacca, e diz: . ..«este laquar, algílus dizem
que he goma darvore, e outros que se cria nos ramos delguados das
arvores, como em nossas partes se cria grãa nos carascos; e esta ra-
zam parece muyto mais natural, porque asy vem elle em arvores e va-
ras delguadas, que por rezam não podem lançar tanta goma». Como
se vê, Duarte Barbosa notou bem a aflfinidade existente entre a lacca
e a ffrãa dos carrascos, ou kermes, que de feito é produzida por uma
espécie do mesmo género Coccus.
Voltando, porém, ás investigações de Orta, vemos que elle obteve
apenas algumas informações, necessariamente vagas, acerca das arvo-
res de Pegu; mas conseguiu ver na índia a lacca, formada sobre um
ramo de maceira ou ber, isto é, de Zi^yphus jujuba. Averiguou, assim,
a natureza botânica de uma das plantas sobre as quaes com mais fre-
quência se cria a lacca. O sr. W. Theobald, fallando das terras de
Burmá, diz que a lacca se forma ali sobre o Ficus religiosa e outras
Do Lacre 41
espécies do mesmo género, sobre a Biitea frondosa, sobre o Zi^yphus
jujuba e outras plantas; e, referindo-se á índia, W. Ainslie menciona
diversas arvores em que o insecto se pôde fixar, mas muito particular-
mente o Zijyphus jujuba, dizendo mesmo que esta planta se cultiva
com frequência para aquelle fim. Como se vê, a observação de Orta
está perfeitamente confirmada.
Orta tinha também conhecimento dos estados em que a lacca se
encontrava no commercio, fallando-nos da que vinha «em canudos»;
e da que havia sofFrido uma certa preparação, pondo-a «a derreter». A
mesma distincção se faz no Lyvro dos pesos, onde se diz que o lacre de
canudo podia valer em Ormuz uma certa somma, emquanto o de pão va-
lia uma terça parte menos, sendo emxuto. A primeira forma era a lacca
bruta, ou crude lac dos inglezes, consistindo na accumulação das cellu-
las resinosas, que encerram as fêmeas do Coccus; e da qual, tratada pela
-agua, se obtém a substancia corante, chamada lac dye. A segunda sorte
devia ser análoga á que hoje se prepara pela fusão e passagem a tra-
vés de um tecido, tendo no commercio o nome de shell lac.
Finalmente, Orta sabia que se encontrava alguma lacca na índia»
mas em pequena quantidade, e que esta mercadoria vinha sobretudo
de Pegu e outros portos da costa occidental da Indo-China. Isto era
exacto, e acha-se confirmado por todos os documentos da epocha. El-rei
D. Manuel, no seu empenho e sofreguidão de obter as ricas substancias
do Oriente, mandava pedir ao primeiro vice-rei D. Francisco de Almeida,
que lhe enviasse abundância de lacre, e este respondia-lhe na sua ce-
lebre carta, transcripta por Gaspar Corrêa:
«O lacre que Vossa Alteza diz, que lhe mande, será maravilha averse,
porque estas nãos partem cedo, e as nãos que o trazem de Pegu e Mar-
tabão vem tarde : espero por boa somma d'elle, porque o tenho man-
dado trazer.»
Alguns annos depois, Diogo Lopes de Sequeira, desejando obter,
«todo o álacre que pudesse», e sabendo que vinha muito «á costa de
Choromandel polas nãos de Pegu e Martabão», enviou lá um floren-
tino, «hum frolentim chamado Pêro Escroco», encarregado especial-
mente de o comprar — não tinha ainda muita confiança na perícia dos
nossos portuguezes, novatos nas tricas e subtilezas do commercio orien-
tal. Do mesmo modo, Duarte Barbosa, sabendo perfeitamente que na
índia havia alguma lacca no «reino de Narsyngua», indica no emtanto
que a maior parte vinha de Pegu, «laquar muyto fino que na terra nase»,
e de Martabão, a que chamavam «laquar Martabam». De tudo isto se
vê, que a Indo-China, então como hoje, era a principal origem geogra-
phica da lacca do commercio.
(Cf. Mason e Theobald, Burma, i, 87; Duarte Barbosa, Livro, 36o
e 36i; Ainslie, Mat. ind., i, 188; Lyvro dos Pesos, 16; Gaspar Corrêa,
Lendas, i, 900, 11, 567.)
42 Colóquio jngesimo nono
Orta não sabia simplesmente que a lacca vinha de Pegu, sabia tam-
bém que a traziam de «Jamay» a Pegu, e esta informação geographica é
interessante, merecendo demorar-nos alguns momentos. Jamay — Chia-
may e Jangamá de Barros — era uma provinda ou estado da terra ou
reino dos Laos, chamada pelos burmeses Zimmé, e pelos siameses
Kiang-mai ou Xiang-mai. O reino dos Laos dos nossos escriptores qui-
nhentistas abrangia vagamente o que hoje chamam terra dos Schans,
da fronteira do Burmá á da província chineza de Yun-nan, e o norte
de Sião, desde Kiang-mai na bacia do Me-nam até Luang-prabang na do
Me-kong. Barros define correctamente o que chama Chiamay no reino
dos Laos, quando diz : o primeiro estado dos povos Laos (primeiro do
lado Occidental) «chamam Jangamá, cuja principal cidade ha nome Chia-
may, donde muytos por causa delia chamam ao reyno Chiamay».
É de notar, que o próprio Barros dá o mesmo nome de Chiamay a um
grande lago imaginário, situado ao norte da Indo-China, do qual pro-
cediam vários grandes rios, que seriam nada menos que o Brahmaputraj
o Iravady, o Saluen e o Me-nam. Pelo seu lado, Fernão Mendes Pinto
parece derivar do lago Chiammay alguns rios do Tong-king, e diz que
o lago tinha cento e oitenta léguas de circuito, havendo em volta minas
de prata, cobre, estanho e chumbo. E Camões acceita a noção geogra-
phica de Barros, no que diz respeito ao rio Me-nam :
Olha o rio Menão, que se derrama
Do grande lago, que Chiamai se chama.
Esta noção dos lagos interiores, donde saíam muitos rios, era cor-
rente na geographia do tempo, tanto para a Ásia como para a Africa;
e será escusado dizer que um grande lago, origem ao mesmo tempo do
Brahmaputra e do Me-nam, era uma pura phantasia sem fundamento.
E, no emtanto, possível que os portuguezes tivessem alguma noticia do
lago de Tali-fu, visitado antigamente por Marco Polo, e modernamente
por Garnier e por Gill; e que essa vaga noticia, ampliada e erradamente
ligada com o nome da província de Kiang-mai, que ficava muito dis-
tante de Tali-fu, desse causa ás suas affirmaçôes.
Em todo o caso, a província de Jamay ou Chiamay existia, e de lá
vinha e ainda vem muito boa lacca; modernamente Theobald diz: the
finest lac comes from Siam and the Shan states. O ahniscar também
procedia da China norte-occidental e do Thibet, vindo por Ava no
Iravady, como diz Duarte Barbosa, e podendo vir por Jamay, como diz
Garcia da Orta.
(Cf. Barros, Ásia, i, rs, i, e iii, ii, 5; Fernão Mendes Pinto, Peregr.,
cap. 41; Lusíadas, x, i25; Burton, Commentary, 11, 541; Yule e Bur-
nell, Gloss., 145, 843, 385; Yule, Marco Polo, 11, 65; Gill, The river of
the Golden sand, 246, London, i883.)
Do Lacre 43
Nota (2)
N'este, como em outros Colóquios, o nosso Orta não soube evitar
a discussão bastante estéril dos textos antigos, e francamente não era
fácil fazel-o, dados os hábitos e as tradições da sciencia do seu tempo.
A questão em que se embrenha era tanto mais complicada, quanto
se tratava de discriminar a natureza e procedência botânica de resi-
nas em parte muito similhantes. Sem o seguir passo a passo, notaremos
no emtanto um ou outro ponto em que as suas conclusões são exactas
ou erradas.
Em primeiro logar, concorda com Avicenna em que a lacca não é o
carabe, e tem rasão ; o carabe (arábico \.>yíf kahrabã) é uma substancia
absolutamente distincta, o bem conhecido succino, ou âmbar amarello.
Em segundo logar, discorda de Avicenna, ou pelo menos dos seus
traductores, sustentando que a lacca não é o cancamo de Dioscorides
e de Paulo de Egina, e ainda tem rasão. Qualquer que fosse a proce-
dência botânica do cancamo, este era uma verdadeira resina de arvore,
o que não era a lacca. Orta estabelece esta distincção do modo o mais
claro e mais correcto na seguinte phrase: «a goma do lacre he feita
per cima dos paos forrando-os, e a outra he estilando-se do arvore».
A observação é perfeitamente conclusiva. Subsidiariamente, emenda
algumas asserções erradas, fundando-se nos seus conhecimentos já
mais completos de geographia botânica; assim, Rhazes havia dho, que
a lacca caía do céu sobre os ramos da gubera ( ^^)S e Orta adverte
que a gubera (Sorbus domestica) não existe na índia, nem nas terras
donde vem a lacca, o que continua a ser conclusivo.
De tudo isto, Orta deduz que os escriptores arábicos não conhece-
ram bem a lacca, e fallaram d'aquella substancia um pouco ao acaso,
ou — como elle diz — «conjeiturando». Assim devia ser, pois se elles
porventura tiveram nas mãos a lacca do commercio, seguramente não
alcançaram noticia segura da sua longínqua procedência geographica
e muito menos da sua natureza zoologico-botanica. Bastará ler, por
exemplo, o artigo lacre do Glossaire de Dozy, para ver quanto a si-
gnificação das palavras lakk ou lâk foi incerta e vaga entre os escri-
ptores arábicos, mesmo entre os que vieram muito depois de Avicenna
ou Serapio.
Por incidente, Orta dá-nos a sua opinião sobre a natureza do cayi-
catno de Dioscorides, e identifica- o com o anime. Concorda n'este ponto
' Segundo Sprengel, Rhazes não disse que caía sobre os ramos da gubera, e sim de uma
arvore parecida com a gubera; em todo o caso essa arvore crescia na Arábia, e a objecção
geographica de Orta fica de pé.
44 Colóquio vigésimo nono
com um dos seus compatriotas, também pharmacologista eximio, Amato
Lusitano, o qual, do mesmo modo, identificou o cancamo com o anime
nos seus conhecidos commentarios a Dioscorides. Apesar d'esta con-
cordância de opiniões, os dois illustres médicos portuguezes não de-
viam ter rasão. O velho escriptor grego havia dito muito claramente :
. . .Ká-)-y.3tu.;v ^óxs-jív iariv àpaoix.oj çjXo'j... a lagrima de uma arvore da
Arábia. Deveria, pois, ser a resina fluida ou pastosa de alguma arvore
da peninsula arábica, talvez de uma espécie das Burseracecp, como
julgou Sprengel, e na'o uma resina solida, proveniente da Africa, como
é o anime branco.
Julgámos, que Orta se quereria referir a este anitne branco, prove-
niente da Africa oriental, que parece ser o que hoje se designa com
o nome de copal duro, e que se attribue geralmente a uma ou mais
arvores da familia das Leguminoscp, vivas ou extinctasi. E dizemos jul-
gamos, pois já no seu tempo sob este singular nome de anime, anime,
aniimiim, se encontravam resinas de diversas naturezas e variadas pro-
cedências, o que nos leva a hesitar sobre qual d'ellas Orta quereria men-
cionar.
E esta questão do anime, já enredada antes do nosso escriptor, ia
justamente complicar-se mais no seu tempo — complicação a que elle
próprio allude, quando falia do anime americano. Com effeito, come-
çavam então a apparecer nos mercados resinas da America, similhantes
ao anime oriental, e ás quaes se deu o mesmo nome. Um contemporâ-
neo de Orta, o conhecido Monardes, descreveu algumas sob os nomes
de anime e de copal; e taes confusões se fizeram depois no commercio,
que o nome mexicano de copal veiu a designar a droga africana, em-
quanto o velho nome de anime passou mais especialmente para a re-
sina americana. De nada d'isto Orta tinha, nem podia ter conheci-
mento, e unicamente nos dá uma opinião menos exacta; mas que elle
próprio apresenta como uma simples conjectura, mostrando-se disposto
a abandonal-a quando lhe dêem para isso boas rasões.
Em resumo, da longa dissertação de Orta resulta, que elle possuía
a litteratura especial do seu assumpto e do seu tempo, e que, se não
conhecia bem o cancamo ou o anime, pelo menos tinha idéas muito
exactas sobre a lacca. E se hoje nos interessam mais especialmente
os factos por elle observados na índia, é certo que estas eruditas em-
bora confusas discussões de textos e opiniões clássicas, deviam ser a
parte mais apreciada pelos seus eruditos contemporâneos.
(Cf Sprengel, Dioscorid., i, 38, ii, 36 1; Guibourt, Drogues Sim-
ples, III, 455 ; Fliick. e Hanb., Pharmac, 1 29.)
' Sobre esta curiosa questão do copal pôde ver-se o que escrevi nas Plantas úteis da
Africa Portuguesa, p. i58 a i63.
Do Lacre 45
Nota (3)
Esta etymologia é puramente de phantasia, e fundada unicamente
em uma similhança de som. O termo de pharmacia loc, ou melhor looch,
é o arábico s^j^ la'õq, derivado do verbo ,^_^ la'aq, que significa
lamber. Nunca podia dar as palavras v_jX3 lakk, ou .,jS"^ ^ãk, pelas
quaes os árabes e persianos designam a lacca, e que parecem ser uma
simples abreviação do sanscripto FTT^TT, lãkshã, com a mesma signi-
ficação (Cf. Mareei Devic, no Siipplément a Littré, 46; Ainslie, Mat.
ind.l 1, 188).
Nota (4)
E difficil apurar o que haja de verdadeiro n'esta historia de cunho
perfeitamente oriental, nem mesmo saber se o lacre tinha diminuído
consideravelmente de preço no tempo de Orta. Pelo Lyvro dos Pesos
sabemos nós que esta mercadoria variava muito de valor, pois o lacre
de canudo valia a 100 azares o bahar em Hormuz, quando ali afíiuia;
e podia subir ao dobro quando escasseava — o a^ar equivalia a meio
pardaii, e este pardau era mais baixo que o da índia. Isto, porém, nada
nos diz, em relação áquella substancia corante que havia substituído
a lacca. Orta mesmo não tinha noticia certa do que fosse, e está dis-
posto a admittir que seria a grãa ou kermes. Também pôde lembrar que
fosse a ruiva, substancia que — segundo Duarte Barbosa — se expor-
tava em grande quantidade por Aden, e ainda hoje vae da Ásia central
para a índia.
De passagem notaremos, que Orta distingue correctamente a lacca
do quennes ou kermes; mas não aponta as affinidades que existiam en-
tre as duas substancias, como havia apontado Duarte Barbosa.
COLÓQUIO TRIGÉSIMO
DO LINALOES
INTERLOCUTORES *
RUANO, ORTA
RUANO
Quiseravos perguntar per o liiialoes, e não o fiz, porque
me parece que tudo o que delle se pode saber está escrito.
ORTA
Mas antes, senhor, o que mais verdade he, que pouco se
sabe delle; mas não he tam pouquo que a sua arvore nam
seja já vista de alguns Portuguezes, diguo a rama delia, e o
arvore inteiro de muitos escravos nossos christãos, como
adiante vos direi.
RUANO
Queriavos dizer o que dizem os escritores Gregos e Ará-
bios e Latinos, e que me dixeseis o em que acertarão e
erraram, e sobretudo o vosso parecer, e o que haveis sabi-
do.
ORTA
Dizei que sereis servido de mim no que souber, postoque
neste simples não ha que duvidar, no que releva delle.
RUANO
Galeno he aleguado por Serapiam per huma traduçam
de Albatari*, e diz o pêra que aproveita.
ORTA
Os bons escritores modernos todos dizem que Galeno
não falia desse pao; e onde alegua Galeno sam livros atri-
buídos falsamente a elle; portanto este autor grego deixe-
molo aparte.
* Sobre os nomes dos traductores de Galeno, citados por Serapio,
veja-se a nota a p. 33.
48 Colóquio trigésimo
RUANO
Dioscorides lhe chama agaloe, e diz que se traz da ín-
dia e da Arábia, e que se usa delle ás vezes por ençenso*.
ORTA
o verdadeiro liiialoes nam o ha, senam nestas partes da
índia, como ao diante vos direi; e por ventura á terra de
Dioscorides era trazido da Arábia; porque, como muytas
vezes vos tenho dito, todas as mercadorias desta terra 3^am
ter a Gida e ao Toro, e a Ormuz, e destes portos do mar
se proviam o Cairo, e Alexandria, e Alepo, e outras muytas
terras; e se algum ouve na Arábia, nam era deste especial
liiialoes, ou era sofesticado. E ao que diz Dioscorides que
se gasta em lugar de encenso, nam he esse dito de hum tam
grave escritor como elle; porque menos mal fora se dixera
que por falta de liiialoes se guastava o encenso, porque um
quintal de encenso vai nesta terra hum cruzado e meo, do
muito bom; pois mais barato deve valer na terra de Dios-
corides; e um arrátel de aguila^ da muito boa, vale três
cruzados; ora oulhay se he boa permutaçam esta de Dios-
corides.
RUiVNO
Pareceme que nisso tendes muyta rezam; pois elles mo-
ravam perto da Arábia, não devia ser tam caro a elles.
ORTA
Sabeis quam longe he, que o mais que vem á índia he de
Dofar e Caxem, e Xael, e Barem, como adiante vos direy**.
RU.\N0
Avicena examinemos por sua autoridade-
• Dioscorides, lib. i, cap. 12 (nota do auctor) ; na edição de Spren-
gel o capitulo em que trata do i-àXÀox.sv é o 21.
** Portos da Arábia, por onde o incenso era exportado para a índia;
o seguimento do dialogo levaria a crer que se tratava do linaloes.
Do linaloQS 49
ORTA
EUe faz dous capítulos, scilicet, o 742 de xilaloes, e o de
agaliigem 14*.
RUANO
Como, sam duas mezinhas?
ORTA
Não, senão huma; e porque nella estava duvidoso fez
duas, pêra se decrarar melhor na segunda vez que na pri-
meira, e dizer que não era mais que huma mezinha; e os
nomes quê diz no Gap. 742 sam, dizendo as terras donde
vinha, convém a saber, almudihim, que he Melinde, ou se
persume ser, porque nessas terras ha hum pao preto que
se vay ao fundo na aguoa; outro diz Aviçena ser trazido de
Sofala; aguora se acha em Encuama que he dahi perto, e
não he inconveniente chamar a Sofala região da índia, que
asi a chamávamos antiguamente**; e outro chama alcameri,
que he o cabo de Comori, promontório conhecido, dos anti-
guos chamado promontório Cori: e outro linaloes, dito al-
seiífi*** e alberiàiio^ e outro de regione Catai e Seni, e outros
nomes pÕem, que vos confeso que lhe não sei dar a deriva-
cam.
RUANO
E dessas partes que dizeis, vem o linaloes verdadeiro, ou
nace nellas?
* Aviçena, lib. 2, cap. 742 (nota do autor); citação errada, o cap.
é 744, pelo menos na edição de Benedicto Rinio.
•* Isto é exacto, e muitos auctores antigos alargavam singularmente
o nome de índia; fr. Jordão, por exemplo, inclue Zanzibar e terras
próximas na sua índia Tertia.
*** Ha aqui um erro de transcripção ou de imprensa; o nome em
Avicenna é alsanji, cuja significação veremos em uma das notas. É
certo que outros nomes citados estão igualmente estropiados, mas
entendemos dever conserval-os taes quaes se encontram na edição
de Goa.
5o Colóquio írigesimo
ORTA
Não naçe o verdadeiro; e comtudo he verdade que nesas
partes do cabo de Comori e em Çeilam ha hum pao que
cheira (ao qual nós chamamos agiiila brava); e cheira asi
como entre nós cheiram mu3'tos paos; e já este pao foy por
mercadoria a Bengala, e chamavamlhe agiiila brava, e de-
pois se desenganaram os Bengalas e não o quiseram com-
prar. Este pao he o que dizem alcameri, e alsijicasi do cabo
de Comori e de Çeilam; e se estas derivações vos nam con-
tentam, outra vez vos parecerão bem,
RUANO
Aprazemme, mas Catai e Seni que quer dizer?
ORTA
De Cantam (mais celebrado de toda China), e Seni he
o Chincheo*.
RUANO
Ha O linaloes nessa terra?
ORTA
Não, senão como muytas vezes vos dixe, os Chins nave-
gavam este mar, e traziam o bom linaloes de Çamatra e
xMalaca, e o mao de Çeilam, e o compravam bem e ven-
diam; e o muyto bom, se lho não compravam muito bem,
levavamno a suas terras, porque o linaloes, na China, he mer^
cadoria de muyto preço.
RU.VXO
Também diz Avicena que o cozem nas terras onde naçe,
e o cozimento lhe tira a virtude**; dizeime o que sentis disto
porque o dizem muytos afora Avicena.
* É quasi inútil notar, que estas identificações, como varias outras,
estão longe de ser exactas.
** Clusius e Scaligero notaram que esta citação de Avicenna é er-
rada; e eifectivamente não encontrei tal affirmação no livro do me-
dico árabe (Cf. Exoticorwn, lyS e 247).
Do linaloes 5i
ORTA
Não he tal cousa, nem se acostuma cozer este pao, e
nisto podereis descançar; no fim vos direi a eleiçam delle,
e como se prova; e por aqui podeis responder aos que
nisto se afirmam ao cozer do pao.
RUANO
Serapio* alega a Dioscorides, e bem creo que diz nisto
verdade, porque diz que tem coiro mais verdadeiramente
que corteza; e que tem amargura com esteticidade; e que
se traz das terras dos índios e Arábios.
ORTA
Não dizem em tudo verdade; mas dizem verdade em di-
zer que o trazem das terras dos índios e dos Arábios; e se
dixeram que naçia na índia e na Arábia, nam a diziam;
pois naçe na índia** e vem ter á Arábia por mercadoria. E
em dizer que tem coiro, mais verdadeiramente que corteza,
não dizem o que he; porque tem corteza como os outros
paos; porém não cheira bem, senam o âmago (a que cha-
mam os Portuguezes cerne); e como a corteza e o pao de
fora seca, fica per tempo mais cheiroso, como ao diante
vos dire3^
RUANO
Faz mu3'tas especias do linaloes indo; e diz que hum naçe
em huma ilha chamada Fuma***; e que he melhor o negro e
variograve ; depois diz que vem outro de hum outro lugar da
índia, dito Model; e depois o que he de Sief; e depois o
que he de Alcomori****. E que ha da terra donde naçe o de
Alcomori, aonde nace o de Sief, caminho de três dias; e que o
* Serapio, 197 (nota do auctor).
** Tomando a palavra índia no sentido mais lato, incluindo a índia
alem do Ganges.
*** Ilha Fimua na traducção latina de Serapio.
**** Seif e alkumeri em Serapio.
52 Colóquio trigésimo
que mais se vay ao fundo na agoa he o milhor, e que mais está
no fogo sem se queimar.
ORTA
Estam os nomes muyto corrutos, e mais vos confeso que
não sey as terras firmes por dentro muito bem; por iso não
vos digo qual he a entençam do Serapiam; e mais, se diz
bem ou mal. E porém se por Fuma entende Çamatra, diz
bem, mas a derivaçam he muyto torta; e no que chama
Model, confessovos não o entender senão se quer dizer Me-
linde; e Alcomori e Sief he o cabo de Comori e Çeilam,
porque do cabo de Comori á ilha de Ceilam per mar ha
três dias de caminho, como elle diz; e que isto seja verdade
se prova, porque nestas terras, como vos dixe, ha hum li-
naloes, a que chamamos aguila brava. E com esta aguila
brava se queimão os Baneanes quando morrem, e sam es-
tes Baneanes os que não comem cousa que possa morrer.
E os Chins, que traziam o linaloes de Çamatra, faziam es-
cala em Çeilam, e no cabo Comori; e quando o vendiam, di-
riam donde era. E mais diz Serapio que o enterram e que
o sinal de ser bom he vir cheo de terra; mas bem se}^ que
este sinal, que em qualquer pao cheiroso o podiam fazer.
E o outro que diz que após este he em bondade, he o abei
trazido de Çofala, e não he de maravilhar que seja o pao
preto de Çofala e Moçambique; e fazerlhehiam cousa com
que cheirase; porque diz que fazem delle taboas e pentes.
E o que diz que cortam os ramos, e que os enterram por
hum anno, e que a terra nam come delles cousa alguma,
e que vem por os rios, diz alguma maneira de verdade,
como adiante vos direy.
RUANO
E também diz que tem um fruito vermelho corao pimenta.
ORTA*
Não diz cousa nisso que até agora eu podesse saber; e
não falemos mais nestes Maometanos, porque, nem Rasis,
* Falta na edição de Goa a palavra «Orta».
Do linaloes 53
nem Avenrrois, nem Isac, que deste pao falam, nam tratam
mais que no pêra que aproveita este pao, e não o que he
e donde vem; e falai nos Latinos.
RUANO
Plinio diz, segundo Ruelio refere*, que vem dos confins
donde naçe a casia, per os Nabateos e Trogoloditas; e po-
rém que os mercadores que vendem por elle o aspaltiim.
ORTA
Não faz bom caminho Plinio, nem curto; mas podia ser
que o aspalto pao fosse sofisticado e vendido por linaloes;
e não me entendaes como alguns entenderam falsamente
por aspalto o que nós chamamos betume judaico; porque
essa he huma mezinha de pouco preço, trazida do estreito
de Meca, e vemse vender aqui para brear as náos.
RUANO
Também folgo de saber isso. Sepúlveda**, e o Frade autor
do Modus faciendi, e o autor de De propietatibus rerum, di-
zem que vem do paraiso terreal.
ORTA
Eu nunqua mereci ir ao paraiso terreal; mas comtudo
diguo, que donde nasce não ha alguns dos rios que dizem
vir do paraiso terreal, senão bem longe delle; por onde não
se escusam esses senhores de dizer tal fabula.
RUANO
Maravilhase hum escritor moderno como se vai ao fundo
nam sendo tam mocico.
» Plinius (nota do auctor). É curioso que elle cite Plinio em se-
gunda mão, quando tantas vezes o cita directamente; mas desejou tal-
vez apoiar-se na opinião de Ruellio, porque é bastante duvidoso que
Plinio se queira referir ao linaloes, sob o nome de tariim,
*» Sepúlveda (nota do auctor).
54 Colóquio trigésimo
ORTA
Não tem razão, porque o miolo ou cerne he bem moçico,
e algum delle nada na aguoa, sendo muyto bom ; e por isso
vos direi outras espiriencias, e provas milhores no fim.
RUANO
Os Frades italianos dizem que fez mal Aviçena em es-
crever dous capítulos desta mezinha, não sendo mais que
huma só, e reprendem Savanerola* em fazer deferença de
xilaloes e linaloes, não havendo mais deferença, senam ser
hum nome grego e outro latino, e isto diz Savanerola no
quinto tratado falando de lignis.
ORTA
Não queria eu os frades reprensores senão no púlpito; e
asi diguo que Avicena fez dous capítulos, como de cousa
não bem sabida, e mais o capitulo deradeiro, que he o mais
copioso, vay acresentado mais que o primeiro, que he da
primeira letra do ABC arábio, que elles chamam alif, e
outro deradeiro capitulo he de outra a que elles chamam
H**: por onde pôde ser que quando soube milhor a natureza
deste simples que quis escrever o capitulo mais copioso. E
no que reprende a Savanerola, não he de presumir que,
sendo elle tam douto, não soubese que tudo era huma
cousa xilaloes e linaloes; se nam foy vicio do escritor ou
esquecimento do que avia escrito, como muitas vezes acon-
tece, porque, em cousa tam nota, não havia de errar tal
homem.
* Savanerola (nota do auctor); aliás Savonarola, veja-se a nota fi-
nal.
** A primeira letra é efFectivamente alif, pela qual começa a palavra
agaladjin, um dos nomes árabes do linaloes; e a segunda ain, pela qual
começa um outro nome da mesma madeira 'iid; é certo que o ain im-
plica uma certa aspiração guttural, e que os traductores o representa-
ram algumas vezes por h.
Do linaloes 55
RUANO
Sinforiano diz que nunqua vio verdadeiro linaloes^ senão
em Liam de França.
ORTA
Venha qua, e pagueo bem, e leváloa; mas, falando a ver-
dade, O muyto bom (a que chamam calambac) vai mais
dinheiro em Malaca que cá^ e porém soe vir muyto de
Malaca pêra esta terra, pêra o levarem pêra Arábia e Tur-
quia e Pérsia os Mouros e Gentios ricos desta terra. E eu
vos escolherei huma mostra, que leveis a Castella, de caza
de hum mercador que tem aqui lo quintaes, aquelle que
me deu o outro dia o benjiii de boninas; e mais em Cochim,
quando quizerdes partir, achareis as náos de Malaca e po-
deis nellas escolher e comprar á vossa vontade.
RUANO
Beijo as mãos de vossa merçe por o que me quereis dar
graciosamente, e poUo conselho que me dais. E o Pandeta-
rio diz que o milhor linaloes ha nas alturas dos montes, e
por expulsão dos grandes ventos, ou por velhice e ser deri-
bado das arvores, e de muyto tempo vem pello rio abaixo.
E também diz que o falsificam, pondo por elle camalea;
e assi diz, allegando Acácio Felici, que huma das especias
suas he de huma ilha chamada na índia Caniar, e outra
Caemer e a terceira Sares. E não quero dizer do que dizem
do coser, porque já me dixestes ser falso.
ORTA
Não sam montes onde naçe, senão antes vales; e não
vem poUos rios, senão muito pouco; porque o milhor o guar-
dam lá, e trazemno pêra o vender por este rio, e ás vezes
per terra; mas do rio usam mais por ser mais seguro,
por causa dos tigres de que o mato he muyto cheo, e sam
chamados reimÕes. A terra donde naçe pode ser Çama-
tra e Ceilam, como já dixe; e da falsificaçam da camalea
não diz verdade, salvo reverencia, porque não a ha nesta
terra.
56 Colóquio trigésimo
RUANO
Valério Probo, diligente escritor, que aguora escreveo
sobre Dioscorides humas adições, diz que a especia mais
vil e baxa que ha he a de Rhodes*: vistes já esta?
ORTA
Não, vós a podeis ver; mas se a ha, não he compren-
dida debaxo deste género agaloco ou linaloes; convém a
saber, o que de cá vay.
RUANO
Ruelio e António Musa** o que dizem, que estes, como
mais modernos e como pesoas que tem noticia da nave-
gaçam portugueza, diram mais verdade?
ORTA
Bem creo que diram estes mais verdades: mas dizeime o
que dizem, e direi o que sey.
RUANO
Diz pois o Ruelio, que o agaloco veo a nossa terra, só do
nome conhecido, e o que primeiro dos Gregos lhe chamou
linaloes foy Aeçio, não sei porque causa: a este Aeçio si-
guirão depois toda a companhia de físicos e boticairos; e
diz que Galeno delle não falou, e que Paulo lhe chamou
lenho indico***; e Aeçio diz que em as partes orientaes se
acha principalmente em aquellas que mais chegam ao sul,
ou meodia, e que nunqua tem cheiro, sem primeiro ser
podre com bichos, e na terra ser enterrado e apodrecido;
e que, com a putrefaçam, alcança o cheiro; e que os mora-
dores da terra feito em pedaços o enterram; e que, como
* Valério Probo (nota do auctor); aliás Valério Gordo. Os erros de
imprensa n'este Colóquio são taes e tantos, que não sei se interpretei
bem a passagem; não vi o livro de Valério Gordo; mas Laguna diz
que ás vezes confundiam o linaloes com o olivastro de Rodas.
** Ruelius e Musa (nota do auctor).
*** Linho indico na edição de Goa; um erro de imprensa evidente.
Do linaloes 5j
tem cheiro, o vendem aos mercadores; e pÕe quatro espe-
cias, scilicet, indico, mais conhecido e celebrado que todos,
e outro safico, de Safo (cidade asi chamada), outro hispeon
e outro higron; e diz que os Arábios dizem que tem fruita
ou baga vermelha, mais pequena que a pimenta, que lhe
cha.ma.m piperel a; e que linaloes nam he sujeito a putrefa-
çam.
ORTA
Fala em isso fielmente, e em dizer que não he conhecido
até aguora diz bem; mas eu diguo que já he conhecido
nesta terra, e daqui em diante será mais, porque já aguora
se sabe donde*, e como se faz cheiroso adiante volo direi. E
das quatro maneiras eu não conheço mais que a primeira;
scilicet, o da índia, e pode ser que as outras especias não
sejam linaloes, senão pao cheiroso; nem conheço nem ouvi
dizer que tenha fruita, ou baga alguma; nem quem diz que
não he sojeito a putrefaçam não he de todo ponto verdade;
porque pois he misto he sojeito a ella, e os metais menos**;
e este pao se apodrece muito tarde em o âmago (a que cha-
mamos cerne), de maneira que segundo aquela parte he me-
nos sujeito a putrefaçam; e contradiz em dizer que, por ser
podre e comesto*** de bichos, alcança o cheiro; e depois
diz que nam he sujeito a putrefaçam; por onde se ade en-
tender que segundo a parte onde está o cerne não se po-
dreçe; e segundo a outra parte, onde está**** que com-
munica com a casca, se podreçe.
RUANO
Mu3'tas cousas diz conforme ao que dizeis António Musa ;
e mais diz que os vossos Portuguezes acham delle grandes
* Falta claramente o verbo he; a affirmação é um tanto atrevida, e
o próprio Orta mostra, que não sabia muito bem «donde era».
»» Curiosa reflexão, e tendo bem o cunho da epocha.
*** Sic na edição de Goa; evidentemente «comido dos bichos«.
***» Devem talvez supprimir-se as palavras «onde esta».
58 Colóquio trigésimo
matos, e que cortam os arvores, e leixamnos até que se po-
dreçem; e que vai mu3'to em Çamatra donde vem; e que
não he por isso muyto não vir a nós mu}!© bom linaloes;
e que se na mão o apertam cheira muyto, e que este e o
género chamado calambac levam á China e a Cantam, porto
delia muyto celebrado, e posto no fogo dura muyto antes
que se queime.
ORTA
Diz mu3^to bem em tudo o mais; mas não em dizer que
acham mu3^tos matos delle porque as arvores não sam tan-
tas, e he perigosa cousa ir lá por causa dos tigres; e mais
vos diguo que muyto bom vem ás nossas mãos, scilicet,
aos capitães de Malaqua, e aos que pêra estas partes nave-
gam, se o querem comprar bem, e aqui vos amostrarei al-
gum deste.
RUANO
Pois dizei aguora os nomes nas linguas usadas, e a elei-
cam e a feicam da arvore.
ORTA
Chamase agalugem e haud em arábio; e os Guzarates e
Decanins iid, que he casi o arábio; os Malaios ^íir/^o^ e es-
tes chamam ao muyto fino calambac. O arvore é como a
oliveira, e ás vezes muyto maior; fruito nem frol não lhe
sey, como já vos dixe; porque não me veo, poUo periguo
que ha em o hir ver em todo o tempo: asaz he que me vi-
eram folhas e ramos trazidos a Malaqua, porque o ha polo
rio acima. E dizem que, quando se corta, não cheira; e não
por ser neçesario podrecerse pêra que cheire, como alguns
dizem; senão aveis de saber que a casca he grossa, e o
meolo não cheira senam no âmago ou cerne, que chamamos
asi, como o do sovereiro; e quando se podreçe per fora,
reconcentrase e foge ao âmago a grossura e o azeite do
pao, e faz que cheire muyto, correndo toda a virtude e
grossura para dentro; e por isto dizem que he neçesario
podrecerse primeiro, pêra que cheire; o que, como vos
dixe, he mu3'to falso, senão, quando o pao he mu3'to seco,
Do Imaloes 59
parece o cerne e o miolo melhor, e cheira mais, porque não
tem empedimento. Ha pesoas que, como olham o pao, logo
dizem se cheirará muyto; porque em todo o pao ha defe-
rença de madeira; e os Malaios alimpam o pao que he
ruin, quando o trazem a vender.
RUANO
E o calambac he desta mesma especia?
ORTA
Tudo he hum, e ao mais fino chamam calambac, e ao
outro como acima dixe.
RUANO
Como se conhece a bondade delle?
ORTA
O que for como este, que he muyto preto, e pardo em
veos e pesado, com muyto olio dentro nelle, he o melhor;
e, pêra o provar o pÕem ao foguo, e o que sua mais e
deita mais azeite he o milhor; e os Guzerates e Decanins,
afora estas condições, querem que seja grande o pao, asi
como nas pedras e' no aljofre; porque dizem que no mayor
ha mais virtude; e pêra vos tirar deste trabalho tomai este
pedaço de calambac, que mo deram em muyta estima (i).
RUANO
Certamente que não ouvi tal em toda minha vida e bem
certamente parece ser bom este ; e bem sey que me fizestes
nisto, e em tudo, muyta merçe.
ORTA
O que eu quero da vossa he, que saiba que isto pouquo
que eu soube desta mezinha me custou muyto trabalho, e
alguma cousa da minha fazenda; e se mo aguardeçerdes
darmei por muito satisfeito (2).
6o Colóquio trigésimo
Nota (i)
Não tendo muito a dizer de novo sobre o linaloes, Orta fez o que
hoje chamariamos uma revista bibliographica de tudo quanto conhecia
e se havia escripto até ao seu tempo acerca d'aquelle celebrado per-
fume. Sem o acompanharmos n'essa revista, procuraremos esclarecer
tão brevemente quanto possível algumas das suas indicações.
Identifica-se geralmente esta substancia, de que agora tratámos, com
uns perfumes ou madeiras odoríferas, mencionados na Bíblia, no livro
dos Números, no dos Psalmos, no Cântico dos Cânticos e em outros,
pelos nomes de Qt^HN e HlS^ííi ahalim e ahalot (formas do plural);
e é também muito provável, que o aloés de que falia o Evangelho de
S. João, conjunctamente com a myrrha, e que Nicodemo trouxe para
embalsamar o corpo de Jesus, fosse esta mesma substancia, e não o ou-
tro aloés mais conhecido, e de que tratámos no Colóquio segundo. Pa-
rece, que aquellas antigas designações hebraicas seriam a origem do
nome de alces, dado depois á madeira odorífera ; e Sprengel cita mesmo
uma forma arábica, que julga intermédia, ?J.M, alluat, emquanto sir H.
Yule e outros preferem uma derivação diversa, a que adiante nos refe-
riremos. Seja como for, o certo é que esta madeira do extremo Oriente
não tem a mais remota similhança, nem nas propriedades, nem na pro-
cedência, nem em qualquer outra circumstancia, com o aloés, extrahido
de uma Liliacea, e hoje muito mais conhecido e usado, do qual, repito,
Orla tratou largamente no Colóquio segundo^. Para distinguirem as
duas substancias tão diversas, e que casualmente vieram a ser designa-
das por nomes idênticos, usaram os escriptores indicar a natureza le-
nhosa da primeira, chamando-lhe os que escreviam em grego Ç'j).a>.oV,,
e os que escreviam em latim lignum aloés, o que o nosso Orta con-
trahiu em linaloes. Como bem notaram «os frades italianos» e Orta
confirma, «xilaloes» e «linaloes» eram, pois, exactamente o mesmo
nome, applicado á mesma substancia.
Esta substancia tinha por outro lado um nome sanskritico, citado
por Ainslie na forma ^TTJT, aguru, que os árabes converteram, alte-
rando-o consideravelmente, em f~=«.-5i', agaladjin («agalugem» de
Orla), e que parece ser a origem do nome empregado por Dioscori-
des, i-^ikAOM'1 («agaloe» de Orta). Aquelle nome sanskritico, simplifi-
cado nas línguas modernas da índia, deu em hindi e deckani os nomes
de agar e aghir; e deu talvez lambem o nome maláyalam de ágil,
' O nosso padre Rapliael Bluteau, no seu Vocabulário, fez uma trapalhada terrível, sup-
pondo que o aloés siiccotiino e outros eram o sueco das folhas do pao d'aguila, e dando
sobre esta planta, as suas folhas e flores as mais phantasticas indicações.
Do linaloes 6i
como escreve Gundert — citado por Yule — , ou de agila^, como es-
creve Royle. Estas palavras, adoptadas pelos portuguezes, foram por
elles muito usadas nas formas agiiila e páo de aguila; e, convertida
por engano aguila em aquila, deram depois os nomes modernos fran-
cez e inglez, bois d'aigle e eagle wood, sem que a madeira tenha a mais
remota relação com as águias, como não tem a mais remota relação
com o verdadeiro aloés.
Devemos ainda citar um nome muito usado pelos árabes, ^^, 'ud
(nhaud-)) e «ud» de Orta), a madeira, ou a madeira por exceílencia,
ao qual juntavam muitas vezes o qualificativo de procedência — a ma-
deira da índia, CX^ ^ac. D'este nome, ligado ao artigo al-'ud, sup-
põe Yule que poderia provir a palavra aloés.
Finalmente citaremos o nome malayo jjo, gãru («garro» de Orta),
que parece ser uma simplificação do sanskrito agiiru; e o nome pura-
mente malayo de ^_^;^J^, kalambaq («calambac» de Orta), muito co-
nhecido dos nossos portuguezes, e ainda usado no commercio relativa-
mente moderno nas formas calambac, calambouc, calambourg — aquelle
bois de calambourg, que Victor Hugo introduziu no Ruy Blas para ri-
mar com Neubourg, e que deu logar a varias discussões litterarias.
D'esta longa e fastidiosa exposição de nomenclatura resulta, que
o nosso Orta tinha, como era seu costume, a noção clara dos variadís-
simos nomes da substancia de que tratava (Cf. D. Hanbury, Science
papers, 265; Sprengel, Dioscor., ii, 36o; Yule e Burnell, Gloss., 258;
Royle, Ant. of Hind. med., 88; Mareei Devic, no Suppl. a Littré, 24;
Ainslie, Mat. ind., i, 479).
Todo o linaloes procedia da Indo-China, ou — para fallarmos a lin-
guagem do tempo — da índia para alem do Ganges; e não estava en-
tão bem averiguada a sua procedência botânica, como creio que ainda
não está completamente hoje. Depois das investigações de Roxburgh
e de outros exploradores e botânicos, é licito affirmar, que todo o pao
de aguila ou linaloes da zona occidental da Indo-China procede de
uma arvore da pequena familia das Aquilarinece, a A.qiiilai*ia
Ag-alloelia., Roxb., cujo habitat se estende desde a peninsula de
Malaca, pelas florestas de Tenasserim e ilhas próximas de Mergui, até
bastante ao norte, aos valies do Assam e de Silhet. É certo, porém,
que muita d'aquella madeira vinha também das terras mais orientaes,
de Sião e Cochinchina, e que o nosso padre Loureiro deu á arvore que
a produzia, e que pertence á familia das Leguminosc^, o nome de Aloe-
' Segundo parece devem ler-se com o g duro.
' Esta forma haud encontrou Orta no seu Avicenna latino, onde os annotadores repre-
sentaram o ain de 'ud por um h.
62 Colóquio trigésimo
■xryYum AgallocliTim. Não creio que se tenha demonstrado de
um modo bem evidente, que elle estivesse em erro. Da longa exposi-
ção de Rumphius — na verdade um tanto confusa — resulta que este
consciencioso observador considerava a madeira de aloés, ou calam-
bac, como proveniente de mais de uma planta; e o exame detido das
madeiras de aloés do commercio, feito por Guibourt e o seu continua-
dor Planchon, mostrou existirem, entre aquellas madeiras, diversas
e notáveis variedades. É verdade, que o antigo droguista Pomet, o qual
obtivera algumas informações curiosas dos embaixadores do rei de Sião
na corte de Luiz XIV, attribue essas variedades ás diversas camadas
do tronco, ou diverso estado de conservação da madeira; mas esta
opinião mal se pôde sustentar em presença das observações minuciosas
de Guibourt e Planchon. Sem insistir, e remettendo o leitor para os
livros especiaes abaixo citados, parece-me poder concluir, que uma
grande parte do linaloes procedia, e procede sem duvida alguma, da
Aquilaria Agallocha, e que acerca da procedência de outra parte ainda
subsistem algumas duvidas.
Qualquer que fosse a arvore a que pertencia, o verdadeiro e bom
linaloes não consistia na madeira sã, e era o resultado de alterações
mórbidas, que determinavam uma producção e accumulação anormal
de resina perfiimada; Crawfurd, um excellente observador, é n'este
ponto perfeitamente explicito, e o sr. Dymock partilha a mesma opi-
nião. E também parece certo, que algumas vezes procuravam obter
artificialmente essas alterações, enterrando os troncos, depois de colhi-
dos, na terra húmida, e deixando-os apodrecer parcialmente. De modo,
que o nosso escriptor não tinha rasão, quando negava a existência d'este
processo, que mais ou menos vagamente havia chegado ao conheci-
mento de alguns dos antigos escriptores.
(Cf. Loureiro, Fl. Cochinch., i, 267 ; Rumphius, Herb. Amb., 11, 29 a 40;
Pomet, Hist. gen. des Drogues, 1 14, edição de 1735 ; Dymock, Mat. med.,
674; Guibourt, Drogues simples, iii, 337; Crawfurd, Dict., 6).
E forçoso confessar, que o nosso Orta não teve noções muito claras
nem muito exactas sobre a procedência do linaloes. Indica correcta-
mente que se encontrava em Malaca; mas acredita também que vinha
de Sumatra, o que não era verdade, e deixa de mencionar algumas
das regiões clássicas da sua producção. Não falia, por exemplo, em
Champá. Este nome dava-se desde tempos muito antigos á costa da
Cochinchina; e todos os viajantes, que ali ou nas proximidades pas-
saram, mencionam a abundância n'aquella terra de madeira de aloés:
Marco Polo diz que era frequente na região a que chama Chamba;
Nicolo di Conti também se refere á existência da madeira em Ciampa;
e, muitos annos depois, Rumphius affirma que o melhor calambac
vinha de Tsjampaa. Os portuguezes, anteriores a Orta ou seus contem-
porâneos, também conheciam mais ou menos completamente aquella
Do linaloes 63
região e a sua preciosa madeira. Assim, Duarte Barbosa escrevia:
. . . nhiãa muy grande ilha (enganava-se, julgando ser uma ilha) de Gen-
tios, que chamaom Champa. .. também (ali) nase muyto lenho aloés,
a que os índios chamaom Aguila calambua ...»
E Camões dizia o seguinte : ♦
Eis corre a costa que Champá se chama,
Cuja mata hé do pao cheiroso ornada.
É verdade, que tanto Duarte Barbosa como Camões eram dois via-
jantes aventurosos, e o nosso Orta estava mais sedentário em Goa.
Ainda que elle tivesse sabido da existência de Champa e do seu lina-
loes, não teria podido averiguar uma circumstancia, que muito o teria
auxiliado nas suas leituras, evitando-lhe alguns erros. Não lhe era fácil
reconhecer, que Champá era o Sinf ou Sanf dos geographos árabes;
de feito Sanf é litteralmente Champ, dadas as condições e defficiencias
do alphabeto arábico. Ora, os antigos escriptores arábicos, por exemplo
Maçudi, faliam repetidas vezes do aloés vindo de Sinf ,jc^\ ^ax)!,
al-'ud as-sinfi, ou das costas do mar do Sinf — o golfo de Sião. De Sanf
ou Champa era, pois, o lenho alães que Avicenna chama al-sanfi; o que
Serapio diz vir de Seif^; e o que Ruellio ou Paulo de Egina chamavam
safico, porque vinha da cidade de Safo. Sob todos estes nomes, mais
ou menos alterados, escriptos com maior ou menor consciência do que
na realidade significavam, estava o nome árabe de Champa, Sanf, a pá-
tria por excellencia do lenho aloés. E Orta esforçava-se por identificar
aquella região com Ceylão, onde nunca houve lenho aloés, o que real-
mente não tinha senso commum.
E, como um erro attrahe outro, tendo identificado o Seif de Serapio
com Ceylão, e dizendo aquelle escriptor arábico que de Seif ao ponto
onde nascia o aloés alcomori (^.'_^£M ^_i^^i <^l-'ud al-qarnari em
Maçudi), era uma curta distancia, Orta identifica este ponto com o cabo
Comorim, levado pela indicação de Serapio, e pela similhança de som,
quando é certo que no cabo Comorim também se não encontra lenho
aloés. Era exacto o que dizia Serapio, e o aloés alkumeri nascia perto
do Sinf, mas muito longe de Ceylão e do cabo Comorim, como vamos
ver. O incansável viajante mouro, Ibn Batuta, fallando de uma região
a que chama Muljaua, e que sir. H. Yule por muitas e boas rasões jul-
gou estar situada nas costas do golfo de Sião, em frente ou ao norte
do Cambodja, disse que ali havia muito pão de aloés, principalmente
nas localidades chamadas Kakula e Kumara. Esta ultima devia ser
' Talvez erro de translitteraçáo nas traducçóes latinas; deverá ser Sinf no códice
arábico.
64 Colóquio trigésimo
a origem do aloés alkumeri, e, dado que o nome de Sinf ou Sanf
se alargasse então — como parece que se alargava — á Cochinchina
meridional e mesmo ao Cambodja, vê-se que a indicação de Serapio
era exacta, e que de Kumara ao Sanf seria viagem de três dias.
Não fallaremos em outras identificações de Orta manifestamente er-
radas, como é a de Catai com Cantão, quando Catai, Cathay, ou Ca-
thayo era um nome geral da China.
Ao fazer aquellas identificações, Orta encontrou-se face a face com
uma diflficuldade, pois elle sabia muito bem, que nem em Ceylão, nem
no sul da índia havia fáo de aguila verdadeiro. Pretendeu no emtanto
torneal-a, dizendo-nos que ali existia uma espécie inferior de linaloes,
a que chamavam aguila brava. Julgo que a aguila brava seria a ma-
deira de sândalo, posto que Orta não faça esta identificação, nem n'este
Colóquio, nem n'aquelle em que posteriormente trata do sândalo, e jul-
go-o pelos seguintes motivos: o sândalo (Santalum álbum) encontra-se
nas florestas de Mysore e outras do sul da índia, e serve algumas vezes
para adulterar o linaloes. O escriptor árabe Mir Mohammed Hussein,
no seu livro Makh^an — citado por Dymock — diz o seguinte: «as apa-
ras ou fragmentos de ud são um objecto de commercio na Índia sob o
nome de chúra agar, e são muitas vezes adulterados com os pequenos
cavacos de madeira de sândalo, ou taggar, uma madeira cheirosa muito
parecida com o aloés e commum na índia». Se acrescentarmos, que
Orta nos conta como os Baneanes se queimavam com aguila brava,
sabendo nós por outras fontes, quão geralmente a madeira de sândalo
é empregada na cremação dos cadáveres da gente rica na índia, torna-se
muito plausivel a identificação da aguila brava com o sândalo.
Em resumo, vemos que Orta tinha perfeita noticia dos nomes va-
riados do linaloes, do aspecto e qualidades da madeira, da sua proce-
dência das terras de Malaca; mas sabia menos no que dizia respeito
á sua producção nas regiões mais orientaes de Sião e Cochinchina.
(Cf. Duarte Barbosa, Livro, SyS; Lusíadas, x, 129; Yule, Marco
Polo, II, 25o; Nicolo di Conti, em índia in the fifteenth century, 16;
Yule, Cathay, 469 e seguintes; Dymock, Mat. med., 676; Maçudi,
Prairies d'or, i, 169 e 33o; Rumphius, I. c.)
Orta esqueceu-se de nos fallar no emprego do linaloes, e comtudo
esse emprego interessava-o, pois esta madeira figurava, e desde tempos
muito remotos, na pharmacia e matéria medica indiana, considerando-a
ali estimulante, carminativa e tónica. Usava-se, porém, principalmente
como perfume, e ainda n"este ponto o nosso informador é Duarte Bar-
bosa, que diz assim :
« . . . he a fina Aguila Calambua muy estimada antre hos índios e Mou-
ros, e vai em Calecut ho arrátel dela trinta e corenta pardaos; eles ho
querem pêra ho mesturarem com sândalo, almisquere, e agoa rosada,
pêra se untarem.»
Do linaloes 65
O preço variava muito, segundo a qualidade; e o mesmo Duarte
Barbosa nos diz, que a Aguila (provavelmente ordinária) valia de Soo
a 400 fanões a farazola, emquanto o Lenho aloés verdadeiro, negro,
pesado e muito fino, valia 1:000 fanões. E não só variava no preço, mas
ainda no modo de pesagem, no numero de farazolas que entravam no
baar, ou bahar, na importância do picotaa, e em outras complicações
do commercio oriental. Assim, no porto de Hormuz, a agiiilla fina
era pesada por um certo modo ; outra aguilla somenos, por ser mais
branca e mais leve, de modo diverso; e a aguillaruym ainda por outra
maneira. D'estas indicações se vê bem, como aquella madeira era no
Oriente uma mercadoria procurada e de alto preço.
E não era simplesmente procurada no Oriente, vinha também para
a Europa, onde, durante muito tempo, figurou nas mais celebradas
e complicadas composições da antiga pharmacia. O lenho aloés foi um
ingrediente obrigado de quasi todas as Confectionibiis aromaticis. Na
cabeça do rol dos componentes do Electarium de aromatibus domini
Mesues figurava uma certa quantidade de Ugni Aloés crudi, com a com-
petente indicação, sume electissimum. Entrava igualmente na Confectio
ex moscho amara, e dulcis, e nos famosos Electarium de gemmis e Ele-
ctarium Diambra, não fallando de muitas outras composições, então
de uso frequente e quotidiano.
Fabricavam-se também com aquella madeira pequenos objectos, no-
meadamente contas e rosários, que tinham a vantagem de serem per-
fumados, e que o botânico Clusius viu em Lisboa : fiunt interdum ex
eo sphcprulcs, quce ad preces ad numeram recitandas idonece, odoris
jucunditate et pretii magnitudine commendabiles.
Hoje, o lenho aloés, como tantas outras substancias, desappareceu
da circulação europêa; mas continua a encontrar-se nos mercados
orientaes, por exemplo, no de Bombaim (Cf. Dymock, 1. c. ; Duarte Bar-
bosa, 1. c. e p. 384; Lyvro dos pesos, 8; Concórdia pharmacopolarum
Barcinonensium, Barcinone, 1587, a p. 23 etc; Clusius, Exoticorum, 173).
Nota (2)
Orta, como vulgarmente se diz, deitou a hvraria abaixo. Alem de
mencionar quasi todos os seus auctores validos, e já repetidas vezes
nomeados nos Colóquios anteriores, Dioscorides, Galeno, Plinio, Avi-
cenna, Serapio, Aecio de Amida, Paulo de Egina, João Ruellio, An-
tónio Musa, Mattheus Sylvatico, sob o nome de Pandetario, Valério
Cordo, Fernando de Sepúlveda, e os frades italianos, commentado-
res de Mesué, alem de se referir de passagem a Rasis, Averrões e Isaac
Judeus, elle cita dois ou três escriptores, ainda não mencionados até
aqui.
66 Colóquio trigésimo
Em primeiro logar Savonarola, um Miguel Savonarola, que havia es-
cripto alguns livros de medicina, o Opus de balneis, impresso no anno
de 1485, e a Pratica de cegritiidinis, impressa no de 1478, havendo uma
edição posterior das suas obras, sob o nome de Pratica canónica, Lu-
gduni, i56o. Não se segue da citação, que Orta possuisse estes livros,
antes parece conhecel-os unicamente pelo que disseram os frades ita-
lianos, fra Bartholomeo e fra Angelo Palia.
Em segundo logar, Orta cita Sinforiano, um medico francez, per-
tencente á casa do duque de Lorena, chamado Symphorien Champier,
escriptor fecundo e um tanto phantasista. Compoz, alem de outros, um
livro intitulado Campus Elysius Gallice, no qual exaltava as cousas da
Europa, mais particularmente as da França, e de certo mais particular-
mente ainda as da cidade de Lyão, de onde era natural. Nunca vi este
livro, mas sem duvida ali se encontrará a afíirmação a que Orta se re-
fere (Cf. Garcia da Orta e o seu tempo, 291 ).
Orta cita também pela primeira vez um livro, intitulado De propie-
tatibus (sic) rerum. Era um livro muito conhecido e muito famoso,
escripto por um frade inglez, Bartholomeu de Glanvilla, e que teve uma
grande circulação e foi traduzido em varias linguas mesmo antes da
invenção da imprensa — a Bibliotheca Nacional possue um primoroso
códice d'esta obra, que pertenceu á livraria de Alcobaça. Teve depois
numerosas edições, sendo a primeira, de que se conhecem exemplares,
do anno de 1480, com o seguinte titulo: Incipit prohemium de proprie-
tatibus rerum fratris Bartholomei anglici. Alem de uma versão franceza
com um titulo singular, Le proprietaire des choses, existem outras e no-
meadamente uma hespanhola, feita por fr. Vicente de Burgos, impressa
emTolosa no anno de 1494, tendo o seguinte titulo: El libro de propie-
tatibus (sic) rerum. E perfeitamente possível que o erro de orthographia
do titulo se reproduzisse casualmente nos Colóquios; mas também é
possível que Orta copiasse com demasiada fidelidade aquelle titulo,
e n'este caso elle possuia, ou havia visto a edição hespanhola. N'essa
edição, encontra-se o seguinte (libro xvn, cap. v), a propósito do alces
ou linaloes : . . . la hallan en un grâd rrio, que viene dei parayso ter-
renal y se ayunta cò otro que passa en babilónia, y por esto di^ê algunos
que este arbol cresce en el parayso terrenal . . . E esta a passagem que
Orta citou.
Orta menciona pela segunda vez n'este Colóquio o Modus faciendi,
que já tinha mencionado no Colóquio vigésimo terceiro; e é esta a oc-
casião opportuna de emendar o que então disse. Quando escrevi as
notas áquelle Colóquio (vol. i, p. 352) eu lembrei que este livro po-
deria ser o Modum faciendi in medicina de fr. Bernardino de Laredo.
Notei, porém, que embora este livro fosse escripto muito antes do
tempo de Orta, a sua primeira edição conhecida é de 1617, e, portanto,
o nosso escriptor só poderia ter visto o manuscripto, ou algum exemplar
Do linaloes 67
de uma edição anterior, não indicada pelos bibliographos. Deixei assim
as cousas em duvida. Depois de publicado o primeiro volume, o dr. Ca-
simiro Simão da Cunha communicou-me amavelmente o exemplar que
possue do Modiis faciendi, que é um livro diverso do de fr. Bernardino,
e sem duvida alguma o que foi citado por Orta. Intitula -se, Modus fa-
ciendi: cum ordine medicandi, e é impresso no anno de i534, faltando
a ultima folha em que devia estar o local da impressão — provavelmente
Sevilha. O auctor conserva o anonymo, dizendo-nos, comtudo, que era
frade menor, ou franciscano, como se vê da seguinte dedicatória: Al
muy illustre y reverendissimo S. Dõ Allonso Manrriqiie, Cardenal dei
titulo duodeci apostolorum, Arçobispo de Sevilha, Inquisidor mayor en
los reynos y senorios de Espana, etc. De vuestros frayles menores el
mas indigno y menor. O livro é um minucioso e curioso tratado de
pharmacia, e é sem a menor duvida o que Orta citou. A folha xiii verso
encontra-se, a propósito do folio indo, tudo quanto repete o nosso es-
criptor (vol. i, p. 345), isto é, que vinha da terra do Preste João, que
lhe mandaram algumas folhas, dizendo-lhe serem da arvore da canella,
etc. E certíssimo que ali se encontrará também a phrase relativa á
procedência paradisíaca do linaloes; mas confesso não ter lido todo
o grosso tratado em busca d'aquella phrase: a identificação do livro
estava sem isso perfeitamente demonstrada.
Na nota a que já me referi, ao Colóquio vigésimo terceiro, disse eu
que não havia alcançado noticia do Luminare majus. Vê-se de varias
citações do Modus faciendi, que o Luminare majus era também um
tratado de pharmacia e matéria medica, -escripto por um certo Joanes
Jacobi (Cf. Modus faciendi, foi. xxi verso).
COLÓQUIO TRIGÉSIMO PRIMEIRO
DO PAO CHAMADO CATE DO VULGO,
E DIZSE NELLE COUSAS PROVEITOSAS
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Queixandome da relaxaçam e molificaçam das gengivas,
me dixe a vossa cosinheira que comese betre e areca e cate,
tudo mesturado; e mais me dixe que o cate só era milhor
que tudo; e proveio, e tem hum sabor estitico, e amarga
alguma cousa. E dixeme também que sabia muito bem a
aguoa bebida sobre elle, e proveia, e não me soube tam bem
como isso, pollo sabor amarguoz; entonçes me dixe que, com
a mestura do betre e areca, sabia muyto bem; e certo que
a mim me parece muyto boa mesinha pêra desecar e aper-
tar. Saibamos donde he, e como se chama, e como se faz;
e mais queria saber a feiçam do arvore, e pêra que se usa
em mesinhas desta terra, e se fazem alguns escritores me-
moria disto.
ORTA
Ha este pao em Cambaia a maior cantidade, scilicet, nas
terras de Baçaim, e Manora e Damam, cidades delrey nosso
senhor, com suas terras; também o ha em as terras firmes
de Goa e em outras muytas partes; mas nam em tanta canti-
dade como nas terras que dixe, porque dali se levam pêra
Malaca» e pêra a China, e isto em muyta cantidade; e tam-
bém isso levam pêra Arábia, e Pérsia e Coraçone; mas isto
he per via de mezinha em pouca cantidade; mas pêra a
China e Malaca se gasta em muita cantidade, porque se co-
me com o betre. E acerca de todos se chama cate, e em
Malaca cato; e alguns varião este nome pouco; e já pode
ser que, pois os Arábios e Pérsios e toda a gente desta terra
lhe chamam cate, ou variam pouco, que seja a causa disto
70 Colóquio trigésimo primeiro
gastarse a maior cantidade nas bandas de Malaca, onde lhe
chamam o dito nome, asi como se faz no costo, como vos
já dixe ', porque chamandose na sua própria terra iiplot, lhe
chamam todos piicho; porque he grande mercadoria pêra
Malaca, onde se chama asi*. E o arvore donde se faz este
cate he tam grande como hum freixo, e a folha he myuda
como a das urzes, ou jounas, que chamam em Portugal;
e também o podemos comparar á tamargueira; tem muytos
espinhos, e todo o anno tem folha; he pao muyto rijo e mo-
cico e pesado; nunqua podrece, segundo dizem, nem com
sol, nem com aguoa, e tanto que se chama este pao, acerca
delles, pao que sempre vive; sofre este pao muyto os golpes;
por isto, e por ser muyto pesado, se fazem delle huns paos
com que tiram a casca ao arroz nesta terra, e chamamse
pilões; e pisam em hum pao muyto grande, feito á feiçam
de gral; e este pao, que metem dentro a pisar, he feito como
mão de gral, e de comprimento de seis palmos. A este ar-
vore chamam, na terra donde nace, hacchic**: e pode ser
que por eu não saber a lingoa desta terra tam bem como
a portugueza, não pude saber a rezam porque lhe chamam
cate: mas abaste a rezam acima dita.
RUANO
Está bem relatado tudo isso que dizeis; mas queria saber
se tem flores ou fruta.
ORTA
Flores tem, mas fruta me dizem que não a tem.
RUANO
Dizei o modo de confeiçoar estes troçiscos ou formas que
trazem.
* Veja-se o Colóquio decimo sétimo, e as suas notas.
*• Na edição de Goa está hac chie, se intencionalmente, se por erro
não o saberei dizer, pois não identifiquei este nome.
Do cate 71
ORTA
Tomam estes paos cortados deste arvore muyto meudos,
e cosem os e pisamnos; e delles fazem formas, a modo de
trociscos ou chans, e formam as com farinha de nachani,
que he huma semente preta e meuda de que fazem pam,
que sabe como centeo; e com esta farinha e cinza de hum
pao preto que ha na terra, ou sem ella, formão estas talha-
das, e as enxugam á sombra*, porque não lhe tire o sol a sua
virtude. E pois estas gentes todas o gastam, e os Chins,
sendo tam descretos e sabidos, podeis asentar que he muyto
boa mezinha; quanto mais que eu a esprementei em cama-
rás e em paixões dos olhos, e acheia mu3to boa. E quanto
he o saber se fazem mençam delia alguns escritores, dir-
voshia huma cousa que eu tenho por muj^to certa pêra mim,
se me derdes licença (i).
RUANO
Antes me fareis nisso muyta mercê.
ORTA
Diguo que o cate he o que chamam Galeno e Plinio, e
Dioscorides e Avicena, e Serapiam e Rasis liciíim; e os Gre-
gos lhe chamam liciími, porque se "achou primeiro em Licia
(província da Turquia) ou porque ahi se achava milhor nesses
tempos; e os Arábios, como Avicena e Serapiam, o chamão
hacdadh.
RUANO
Pois como dizeis que he esse o licio, poisque não se chama
cate por os escritores Arábios, nem por o arábio vulgar?
E pois que isto asi he, me dizey porque chamaes cate ao
li cio.
ORTA
Chamolhe asi, porque todos os escritores modernos e an-
tigos, Gregos, e Arábios, e Latinos, e índios, todos prefe-
rem o Índio e licio* a todos os outros; e mais porque he este,
• Sic na edição de Goa; mas ha aqui uma inversão evidente. Deve
ler-se o licio indio, ou da índia.
72 Colóquio trigésimo primeiro
e asi o ensinam a fazer todos, como cá se faz; e mais por-
que as cousas todas pêra que aproveita o licio usam nesta
terra a fazer do cate; mais porque tem as condições que
ade ter o bom licio; e aproveita ao fluxo dos olhos e forti-
fica as gengivas e dentes, e lhe mata o bicho, se o tem criado
nelles ou nas gengivas; e aproveita pêra a garganta e pêra
as lombrigas e pêra as camarás. E, quanto he a não o cha-
marem os Arábios cate, a isto vos respondo que muytas
cousas perdem o nome na própria lingoa com o uso da lingoa
alhea. E já pode ser que, se me vir com físicos Arábios,
que me digam se tem na lingoa arábia outro nome. Porque
vos disse que todos falavão neste simple, digo que Galeno
diz* que he huma arvore espinosa, e que o melhor he o da
índia, e que ha muito em Licia e Capadócia, e tem virtude
de restringir e de secar; e o mais que diz não faz ao caso.
Plinio** dá vantagem ao indio, e diz que se traz em odres
de camellos e rinocerotes, e diz a maneira como se fazem,
e todos concordam. E porque já vos disse como se fazia,
nisto não fallo mais.
RUANO
Por não estrovar pratica tam boa, não vos pergunto por
esses odres, e ao fim volo lembrarei.
ORTA
A tudo vos responderei; e diguo que Dioscorides louva
mais o da índia, e pÕe a feiçam da arvore, e não a difere
da arvore do cate, senão em pouquo, e mais em fazer ar-
vore pequena, sendo grande; e diz como se parece ao buxo,
e que o mais nace em Licia e Capadócia; e, quando diz o
pêra que aproveita, diz como os outros que tem virtude de
apertar e confortar. E lendo o capitulo de Dioscorides, ve-
* Galeno, 7, Simplicium (nota do auctor).
»* Plinius, libr. 24, cap. 14 (nota do auctor); a citação é exacta,
no sentido de Plinio fallar do lycion no livro xxiv; mas errada em ser
no livro XII, que elle diz parte do que Orta repete.
Do cate jS
reis como os índios usam delle, da maneira que elle diz.
Avicena o chama hacdadh; diz que he mais forte e melhor
o da índia, que o que vem de Meca; o qual de Meca sey
eu que he este que vay da índia; e diz que quando delle
carecermos, que em seu lugar ponhamos areca e sândalo.
RUANO
Para isso melhor diz a vossa cozinheira, que o faz de be-
tele e areca e o mesmo cate*.
ORTA
Estes tem isto por uso do principio da povoaçam desta
terra; e mais Rasis diz** que se faz de çumo de berberis,
feito muyto basto por cozimento; e o mesmo diz Serapiam
chamandoo hacdadh.
RUANO
E os novos escritores que julgam disto?
ORTA
Sepúlveda diz que o façam de çumo de madresilva, e o
mesmo diz Valério Probo; e Laguna diz que carecemos do
verdadeiro licio. António Musa também diz que o não co-
nhece, senão que por os sinaes de Dioscorides lhe parece
ser buxo. Os Frades desejão muyto que se ache o verda-
deiro licio; porque felu^alaitge, que, per conselho de Avi-
cena, se põe em seu lugar, que he a arvore do licio, segundo
a traduçam do Belunense, também carecemos delia; e que
pêra porem em seu lugar faufel, que he areca, e sândalo,
como diz Avicena, he mais deficultoso de aver o faufel, e
mais diz que não sabem bem o que he.
RUANO
Como, não ha muito sândalo vermelho em Portugal se de
qua vay, não podem levar muyta areca?
* Uma boa phrase, cheia de bom humor e de malícia.
** Rasis, 3 ad Almansorem (nota do auctor).
74 Colóquio trigésimo primeiro
ORTA
Si; mas sam os boticairos portuguezes pouco deligentes
em aver mezinhas, e muito em aver dinheiro; porque se
elles a pedisem em Portugal na Gaza da índia, levalaiani
de cá em abundância.
RUANO
Asi que, não se achando o nosso licio, vós afirmaes que
aproveitará estoutro indio; e não oulhaes que se chama licio,
porque ha o melhor em Licia e Capadócia, que parece que
este se deve perferir a todos.
ORTA
Eu nam digo que se deite em lugar o licio indiano do licio
de Licia, mas diguo que, quando falecer o da índia, se deite
o de Licia, porque esta he a entençam de todos os escri-
tores; e que, quando elle faltar, que usem do feyto de ber-
beris e de madresilva, ou de amexas bravas estiticas. E ao
que dizeis, que se chama licio por excelência por ser de
Licia, digo que não he asi com perdam de vossa mercê,
senão porque ahy se achou o uso delle primeiro, scilicet,
achouse o uso desta mezinha, que se parecia com o da ín-
dia, e que por falta e defeito do da índia se avia de deitar:
e esta he a verdade, e outra não; porque em nenhuma re-
giam se usa deste cate tanto, como nesta terra (2),
RUANO
Levaloei desta terra, e usarei delle, pois que cá fez os
efeitos que dizeis; e mais será bem que me digaes se ha
nesta terra muytos odres de camellos e de rinocerotes, como
diz Plinio, que nelles o levam, pêra vermos a cantidade delles
por o seu coiro.
ORTA
Eu não vi odres de camellos desta terra; posto que no
Decam e em o Guzarate ha alguns camellos, que tem os
reys e os capitães pêra levar o fato na guerra; mas nem
sam tantos os que morrem como cavallos, pêra que delles
façam odres. E quanto he aos rinocerotes (a que os índios
Do cate 76
chamam gandas), não os ha domésticos nesta terra; e pode
ser que os aja bravos em Bengala ou no Patane, e nas terras
que tem os Patanes os ha, e alguns fazem domésticos. E
porem eu não vi algum rinocerote, mas sey que os de Ben-
gala usam do corno para a peçonha, cuidando ser o uni-
corneo; mas elle não o he, segundo a entençam dos que
bem o sabem; porque o Nizamoxa pesara 200 vezes a ouro
hum pouco de unicorneo exprimentado, e muyto melhor to-
mara o do renoceros*. E sabei que no anno de i5i2 foi apre-
sentado a elre}^ Dom Manoel, que está em gloria, hum que
lhe mandou elre}^ de Cambaia, o qual elle mandou ao Papa.
E se deste animal quiserdes ver, lede Plinio, libro 8, cap. 20**;
e Estrabo também fala deste animal.
RUANO
Pareceme isso que dizeis que não ha unicorneo na índia;
pois nam falais nelle, e dizeis que o não tem esse rey vosso
amiguo, sinal he isso de o não aver na índia; e pois nós
também não sabemos onde aja o tal animal.
ORTA
Dizem tantas cousas incertas desse animal, que, por nam
as saber bem, não as queria contar; porque as pessoas que
mas contam, não as contam como testemunhas de vista. E
comtudo vos direi o que ouvi a pessoa de autoridade em
seus ditos. E contaramme, que soubera que entre o cabo
das Correntes e de Boa Esperança viam huns animaes que,
posto que folgavam com o mar, eram terrestres, e a feiçam
da cabeça e coma era de cavallo, e que comtudo não era ca-
vallo marinho; e que tinha corno do qual usava abaxandoo
ou alçandoo abaxo e acima, e á parte direita e á esquerda,
de modo que dizem ser como dedo; e que este animal pe-
* O sentido não é claro; parece dizer que compraria o corno do
rhinoceronte, se julgasse ser unicorneo.
•* Plinius, libr. 8, cap. 20 (nota do auctor).
yô Colóquio trigésimo primeiro
leja bravamente com o elefante-, e que o fére com o corno,
o qual corno he de dous palmos, e dizem ser contra a peço-
nha: e esta he a fama comum.
RUANO
Dizem delle, que não querem beber os animaes, até que
elle meta o corno na agoa.
ORTA
Não somente dizem ser bom bebido contra a peçonha,
e tem elle esta fama, e disseram pessoas dignas de fé que
deram rosalgar a dous cães, e a hum deram dobrada can-
tidade da peçonha, e a este que a deram dobrada, deram
a beber do corno delle raspado, e este viveo; e o outro
morreo, que tomou menos rosalgar a metade. E deste ani-
mal não sey outras cousas, e porém vi já alguns cornos
destes, e mostravam serem pegados na testa. Prezará a
Deos que isto se venha a saber bem-, e que elle descubra
o que for mais seu serviço; e nisto que escrevi quis ser
mais curto que larguo, porque leixo que dizer aos que me-
lhor souberem (3).
Nota (i)
O «cate» de Orta, «cato» da Pharmacopêa portuguesa, substancia
mais conhecida pelo nome de caiechu, é um extracto da madeira da
Acaeia Cateelin, Willd. (Mimosa Catechu, Linn. fil.), uma ar-
vore bastante commum na índia, mais a leste nas terras de Burmá, e
por outro lado na Africa oriental; é também obtido este extracto de
uma espécie próxima, A.cacia SuLina, Kurz., que se encontra
igualmente na índia.
— «Cate», a designação empregada por Orta, é a natural orthogra-
phia portugueza do seu nome hindustani, que hoje escrevem kat ou
kath. Drury diz, que a palavra cate significa arvore, e chu sueco, d'onde
catechu; mas não sei se esta affirmação tem fundamento. Duarte Bar-
bosa — como logo veremos — dá á mesma substancia o nome de cacho,
que é a designação tamil, canarim (lingua do Canará) e malaya, kashú,
ou kachu; e «cato», empregado em Malaca segundo Orta, é uma simples
alteração de cate, ou de cacho.
Do cate 77
— Não vejo que o nome da arvore seja «hac chic), como diz Orta;
nem encontro cousa parecida com esta expressão. O nome vulgar da
Acácia Catechu é kaira, kayer e outras formas similhantes (Cf. Fluck.
e Hanb., Phamiac., 2i3; Dymock, Mat. med., 288; Ainslie, Mat. Ind., i,
63; Drury, Useful plants, 6; Piddington, Index, 56).
Segundo Duarte Barbosa, o cacho exportava-se no seu tempo prin-
cipalmente do norte da índia, e não era uma substancia muito conhe-
cida. Paliando das mercadorias do reino de Guzerate, ou Cambaya, diz
o seguinte :
n . . . e asy outras muytas dragoarias que nós nom conhecemos, e
em Malaca e China saom muyto estimadas, e tem grande valia, silicet,
cacho, pucho^, e muyto encenso que vem de Xaer.»
Isto concorda com o que diz Orta acerca da sua procedência de
Cambaya, principalmente das terras portuguezas de Damão, Baçaim
e Manorá — uma pragana annexa ás terras de Baçaim, desde o tempo
de Francisco Barreto, ou já antes. E também concorda no que diz res-
peito a ser exportada para Malaca e China, sendo também certo, que
algum cate ia para a Arábia e Pérsia, por via de Hormuz, onde era
uma mercadoria conhecida. É o que se pôde deduzir de uma phrase
do Lyvro dos pesos, interessante, porque estabelece explicitamente a
identificação do cacho com o cate:
«O baar do cate, que aquy chamao cacho, he em tudo como o arroz,
quanto ao peso.»
Parece, pois, que então não sabiam fabricar o catechu em Pegú e
terras limitrophes, d'onde hoje vem para a Europa a maior parte, por-
que se assim succedesse de certo não iria de Cambaya para Malaca.
Depois d'estas noticias de Barbosa e de Orta, a droga e as suas qua-
lidades medicinaes caíram de novo no esquecimento; e quando perto
de um século mais tarde algum catechu veio do Japão á Europa, de-
ram-lhe o nome de terra japonica, classificando-o como um genus
terrce exoticce. Ainda no anno de 167), Wedel de lena discutia a di-
versidade das opiniões que vogavam acerca da natureza vegetal ou
mineral do Catechu seu Terra japonica, tão esquecido ou ignorado an-
dava o que o nosso naturalista havia dito a respeito de sua proveniência
e processo de fabricação.
Este processo não diíTeria essencialmente do que hoje se segue;
' e o cate ou catechu era e é o extracto aquoso da madeira da Acácia,
concentrado pela acção do calor, e secco ao sol ou ao ar, depois de
moldado em formas. Nos livros de Dymock, e de Fliickiger e Hanbury
se podem ver as variantes do processo, que hoje seguem no Oriente.
' Por erro de imprensa ou copia, vem na edição da Academia escripto cachopucho, em
uma só palavra.
yS Colóquio trigésimo primeiro
O que era especial no tempo de Orta era a intervenção da farinha
de nachani, que misturavam com o sueco inspissado para formarem os
trociscos ou «chans».
O nachani é uma graminea de grão alimentar, Eleusine Co-
x-acana, Gaertn., chamada na índia raggi, nagli e nanchni, muito
frequente hoje em cultura na Africa oriental, onde os portuguezes lhe
dão o nome de naxenim, frequente também na Africa Occidental, onde
lhe chamam luco, e de cujas curiosas migrações eu já me occupei lar-
gamente em outro trabalho.
Voltando, porém, ao cate, podemos notar que ainda hoje é empre-
gado na matéria medica da Europa, como uma substancia fortemente
adstringente; e que na índia tem usos medicinaes similhantes aos que
Orta menciona. Alem d'isso, é largamente usado no Oriente como
masticatorio, juntamente com o pán supári (pán o betle, e supári a
areca) — exactamente a receita da cosinheira do nosso medico.
(Cf Duarte Barbosa, Livro, 289 ; Lyvro dos pesos, 22 ; Fliick. e Hanb.
1. c; Dymock, 1. c. ; Plantas iiteis da Africa portuguesa, 41 a 55).
Nota (2)
Orta engana-se identificando o cate com o lycio dos antigos; mas,
como diz sir H. Yule a propósito d'esta mesma questão, as suas opiniões
são sempre dignas de consideração — Orta, whose judgements ar-
always yvorthy of respect. . .
Toda a historia do lycio estava no seu tempo muito confusa. Dios-
corides, ao tratar do Xixiov, referiu-se evidentemente a duas plantas di-
versas, e que elle soube muito bem serem diversas: uma das regiões
mais próximas, da Cappadocia e da Lycia, e que modernamente se
tem identificado com uma espécie de Rhamnus: a outra de regiões
mais distantes, dando um producto muito superior, e designada pelo
nome de lycio da índia, ív^wòv Xixiov. D'esta, que unicamente nos inte-
ressa agora, pois a ella se refere Orta, fallaram mais ou menos confu-
samente Plinio, Galeno, Celso e outros; e sabemos que dava uma sub-
stancia muito apreciada medicinalmente, sobretudo no tratamento das
ophtalmias e outras doenças de olhos, vendida por altos preços, e
conservada em uns vasos especiaes, de que a Pharmacographia tran-
screve uma noticia interessante. Os árabes antigos tiveram também
conhecimento da mesma substancia, a que parece chamaram hadhadh
js^:acs. (o «hacdadh» de Orta), dizendo Avicenna que era o sueco
do al/elu:^aharagi («feluzalange» de Orta), o que pouco esclarecia a
questão. Naturalmente todos os commentadores, todos os Musas, Se-
pulvedas e outros se lançaram em conjecturas mais ou menos plau-
síveis acerca da natureza do lycio; e Orta aventou a opinião de que
Do cate 79
íosse o cate, o que não era absurdo, pois o lycio como o cate era o
extracto de uma madeira, e se os caracteres da Acácia catechu não
concordavam com o que Dioscorides havia dito da arvore do lycio,
Orta sabia muito bem que elle se tinha enganado mais de uma vez em
pontos idênticos. A questão continuou a ficar enredada; e Sprengel,
quando já no nosso século pubHcou a sua edição de Dioscorides, ainda
não se pronuncia sobre o que seja o lycio da índia. Foi só um pouco
depois, que Royle (i833) mostrou dever ser o lycio dos antigos análogo
ou idêntico a um extracto, conhecido nos bazares da índia pelo nome
de rusot, e obtido de varias espécies do género Berberis, B. aristata,
D. C, B. Lycium, Royle, e B. asiática, Roxb. (Cf, Yule e Burnell,
Gloss., i33; Sprengel, Diosc, livr. i, cap. i32; Avicenna, ii, ii, 398; Royle
em Linn. Trans., xvii, 83; Pharmac, 34; Dymock, Mat. med , 35).
Nota (3)
Nas notas ao Colóquio vigésimo primeiro contámos já (vol. i, pag.
320) a historia do rhinoceronte, que Muzaffar Scháh mandou a Affonso
de Albuquerque, Affonso de Albuquerque a D. Manuel, e D. Manuel
a Leão X; mas alguma cousa temos a acrescentar sobre o que Orta
diz em geral de rhinocerontes e unicorneos.
O nosso escriptor admitte a existência de rhinocerontes no Ben-
gala, «nas terras que tem os Patanes» — expressão pela qual deve de-
signar os estados afghans da índia — , e no «Patane», que seria assim
o Afghanistan propriamente dito. Em toda esta zona de leste eram
numerosos aquelles animaes — Rhinoceros indicus, e talvez também a
espécie R. sondaicus — , que já então se não encontravam ou se en-
contravam excepcionalmente na zona occidental. Linschoten diz: índia
abadajn sive rhinocerota non habet, verum in Bengala et Patana repe-
ritur — por índia designa a parte mais conhecida, ao longo da costa de
oeste.
Orta diz também, que «alguns fazem domésticos»; e esta questão
dos rhinocerontes domésticos é um tanto complicada. Gaspar Corrêa,
descrevendo uma grande batalha entre Báber e um certo rei da índia,
chamado Cacandar, batalha que Yule e Burnell dizem não terem podido
averiguar qual fosse, mas que é talvez a de Panipát, confusamente en-
volvida em muitas circumstancias erradas, diz assim, fallando do modo
por que estavam ordenadas as forças de Cacandar:
«... e diante huma batalha de oitocentos alifantes, que pelejavão
com espadas nos dentes e em cima castellos com frecheiros e espin-
gardeiros. E diante dos alifantes oitenta gandas, como huma que foy
a Portugal, a que chamarão bicha, que no corno que tem sobre o fo-
cinho tinhão ferros de três pontas com que pelejavão mui fortemente.»
8o Colóquio trigésimo primeiro do cate
Diremos desde já, que na relação da batalha de Panipát, dada pelo
historiador Erskine, o qual segue as Memorias escriptas pelo próprio
Báber, se mencionam os oitocentos ou mil elephantes, mas se não diz
uma palavra dos rhinocerontes.
A noticia de Gaspar Corrêa, por mais estranha que seja, não é iso-
lada. Fernão Mendes Pinto, fallando de um lago de Chiammay na Indo-
china a que já nos referimos em outra nota, affirma que d'ali se tiravam
muitos minérios, os quaes «levam mercadores em cáfilas de alifantes
e badas aos reinos de Sornau, que é o de Sião, Passiloco ...» Aqui
temos as badas — outro nome dos rhinocerontes — , domesticadas e
empregadas nos transportes. E o mesmo Fernão Mendes Pinto, dando
a relação de um enorme exercito tártaro, que invadiu a China, diz
« . . .donde partiram com oitenta mil badas, em que vinha o mantimento
e toda a bagage». Yule e Burnell, transcrevendo as três passagens ci-
tadas, não contestam a sua veracidade, e contentam-se com lhes pôr um
ponto de admiração. Effectivamente, a ausência de outras noticias, e
tudo quanto sabemos do caracter desconfiado, violento e pouco in-
telligente do animal, levam-nos a acreditar, que os nossos escriptores
foram mal informados. Gaspar Corrêa é habitualmente verídico; mas
tratava n'este caso de factos succedidos no interior da índia, de que
recebeu noticias indirectas e confusas; e Fernão Mendes Pinto, sem
merecer a reputação que teve durante muito tempo, era um tanto dado
a acceitar, e mesmo a ampliar levianamente, as informações colhidas
aqui ou ali. A phrase de Orta é mais acceitavel, e um ou outro rhi-
noceronte podia chegar a um certo grau de domesticidade (Linsch.,
Navig., 56; Gaspar Corrêa, Lendas, iii, fyS; Erskine, Hist. of Báber, i,
434; Fernão Mendes Pinto, Peregrin., cap. 41 e cap. 107; Yule e Bur-
nell, Gloss., I e 799).
Acerca de unicorneos é o nosso Orta muito prudente, dando-nos as
suas noticias sob todas as reservas. No que lhe disseram da costa de
Africa, deve ir envolvido o hippopotamo — posto que elle diga não
se tratar do cavallo marinho — com os rhinocerontes africanos, que
então deviam ser muito frequentes ao longo d'aquella costa.
/
COLÓQUIO TRIGÉSIMO SEGUNDO
DA MAÇA E NOZ
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
He bem que saibamos dos nomes da maça e 710^, da terra
donde a ha, scilicet, em Banda, e também em arábio e la-
tim. E posto que, segundo a ordem, vem primeiro, porque
não se pode fallar sem fallar da 7io\, que he fruta, fallaremos
na feiçam da arvore, e foltias e flores, e doutras cousas me-
dicinaes que do mesmo arvore se fazem.
ORTA
Estes nomes vos direy, pois o perguntei em malaio e ma-
lavar, e decanim e pérsio, e arábio e turco; posto que pêra
vós não seja neseçario mais que o arábio e o latim e o da
terra donde nace, que he o malaio. E portanto diguo que
o arvore da Jio:{ he do tamanho de pereira, e as folhas sam
redondas á maneira de algumas de pereira: vem esta woj{
de Banda, de ilhas sogeitas a elrey nosso senhor. E posto
que digam alguns escritores do Peru que o ha em Maluquo,
não he asi; porque, ainda que aja o arvore, nam dá fruta,
e o mesmo he na ilha de Çeilam. Sam como pereiras, ou, por
falar mais verdade, como pexegueiros pequenos. He a casca
dura, scilicet, a pelle daquella he mais dura que das peras
verdes; e dahy vay, com sua grosura, a espedirse ao cabo,
com huma casquinha muito delgada, asi como a casca pe-
quena que cerca a castanha nossa; está chegada á 7to:{, e
cerca a toda; a qual iio:^ está debaixo, e he como bugalho
pequeno; e a pelle pequena que cerca este bugalho, que já
faley, he a w/aça, e da outra casca grande nam fazemos aqui
mençam; posto que he muyto boa, feita em conserva com
açucare, e tem o cheiro muyto bom, e o sabor mu3^to me-
lhor; temse cá esta conserva por mu3'to boa pêra o cérebro,
6
(
82 Colóquio trigésimo segundo
e pera as enfermidades da madre e nervosas; vem de Banda
em jarras de vinagre; e alguns a comem asi feita em selada;
porém toda a mais, que vem a esta terra, se faz em conserva
de açucare; he muyto fermoso pomo, e dá bom cheiro á
boca. E aveis de saber que, quando esta no^ he madura,
vaise inchando, e rompe a primeira casca como fazem os
ouriços das castanhas nossas, e fica a maça muyto vermelha,
parecendo como gram fina; que he a mais fermosa cousa
de ver no mundo, quando as arvores estam carregadas; e ás
vezes também a maça se fende, e esta he a causa onde a noi
muytas vezes não vem cercada da maça. E quando esta no^
se cura e séqua, despede de si a maça, e nam fica vermelha,
senão hum pouquo laranjada. Vai esta maça três vezes tanto
como a no^; e esta he a verdade sabida por mu3'tos, que
vam a Banda. A qual Banda he terra muyto doentia, e se
acha ás vezes irem lá muytos, e virem poucos, e comtudo
sempre folgam de ir lá, poUo ganho muito (i).
RUANO
Galeno conheceo esta no^ e maça, ou Dioscorides, ou ou-
tros alguns Gregos, ou Plinio?
ORTA
Galeno* faz capitulo, no sétimo livro dos simples, e diz
que se traz da índia: e porém a outros muytos e a mim
parece que não conheceo a maça (posto que a chame macir),
e isto por muytas rezões: huma he, porque a faz temperada
entre quente e frio, sendo quente e sequa no fim do segundo,
ou dentro no terceiro; e diz que aproveita com sua esteti-
cidade e com seu apertar ás desinterias, e aos que deitam
sangue; que não he cousa que Galeno dixera, se a conhecera;
quanto mais que Avenrrois diz** que esta he huma das me-
zinhas que não conheceo Galeno, e a muytos modernos pa-
* Galenus, lib. 7, Simplicium (nota do auctor).
** Avenrrois, 5, Coliget (nota do auctor).
Da maça e no^ 83
receo macir dos Gregos e a tnaça dos Arábios serem di-
versas mezinhas, e esta he a causa porque Aviçena faz dois
cap., scilicet, o cap. 466 da maça, o cap. 694 de talicífar*;
e fez isto emitando aos Gregos; ainda que elle nunqua vio
o macir delles, teveos sempre em muyta auctoridade e ve-
neraçam, não lhe parecendo que pudiam errar; quanto mais
que Dioscorides** e outros dizem ser casca de raiz, e nam
de fruto; e Plinio afirma não conhecer este macir; quanto
mais que, se estes Gregos conheceram a rtiaça, nam puseram
em silencio a noi, porque nenhum delles falou delia; e do
macir souberam tam pouquo, que Galeno diz trazerse da
índia, e Dioscorides trazerse da Barbaria; por onde parece
que nenhum conheceo a maça: nisto não deve aver alguma
duvida.
RUANO
Pois não falta dos modernos quem diga que o chrisoba-
lanus escrito de Galeno he a no^ dos Arábios.
ORTA
Elles não tem rezam, e tem contra si muitas cousas que
lhe falecem, na feiçam, e na cor e no sabor.
RUANO
Os Arábios souberam da no^ ou da maça alguma cousa?
ORTA
Senhor, si; em especial Avicena falou mais distintamente.
RUANO
Pois Serapio alega aos Gregos nestas mezinhas***.
ORTA
Fez isso porque avia medo de dizer cousa contra os Gre-
gos; e não vos maravilheis disto, porque eu, estando em
* Avicena, lib. 11, cap. 456 e 694 (nota do auctor); aliás 456 e 696.
** Lib. I, cap. 94 (nota do auctor).
*** Serapio, cap. 2 e 161 (nota do auctor).
84 Colóquio trigésimo segundo
Espanha, não ousaria dizer cousa alguma contra Galeno e
contra os Gregos*; quanto mais que, bem oulhado, não he
muyto serem humas mezinhas em huns tempos conhecidas
e em outros não, porque sempre se acham novas; e certa-
mente que, se os Gregos souberam áo pao da China, muyto
o louvaram, e fora bem celebrado delles; mas Avenrrois ou-
sadamente diz que erão certas mezinhas, que os Gregos não
conheceram (2).
RUANO
Ora pois quereis sair com a vossa em emitar esses bár-
baros, dizei os nomes da no\ e da maça.
ORTA
Sou contente ; a no:{ se chama na terra donde naçe pala,
e a maça, bunapala; em decanim se chama a iio:{, japaíri,
e a maça, jaifol; em arábio chama a 7zo{ Awicena. Jaiqibam
(que quer dizer )io:{ de Banda) e á 7Jiaça chama Avicena
bejbase; a derivaçam do qual nome nunqua pude saber**.
E estes sam os nomes arábios mais verdadeiros que todos,
bem que muytos Mouros e Arábios, e Turcos e Coraçones
lhe chamam outros nomes corrutos, que se foram corrom-
pendo com os tempos; e asi os livros se foram corrompendo,
que Avenrrois, sendo muyto bom mouro, lhe chama geo:{a;
e em Serapio estam muytos nomes corrompidos; e pois estes,
sendo Mouros, erraram, não he muyto Matheus Silvatico
errar. A maça se chama maça polia similhança do macir,
porque o pintam os Gregos vermelho.
RUANO
Se a 710^ em arábio se chama geau^i, logo os Arábios
devem fazer mençam da no^ da índia, que he o chamado
coquo?
* Uma das mais notáveis phrases de todo o livro, e que bem lhe
podia servir de epigraphe.
** Avicenna, lib. 11, cap. 456 (nota do auctor).
Da maça e no^ 85
ORTA
Si, fazem mençam os Arábios de todas as nossas, como
vos disse no coquo, que lhe chamam geau^ialindi; e á nossa
7ío:{ chamam geau^i, no mais*; e esta he a causa porque á
cidade pacense, a que chamamos Badajoz, avendolhe de cha-
mar Guadalgeauzi, que quer dizer rio de noies, lhe chama-
ram corrutamente Badajoz.
RUANO
Quem vos dixe isto, e como o sabeis?
ORTA
Hum judeu que foy a Portugal, nacido no Cairo, que
levou a Portugal as novas do Soldam Bhadur, e chamado
por nome Isaque do Cairo, homem discreto e sabedor de
muytas lingoas, lhe perguntei eu se Guadalupe queria di-
zer rio de lobos, como diz Lúcio Siculo Marineo; o qual
me respondeo que nam, senão que queria dizer rio do amor;
e eu lhe disse que hum homem muyto douto escrevia esta
derivaçam; elle me dixe que a djerivaçam, quando pudesse
ser tudo de huma lingoa era melhor, que nam fazer huma
parte de huma e outra de outra lingoa; e asi como Gua-
dalup tudo junto he arábio se entrepreta rio do amor (3).
RUANO
Ainda que isso não he física, também folguo de o saber
mais que outras cousas, pêra tirar o fastio.
ORTA
Porque não fiqueis sem elle, sabei que da maça se faz
hum olio, muyto boa mezinha pêra os nervos, e muyto usado
vir de lá de Banda.
* Isto é, «simplesmente», sem mais; uma forma de dizer mais hespa-
nhola que portugueza.
86 Colóquio trigesijno seoimdo
Nota (i)
Identifiquemos desde já os nomes citados por Orta na pagina 84:
— A MOf "pala», e a maça «bunapala», em Banda. Rumphins dá estes
mesmos nomes na forma pala ou pela para a nof, e bonga-pala para
a maça, que Ainslie escreve também bunga-pala. Segundo Crawfurd,
aquelle nome da «of não é propriamente originário de Banda, onde os
naturaes lhe chamam galago: mas é corrente em todo o archipelago,
e foi-lhe imposto pelos primeiros navegadores que fizeram o commer-
cio de Banda para a índia, sendo — ainda na opinião de Crawfiird —
uma corrupção do nome jatipahla (sic) em sanskrito (Cf. Rumphius,
Herb. Amb., n, 14; Ainslie, Mat. Ind., i, 200 e 249; Crawfurd, Dict.,
304).
— A HOf njapatri», e a tnaça «jaifolu em deckaní. Estes nomes estão
trocados, por descuido de Orta ou do impressor; e tanto Ainslie como
Dymock dão o nome da noz^ jaiphal, jaephal (deck. J^; L:a., Jó/j/íu/,
sansk. si I Irl^^hrS, jãtiphala); e o nome da maça jápatri (sansk.
Sll I d U :?< 1 5 jãtipatri) (Cf Ainslie, 1. c; Dymock, Mat. med., 661).
— nJauzibam» em Avicenna, significando noz de Banda; o nome
encontra-se em uma nota marginal da edição latina, mas é um erro
de transcripção, e no arábico está — segundo Scaligero — djauj bana,
um nome que é dado por Ainslie como persiano, L,- ; »=^. Como se vê,
Avicenna não escreveu jaii^jibam, e portanto não lhe chamou noz de
Banda, nem é provável que elle conhecesse rigorosamente a sua pro-
cedência d'aquella ilha. (Cf. Avicenna, Qanurj, u, 11, 5o2; Exotic, 248;
Ainslie, 1. c.)
— «Befbase», segundo Orta, é o nome da maça em Avicenna; isto é,
íL.L.^»o, hesbasah; Ainslie cita também o persiano jL v? be:;baj.
Estas duas especiarias sao produzidas pela IMyx-istioa fra-
g-i-ans, Houttuyn (M. mo^c/za/a, Thunb., M. officinalis, Linn. fil.) ;
uma bella arvore, typo da pequena familia das Myristicea?, e que se
encontra espontânea em varias ilhas orientaes do archipelago Malayo,
mas abunda sobretudo no pequeno grupo vulcânico de Banda. A ar-
vore feminina, porque a planta é dioica, produz uma drupa carnosa,
mas dehiscente, que, abrindo-se na maturação, deixa ver a semente,
envolvida em uma arilha de côr vermelha intensa; esta arilha é a
maça do commercio. A semente, privada da arilha ou maça, que se
vende á parte, e do seu envolucro exterior ou testa, fica apenas re-
vestida pela pellicula do endopleura, a qual penetra profundamente
nas fendas do albumen ruminado; esta é a «of rm/scada do commer-
cio. Se Orta não deu, e não podia dar, uma descripção minuciosa
d"esta complicada estructura, teve pelo menos uma idéa approximada
Da maça e wo^ 87
da natureza da maça, e não lhe chamou flor, como fizeram outros,
entre estes Camões:
Leva pimenta ardente que comprara:
A secca flor de Banda não ficou,
A noz, e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, co'a canella.
Com que Ceilão é rica, illustre e bella.
Banda, com as pequenas ilhas próximas, foi a verdadeira pátria da
muscadeira, a região onde a sua cultura mais se desenvolveu, onde os
portuguezes a foram sempre buscar, e onde hoje os hollandezes se
esforçam por lhe conservar o monopólio. Segundo nos diz o conhe-
cido naturalista e viajante Wallace, quasi todas as terras aproveitáveis
na base da ilha e vertentes das montanhas estão cobertas de planta-
ções de muscadeiras, crescendo á sombra de grandes arvores, Cana-
rium commune, e encontrando na sombra, na excessiva humidade do
clima, e no ligeiro solo vulcânico as melhores condições de vegetação.
Parece que estas plantações são extremamente bonitas, e Wallace diz;
few cultivated plants are more beautiful than nut-meg trees,
como Orta havia dito: «a mais fermosa cousa de ver no mundo». João
de Barros é também muito lyrico na sua descripção d'estas plantações:
"Passado o tempo das flores, em que as nozes já estão coalhadas e
de côr verde (principio de todo o vegetavel), vae-se pouco e pouco
tingindo aquelle pomo, da maneira que vemos n'este reino de Portu-
gal uns pêssegos, a que chamão calvos, que parecem o arco do Ceo
chamado íris, variado de quatro cores elementaes, não em circulo,
mas em manchas desordenadas, a qual desordem natural o faz mais
formoso. E porque n'este tempo que começam a madurecer, acodem
da serra, como a novo pasto, muitos papagaios e pássaros diversos, é
outra pintura ver a variedade da feição, canto e cores, de que a natu-
reza os dotou».
Descripção, concentrada por Camões em quatro versos :
Olha de Banda as ilhas, que se esmaltam
Da varia cor que pinta o roxo fructo ;
As aves variadas, que ali saltam.
Da verde noz tomando seu tributo.
Notaremos de passagem, que uma d'estas aves, um bello pombo,
Carpophaga concinna, tem singulares relações com a vida da planta,
engolindo a noz inteira, digerindo a maça, e lançando intacta a parte
essencial da semente, de modo que contribue poderosamente para a
propagação da espécie, ao mesmo tempo que d'ella depende para a
88 Colóquio trigésimo segundo
sua alimentação. Orta referiu-se a um facto análogo, a propósito de
outra planta, no Colóquio vigésimo oitavo.
Os gregos e latinos, como veremos melhor na nota seguinte, não co-
nheceram a MOf e maça; mas os árabes, viajantes e geographos, como
Maçudi e Edrisi, escriptores de matéria medica, como Avicenna e Se-
rapio, tiveram perfeita noticia d'estas especiarias, que, em maior ou me-
nor quantidade, chegavam á Europa na Idade-media.Vinham de Banda
a Java e outros portos do Oriente, frequentados por chins e árabes,
n'aquelle commercio de cabotagem, feito pelos malayos e javanezes,
a que já nos referimos a propósito do cravo. Duarte Barbosa, fallando
de um estado de cousas anterior ao dominio portuguez, diz que o
commercio em Banda se fazia por meio de trocas, dando ali grandes
quantidades de mercadoria por qualquer objecto, por exemplo, vinte
babares de maça por um gong javanez, de modo que a especiaria
oval quasi de graça». A difFerença de preço entre Calecut e Banda
era enorme, e a/arasola de nof valia em Calecut tanto, como o bahar
em Banda — o bahar tinha xinlQ f ar asol as proximamente. As difFeren-
ças de preço de Calecut para a Europa também eram grandes, pois a
«Of e a maça custavam caríssimas durante toda a ídade-media; em In-
glaterra, ahi pelos annos de i35o, dois arráteis de maça valiam tanto
como uma vacca. Quando, pois, os portuguezes, commandados por
António de Abreu, foram a Banda depois da tomada de Malaca, con-
tinuando nos annos seguintes a frequentar a ilha, e acabando por es-
tabelecer ali uma posse mais ou menos effectiva, encontraram-se se-
nhores de um commercio tão lucrativo pelo menos como o do cravo.
Ou fosse, porém, porque a 7107 e maça tivessem menos consumo do
que o cravo, ou por qualquer outro motivo, o certo é que estas espe-
ciarias não parecem ter tido a importância commercial do cravo, e se
encontram menos vezes citadas nos nossos livros e documentos do
tempo. Em todo o caso, o trato da «07 muscada e maça pertenceu
aos portuguezes durante proximamente um século, passando depois
para os hoUandezes, que o conservaram até ao nosso tempo.
Alongaria demasiado estas notas qualquer noticia sobre a cultura da
arvore, e colheita e preparação da sua semente, noticia que será fácil
encontrar em alguns dos livros citados abaixo (Cf Fliick. e Hanb.,
Pharmac, 451; Dymock, Mat. med., 661; Crawfurd, Dict., 304; Rum-
phius, Herb. Amb., 11, 14 a 25; Wallace, Malay Arch., 285; Lusiadas, ix,
14, e X, i33; Barros, Ásia, iii, v, 6; Duarte Barbosa, Livro, 370, 385).
Nota (2)
Orta é de opinião que o macer (u.áx£i) dos escriptores gregos não é
a maça dos modernos; e esta opinião, desenvolvida pouco depois por
Da maça e iw{ 89
Acosta, foi admittida nos nossos dias por Sprengel, assim como em
todos os livros de auctoridade em questões de pharmacologia. O [/.óxep,
macer ou macir de Dioscorides, Galeno e Plinio, era a casca de uma
arvore da índia, applicada ao tratamento de dysenterias; e, portanto,
cousa muito diversa na natureza e propriedades da arilha vermelha
da no^ muscada.
Avicenna — como bem notou Orta — tratou da verdadeira maça
sob o nome de iL,L**.j, besbasah; e de uma substancia que bem pôde
ser o p.áy.£p sob o nome de >Á»JlJg, talisfar. A identificação d'este ta-
lisfar é que pode levantar bastantes duvidas, posto que alguns se te-
nham lembrado de que fosse a casca da Holarrhena, de que falíamos
em um dos Colóquios precedentes. Acosta deu uma longa e minuciosa
descripção da arvore, da qual na sua opinião procedia o macer; mas
a identificação d'essa arvore não é clara, e a questão não nos inte-
ressa agora directamente. O que importa notar, é que o macer em
caso algum podia ser a maça, e que Orta tinha rasão n'este ponto
(Cf. Sprengel, Diosc, 11, 3qr, Pharmac, 45 1; Dymock, Mat. med., 498;
Acosta, Tractado de las drogas, 41).
Nota (3)
Isaac do Cairo veiu da índia a Portugal, pela via de Suez ou do
Cairo, no anno de i SSy. Fora mandado por Nuno da Cunha a D. João III,
para lhe dar conta dos graves succes^os de Diu, trazendo-lhe o que
Orta chama «as novas do Soldam Bhadur», isto é, a noticia da sua
morte violenta. Chegou a Lisboa, quando tudo estava sobresaltado
pelo annuncio de uma grande armada de Rumes, que ameaçava a ín-
dia, e com as suas informações algum tanto serenaram os ânimos.
Tudo isto vem largamente contado por Gaspar Correia (Lendas, iii,
792 e 846).
Devia ser um homem «discreto», e a sua opinião, de que as «deri-
vações» de uma palavra composta se devem procurar em uma só lín-
gua, é absolutamente justa — salvas raríssimas excepções. Eff"ectiva-
mente aquella etymologia, semi-arabica e semi-latina, dada pelo eru-
ditissimo Lúcio Marineo Siculo para a palavra Guadalupe, é de todo
o ponto insustentável. E verdade, que elle a não apresenta como sua,
e apenas a repete: Guadalupe, la qual intrepretan algunos Rio de Lo-
bos. Não deixa ainda assim de ter a responsabilidade de a citar. Fr. João
de Sousa dá uma significação um pouco diversa da que Orta deu ou
acceitou; Guadalupe — diz elle — é ,._^\ :: !j, uad eWubb, signifi-
cando rio de seio — os arabistas decidirão qual tem rasão.
A derivação do nome de Badajoz de rio de no^es não é verda-
deira, como o não é a que fr. João de Sousa deu muito em duvida,
90 Colóquio trigésimo segundo da maça e iw{
de , «i-J<- ' --íj, belad eWaisch, o paij dos mantimentos. Edrisi escreve
aquelle nome, , ^^liJia,', Batalios, forma que se não pode derivar de
rio de no^es, nem de pjy^ dos mantimentos.
Acresce por esta citação mais um livro, aos que Orta menciona nos
Colóquios; e vê-se que elle conhecia a celebre chronica de Marineo
Siculo.
(Cf. Lúcio Marineo Siculo, De las cosas illustres y excellentes de
Espana, f, 42, Alcalá de Henares, liSg; Sousa, Vestigios da lingua
arábica, 90 e 134; Edrisi, Géogr., i, 23, tr. de Jaubert, Paris, 1840).
COLÓQUIO TRIGÉSIMO TERCEIRO DA
MANNÁ PURGATIVA, ONDE SE FALLA OUTRAS MUYTAS
cousas, que sam menos medicinaes, e sam de historia, e boas pêra
as saberem algumas pessoas.
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
As cousas que sam muyto neseçarias e mais usadas, he
neseçario serem muyto sabidas; e por esta causa queria
muito saber da manná, que vos he cá tanto em uso; e pêra
isto he rezam que oulheis muyto bem o que me dizeis, pêra
que não aja que replicar. Não quero saber se escreveram
os Gregos delia, nem como lhe chamaram, porque disto
asaz escrevem os escritores modernos.
ORTA
Certamente que, porque vi esta mezinha muyto boa e com
suave sabor e cheiro, e fazer os efeitos que delia queremos
muyto bons, nam procurei saber, muyto delia; somente sey
que a ha de três maneiras trazida de Ormuz, da província
de Uzbeque. A maior e a primeira, que he esta que aqui
vedes nas boticas em frascos, semelhante a confeitos, e no
sabor a favos de mel, chamase xirqiiest ou xircast, que quer
dizer leite da arvore chamada qiiest, porque xir na lingoa
da Pérsia quer dizer leite; de modo que he hum rucio que
cae daquellas arvores, ou goma que nace delias; e nós cor-
rompendolhe o nome lhe chamamos siracost; porque Avi-
cena era desta província de Uzbeque, de huma cidade dita
Bocora, como vos já dixe, será rezam que lhe saiba bem
o nome; podese bem ver isto em Avicena* donde falia
* Avicena, lib. ii, cap. 172 e 490 (nota do auctor); na edição latina
os capitules são 489 e 704. Ha de certo muitos erros de imprensa nas
citações de Orta; mas é possivel que elle algumas vezes cite o Avicena
arábico, como parece deprehender-se do Colóquio trigésimo.
92 Colóquio trigésimo terceiro
delia (i). A outra dita tiriamjabim ou trumgibim, como diz
o Belunense, dizem que nace sobre os cardos, e vem em pe-
dacinhos, algum tanto de cor roxa ao parecer; e dizse que
estes se tiram dos cardos, sacudindo com pao, e sam mais
grandes que coentros secos os grãos; e a cor, como vos
dixe, entre roxa e vermelha. O vulgo tem que isto he fruto,
mas eu soube que era guoma ou resina: elles tem esta por
mais san que a que usamos, e desta usam mais na Pérsia
e em Ormuz, porque a que aqui usamos não a dam aos mo-
ços, senão quando pasam de qatorze anos; mas comtudo
vos sey dizer que a uso des que vim á índia, e sempre
achei purgar sem dano algum (2), Vem outra em pedaços
grandes, e vem com folhas mesturadas; esta parece como
a da Calábria, e vai mais dinheiro, e vem polia via de Bá-
cora, cidade mu3'to nomeada na Pérsia (3). E vem ás vezes
outra aqui a Goa, derretida em odres, que parece mel alvo
coalhado; desta me mandarão de Ormuz, porém corrom-
peose nesta terra muyto asinha; porque os frascos de vidro
a conservam muyto (4). E por aqui diguo que nom sey mais
desta mezinha.
RUANO
Certamente que vos ouvira muyto tempo, se falareis mais;
mas pois que nam quereis mais dizer, me dizei que província
he esta de Uzbeque.
ORTA
A província de Uzbeque he Tartaria, chamada por nós
de huma cidade dita Tartar, que ha nella, e o homem que
he natural delia chamamlhe tártaro e aos outros chamamlhe
uzbeques, como quem dixese toledano ou espanhol, lisbo-
nez ou português. Eram estes Uzbeques huma parte dos
Mogores, e de poucos tempos pêra qua se isentaram. Sam
estes Uzbeques mu3rto valentes homens, sam grandes fre-
cheiros a pé e a cavalo, tomam soldos dos reys estranhos:
eu conheci hum com o Idalcam, chamado Meliquetartar; e
outro com o gram rey de Cambaia, dito Soldam Bhadur.
Estes Uzbeques confinam com os Chins por outra parte,
segundo me dixeram; e pode ser que estes sejam os Partos,
Da viannd purgativa gS
tam avorrecidos dos Romanos, mas eu vos confeso nam
saber desta comosgrafia pella terra, muyto bem (5).
RUANO
Dixestesme que vinha essa manná polia via de Bácora;
queria saber, se he essa Babilónia, primeiro asi chamada,
ou se he Bagada, que está mais adiante.
ORTA
Asi Bácora como Bagada estam na Mesopotâmia, mas
nenhuma he Babilónia; postoque vulgarmente se tenha que
Bagada he Babilónia; mas soube muyto certo que a Babi-
lónia verdadeira dista de Bagada ou está apartada lo ou 12
legoas. Está muyto desfeita, e pouco celebrada dos homens:
isto me dixe Jorge Gonçalves, hum mercador discreto, e
grande enqueredor das verdades, e de muyto bom saber,
que lhe dixera hum. homem natural da própria Babel; e diz
que Babel está chegada ao Eufrata, e a Bagada está junto de
hum rio chamado Digilá e namTigris; nem este nome Ti-
gris he usado aguora (6).
RUANO
Esta Bácora e Bagada cuja he aguora? Do Turco ou do
Xatamaz?
ORTA
Primeiro era de outros reys, e tomoulhas o Turco (7).
RUANO
Que titulo he o de Xatamaz e do Turco?
ORTA
O Xatamaz se chama xá, que quer dizer rej por exce-
lência, e todos os outros reys se chamam paxá, que quer
dizer pé de rej; asi como o rey de Ormuz e o rey de Lara
e outros reys; e o Turco chamase honencar^ que quer dizer
fazedor dos senhores, porque hon em pérsio quer dizer se-
nhor, e ecár significa fazer; mas o seu asinado não he con-
forme a este ditado, porque he muito humilde.
94 Colóquio trigésimo terceiro
RUANO
Como se asina?
ORTA
Faquir Çoleimam, que quer dizer o pohre Çoleimam.
RUANO
Pois com todas essas humildades ha de hir ao inferno.
Nota (i)
Orta diz, que as suas três espécies de manná — na realidade falia de
quatro — procediam da província de «Uzbeque», o que é exacto, no sen-
tido muito lato de que se não geravam na índia, e vinham pela maior
parte da Pérsia septentrional e regiões vizinhas. Diz também que vinham
por Hormuz, e de certo vinham igualmente, como ainda vem, pelos ca-
minhos de Kandahar e do Cabul ; mas d'este commercio interior tinha
naturalmente menos noticia o medico de Goa.
A primeira espécie de mawiá, chamada por Orta «xirquest» ou «xir-
cast», ainda hoje se encontra em alguns bazares da índia septentrional
sob o mesmo nome de shir-khisht, ou schir-khischt, ^j^^JxJs, yJu.^ de-
vendo desde já notar-se que schir significa leite em persiano, como Orta
muito bem diz. O nome alterado de «siracost» encontrou Orta na sua
traducção latina de Avicenna.
Segundo as observações de Haussknecht — citadas na Pharmaco-
graphia — este manná é a exsudação de uma arvore da familia das
Rosacece, Cotoneastex* xLumniuliii^ia, Fisch. et Mey, e
talvez também de outra planta bem diversa d'esta e da familia das
Polygonacece. Pelo que diz respeito ao Cotoneaster, as observações
de Haussknecht são plenamente confirmadas pelas de Flúckiger e Han-
bury, os quaes tiveram occasiao de observar specimens d'aquelle manná,
obtidos no norte da índia.
A identificação do schir-khischt com o «xirquest» de Orta, não re-
sulta simplesmente do nome, mas também do aspecto da droga, que
os pharmacologistas modernos descrevem como consistindo em lagri-
mas arredondadas, pequenas, de um branco sem brilho, e Orta com-
para com os «confeitos».
Esta droga vem hoje para a índia do Afghanistan e Turkestan, o
que se não afbista muito do «Uzbeque» de Orta (Cf. Fluck, e Hanb.,
Pharmac, 872; Ainslie, Mat. Ind., i, 208, Avicenna, Qanun, 11, 111,489).
Da manná purgativa gS
Nota (2)
O manná, chamado por Orta «tiriaiTijabim» ou «trurTigibim» — forma
encontrada na sua versão latina de Avicena — é bem conhecido pelo
mesmo nome de ^^^_^ J, tarandjabin. Procede de uma pequena
planta da familia das Legimiinosce, Alliag-i Caiiieloi^um,
Fisch., que se encontra na Pérsia, Afghanistan, Beluchistan e Turkes-
tan; e também, segundo alguns dizem, de outra espécie, Alhag^i
jMaixi-oruiii, Desv., de mais larga habitação, pois se tem obser-
vado nas regiões áridas e desérticas, desde o Egypto, pela Syria, Me-
sopotâmia e Pérsia até á índia. As duas espécies são pequenos arbustos
muito espinhosos, o que nos dá a explicação de terem dito a Orta, que
nascia sobre «cardos». As notas descriptivas da droga, forma dos grãos,
dimensões e côr, concordam notavelmente nas Pharmacographias mo-
dernas e nos Colóquios.
Segundo Stewart e Davies —citados na Pharmacographia— este
manná é principalmente colhido nas terras de Kandahar e de Herat,
d'onde o levam para a índia. Mir Mohammed —citado por Dymock —
dá como localidade de procedência, alem de outras, o Mawarunnahari, r\
isto é, a Transoxiana dos antigos, exactamente o «Uzbeque» de Orta.
(Cf. Fliick. e Hanb., 1. c. Syi; Ainslie, 1. c, 11, 208; Dymock, Mat.
med., 2 ! 8 ; Garcia da Orta e o seu tempo, SSg.)
Nota (3)
Esta terceira espécie de manná de Orta é um pouco mais difficil de
identificar. Diz elle apenas que vinha por «Baçora» ou Basra, e con-
sistia em pedaços grandes, tendo folhas misturadas. É conhecida uma
espécie de manná, resultado da punctura de um Coccus sobre diversas
espécies de Quercus, punctura que determina a exsudação de um li-
quido saccharino, o qual se solidifica em contacto com o ar. Segundo
Haussknecht, este manná colhe-se sobre as espécies Qiiei-ous
■Vallonea, Kotschy, e Q. Pei-siea, Jaub. e Spach, sendo
possivel que outras espécies o produzam também. Na Pharmacogra-
phia áescreve-se uma forma impura d'este manná, consistindo em uma
massa compacta, acinzentada e saccharina, na qual vem misturados
' Avicenna também deve ter fallado d'esta mesma região, e isto deu lugar a uma curiosa
interpretação de Gerardo Carmonense, que erradamente traduziu: et in locis, qui stint tiitra
fliwium. A palavra, Mawar en-Nahar, quer dizer isto, mas era uma designação geographica
que de modo algum se podia traduzir assim; significava a região alem ou a leste do 0.xus,
Gihun, ou Amu-darya — pouco mais ou menos o mesmo que antes se designou com o nome
de Transoxiana.
g6 Colóquio trigésimo terceiro
em abundância pequenos fragmentos de folhas verdes, e isto não se
afasta muito das indicações de Orta: «pedaços grandes, e vem com fo-
lhas mesturadas».
Esta espécie de manná procede principalmente do Kurdistan ; e o
conhecido viajante Niebuhr já no século passado havia notado, que
entre Mardin e Diarbekr passara por uma floresta de carvalhos, de que
os árabes tiravam muito manná, confirmando em outro livro, que as
arvores que produziam o manná n'aquella localidade eram as mesmas
que davam as nozes de galha, isto é, os carvalhos. De Diarbekr, no alto
Tigris, para Basra, no Schat el-Arab, ou reunião do Tigris com o Eu-
phrates, o caminho era natural, e a noticia de Orta, de a droga chegar
á índia via Bassora, mais nos confirma na idéa de que esta sua terceira
espécie fosse o manná dos carvalhos.
Notaremos ainda que o manná da Calábria, a que elle se refere por
incidente, era recolhido sobre o Fraxinias Orniis, Linn.; e é
uma substancia muito conhecida, hoje quasi a única d'esta natureza
usada na Europa.
(Cf Fliick. e Hanb., 1. c. 366 e 372; Niebuhr, Voyage en Arabte, 11,
323, Amsterdam, 1780; Description de VArabie, i, 2o5, Paris, 1779.)
Nota (4)
A quarta espécie de manná de Orta deve ser a que se chama ga^-
anjabin, e procede, em parte, das tamargueiras. Nos valles da penín-
sula do Sinai, as moitas de Tamarix g-allica, var. uictniii-
fera, Ehrenb., exsudam, sob a excitação de um insecto particular
— Coccus mannipanis — pequenas gottas de liquido saccharino, que se
solidificam em contacto com o ar frio da manhã. Os árabes nómadas,
d'aquella região, recolhem este manná, e vendem-no aos frades do
convento de Santa Catharina do Monte Sinai, os quaes o passam de-
pois aos peregrinos, ligando-lhes naturalmente algumas idéas religiosas,
que mais presentes devem estar ao espirito em terras do Sinai. Segundo
Haussknecht, outras plantas, e nomeadamente algumas espécies de As-
tragalus, produzem na Pérsia uma droga chamada também gaj-anja-
bin, posto que este nome só se applique propriamente á que procede do
Tamarix.
O conhecido chimico Berthelot, examinando e analysando alguns
exemplares d'aquelle verdadeiro ga^-anjabin, diz que elle tem o aspe-
cto de um xarope grosso e amarellado, o que nos leva á persuasão de
ser este o que ia a Goa em odres, e parecia «mel alvo coalhado». Do
Sinai para Goa o caminho era fácil, pois se fez sempre ali um commer-
cio activo com Aden, Djidá, Toro e outros portos do Mar Vermelho
(Cf Fliick. e Hanb., 1. c, 371; Dymock, 1. c, 76}.
Da manná purgativa 97
Nota (6)
Já no Colóquio sétimo, Orta havia fallado no «Uzbeque», voltando
agora a este assumpto, pelo qual tinha uma certa predilecção. E rela-
tivamente correcto, excepto no que diz respeito á cidade chamada
Tartar. Qualquer que seja a origem da palavra Tartaria ou Tataria,
palavra muito vaga e de mui variável applicação, é certo que se não
deriva do nome de uma cidade.
Os «Uzbeques» eram «uma parte dos Mogores», isto é, descendiam
das iribus mongoes, unidas sob Chengiz Khan em uma enorme mo-
narchia. Quando essa monarchia se desmembrou, os ascendentes dos
que depois se chamaram Uzbeks ficaram pertencendo ao chamado
Khanato de Kipchak; e, convertido um dos seus chefes, Uzbek Khan,
ao islamismo, adoptaram o seu nome do mesmo modo que seguiram
a sua nova religião. O nome de Uzbeks ficou, portanto, designando as
tribus de raça mongol e religião mahometana, que occupavam a parte
oriental do Khanato de Kipchak. Em virtude de guerras e deslocações
que não vem ao caso, os Uzbeks passaram depois a dominar em pro-
vincias, primitivamente pertencentes ao Khanato de Chagatay; e no
principio do século em que o nosso Orta viveu, guiados pelo seu chefe,
Sheibáni Khan, tornaram-se senhores das férteis terras a leste do Oxus
ou Amu-darya, e das celebradas cidades de Bokhara, Samarcanda e
outras. Eram aguerridos e bons soldados, e a religião islamita que pro-
fessavam dava-lhes entrada no serviço dos soberanos mussulmanos da
índia, mais facilmente do que a outros Mongoes, que pertenciam a uma
seita especial do buddhismo. Não nos surprehende, pois, que Orta os
encontrasse ao serviço do Adil Scháh de Bijapur, ou ao serviço de
Bahádur Scháh do Guzerate (Cf. D'Ohsson, Histoire des Mongóis^
tomo i; Erskine, History of índia under Báber and Humáyun, tomo i)»
Nota (6)
É perfeitamente exacto que as ruinas de Babylonia ficassem muito
distantes e muito a montante da moderna cidade de Bassora ou Basra,
e afastadas da Baghdad dos Khalifas 10 ou 12 léguas, como diz o nosso
escriptor, ou una buena jornada, como diz Pedro Teixeira, que por ali
passou logo no principio do xvii século. Baghdad estava situada na
margem esquerda do Tigris, a que os árabes chamavam i!U»..>, Didjelah
(«Digilá« de Orta), emquanto as ruinas da velha cidade ficavam em
frente, e um pouco abaixo, na margem esquerda do Euphrates, isto é,
entre os dois rios, propriamente na Mesopotâmia.
gS Colóquio trigésimo terceiro da mannd purgativa
As ruínas estavam muito desfeitas, e — como diz philosophicamente
Orta — «pouco celebradas dos homens». Effectivamente, a grande e as-
sombrosa cidade havia-se desfeito com o andar dos tempos. Construídas
de tijolos, alguns apenas seccos ao sol, e estampados aos milhares e ás
centenas de milhares com o nome de Nebuchadnezzar, as suas colos-
saes edificações nâo nos deixaram nada comparável com os admirá-
veis restos de architectura assyria de Koyungik (Ninive), ou com os
admiráveis restos de architectura persa de Persépolis. Três viajantes
igualmente conhecidos, posto que desigualmente entendidos em anti-
guidades chaldaicas, attestam, como o Jorge Gonçalves do nosso Orta
que as ruínas estavam muito desfeitas. Pedro delia Valle, que por lá
andou no anno de 1616, diz que a Babel dos árabes era então uma massa
confusa de edifícios abatidos, formando um montão prodigioso de ma-
teriaes accumulados. No século seguinte, o erudito Níebuhr diz do
mesmo modo, que as ruínas apenas se viam como enormes coUinas,
todas minadas. E modernamente, um dos grandes exploradores das
antiguidades da Mesopotomia, sir H. Layard, o qual não só visitou
as ruínas, como dirigiu ali pesquizas, descreve a Babel dos árabes,
como um enorme montão, mais símílhante na forma e nas dimensões
a uma coUina natural do que a um trabalho dos homens, emquanto
no Mujelibé, e mais longe no Birs-Nímrud (para muitos a verdadeira
Babel) alguns lanços de muro, construídos de tijolos, se levantam ainda
acima da massa de escorias, ladrilhos e cacos (Cf. Pedro Teixeira, FÚ7^e
de la índia hasta Itália, i25; Pietro átWaN aWQ^Voyages, i, 47, tr. fran-
ceza, Paris, 1670; Niebuhr, Foj^ti^e en Arabie, u, 235; Sir A. H. Layard,
Nineveh and Babylon, 274 a 289, London, 1882).
Nota (7)
o «Xatamaz» era Thamasp Scháh, o filho e successor de Ismael
(vol. I, p. i38); e o «Turco», era o celebre Soliman II, que effectiva-
mente alargou muito as fronteiras do Império Ottomano, na Mesopo-
tâmia como em outras regiões.
COLÓQUIO TRIGÉSIMO QUARTO
DAS MANGAS
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVO
RUANO
Gabaramme tanto as mangas que qua tendes, quando he
o seu tempo, que me dixeram que podiam competir com
melocotones* ; e pêra mim he necessairo saber das frutas
desta terra todas-, e isto como nam o quero senam pêra
mim, nam vos pese de o escrever.
ORTA
Quanto mais dixerdes dessa fruta no sabor tanto acerta-
reis mais; porque eu nam vola gabo pêra mais outra cousa
que pêra vós; e certo que ha alguns Portuguezes tam per-
tinaçes, que querem antes morrer que confessar que ha cá
alguma fruta igual á de Portugal, avendo cá muytas frutas
que lhe fazem vantagem, asi como são todas as frutas de
espinho, porque os limões de cá sam tam grandes que pa-
recem cidrões, e muito tenros e saborosos, em especial os de
Baçaim; e as cidras sam muito melhores e tenras; e as li-
mas muito mais milhores; e quanto ás laranjas excedem em
grande maneira a todas as nossas, e muito mais que todas,
as de Pegú e Martabam, e Brinjam e Ceilam**: nas da
China nam fallo, porque he cousa fora da índia, e em outras
muytas.
* Não é a primeira vez que nós vemos Orta empregar palavras ou
modos de dizer hespanhoes.
** Ceilão e as primeiras duas regiões nomeadas são bem conheci-
das; Brinjam era um pequeno porto do Malabar meridional, nas pro-
ximidades do cabo de Comorim.
100 Colóquio trigésimo quarto
RU.VNO
Eu vos confeso que todas as frutas de espinho sam mi-
Ihores-, mas o exceso e melhoria não he grande, afora as
laranjas que muito gabastes, se sam como humas que vos
aqui troxeram de Cochim; porque estas, eu vos confesso
que fazem grandes ventagens ás nossas em suavidade e
çumo; e mais o entrecasquo delias (que he a casquinha qiie
cobre o âmago) não amarga cousa alguma, antes, aparada
huma laranja, a comeis com mais excellente gosto do mun-
do, o que não acontece nas nossas laranjas, porque sempre
a casquinha amarga; e qua não tam somente não amarga,
mas ainda provei a de cima, e não me amargou senam muyto
pouquo; mas as outras frutas, que cá tendes na índia, se
sam louvadas, he porque não tendes boas uvas e bons figos,
e peras e camuesas, e outras muitas frutas que em Espanha
temos; de maneira que estas vossas se podem chamar boas,
á falta de outras milhores. Eu pêra mim queria antes as
frutas de Portugal que as vossas mangas e duriões que tanto
gabais.
ORTA
Os duriôes eu nam os gabo, senam de ouvida, porque os
não vi; mas as mangas seyvos dizer, que as ha em Ormuz
no tempo que vem a venderse na praça uvas e figos, e muyto
boas romans e pexegos e albocorques; e, emquanto ha 7nan-
gas na praça, não se compram, senão de quem não pode
comprar as rnangas pollo muyto preço delias.
RUANO
Será isso como dizeis; folgara que as ouvera daqui até
janeiro pêra ver e crer.
ORTA
A monçam* delias he nas terras temporans em abril, e nas
outras terras sorodeas em maio e junho; e algumas vezes
* A significação dada aqui á palavra é em extremo interessante; tiion-
çam ou monção designava geralmente o vento dominante em períodos
determinados, mas a palavra árabe mausim, da qual se derivou, signifi-
Das mangas loi
vem como rodolho, que chamam em nossa terra, em outubro
e novembro. Moço, vai ver que dous navios sam aquelles
que entram, já os vi daqui desta varanda, e parecem cousa
pequena.
SERVO
Loguo virei com recado.
ORTA
Nascem as mangas no tempo que eu dixe, e as de Ormuz
sam as mais gabadas; e as do reino do Guzarate também
sam muyto boas, em especial algumas que chamam gii:{a-
ratas, que nam sam tam grandes, porém tem grande cheiro
e sabor. O caroço he muito pequeno, e as do Balagate uni-
versalmente sam mais grandes e muito saborosas: eu vi
duas que pesavam 4 arrates e meo. As partes do Balagate
em que as provei milhores sam as de Chacana e Quindur, e
Amadanager e Dultabado* (cidades principaes do Nizamoxa):
também sam muyto boas em Bengala e Pegú, e Malaqua.
SERVO
Senhor, he Simam Toscano, vosso rendeiro de Bombaim,
e traz este cesto de mangas, pêra que apresenteis ao gover-
nador; e diz que, como amarrar a fusta, virá loguo cá pou-
sar.
ORTA
Vem a melhor tempo do mundo: eu tenho huma mangeira
naquella minha ilha, que dá duas novidades, huma neste
tempo, e outra em fim de maio; e quanto a outra fruta ex-
cede a esta em bondade e cheiro e sabor, tanto excede esta
em vir fora do tempo ; e porém provemos nós primeiro esta
fruita que sua Senhoria. Moço tira dahi 6 mangas.
cava propriamente estação, vindo naturalmente depois a applicar-se ao
vento dominante n'esta ou n'aquella estação. A phrase de Orta é o único
exemplo — que eu conheça — da palavra portugueza, applicada exacta-
mente no sentido do mausim árabe, sem nenhuma referencia ao ven-
to— o que já foi notado porYule e Burnell no seu excellente Glossary.
* Vê-se por esta passagem, que Orta visitou no interior Ahmednag-
gar, Daulutábád e outras villas.
I02 Colóquio trigésimo quarto
SERVO
Aqui vem 20 inangas; e as 6 delias vem danadas-, toma-
reis 6, as somenos; e as outras levarei a sua S., porque he
bem darlhe o melhor.
ORTA
Dáas cá, e estas queremse cortadas com facas mu3'to
agudas porque não se dane o corte; e querovos fazer a sal-
va: rezoadas sam pêra este tempo.
RUANO
Se aguora sam rezoadas, daqui vos diguo que no outro
tempo excederam todalas frutas de Espanha.
ORTA
Pois quero volas dar a comer doutra maneira. Moço, apara
essas juangas, e fazeas em talhadas, porque tem asi milhor
sabor, principalmente deitadas em vinho cheiroso, como du-
razios.
RUANO
Verdadeiramente que estas duas que tem mamilos se me
parecem com pexegos calvos, porque a cor he entre vermelho
e verde craro, e o cheiro he o próprio delles.
SERVO
Eilas aqui.
ORTA
Provai de ambas as m.aneiras, com vinho e sem vinho.
RUANO
Com vinho e sem elle me sabem bem em tanta maneira,
que me parece que será necesario ficar cá este anno, pêra
provar as outras, e hir o anno que vem: mas não me pa-
rece que me dará meu irmão licença.
ORTA
Nisto nam ha mais que dizer: peçovos por mercê que isto
que aqui passa não escrevais, porque nam me tenham por
tam leve que faço caso por tam baixas cousas.
Das mangas io3
RUANO
Não sam tam físico como cuidais, porque também me
prezo de ser homem de corte, e dar rezam de mim, e por-
tanto dizeime de quantas maneiras se custumam a comer.
ORTA
Em conserva de açucare-, em conserva de vinagre, em
azeite e sal; recheadas dentro com gengivre verde e alhos;
salgadas, cozidas, e de todas estas maneiras as vistes já,
e provastes nesta caza.
RUANO
De que compleição sam?
ORTA
Frias e húmidas; isto está craro, confirmandose homem*
com os Cânones do segundo de Avicena, e ditos de Aristó-
teles, no quarto dos metaiiros e em outras partes**; e porque
eu ando remoto dessas matérias escolásticas, vos não dou
mais rezões, senão que as faço como pexegos***; e mais
ellas sam no principio ponticas ou estiticas, e depois azedas,
e no fim doces; e quanto sam mais chegadas no caroço,
tanto mais azedas, por onde parece serem frias e húmidas.
RUANO
Todas essas rezões me parecem boas, mas cá se diz com-
mumente que sam quentes, e alguns físicos que de cá fo-
• O emprego grammatical de «homem» como pronome indefinido
é raro em Garcia da Orta, e já devia ser obsoleto no seu tempo, posto
que os escriptores da geração anterior, como Gil Vicente, o empre-
gassem ainda com frequência (Cf. Diez, Gramm. des langues romã-
nes, ui, 79).
*» No livro II, tractado i do Qanun, Avicenna trata largamente da
graduação dos medicamentos; emquanto aos «Metauros», encontra-se
a palavra com a mesma orthographia nos Estatutos da Universidade
de Coimbra de iSgi, e eram os chamados Meteorologicorum nas ver-
sões latinas de Aristóteles.
*•» Uma óptima phrase, mostrando bem um certo desdém pelas
complicadas graduações d'aquelle tempo, em frios e quentes, seccos
e húmidos.
I04 Colóquio trigésimo quarto
ram mo dixeram em Portugal, e dizem que fazem burbulhas
aos que as comem, e já pode ser que tenham alguma rezam
nisto.
ORTA
Já qua tive pratica sobre isso com alguns físicos, e nam
me satisfizeram com essa rezão, nem outras que deram,
porque as burbulhas desse tempo sam polia quentura de-
masiada, que entonces ha; de maneira que as jnangas não
sam causa das burbulhas, senão acertam de vir em o tempo
delas ; e não he inconveniente per putrefaçam, fervendo esses
frutos no estamago, causaremse febres coléricas ou sangui-
nhas, ou fleumões ou erisipelas, que são emfermidades quen-
tes; asi como acontece podreceremse os pexegos, e ameixas,
e cerejas e melões, sendo frutos frios e húmidos.
RUANO
Os caroços aproveitam pêra alguma cousa, ou ellas pêra
física?
ORTA
Não mais que somente ouvi dizer que, assados os caroços,
aproveitam pêra os fluxos; e eu os provei, e pareceme que
dizem bem, porque sabem a bolotas de sovereiro, que em
nossa terra chamam landes; e os caroços, scilicet, o miolo
delles, dizem que mata as lombrigas, quando he verde, e
tem rezão, porque amargam (i).
RUANO
Se as fruitas fosem todas taes como esta, não he muyto
os Baneanes, que dizeis, não comerem carne. E pois agora
vem ao propósito, me dizei quem são estes Baneanes ou
Bramenes, que dizeis nam comerem carne; e se sam os geno-
sofistas que dizem; porque estes usam os mesmos vestidos
que os escritores escrevem; e mais, segundo os ha em muy-
tas partes que vam do Guzarate e do Decam, não he muito
aprenderem elles no Egito e nessas partes, onde diziam que
provicavam sua doutrina, porque diz que vam a Arábia e
Pérsia, e Egito.
Das mangas io5
ORTA
Estes sam; posto que agora se deitam mais a serem mer-
cadores que letrados; e ha delles muytas especias, e todas
sam conformes em não matar, nem comer cousa que padeça
morte; o qual preceito guardam em tanta maneira, que res-
gatam e compram aves pêra as deitar a voar; não comem
rabãos nem cebolas, nem alhos, nem huns bredos que pa-
recem vermelhos, por causa da cor; dão ás formigas aguoa
com açucare, dizendo que fazem esmola aos mezquinhos;
deitam agoa aos pasaros, e vem a beber cada dia; e muitos
dos que morrem deixam huma certa cantidade pêra pesoas
que caminham em despovoado, e que dêem agoa aos cami-
nhantes. Eu vi em Cambaiete hum esprital de pássaros,
onde os curam, se vem aleijados e doentes; e ahy vi curar
papagaios e muitos outros pasaros; e como saravam, não
tornavam mais a casa, e andavam no campo: não bebem
vinho, nem vinagre, nem ninpa*, nem orraca, nem vinho de
pasa.
RUANO
E esta openiam da trasmigraçam das almas, tem outros
gentios desta índia?
ORTA •
Si tem; scilicet, os Bramenes do Balagate e Cambaia, e
do Malavar, e outros de que nam tenho certa noticia; e estes
todos lavam o corpo primeiro que comam, e sam mais ve-
nerados que os Baneanes; e estes servem aos reys de vea-
dores da fazenda, de escrivães e recadadores das rendas,
e de embaixadores.
RUANO
E estes que aqui chamaes Bramenes tem estes custumes?
ORTA
Estes, e os da fralda do mar,, que chamam Cuncam, co-
mem todas as mais das carnes, ecepto vaca, e porco criado
em casa; e porém todos tem a trasmigraçam das almas,
* «Ninpa» ou rtipa, uma bebida fermentada, obtida de uma palmeira,.
a Nipa fruticans ; da «orraca» já falíamos em outras notas.
io6 Colóquio trigésimo quarto
e sem isto tem mil cousas dignas de muyto riso, que volas
não diguo, por nam gastar mal o tempo. E os Baneanes je-
juam muyto, e á noute comem pouquo, scilicet, açucare, e
agoa ou leite bebido somente; e ha alguns muyto religiosos,
que jejuam vinte dias, sem comer; como me dixe hum
homem muito digno de fé (2).
RUANO
Diz Avicena* que os esprementadores índios dixeram que
nam comesem leite e peixe, porque causavam lepra; dizei
se o dizem asi os físicos desta terra, ou doutra que saibais.
ORTA
Os Gentios, polia mor parte, comem leite, e alguns peixe
mesturado; e porém não sey se dizem desta mestura tanto
mal como isso; porque os físicos Indianos, que conversei,
nem danam esta mestura, nem a vituperam tanto; quanto
mais que a mor parte dos Gentios comem peixe frito com
manteiga; por onde parece, que este dito de Avicena não
foy senão asi como se achou escrito com a fama pruvica,
e isto podia ser dito por algum físico antiguo, que, por ven-
der milhor seus ditos, dixe que asi o diziam os esprementa-
dores da índia, porque qualquer terra que estava longe e
era inota, chamavam índias os antigos.
RUANO
A vós, como vos he noto, que esta terra em que abitaes
se chama índia, asi polia gente da terra como por nós, e
como sabeis isto? Porque não me parece verisimile o que
diz o escritor da Nova Espanha, dizendo que os índios Oci-
dentaes e os do Brazil se pareciam aos índios Orientaes;
e mais porque a Etiópia era chamada índia dos antigos;
por tanto dai outra rezam porque esta se chama índia, e
se o he também a outra ocidental.
Avie. I, cap. 7 (nota do auctor).
Das mangas 107
ORTA
O VOSSO escritor emitou aos Castelhanos, que fazem as
suas cousas maiores, e por isso enciíem a boca com dizer
las índias Ocideuíales; e não tam somente não sam as vossas
terras índias; antes nunqua forão sabidas dos antigos, nem
o Brazil; se lhe nam quizerem chamar índias, por serem
terras inotas e distantes ; mas esta nossa índia era chamada
asi no tempo de Alixandre, como até agora. Do qual Ali-
xandre elles tem muytas historias mais que nós; e he entre
elles mais celebrado (chamandolhe E^caderJ; quanto mais
que o rio Indo, do qual se chama índia, não está apartado
de Goa mais que 200 legoas, e he chamado da gente da
terra Diul. E mais aos homens desta terra os da Arábia
e Pérsia, se lhes querem perguntar se sam Mouros ou Gen-
tios, perguntamlhe per estas palavras: tu es Moçalmam ou
Indu? E se elle he gentio diz que Indii, e se mouro diz
Alhandulila, que quer dizer graças a Deos*, porque jnoçal-
mam quer dizer salvo; e por aqui vereis quão superbos no-
mes põem os Mahumetistas ás suas cousas; e quanto mais
que a fama comum da Pérsia, e Coraçone, e Arábia e
Turquia, chama a esta terra Industam, e á Arábia Arabis-
tam, e á Cristandade Franguistam, porque istam quer di-
zer regiam, e Indu índia (3).
RUANO
Tudo isso me parece muyto bem, somente o Franguistam;
porque eu cria, com muitos que de cá vam, que se chamavão
Franges os Portuguezes, porque franges quer dizer bou-
bas, e asi em vitupério lhe chamavam asi, como quem diz
os boubentos ou leprosos.
ORTA
As boubas não se chdsnd^m frangue senão fringui; as quaes
boubas nam sam ácerqua dos naturaes da terra infamadas;
Jj J-Xs-O ) ; uma expressão ainda muito usada no árabe vulgar,
alhamdu lillah, louvado Deos.
io8 Colóquio trigésimo quarto
porque de principio as tiverão cá e* no Brazil, e nas vossas
chamadas índias; e não falta quem diz dos vossos estoria-
dores, que vieram das vossas índias, vindo delias os Cas-
telhanos no anno de 1493, hum anno depois do** quê foram
a Nápoles, pêra ajudar na guerra a elrey Dom Fernando de
Nápoles, e que as apegaram a muytas molheres cortesans,
e ellas as apegarão aos Italianos da terra, e dahi lhe cha-
maram morbo napolitano; e vendose os Italianos infamados
com este nome, lhe chamaram enfermidade francesa; e por-
que avia lá muytos Espanhoes e Castelhanos, lhe chamaram
os nossos Portuguezes sarna castelhana, e nisto não ha mais
que falar.
^ RUANO
Pois porque causa lhe chamam aos Portuguezes nesta
terra franp;iies?
-^ ° ORTA
Eu volo direi; porque não tão somente o chamam aos de
Portugal, mas a todos os cristãos do ponente: e a causa
nisto foy porque os primeiros cristãos conhecidos na Ásia
eram Francezes, chamaram á cristandade Franquia; e asi lhe
chamam em Ormuz, e em todas essas terras; e aos que nas
suas terras moram. E eu, quando vim de Portugal, pergun-
tava a hum cristam, que avia sido judeu, sendo espanhol,
e morava no Cairo, quantos christãos avia no Cairo no tempo
que era do Soldam***, e quantos judeus, e diziame tantos
mil cristãos, scilicet, tantos Arábios, e tantos Francos e Ju-
deus; dizia que avia tantos Francos: perguntavalhe eu que
queria dizer Francos, respondiamme que Francos eram cris-
tãos da Europa, e Franquia era Cristandade; e por aqui
faço fim ás vossas perguntas (4).
* Falta a palavra «e» na edição de Goa; mas o sentido, confirmado
pelo que Orta diz em um dos Colóquios seguintes, exige a sua intro-
ducção.
*• Também falta a palavra «do», sendo certo que sem esta palavra
se não percebe a phrase; veja-se a nota (4).
*•* O soberano mameluco do Elgypto independente, vulgarmente
chamado então o Soldam de Babylonia.
Das mangas 109
Nota (i)
A manga é o fructo da Miaiig-ifex-a indica, Linn., uma ar-
vore da família das Anacardiaceae, muito commum na índia, e hoje
cultivada também com frequência nas regiões tropicaes e sub-tropicaes
da Africa e America. O fructo é bem conhecido, e gabado por todos
os que têem visitado as terras em que chega á sua completa perfeição,
particularmente a índia, onde o comem depois de maduro, e se servem
d'elle ainda em verde para preparar diversas conservas (pickles dos in-
glezes), inteiramente análogas ás que o nosso Orta menciona. Os usos
medicinaes dos caroços são também conhecidos; em tempos relativa-
mente modernos, o dr. Kirkpatrik chamou a attenção para as suas pro-
priedades anthelminticas —«mata as lombrigas»—; assim como para
a sua útil applicaçáo nos casos de menorrhagia— «os fluxos» de Orta
(Pharmacopana of índia, So).
Seria inútil accumular mais indicações sobre uma arvore e fructo
extremamente vulgares, e de que tratam muitos livros correntes; mas
devemos dar a seguinte informação interessante acerca de uma das
noticias do nosso Orta. Diz elle, que tinha na sua ilha de Bombaim
\imsi mangueira, a qual dava fructo duas vezes no anno. O conhecido
e erudito escriptor Gerson da Cunha, em uma carta de Bombaim de 3i
de outubro de 1891, enviou-me a copia do trecho de um livro ali pu-
blicado, e que se refere áquella phrase. Depois de transcrever a passagem
de Orta, diz assim:
«É uma estranha coincidência, que o Dr. Birdwood, escrevendo no
Bombay Saturday review, 28 de julho, 1866, diz que : « em Goiaba uma
« famosa mangueira do sr. Hough fructifica duas vezes no anno, uma
«no Natal, a outra na estação habitual das mangas (Maio). A explica-
«ção deve ser, que esta arvore, proximamente aos cinco annos, rece-
«beria alguma grave lesão, no momento das marés do Natal, florindo
« em seguida, e ficando depois no habito de florir e fructificar pelo Na-
«tal». Não deixa de ser curiosa esta repetição moderna de um caso
de parallelismo, determinado por causas physicas, com o que succedeu
ha mais de três séculos e pouco mais ou menos no mesmo solo».
É effectivamente muito curioso, que na mesma região se repetisse
o facto pouco vulgar, mencionado por Orta ; e, qualquer que seja a
sua explicação physiologica, a veracidade absoluta do nosso escriptor
fica mais uma vez demonstrada. D'aqui envio os meus agradecimentos
ao Dr. Gerson da Gunha, que de longe segue com mteresse este meu
trabalho.
Não deixaremos Bombaim, sem notar que Orta falia mais uma vez
da sua ilha (sua por aforamento), dando-nos o nome do rendeiro,
Simão Toscano. Havia effectivamente na índia uma numerosa família
I IO Colóquio trigésimo quarto
de Toscanos, e não é raro encontrar mencionadas em documentos
contemporâneos pessoas d'este appellido. A scena passada com o ren-
deiro mostra-nos bem, como se haviam levado para Goa os hábitos da
antiga vida portugueza. Simão Toscano manda dizer, que, depois de
amarrar a fusta, virá pousar a casa de Garcia da Orta, exactamente
como um rendeiro alemtejano, ao largar a falua no Terreiro do Paço,
vinha pousar a casa do seu senhorio em Alfama ou no Bairro Alto.
Nota (2)
É uma phase nova para nós, esta de Orta nos fallar de systemas
philosophicos, e das suas origens. Seria, porém, um erro querermos
dar ás suas palavras maior significação do que na realidade tem. Pare-
ce-me claro, que elle não havia penetrado, nem tentado penetrar nos
mysterios da philosophia sánkhya, ou da vedánta, ou de qualquer ou-
tro systema hindu, nem procurado com muita attenção inteirar-se das
analogias ou differenças que podiam existir entre a doutrina indiana da
transmigração, a metempsychose grega 1, e a noção egypcia das trans-
formações. Em especial as differenças, recentemente expostas com
muita clareza em um livro portuguez, eram então absolutamente des-
conhecidas, e demasiado subtis para poderem ser devidamente apre-
ciadas (Cf.Vasconcellos-Abreu, A liter. e a relijião dos Árias na índia,
p. ii5 e seguintes).
Orta devia ter sobre estes pontos apenas as idéas geraes e muito
geraes do seu tempo. Conhecia a doutrina corrente na índia, e sabia
da existência de uma doutrina análoga ou igual na velha Grécia e no
velho Egypto. Admittiu que os Baneanes haviam aprendido no Egypto,
como outros admittiram a transmissão da doutrma no mesmo sentido,
ou em sentido opposto: ex Egypto in orientem pervenisse Pythago-
ram . . . itntiio ad Indos penetrasse, et aim gymnosophistis colhiciiliim
fiiisse. Estes ascetas indianos, mergulhados na mais pura contemplação,
despidos de todas as pompas mundanas, Htteralmente despidos, haviam
feito no animo dos gregos uma viva impressão, e não só os philosophos,
senão também os botânicos fallavam d'elles : indorum sapientes, qui nudi
degunt, diz Theophrasto (traducçãoWimmer). Orta via em volta de si
alguns Brahmanes e Baneanes, comtemplativos e semi-nus, tinha pelas
suas leituras noticia dos «genosofistas», e naturalmente identificou-os
— «estes sam». Com o seu habitual amor á verdade, vendo-os mais oc-
cupados de transacções commerciaes que de especulações philosophi-
cas, acrescentou: "posto que agora se deitam mais a serem mercadores
' Orta não falia em Pj'thagoras no texto, menciona-o, porém, no índice explicitamente:
«os genosofistas que guardam o costume de Pitágoras».
Das manffãs 1 1 1
'??
que letrados». A isto e só a isto se limitou a sua incursão no campo
philosophico. No campo puramente religioso nem entrou, e todas as
complicações da mythologia indiana são liquidadas em uma só phrase
um tanto desdenhosa: «e sem isto tem mil cousas dignas de muyto
riso, que volas não diguo por não gastar mal o tempo».
O mais que nos conta dos Baneanes é o simples resultado da sua ob-
servação. Os Baneanes (do sanskrito o{ |U|islH, vanigjana, gente de
negocio, ou mercadores) constituiam uma classe de commerciantes hin-
dus, espalhados por toda a índia, mas especialmente numerosos no Gu-
zerate e seus portos, Diu, Cambaia, Surrate e outros. As necessidades
do commercio levaram-nos também —como Orta diz — a regiões afas-
tadas. Arábia, Pérsia ou Egypto. Quando Vasco da Gama passou pela
primeira vez na costa africana de leste, em Mombaça e Melinde, já en-
controu ali estabelecidos muitos Baneanes, que elle e os seus compa-
nheiros tomaram por christãos : «os christãos que estam n'esta cidade
sam como estantes mercadores». Muito mais tarde. Barros, fallando
d'esta viagem e dos suppostos christãos, identificou-os correctamente:
«entre os quaes vieram certos homens, a que chamam Baneanes, do
mesmo Gentio do Reyno de Cambava». (Cf. Roí. da viagem de Vasco
da Gama, 41 ; Barros, Ásia, i, iv, 6).
Diz Orta, que havia entre os Baneanes «muytas especias»; e não é
fácil saber se se quiz referir a differenças de crença, pois é certo que
alguns eram sectários deVíxnu, e outros seguiam a religião jaina; ou
se falia de castas, por isso que alguns mercadores podiam ser brahma-
nes, não lhes sendo absolutamente vedado o commercio, ainda que
esta occupação era mais própria da casta váixia, á qual devia perten-
cer a maioria dos Baneanes. Orta, em todo o caso, distingue correcta-
mente os Baneanes dos Brahmanes. Posto que ao principio diga "estes
Baneanes ou Bramenes», parecendo assim confundil-os, explica de-
pois que os Bramenes eram mais venerados, e serviam os altos car-
gos do estado. Uns e outros tinham em commum vários hábitos e
crenças, tão geralmente sabidos que nenhuma explicação necessitam;
e unicamente notarei — como uma circumstancia curiosa — que um
d'esses hábitos, o das abluçóes e banhos frequentes, deu origem a pro-
por-se uma etymologia muito singular do seu nome. Diz o padre Vi-
cente Maria, que os portuguezes lhes chamavam Bagnani, pelos muitos
banhos que elles costumavam tomar (Vincenzo Maria, Fza^^/o ai Indie
orientali, 25 1, Roma, 1672).
O respeito pela vida animal, professado pelos Baneanes, e filiado na-
turalmente na idéa da transmigração, respeito em que Orta insiste como
em circumstancia especialmente interessante, é perfeitamente conhe-
cido, e foi notado por um grande numero de viajantes observadores,
antes e depois. O nosso Duarte Barbosa conta a este respeito todas as
historias de Orta e muitas mais: os passarinhos, ratos e cobras, res-
112 Colóquio trigésimo quarto
gatados da morte ; as candeias apagadas para se não queimarem os
mosquitos; e mesmo os parasitas poupados e alimentados. Pietro delia
Valle, no próprio dia em que chegou a Cambaya, foi visitar um hos-
pital de aves, talvez o mesmo que Orta havia visto uns sessenta annos
antes, e encontrou-o cheio de pavões, gallos, patos e pássaros estro-
piados e doentes. Do mesmo modo que Orta, o viajante italiano liga
este respeito pela vida com a doutrina da transmigração, admitte que
os gymnosophistas deviam ser os ioguis hindus, e vae mais longe, di-
zendo-nos que Brahma e Pythagoras eram uma e a mesma pessoa.
Outro viajante celebre, Tavernier, teve também occasião de ver vários
asylos de animaes doentes, nomeadamente um de vaccas e de ma-
cacos em Ahmedabad. Não será necessário accumular mais exem-
plos, para provar que o nosso escriptor é absolutamente verídico no
que conta (Cf. Duarte Barbosa, Livro, 27Ó; P. delia Valle, Foj'íJ^e5, iv,
61, 89, 97; Tavernier, Fq/a^ej, 11, 52).
Nota (3)
Em toda esta pagina, Orta enredou, ut solitus erat, os mais varia-
dos assumptos, alguns dos quaes são curiosos e exigem umas palavras
de explicação.
O nome de índia deriva-se geralmente da palavra sanskritica sindhu,
que significa torrente caudalosa e larga, ou por analogia o mar, e se
applicou especialmente ao grande rio de noroeste, estendendo-se ás
terras que limitava. Sindhu converteu-se em Hindu, e esta forma no
'ivXo; dos gregos, e no Indus dos latinos, chamando- se a terra para alem
do Indus, 'h^vAT, e índia. De modo, que a índia — como diz Orta — re-
cebeu o nome do rio Indo 1. A designação de Índia alargou-se primeiro
a toda a Península, a índia propriamente dita, ou aquém do Ganges,
como a define Ptolomeu; e depois vagamente ás terras alem do Gan-
ges, e mesmo á China. Alargou-se também para occidente, abrangendo
em alguns escriptores a Ethiopia — Indiam omnem plagam ^Ethiopice
accipimus, diz Servius. D'aqui vieram as designações de índia major
e I)idia minor, e uma índia tertia, que incluia ás vezes Zanzibar. A pa-
lavra tornou-se em certos casos tão extensa, que alguns auctores di-
vidiam o mundo conhecido em Europa, Africa e índia, tomando-a como
synonymo de Ásia. Em todo o caso, uma parte da Africa foi abrangida
' Rio Indo a que chamavam também Diul — segundo Orta. Diul era propriamente o
nome da costa em que desemboca o rio, e de um porto na embocadura. Ás vezes appli-
cavam á costa as designações de Diul-Sind, ou Diuicinde, ou Ulcinde, como diz Camões:
Olha a terra de Ulcinde fértil issima.
Das mangas 1 1 3
pelo nome de índia, e é n'este sentido exacta a phrase de Orta : «a
Etiópia era chamada índia dos antigos». Podemos notar, que a divisão
politica das colónias portuguezas, em que todas as possessões da Africa
oriental se achavam sob as ordens do governador ou vice-rei da índia,
dava no tempo de Orta uma certa actualidade áquella antiga extensão
do nome.
Da divisão em Índia major, índia minor, e outras, veiu o habito
de fallar das índias no plural; e quando o nome se deu a terras da
America, distinguiram-se as antigas índias orientaes, das novas índias
occidentaes. Esta ultima designação, que irritava um pouco o nosso
Orta, vinha naturalmente do erro de Colombo. O grande navegador
sempre procurou a índia, e sempre julgou que a tinha encontrado.
Quando depois se reconheceu, que as novas índias eram bem diversas
e bem distantes das antigas, deu-se-lhes o nome mais ou menos apro-
priado de índias occidentaes. Este é o verdadeiro motivo, e não que
se notassem algumas similhanças entre os habitantes do xMalabar, e os
da ilha Espanola ou do Darien. É certo que essas similhanças se no-
taram, como se notaram muitas mais, porque talvez nenhuma outra
questão desse logar a tanto disperdicio de erudição como a da origem
dos habitantes da America, suppondo uns serem descendentes dos car-
thaginezes, outros das dez tribus de Israel que se perderam, e dando-
se-lhes mais algumas ascendências igualmente phantasticas. Se, porém,
se buscaram aquellas similhanças com os habitantes da verdadeira e an-
tiga índia, foi para legitimar o nome já corrente de índias, e não que
da similhança viesse o nome.
Ao mesmo tempo que se buscavam ascendentes conhecidos aos ha-
bitantes da America, procurava-se encontrar nos escriptores antigos
referencias ao Novo Mundo, obedecendo n'este caso, como no pri-
meiro, á idéa religiosa de que todos os homens deviam descender de
Adão, ou antes de Noé. Em livros, escriptos com muito saber e pouca
critica, nós vemos discutir gravemente o que Aristóteles, Séneca ou
Plutarcho disseram das ilhas e do continente americano. O próprio
Oviedo —que Orta conhecia, e é sem duvida um dos historiadores da
America que cita— o próprio Oviedo estava convencido de que Solino
e outros antigos haviam fallado das terras do Occidente. São estas as
opiniões a que Orta se refere, sem comtudo as aceitar, e dizendo pelo
contrario: «nunca forão sabidas dos antigos, nem o Brazil« (Yule
Gloss., 329; Marco Polo, 11, 419, 425; fr. Gregório Garcia, Origen de
los Índios de el Nuevo Mundo e índias occidentales, 24 e seguintes
Madrid, 1729; Oviedo em Ramusio, iii, 65).
Notaremos ainda uma phrase interessante de Orta — a que se re-
fere a Alexandre, ou cEzcader», e ás historias que a seu respeito
corriam no Oriente. É bem sabido, como, parallelamente á verdadeira
historia de Alexandre, se originaram relações da sua vida, mais ou
114 Colóquio trigésimo quarto
menos falsas, mais ou menos revestidas de circumstancias romanescas,
e algumas tomando a forma de puros romances. A partir do Pseudo-
Callisthenes, desenvolveram-se duas correntes d'estas lendas, uma Oc-
cidental, dando logar á Chanson d'Alixandre de Lambert le Court, ás
Chansons de geste d^Alixandre, e a muitas mais composições em prosa
e em verso; a outra oriental e não menos rica. Os próprios historiadores
orientaes, ou que n'essa conta se tinham, alteraram e ampliaram sem
escrúpulos a vida do grande conquistador. Maçudi, por exemplo, conta-
nos de iJjjCw"^! alaskander (Iskandar, Sikandar, ou «Ezcader») as mais
curiosas anecdotas de pura invenção oriental, á mistura com factos reaes
da sua vida; e alarga as suas conquistas até á China eThibet. Os poetas,
e entre elles o celebre Firdusi no seu Livro dos Reis, levaram ainda
mais longe a ficção e o lado romanesco da lenda. Outras composições
versificadas, arábicas ou persas, eram especialmente dedicadas á vida
de Alexandre, e descreviam, por exemplo, a sua viagem a Ceyláo,
onde foi á montanha sagrada adorar a pegada do primeiro homem.
É, pois, certo — como diz Orta — que de «Alixandre elles tem muytas
historias mais que nós».
Esta litteratura oriental era conhecida, mais ou menos completa-
mente, dos portuguezes cultos e instruídos que andaram pela índia,
sobretudo dos que visitaram Hormuz ou ali residiram. Aquella rica
cidade commercial foi um centro de cultura do espirito, onde floresceu
o ensino oral, tanto nos hábitos e na indole dos povos orientaes. Muitos
annos antes de Orta, António Tenreyro contava, como em Hormuz:
« em hum alpendre grande a certas horas do dia pola menhã
e á tarde lê hum mouro velho coronicas antigas, assim de Alexandre
como de outros varões illustres; isto fazem para os mancebos se cus-
tumarem bem.»
Do mesmo Hormuz escrevia Luiz Falcão a D. João de Castro, a i de
fevereiro de 1540, dizendo-lhe : «Alleyxos de carvalho me dixe da parte
de vosa s. que lhe mãodase allyxandre em parsyo, la lho mando haimda-
que has escreturas destes mouros tenho-as por menos autentes que as
nossas». E a 5 de fevereiro do mesmo anno, Garcia de la Penha escre-
via também a D. João de Castro : «Aleyxos de carvalho pedio a elrey
e goazil hemires hum Ivvro da ystoria dalyxandre, com muyto traba-
lho acharão hum que lhe mandão». Como se vê, D. João de Castro
sabia da existência dos códices orientaes relativos a Alexandre, en-
commendava-os para Hormuz, e lá lh'os obtinham os agentes portu-
guezes, embora tivessem duvidas sobre a sua authenticidade.
Os livros de historia geral, por exemplo o de Mirkond, também eram
conhecidos dos nossos escriptores, como João de Barros, ou PedroTei-
xeira, servindo ao ultimo de fonte principal para escrever as suas Rela-
ciones, nas quaes se encontra a versão, ou uma das versões orientaes, da
vida de Ascandar ou Sakandar que es lo que depmos Alexandra.
Das mangas ii5
O que acabamos de dizer é mais que sufficiente para mostrar, como
Orta pôde facilmente alcançar as suas noticias de «Ezcader», e da lit-
teratura especial que lhe dizia respeito (Cf. Maçudi, Prairies d'or, ii,
242 a 278; Itinerário de António Tenreyro, 8, edição de 1829; Pedro
Teixeira, Relaciones, 88 e seguintes ; Vida de D. João de Castro, edição
de Fr. Francisco de S. Luiz, a p. 509).
Nota (4)
Nas notas ao Colóquio segundo, dissemos já como os mussulmanos
deram o nome de Rumí aos christãos do Império byzantino, e o de
Farangi aos do Occidente, d'onde depois vieram as conhecidas desi-
gnações de Frangues, Francos e Franquia. O nome era sabido dos nos-
sos portuguezes muito antes de Orta, pois o auctor do Roteiro da via-
gem de Vasco da Gama já o emprega:
« dissera que taees homens nom podiam ser senam francos,
que asy chamam a nós outros em estas partes.»
É certo, que sem referencia especial a uma doença e a uma doença
infamada, o nome comportava na boca dos orientaes um certo des-
prezo, pois os christãos foram sempre mais ou menos cães aos olhos
dos mussulmanos, o que de resto aquelles lhes pagavam na mesma
moeda.
A propósito de Frangues, Orta toca de leve em uma das questões
mais debatidas e calorosamente controvertidas no seu tempo, e sobre-
tudo posteriormente — a origem da syphilis. Menciona, sem a comba-
ter ou acceitar, a opinião dos que consideravam a doença como nova,
e a suppunham importada da America. Os factos a que se refere, pas-
saram-se, segundo alguns diziam, do seguinte modo : os companheiros
de Christovam Colombo haviam regressado no anno de 1494 (e não
1493) da sua segunda viagem á Espanola, contaminados por um novo
e grave mal, adquirido ali no contacto com as mulheres indígenas :. por
esse mesmo tempo, Carlos VIII de França invadia a Itália, atravessan-
do-a de norte a sul, e ia cercar Nápoles, onde se encerrara Fernando II,
o «Dom Fernando» do nosso escriptor: no anno seguinte, os reis ca-
tholicos enviavam, em soccorro de Fernando II, uma armada comman-
dada por Gonçalo de Córdova : foi então, que os soldados hespanhoes
infeccionados communicaram o mal a algumas mulheres publicas, e
estas aos italianos, e também aos francezes do exercito invasor, os
quaes, no seu regresso, o trouxeram para França, espalhando-se depois
por toda a Europa. Tal era, reduzida aos seus traços mais geraes, a
exposição dos factos, como a faziam os partidários da origem americana
da syphilis, e da sua importação na Europa nos fins do xv século. Nin-
guém naturalmente queria a responsabilidade da nova, grave e repu-
ii6 Colóquio irigesimo quarto
gnante enfermidade, e por isso, de ter rebentado em Nápoles lhe cha-
maram morbo napolitano, de se ter generalisado por intermédio dos
francezes morbo gallico, e de se ter desenvolvido primeiro entre os
hespanhoes morbo hispânico, ou — como diz Orta — sarna castelhana.
Este sentimento reconhece-se em todos os escriptos d'aquella epocha,
e mesmo no titulo que o erudito Nicolau Leoniceno deu ao seu tratado:
De epidemia qitam Itali morbum gallicum, Galli verum morbum neapo-
litanum vocant. Também os christaos lhe chamaram ynal dos turcos, e
os mussulmanos mal dos frangues, o que era a simples adopção de
morbum gallicum, e de mal fran^^o^o, mala Franc^os, como se encontra
escripto em vários opúsculos do tempo. Orta adopta para a doença a
orthographia /riH^ui, que encontrámos também em Pedro Teixeira, na
seguinte passagem : lo dijen los Parsios doneyfranguy, que quiere
decir mal o sarna de los Franceses Los canarines nacion oriental
en la índia, corrompiendo esto un poço, dijen a los Portugueses y a
los christianos blancos de la Europa Franguy y a las bubas fringuy.
Orta podia ter encontrado a versão da origem americana em vários
escriptos médicos, já publicados no seu tempo: no opúsculo de Leo-
nardo Schmauss, De morbo gallico (i5i8); nas obras de António Musa
Brasavola, um dos seus auctores validos; ou no livro de Dias de Isla>
Contra las bubas, livro dedicado a D. João III de Portugal, e que, por-
tanto, devia ter attrahido a attenção dos médicos portuguezes. Mas a
origem mais provável, ou quasi segura, da sua informação é o livro de
Oviedo. Gonçalo de Oviedo foi um dos primeiros a contar detidamente
os factos relativos á introducção da doença na Europa, pouco mais
ou menos como os indica Orta; alem d'isso nós sabemos que Orta
conhecia a sua Historia general de las índias, porque a cita em um
dos Colóquios seguintes, e vemos como n'este Colóquio nos diz expli-
citamente, que encontrara a noticia em um historiador hespanhol — da
nacionalidade de Ruano — e não em um livro de medicina. Parece-me
claro, portanto, que elle repetia Oviedo.
A noticia de Oviedo não era exacta. Em muitos livros correntes de
medicina, se podem encontrar numerosas citações, pelas quaes se vê
bem como a syphilis existia no Velho Mundo de antigos tempos, em-
bora houvesse nos fins do século xv uma recrudescência de gravidade
e frequência d'aquella enfermidade. De outro lado, o exame minucioso
dos factos históricos, relativos á invasão da Itália por Carlos VIII, e a
comparação attenta das datas, provam até á evidencia que as cousas
se não podiam passar como as conta Oviedo, e como acima as resu-
mimos. Mas é certo que a versão de Oviedo e de outros escriptores
d'aquella epocha foi recebida durante muito tempo; foi admittida por
um dos médicos contemporâneos mais notáveis, Gabriel Fallopo; e
ainda foi energicamente defendida muito depois por médicos erudi-
tíssimos, como Astruc. Ficou mesmo clássica, passando para o dominio
Das mangas 117
da litteratura. No Candide de Voltaire, o dr. Pangloss, fazendo a pi-
caresca genealogia da doença, que o tinha posto ás portas da morte,
diz que o primeiro da serie 1'avait eu eti droite ligne d'im des compa-
gnons de Cristophle Colomb. O que acceitaram Fallopo e Voltaire,
podia bem ter acceitado Garcia da Orta; mas a verdade é que elle não
acceita aversão — cita-a, e nada mais. Tem mesmo uma phrase, que
se pode interpretar no sentido opposto: «de principio as tiverão ca».
Essa phrase, porém, será mais opportunamente discutida quando che-
garmos ao Colóquio quadragésimo sétimo.
(Cf. Leoniceno, Schmauss, etc, em Aloysio Luisino, Aphrodisiacus,
sive de lue venérea, ed. de 1728, dita de Boerhaave, p. i5, 383, e ou-
tras; Oviedo, em Ramusio, iii, 54, 76; Teixeira, Relaciones, 35; Follin,
Traité de path. externe, i, 6o5 ; Renault, La Syphilis au xv^ siècle, Pa-
ris, 1868.)
COLÓQUIO TRIGÉSIMO QUINTO
DA MARGARITA OU ALJÔFAR, E DO CHANQUO
DONDE SE FAZ O QUE CHAMAMOS MADREPÉROLA
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Humas das pedras medicinaes he o aljôfar'^ ou seja cha-
mada pedra ou não, ja está em uso chamarse asi na física.
ORTA
Chama-se perla em castelhano, e pérola em portuguez, e
em latim nnio: e isto no aljôfar grande, porque o meudo
chamase em latim margarita; e em arábio lulu, e em pér-
sio; e nas outras gerações da índia, rnoti; e em malavar
mutu; e em portuguez e castelhano aljôfar.
RUANO.
Donde se derivam estes nomes?
ORTA
Dos Latinos e Castelhanos e Portuguezes vos darei logo
rezão, e dos outros perdoarmeis, porque o não sei: perla
Q pérola se dizem áç. prefer o, preferes, porque tem imminen-
cia, e he perferida a todas as outras do seu género: unio
se diz, porque de maravilha se acham duas conformes em
grandeza e figura, e em ser viva: aljôfar se diz, porque em
arábio quer dizer de Julfar, que he o principal cabo donde
o ha qua, scilicet, o milhor he de Julfar, que he hum porto
na terra da Arábia confim ao estreito que chamam de Or-
muz, e o milhor he o pescado em Barem, Catifa, Julfar,
Camarão, e outros portos desta costa: e porque o mais noto
a nós era Julfar, e os Espanhoes usamos da lingoa arábia,
o chamamos asi, casi trazido do porto de Julfar.
120 Colóquio trigésimo quinto
RUANO
Folgo de saber esta diri vacam: e porque chamam orien-
taes a estas pérolas boas, por ventura porque eram de cor
dourada?
ORTA
Nam, senão porque vinham da banda do Oriente, e porque
este estreito de Ormuz era oriental a respeito da nossa
Europa, o chamam asi.
RUANO
Ha em mais cabos, que neste, o aljôfar?
ORTA
Este he o milhor e mais grosso, e também o ha cá do cabo
do Comorim até á ilha de Ceilam. Esta pescaria he delrey
nosso senhor, e ainda que lhe podia render muyto, por ser
tam zeloso da fé gasta mais do que lhe rende em mais de
cinquenta mil cristãos, que se fizeram em o principio ; e foi
feita esta cristandade por hum varam, nam menos vertuoso
que letrado, chamado Miguel Vaz, vigairo geral que foy da
índia; e foy depois acrecentada esta cristandade por Mestre
Francisquo, teólogo, que foy principio desta santa Compa-
nhia, juntamente com o Padre Ignacio, cujas virtudes e san-
tidades, se se ouvessem de escrever, se faria hum grande
livro (i). E agora esta cristandade he acompanhada e favore-
cida poUos padres e irmãos da Companhia de Jesus, e está
decorada por martírio de alguns religiosos desta sancta Com-
panhia. Este aljôfar, que nesta pescaria se pesca, he mais
meudo, porém ha entre este algum muyto bom, e também
o ha grosso; mas polia maior parte não he tam grosso como
o de Barem e Julfar, nem de tanto preço; ha o também
em Burneo, e ainda que he muyto grosso, não he de tam
boa feiçam; vem também da China, ainda que não he tam
bom. E quanto he ao que vem das terras e ilhas do vosso
rey, e do que ha em Europa, vós o sabeis milhor que eu;
e porque eu não sey contradizer, sem craramente ver rezam
pêra isso, não diguo que os escritores do Peru dizem mal
Da margarita 121
em dizer que ha pérolas verdes, e outras muytas cousas
nesta matéria.
RUANO
Vem tanto e tam bom aljôfar dessas terras que dizeis,
que meu irmão, o feitor, traz soma delle pêra vender cá,
e diz que dobrará o dinheiro duas vezes nelle; e portanto
não sei como dizeis que he mercadoria pêra Portugal o al-
jôfar.
ORTA
Tudo pode ser verdade; porque o aljôfar que de cá vai,
e as pérolas, he grosso e redondo, e em toda perfeiçam : e
o que de lá vem das índias sam huns barrocos mal afeiçoa-
dos, e não redondos_, e com aguas mortas.
RUANO
E valem cá mais os máos que os bons?
ORTA
Não, senam a má feiçam delles recompensase com mais
pouco preço cá na índia que em Espanha, porque em Es-
panha, de redondo a não redondo, de vivo a morto, de boa
feiçam a má, vai grande deferença, que a pérola que tem
estas perfeições, se vai cá dez, a que não as tem vai lá dous
ou hum, e cá não he asi acerca dos Canaras, que sam os
habitantes em Bisnager e seus reinos, senão, se a de toda
perfeiçam vai dez, a imperfeita, no mesmo peso, vai cinco
ou quatro: de maneira que pôde vosso irmão dobrar a mer-
cadoria cá, e levando aljôfar da índia ganhar lá dinheiro.
RUANO
Bem está, mas eu sam físico, e quero saber como se pes-
cam, e se usam cá delias os físicos nas mezinhas; e se as
ha furadas e não furadas, e per natureza sem arte, como
alguns dos nossos doutores escrevem, dizendo: toma mar-
garitas furadas e não furadas. E asi me dizei, se nisso não
levardes trabalho, qual he a múov pérola que vistes, e o ai-
122 Colóquio trigésimo quinto
jofar usado na botica donde vai, e o preço que vai a onça
delle.
ORTA
Achase nas ostras, que pescam nos tempos já sabidos
pêra isto; e as ostras que andam no mais alto, trazem mais
grosso aljôfar; e as que andam em mais baixo pego, tem
o mais meudo; e põem as a secar, e abremse; e na carne
delias acham o aljôfar, depois da carne ser sequa algum
tanto; e achase em huma ostra, ora muytas, ora poucas,
segundo a concha he; e não já huma só, como alguns dixe-
ram, em que acham mais de duzentos grãos. Dizer que ha
aljôfar furado per natureza, foy querer falar de graça, e
fingir fabulas ao sabor do seu pádar; e nas mezinhas usam
deste aljôfar os Gentios algum tanto, porém os Mouros
usam muyto delle em todas as mezinhas cordiaes, asi
como nós usamos. E as milhores destas ostras pêra dar os
aljôfares sam humas ostras lisas e brancas, a que a gente
da terra chama cheripo; e fazem delias colheres e búzios
pêra beber; e também nas nossas ostras, que comemos,
ha aljôfar, mas não he tam bom. E a maior pérola, que
se acha no cabo de Comorim, he do pezo de cem grãos de
trigo, e vi outras mu3'to maiores vindas de Burneo, mas não
de tam boa feiçam; e outra de qua, que pezava loo e 6o*
grãos de trigo, ou 40 quilates, que he o mesmo. A do pezo
de 100 grãos de trigo, que sam 25 quilates, a que chamam
calanja, vai mil e 600 cruzados. Nos mais preços vos não
falarei, porque milhor he ser filosofo que mercador. O al-
jôfar se joeira ou pineira em humas pineiras de latam, e as
que per hum buraco saem, valem a tal preço a oitava; e as
que não podem sair per elle, nem per outro mais grosso,
valem a mais preço; e as que saem per outro buraco mais
grosso valem a muyto mais; e os mercadores desta terra
tem estas joeiras, e per ellas fazem seus preços; e esta he
huma conta muyto sutil, que vosso irmam folgará de saber,
» (Sic), isto é 160, como se vê da correspondência com o quilate.
Da margarita i23
porque tem humas regras muyto arteficiosas; e o aljôfar,
que he tam meudo, que se nam pôde furar, vendemno pêra
botica, e para o levar a Espanha: vai uma onça menos de
hum vintém (2) .
RUANO
Desfalece o aljôfar per tempo no pezo? porque me dizem
que si, e por isso nam era bom pêra tizouro.
ORTA
Si, desfalece \ e porém nam o esprimentei; e o que se diz,
e o que se tem por mais certo, he que o aljôfar pescado
em mingoante da luna he o que falece per tempos, e o outro
não, e isto se tem per muyto averiguado.
RUANO
Se este aljôfar não estiver tam limpo e pulido, como fa-
remos que tenha viveza e limpeza e polimento? Dizeime
isto se o sabeis, porque nam sois tam filosofo como mos-
traes, que também quereis ter pérolas e pedras, como os
outros.
ORTA
Si sei, e dirvoloei. Tomai aroz mal pisado e sal, e esfre-
gaio com elle muyto, e ficará tam limpo, como o milhor
do mundo.
RUANO
E o outro de que fazem as cousas, que chamamos de
madrepérola, he esse que chamaes cheripo?
ORTA
Nam, senam outro que chamam chanquo, de que fazem
cofres e mesas e contas; porque, ainda que por de fora
seja tosco, pella parte de dentro he muyto liso e fermoso.
He este chanco mercadoria pêra Bengala, e ganhavão noutro
tempo mais do que se ganha agora; e estes chanquos gran-
des, a que nós chamamos búzios, que vam a Bengala, la-
vranse lá muyto fermosamente; e ficam muyto lisos e bran-
cos; e isto se gasta em pouca cantidade, porque o mais se
124 Colóquio trigésimo quinto
gasta em manilhas e em outras peças. E foy em Bengala
até agora hum custume, que nenhuma pessoa onrada e de
preço, que fosse virgem, pudexe ser corrompida, senam
tendo manilhas de chanquo postas nos braços: e depois que
vieram os Patanes se perdeo este custume algum tanto, por
onde o chanquo vai agora mais barato; e vedes aqui hum
taboleiro de tabolas de emxadrez, de que vos faço serviço,
pêra verdes o chanquo á vossa vontade (3).
RUANO
Mercê muyto grande he pêra mim ; porém me dizei estas
taboas pretas do emxadrez de que sam?
ORTA
De tartaruga •, e também se fazem desta tartaruga cousas
muyto frescas; e não fallo nellas, porque não he cousa medi-
cinal; porque falámos já muyto nestas cousas, que não fazem
caso a física.
Nota (i)
MiguelVaz foi uma figura bastante saliente e bastante conhecida para
nos dispensar de longos esclarecimentos. O vigário geral representou
um papel importante na administração dos negócios ecclesiasticos da
índia, substituindo a sua enérgica vontade ás frouxas e bondosas reso-
luções do bispo D. João de Albuquerque, e deixando-se por vezes ar-
rastar pelo seu zelo inconsiderado a actos de prejudicial intolerância.
Toda a historia de Miguel Vaz, da sua vinda a Portugal, da sua volta
á índia com instrucções de D. João III e breves do papa, das devassas
que ali fez a respeito de gentios e christãos novos, da sua morte quasi
repentina e attribuida ao veneno e á vingança dos perseguidos, toda
esta historia seria sem duvida interessante; mas, suppondo mesmo que
tínhamos elementos para a fazer, ficaria absolutamente deslocada
n'estas notas (Cf. Garcia da Orta e o seu tempo, i6i e 194; e também
Couto, Gaspar Corrêa, a Vida de D. João de Castro, na edição de
Fr. Francisco de S. Luiz, etc).
Quaesquer que fossem os erros de MiguelVaz, elle era extremamente
zeloso pela propagação da fé; e, em tempo do Governador D. Estevão
da Gama, iniciou as missões na costa de leste, junto ao cabo Comorim,
Da margarita i25
mandando lá o seu grande amigo, mestre Diogo de Borba. Gaspar
Corrêa, do mesmo modo que Garcia da Orta, attribue a Miguel Vaz a
gloria de ter começado aquellas missões :
«N'este tempo (1544) o Rey do cabo de Comorym, que se chama
o Rey grande (o de Travancore), teve guerra com outro seu visinho
que he Rey das terras d'alem do cabo, da christindade de Manapá e
Totucury, que Ia fez Miguel Vaz, vigairo geral da Índia, que então
era ...»
Manapá pôde identificar-se com uma localidade, que tem o nome
de Munahpaud em algumas cartas modernas; e Totucury é conhecido
pelo mesmo nome de Tutikorin, ficando mais ao norte, alem da foz do
Tamraparni, e da (então) importante villa ou cidade de Kayal (Cael de
Barbosa). Os habitantes das villas e lugares d'aquelle littoral, de casta
Parava (os Paravas de Diogo do Couto), occupavam-se principalmente
na pesca das pérolas, ou na sua própria costa de Tinnevelly, ou na
costa fronteira de Ceylão, sendo Kayal ou Cael, já no tempo de Marco
Polo e ainda no tempo de Duarte Barbosa, uma villa rica, centro
d'aquella industria e commercio. Os nossos portuguezes chamaram,
pois, costa da Pescaria a todo o littoral da índia, que limita o golfo de
Manaar, desde o cabo Comorim até Beadala ou Vedãlay e ilha de Ra-
meseram (Cf. G. Corrêa, Lendas, iv, 408; Couto, Ásia, vi, vii, 5; Yule,
Marco Polo, u, 358; Barbosa, Livro, 353).
Foi esta costa da Pescaria um dos primeiros campos de evangelisação
de S. Francisco Xavier — a quem Ofta chama «mestre Francisquo».
Chegado á índia com o governador Martim Affonso de Sousa, seguiu
cinco me^es depois para o sul, estendendo as suas missões até Bea-
dala, e até á ilha de Manaar, e baptisando — segundo diz Lucena — por
aquellas aldeias de pobres pescadores mais de quarenta mil pessoas,
o que não anda longe dos cincoenta mil christãos, de que falia Orta.
Nada mais será necessário dizer do iliustre apostolo do Oriente; e só
notarei, que os Colóquios seriam incompletos, se n'elles se não encon-
trasse esta menção, ao mesmo tempo familiar e respeitosa, do grande
«mestre Francisquo».
Nota (2)
Orta toca em muitas particularidades interessantes a respeito de
pérolas, e o Colóquio exige uma nota um tanto longa.
Encontram-se pérolas no interior de vários molluscos; mas as pé-
rolas finas dos mares orientaes e tropicaes, aquellas de que Orta falia,
formam-se unicamente na espécie Mieleagi-ina iiiarg-ariti-
fex*a, Linn. Os nomes mencionados no Colóquio são exactos, tanto
os mais vulgares, pérola ou perla, unio, jnargarita, e aljôfar, como os
menos geralmente conhecidos, o arábico J^J), lulu, o hindustani J <^,
126 Colóquio trigésimo quinto
muti, e o tamil mutu, devendo derivar-se estes últimos do sanskritico,
Hrtil, muktâ. Se os nomes são exactos, as etymologias podem dar logar
a varias duvidas. Derivar pérola (perla na baixa latinidade) de prcefero,
poderá parecer um tanto forçado; mas será mais uma derivação, a
juntar a muitas, que se encontram em livros correntes, como o de
Bluteau ou o de Littré, e todas são pouco satisfatórias. A etymologia
de unio é da responsabilidade de Plinio : in tantum ut niilli duo
reperiantur indiscreti: unde nominum unioiium romance scilicet impo-
suere delicice (ix, 56, ed. Littré). A de aljôfar é falsa, embora enge-
nhosa; aljôfar não se deriva do logar em que se pescava, ,'jdss., Djol-
far, e é simplesmente ^asr'!, al-djauhar, que significa do mesmo modo
pérola (Dozy, 145; Sousa, 49).
Das localidades, apontadas por Orta, e onde se pescavam pérolas,
«Barem, Catifa, Julfar, Camarão», as três primeiras estavam situadas
na costa da Arábia oriental ou junto d'ella, e apenas Camarão, de que
logo fallaremos, ficava distante d'ali. Ao longo da costa arábica do
golfo de Oman e do golfo Pérsico pescavam-se pérolas em muitos
pontos e desde tempos muito antigos', sendo bem conhecidas as pes-
carias de Djolfar, de que falia Edrisi, e particularmente nomeadas as da
ilha de Bahrein, e as de Catifa, ou el-Qatif, porto na terra firme da
Arábia em frente de Bahrein, do qual já se occupa Maçudi no x século.
Dos no.ssos portuguezes, António Tenreyro é um dos que descrevem
mais detidamente estas pescarias do golfo Pérsico, mencionadas tam-
bém pelo Camões:
Attenta a ilha Barem, que o fundo ornado
Tem das suas perlas ricas, e imitantes
A côr da Aurora ;
As pescarias do golfo Pérsico estiveram mais ou menos sujeitas aos
portuguezes, emquanto estes occuparam Hormuz, sendo as barcas de
pesca obrigadas a tirar uma espécie de passaporte, pelo qual pagavam
um certo direito. AfFonso de Albuquerque, com o seu génio dominador
e inventivo, tinha mesmo pensado em tornar mais directa a sua inter-
venção, tomando conta d'aquella industria, e transformando-a pelo
emprego de dragas e redes de arrastar. Em carta de 20 de outubro do
anno de i5i4, dizia elle o seguinte:
«babarem, senhor, he cousa muito grosa e muito Rica: ha Pescaria
do aljôfar não he nada (é fácil) d asenhorear porque sam homeens que
o pescam jemte de trabalho e mizquinha, que vem aly ganhar sua vida
' Sobre o conliecimento que houve das pérolas nos antigos tempos, pode ver-se I.ocard
Hist. des mollusques dans 1'antiqiuíé, p. iSg e seguintes.
Da margarita 127
cadano, e parece me que pescandose com Rastos de lá desas partes,
que se dobraria o proveito.»
Diz Orta que o aljôfar do golfo Pérsico era o «milhor e mais gros-
so». Um viajante, que percorreu repetidas vezes a Pérsia e a índia,
menos de um século depois de Orta, e tinha especial auctoridade no
assumpto, porque era joalheiro e negociante de pedras preciosas, João
Baptista Tavernier, confirma esta opinião até certo ponto, dizendo-nos
que aquellas pérolas eram geralmente mais grossas que as da índia e
de boa forma, comquanto um pouco amarelladas. A ma\or pérola que
viu, propriedade do Scháh da Pérsia, procedia justamente da pescaria
de Catifa; e outra que, embora não fosse muito grande, elle considerava
a mais perfeita de quantas existiam, pertencia ao Imam de Mascate, e
devia também proceder d'aquella costa (Cf. Edrisi, Géogr. i, 157; Ma-
çudi, Prairies d'or, i, 240, 828; Tenreyro, Itin., cap. 49; Affonso de Al-
buquerque, Cartas, 264; Les six voyages de Jean Baptiste Tavernier,
II, 36o, Paris, 1679).
Orta cita «Camarão» de envolta com Julfar e Catifa, como se ficasse
nas proximidades, o que não é assim. Camarão era uma ilha do Mar
Vermelho, junto da qual também houve pescarias de pérolas, embora
muito menos conhecidas e celebradas. Affonso de Albuquerque, fal-
lando de uns prisioneiros que fez, estando na mesma ilha de Camaram,
diz o seguinte: «amtre os quaees se tomou huum homem hon-
rado, que foy xeqe e senhor da ilha de dalaca e de meçuá e das ilhas
da pescaria do aljôfar». Quasi pelo mesmo tempo, Thomé Pires dava
noticia d'estas pescarias de pérolas do marVermelho, na sua conhecida
carta a D. Manuel, enviada de Cochim a 27 de janeiro de i5i6. Diz
assim : «ho aljoufar nacee nestas partees em dalac dalac sãa ylhas
dez legoas a la mar do porto de meçua, terra dabixia ou a elle sojeyta
no mar Roxo, sesemta legoas da entrada e menos ». Como se vê
d'estas cartas de Albuquerque e de Pires, nas costas da Abyssinia e da
Arábia, e nas ilhas intermédias do grupo de Dahlac e de Kamaran al-
gum aljôfar se encontrava por aquelles tempos, e d'este falia o nosso
escriptor (Cf. Affonso de Albuquerque, Cartas, 218; Thomé Pires, na
Ga^. de Pharm. (1866), 41).
Ao contrario das pouco conhecidas pescarias da ilha de Camarão, as
do sul da índia e Ceylão tern sido descriptas largamente, e por varias ve-
zes— pelo nosso portuguez João Ribeiro, por Sir J. E.Tennent, não fal-
lando de muitos outros. Estavam situadas no Golfo de Manaar, e — pelo
que diz Simão Botelho — parece que havia duas epochas de pesca; uma
em que se pescava na costa da índia, chamada costa da Pescaria (Ca-
lecaré de Simão Botelho, e Quilicare de Barbosa), entre o cabo de
Comorim e a ilha de Rameseram; a outra em que se pescava no sitio
chamado Caradiva da costa fronteira de Ceylão. Esta pesca do lado de
Ceylão era no emtanto a mais importante, como explica muito clara-
128 Colóquio trigésimo quinto
mente Thomé Pires, na sua carta já citada: «geralmente dizem aljou-
fare de caile (Kayal) porque de caile ho vãa lia pescar; mas pescase
pegado a terra da ylha de ceylão». No tempo de João Ribeiro, já a
praia de Aripo em Ceylão era, como continuou a ser, o principal
centro onde se reuniam as champanas dos mergulhadores, para d'ali
partirem todas as manhãs nos mezes de março e abril em busca dos
bancos de ostras, que Orta chama cheripo, e Ribeiro chipe (de chippi,
ostra em tamil). A descripção d'esta pesca tem sido feita tantas vezes,
que a não repetirei aqui, remettendo o leitor para alguns dos livros
abaixo citados. Unicamente notarei, emquanto á qualidade das pérolas
do golfo de Manaar, que Tavernier concorda com Orta, atíirmando
serem muito boas, brancas, de boa forma e boa agua; mas pequenas,
excedendo raras vezes 3 a 4 quilates, e não passando em geral de al-
jôfar meudo.
Estas pescarias de Manaar pertenciam a Portugal, ou, no modo de
dizer do tempo, a «elRey nosso senhor»; mas rendiam-lhe menos do
que lhe deviam render por elle ser «tam zeloso da fé«. Explica-se esta
phrase de Orta, primeiro porque directamente se fariam despezas avul-
tadas nas missões d'aquella costa; segundo porque o rendimento dimi-
nuía á medida que o numero dos christáos augmentava. Ao principio,
o capitão da pescaria cobrava de direitos por conta do Rey de Portugal
o mesmo que os pescadores pagavam antes ao «senhor da terra», isto
é «setenta e cinquo mil ftanões, de dez ffanões o xerafim». Mas quando
os pescadores se começaram a fazer christãos, os missionários e par-
ticularmente os jesuítas intervieram em seu favor, de modo que «ffoy
a pescarya demenuindo e rendendo muito menos.» É isto o que nos diz
Simão Botelho, que de modo algum se conformava com a intervenção
dos padres na administração da fazenda. Comprehende-se assim, que
ali se gastasse mais do que se cobrava, como aflfirma Orta. De uma
carta de Felipe II para o vice rey da índia, escripta no anno de i586,
se vê que as cousas continuavam no mesmo estado; e ali se diz, que
se não podiam pagar as despezas a fazer com alguns navios de remo,
pelo não «soprir o rendimento da pescaria, por não emportar mays
huns anos por outros que nove myl pardáos, valendo as despezas que
fazião em cada hum ano de xbiii (18), a xx mil pardáos». (Cf. João Ri-
beiro, Fatalidade, cap. xxii; Tennent, Ceylon, 11, 56o e seguintes; Ta-
vernier, 1. c. 36o a 370; Tombo, 244; Thomé Pires 1. c. ; Ar eh. por t.
oriental, fase. 3.°, 61).
Em «Burneo» — segundo diz Orta — encontrava-se aljôfar, grande
mas não de «boa feiçam». E.sxa% pérolas não deviam vir propriamente
de Borneo, e sim das ilhas do archipelago de Sulu ou Suluk, que se
extende da extremidade oriental de Borneo até Mindanáo. Duarte
Barbosa falia de Sulu, sob o nome de Solor, e concorda inteiramente
com a noticia de Orta: « e asy muyto aljôfar que os moradores
Da margarita 129
apanhaom, e boas pérolas perfeitas em coôr e nom em redondeza».
É de notar, que a traducção italiana de Barbosa pelo Ramusio — citada
por Crawfurd — não é exacta, e diz que as pérolas eram fine cosi in
colore, come in ritotidet^a. Não era assim, Barbosa havia dito que não
eram perfeitas em «redondeza», como Orta disse que não eram de boa
«feiçam» (Cf. Duarte Barbosa, Livro, SyS; Ramusio, i, 32o; Crawfurd,
Dct.^ V. pearl e SoolooJ.
Pelo que diz respeito ás pérolas da China, encontrámos a confirmação
da noticia de Orta no bem conhecido livro de um dos seus compatriotas
e contemporâneos. O illustre Fernão Mendes Pinto, navegando com
António de Faria, foi-se encontrar na bahia de Camoy da ilha de Ay-
nam, com uma grande armada de pescadores de pérolas chinezes, e
conta detidamente o que lá viu e ouviu. Ainda que haja alguma exa-
geração no numero de gente e barcos, que, segundo elle diz, ali an-
davam pescando e guardando a pesca, devemos admittir que aquella
industria se exercia então com actividade nos mares da China. Muitos
annos antes, Thomé Pires fallou d'este mesmo aljôfar de «hainan»,
explicando com muito correcta geographia como: «hainan sam ylhas
antre o Reyno de cauche (Cochinchina). e a china». O aljôfar d'ali
vendia-se nos mercados da índia, segundo se vê da Lembrança das
cousas da Ymdea; e o omnisciente Duarte Barbosa também conhecia
as pérolas da China, notando como Orta que não eram muito boas :
« não saom perfeitas em redondeza» (Cf. Fernão Mendes Pinto,
Peregr., cap. xuv; Thomé Pires, 1. c; Lembrança, nos Subsidias, Sg;
Duarte Barbosa, Livro, 3'j5).
Por ultimo, Orta falia das pérolas da America, muito ao de leve, e
como de cousa distante, da qual pouco sabia. No emtanto a sua menção
tem um ponto interessante, pois nos dá meio de saber quem era o es-
criptor do Peru, ou pelo menos um dos escriptores, que elle cita habi-
tualmente. Oviedo, fallando das pérolas negras e coradas, diz que se
encontravam algumas (cito pela versão) quasi a^^urre^ altre pendono ai
verde. Aqui temos as pérolas verdes, e a prova de que Orta citava
Oviedo (Cf. Ramusio, iii, 168 v.").
João Baptista Tavemier diz-nos, que Goa tinha sido antes do seu
tempo — era, portanto, no tempo de Orta — um dos grandes mercados
do Oriente para pedras preciosas e pérolas. Ali vinham ter as mais no-
táveis de Bahrein, Manaar e outras pescarias orientaes, e algumas da
America, e ali concorriam baneanes, negociantes do Occidente e la-
pidarios venezeanos e florentinos. Não nos deve, pois, surprehender
que Orta tivesse occasião de ver varias pérolas de notável valor. Pé-
rolas, como as que cita, de ^S e 40 quilates não são vulgares, com-
quanto não sejam absolutamente excepcionaes. Tavernier viu uma do
Scháh da Pérsia, que custara 1:400:000 libras (livres francezas) e era
muito maior; e viu algumas entre as jóias do Grão-Mogol, Aureng Zeb,
i3o
Colóquio trigésimo quinto
pesando 6o e 70 ratis^. EUe próprio vendeu ao tio do mesmo Aureng
Zeb uma parola americana, do peso de 55 quilates.Todas esxas pérolas
eram regulares, porque das irregulares ou barrocos muitas havia de
peso superior, sem por isso terem valores correspondentes.
Acabámos de ver, como Tavernier havia vendido na índia uma pé-
rola americana; e assim como Orta, elle trata de explicar aapparente
contradicção de se levarem pérolas para o Oriente, trazendo-se muitas
de lá; dá-nos, porém, motivos um pouco diversos, dizendo que os reis
e potentados da índia pagavam melhor, sobretudo quando se tratava de
peças pouco vulgares. Naturalmente o aljôfar meudo não se levava para
lá da America, e o do Oriente vendia-se em Goa por preços variados e
não muito altos, depois de dividido em «pineiras» ou crivos de latão.
Os preços, é claro, variavam segundo a dimensão. Na curiosa miscella-
nea de apontamentos diversos, que constituem a Lembrança das cousas
da Ymdea no anno de i525, encontram-se tabeliãs d'estes preços, por
onde se pôde ver a sua variação : assim o aljôfar de mil a mil e duzentos
grãos em matical podia valer onze até treze fanóes os dez maticaes, em-
quanto o de oitenta a cento e vinte grãos por matical valia cincoenta
fanóes os dez maticaes.Tudo isto podia dar logar ás contas complicadas
a que Orta allude; mas quando elle falia de uma «cojita muyto sutil»,
com «regras muyto artificiosas», creio que se quer referir ao chego. O
chego, usado unicamente em Goa, e unicamente no commercio áas pé-
rolas, era um peso engenhosamente variável, cuja correspondência com
o quilate e os pesos decimaes se pode ver da seguinte tabeliã:
Quilates
Chegos Grammas
Quilates
Chegos Grammas
I
=
5 = 0,20735
8
= ^\ = 1,65885
2
=
8 = 0,41471
9
^ % = 1,86621
3
=
1 1 1= 0,62207
10
= 69 = 2,07357
4
=
16 = 0,82942
i3
=- i5ó = 3,iio35
5
=
21 = 1,03678
20
=- 277 í =4,i47'4
6
=
27 = 1,24414
3o
= 623 = 6,22071
7
=
34 = 1,45149
40
= 1 1 1 1 1 = 8,29428
A combinação engenhosa consiste em o peso do chego diminuir á
medida que o da pérola augmenta. Assim, fixado um preço ao chego,
o preço ou valor da pérola augmentava rapidamente com o seu peso,
e uma pérola de 40 quilates não valia dez vezes mais que uma de 4,
' Segundo Tavernier, o rati equivalia a 7» do quilate. O ralli era propriamente o peso
médio da semente vermelha de uma leguminosa, Abrus yrecalorius. Os pesos pequenos da
índia foram originariamente procurados no peso de varias sementes; e nas leis de Manu
vem marcadas as correspondências de peso das sementes de papoula, de mustarda, de ce-
vada, etc. Vemos em Garcia da Orta uma influencia d'estes hábitos indianos, quando falia
dos grãos de trigo, era logar de dizer simplesmente grãos.
Da maj^garita i3i
mas perto de setenta vezes mais. Claro está, que estas regras se não
podiam applicar a pérolas de excepcional belleza, cujo valor era pura-
mente de estimação; mas deviam servir a regular as transacções ordi-
nárias. Não encontro nos documentos do xvi século menção do chego;
mas Tavernier falia (1660 proximamente) d'este modo de pesagem,
como de cousa estabelecida em Goa de longa data, por onde parece
que já existiria no tempo de Orta, e que esta seria a sua conta «muyto
sutil». Por outro lado ainda se vê o chego mencionado em livros com-
merciaes modernos, do que se pode inferir que ainda o empregam
(Lembrança, nos Subsídios, 33 ; Tavernier, Voyages, n, 277, 371, 376;
The Merchanfs Handbook, 270, th.'' édition, 1879).
De outras indicações de Orta, mais ou menos exactas, não será ne-
cessário fallar, e unicamente nos referiremos brevemente ao que diz
respeito ao emprego medicinal das pérolas. Este emprego foi geral no
tempo de Orta, e as pérolas eram — como elle diz — uma das «pedras
medicinaes». No Electarium de Gemmis Qnnawam três drachmas mar-
garitarum albarum, ingrediente que igualmente figurava em muitas
outras composições da antiga pharmacia. Não sei bem quando as pé-
rolas desappareceram das pharmacopêas da Europa, onde se conser-
varam durante muito tempo como antiácidas; mas na matéria medica
oriental continuaram até aos tempos modernos, a serem consideradas
como cardíacas — as «mesinhas cordiaes» de Orta. Naturalmente, des-
tinavam-se a este uso as pérolas mais pequenas, e não susceptíveis de
serem furadas e aproveitadas de outro modo. Este aljôfar meudo cus-
tava um preço minimo, uma «onça menos de um vintém», como diz
Orta, ou —segundo as tabeliãs já citadas— «Aljôfar de botiqua, que
nam é furado, valem dez matiquaes a dous fanóes até treze 1».
(Cf Concórdia pharmacopolanim, 29; Ainslie, Mat. Ind., i, 293;
Lembrança, 1. c).
Nota (3)
O «chanquo», ou chank, do sanskrito sankh, é a concha da Tiii*l>i-
nella pyi-uin, Linn., de que a Turbinella rapa, Gm., parece ser
uma simples variedade, e que se pesca em vários mares dos trópicos,
mas principalmente no golfo de Manaar, proximamente nas mesmas
localidades e bancos em que se encontra a ostra das pérolas.
Esta grande concha, ou «búzio», como. Orta lhe chama com pro-
priedade, é venerada pelos hindus, que a tocam nos templos 2, ou se
' Parece haver aqui um erro; e deve ler-se «dous fanóes até três».
' O uso dos búzios ordinários como instrumento, ou uma espécie de trombeta, é muito
commum em algumas das nossas províncias para chamar de manhã a gente de trabalho.
i32 Colóquio trigésimo quinto da ynargarita
servem d'ella como de lâmpada, ou como de taça nas suas libações.
A variedade, bastante rara, em que a hélice se enrola para a esquerda,
é sobretudo muito apreciada, e vê-se com frequência figurada na mão
das imagens de Víchnu. Diz-se, que algumas vezes é vendida pelo seu
peso de ouro, o que pode levar o preço a 40 ou 5o libras esterlinas.
O emprego da concha da Turbinella no fabrico de contas, pequenos
objectos de ornato, e sobretudo de braceletes e manilhas é perfeita-
mente conhecido, e Orta é exactissimo n'este ponto. Ainda recente-
mente se exportam das pescarias de Manaar para Calcutá e Bengala
grandes quantidades d'aquellas conchas, exactamente como succedia
então.
É mais duvidoso que a madrepérola, trabalhada n'aquelles tempos
em «cofres» e «mesas», procedesse toda da Turbinella, ainda que Fryer
(1673) diga, do mesmo modo que Orta : chanquo, the shells ofwhich are
the mother of pearl. Parece que a madrepérola, hoje empregada na in-
dustria, procede principalmente de espécies de Strombus e de Haliotis,
e já então deviam ser aproveitadas estas conchas. A madrepérola en-
contrada em grande abundância nas costas de muitas das ilhas do ar-
chipelago Malayo, e que já n'aquelles antigos tempos devia ser traba-
lhada na índia e na China, diz-se proceder de ostras (?), e por esta
palavra seguramente se devem designar molluscos bivalvos, muito di-
versos da Turbinella.
(Cf. Yule e Burnell, Gloss., i4o;Tryon, Man. of Concheio gia, iii, 68;
Fisher, Man.de Conchologie, 11, 618 e 845; Crawfurd, Dict., 33o).
COLÓQUIO TRIGÉSIMO SEXTO
DO MUNGO E MELAM DA ÍNDIA,
A QUE QUA CHAMAMOS PATECA
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVA
RUANO
Todas as cousas enfastiam por saborosas que sejam,
quando se come muyto delias; e asi me acontece a mim
com simples medicinais, quando me falaes muito delles, ainda
que sejam cousas de notar; e por esta causa he bem que
sempre nas mezas aja cousas que incitem o apetito, asi
como alcaparras e azeitonas; e eu fiquei tam gostoso das
mangas, que estimaria agora que falasemos em outra fruta
alguma da índia.
ORTA
Darvoshei a comer patecas ou melões da índia.
RUANO
Nam seja de huns melões que aqui vi em casa, que me
enganarão, porque me cheiram ao mais fino melam do
mundo, e quando o provei acheio de sabor de lama, e a
causa foi uma vossa compradeira que me enganou; per-
guntandolhe eu, se era bom, dixeme que si; e eu porque
vejo nesta terra pepinos, como os de Portugal, pareceome
que também averia melões como os nossos.
ORTA
EUa falouvos segundo seu gosto, e como pessoa que nam
comera melões em Europa; e porém seyvos dizer que em
Dio ha melões, que se podem muyto bem comer, porque
sam arrasoados no sabor e no cheiro, como os de Portugal ;
e asi os ha em muytas partes do Balagate, e os que ha em
Ormuz sam tam bons como os de Espanha. Mas não sam
1 34 Colóquio trigésimo sexto
estes os melões de que vos eu quero falar; senão outros que
os Portuguezes de cá chamamos patecas, e he hum melam
grande e redondo, ou de feiçam oval, por milhor dizer; nam
se come cortando ao comprido, como nós comemos o me-
lam, senão cortando ao largo. He redondo, tem a semente
preta, quando he maduro, e quando he verde, branca; e
posto que nam he doce, como os nossos melões, he muyto
suave, esfria muyto, humedece, desfazse todo em aguoa, e
he muyto bom nos causomees* e pêra todas as febres coléri-
cas, e esquentamento do fígado, e rins, segundo vemos cá
por experiência; provoca muyto a orina, e os sãos o costu-
mão cá tomar 4 oras depois de jantar, que he o tempo
mais quente; e a mim pareciame melhor começar por elles
os jantares. A semente destes melões provoca o sono, e sam
as milhores sementes frias que cá temos, posto que não ca-
recemos das outras**. E em este género de melões não se
pode duvidar da sua conpleixam ser fria e húmida; porque
nos nossos melões, por serem abstersivos ou alimpadores e
doces, duvidam alguns na sua compleixam ser fria. E por-
que vejaes tudo ao olho, e sejaes testemunha de vista, asan-
taivos a comer, e provareis deste melam chamado de nós
pateca. Moça, traze cá esse melam ou pateca.
SERVA
Melão vossa mercê não o sóe comer: mas aqui estam
patecas que vieram de Chaul, e outras melhores de Dabul.
Eilas aqui.
ORTA
Querovos fazer a salva; deitai as pevides fora, e provai
que boa está esta pateca.
* «Causomees» deve ser erro de imprensa, por causónes, sing. causón,
que o Diccionario de la Real Academia Espahola define : calentura re-
pentina mui ardiente.
•* As quatro grandes sementes frias da antiga pharmacia eram as
do melão, do pepino, da melancia e da abóbora (Guibourt, iii, 262).
Do mungo e melam da índia i35
^ RUANO
He huma das milhores frutas que vi em minha vida; e
em certos tempos a queria antes que os nossos melões;
porque não faram mais que alterar, e muyta parte parece
que ade sair polia orina, e alguma por camarás,- e não fi-
cará lá couza sujeita a corruçam, como acontece nos me-
lões, e pepinos e cogombros: e eu levarei estas sementes
pêra em Espanha semear. Mas dizeime o nome delia em
todas as lingoas, e porque lhe chamaes pateca.
ORTA
Segundo querem os Arábios e Pérsios esta fruta fo}^ le-
vada ás suas terras de qua da índia; e por isso lhe chamam
battec indi, que quer dizer inelam da índia; e Avicena asi
a chama em muytas partes; e batiec somente, quer dizer
melam, e o nome da terra indiana he calangari.
RUANO
E quem vos dixe que se chamava batiec indi? Faz por
ventura mençam delia algum arábio escritor?
ORTA
O nome he comum ; e asi lhe chamam os físicos, que sa-
bem a lingoa arábia, se lhe acertam o nome; e Serapio, se
lhe escreveo outro nome, foy por se chamar assi em sua
terra, ou estará a letra corruta; mas Avicena craramente
lhe chama batiec indi, no quarto livro, no capitulo da febre
terçam pura: e ahi pÕe grandes louvores delle, os quaes
vós sabeis melhor que eu, ainda que eu o tenha mais espre-
mentado que vós. E se Deos quizer que vades a Hespanha,
e a lá semearem, vós achareis quam boa cousa he pêra as
febres coléricas, e pêra outras muytas emfermidades.
RUAiNO
Ouvi dizer que avia em muytas partes de Castella huns
melões muito finos, a que chamavam budiecas, as quaes
pode ser sejam estas patecas, e, corrompendo-lhe o nome,
lhe chamaram budiecas por patecas.
i36 Colóquio trigésimo sexto
ORTA
Eu vi já estes melões em algumas partes de Castella, e
chamavamlhe budiecas, e outros lhe chamavam samdias; e
proveios e he hum pomo mui deferente deste; por onde não
se pode dizer da mesma especia, nem chamar batiec indi; e
mais estas patecas não tem as folhas como os melões, senão
mui deferentes destas budiecas, e mais he huma mata alta,
e não estendida pollo cham como as patecas; e dixeramme
que as avia em Africa, da mesma maneira destas da índia;
isto bem pode ser, mas eu não dou fé do que nam vi (i).
RUANO
Vós quando me dizeis que isto não he medecinal, entam
lhe acho eu mais medecina, e me dizeis cousas de que eu
mais gosto, e eu mais estimo pêra curar. E os físicos desta
terra sabem deste melam da índia?
ORTA
Nenhum soube isto, senão a quem o eu dixe, e não por-
que elles não sejam homens mui bons letrados, senão por-
que não se prezam de couzas tam baixas: mas eu pergunto
estas cousas aos físicos grandes. Arábios e Gentios.
RUANO
E como lhe sabeis perguntar isto aos Arábios?
ORTA
Porque sei todas as emfermidades do terceiro e 4 de Avi-
cena, e todos os simples do segundo em arábio; e isto me
aproveitou muyto curando aquelle rey meu amiguo, e a
seus fílhos, posto que ao principio foi trabalho pêra mim.
E aproveitavame pêra isto o bem que me queria o rey, que
elle me ensinava estes nomes das emfermidades e mezinhas
em arábio, e eu lhos ensinava em latim, do que elle muyto
gostava; e per sua causa mo ensinavam também os físicos
que elle tinha Arábios e Coraçones.
Do mimgo e melam da índia iSy
RUANO
E OS Gentios entendeivos com elles?
ORTA
Muyto bem; porém elles sam homens, que nam curam
senam per esperiencia e per costume; e he tam boa de en-
ganar a gente portugueza, que facilmente sam enganados
por elles, e o que pior he que alguns Portuguezes, ou por
contentar o povo, ou por se desocupar de curar os emfermos,
e nam querer trabalhar em especular as curas, vamse com
o seu parecer delles ; e porque ser aprazível ao povo faz ao
físico ganhar mais dinheiro, usam loguo em principio das
mezinhas delles.
RUANO
Elles usam das nossas?
ORTA
Muytas vezes; mas as mais delias nam ao propósito; por-
que dizem — sangrese — e elles nunqua usarão sangria, senão
desque nós somos nesta terra; bem que usavam deitar vento-
sas, e çarrafar, e deitar sangufexugas: oulham as agoas,
segundo que soube pellos físicos de Soldam Bhadur e do
Nizamoxa, e nunqua acostumaram ver agoas, senão vêem
que o fazemos, e fazemno como bugios; e daqui lhes acon-
tece que se vem a orina branca, sem nenhuma digestam,
tem a por boa, e se a vem vermelha e grossa com diges-
tam louvada, tem a por má. Estas e outras cousas muytas
soube eu delles, tomandoos pollo beiço, e porque não ha
quem saiba tam pouquo que não saiba algumas cousas
boas, seivos dizer que curam bem nas camarás, e pollo
pulso dizem se tem febre ou não, e se está fraco ou rijo,
e qual he o humor que peca, se he sangue ou cólera, ou
fleima, ou melamcolia: dam bom remédio para as opilações.
RUANO
Dam xaropes ou agoas estiladas, e he costume antiguo
entre elles?
i38 Colóquio trigésimo sexto
ORTA
Nam, nem o usam os do Balagate, senão os que tratam
aqui comnosco, que dizem loguo: dailhe xarope violado; dai-
Ihe lambedor; dailhe agoa contra fluxo; dailhe agoa de chan-
tagem ou cevada; ou talhadas cordiaes; ou açucare rosado
com agoa de almeirões; e nenhuma destas cousas costuma-
vam cá na índia, ante que viesemos; somente sei que no
Balagate usam os Mouros e Gentios de semente de emdipia,
pisada, e bebida com agoa da fonte, isto em toda maneira
de febre. Não o custumavam ante que viesemos a estilar
agoas, senão o costume seu próprio he dar a beber cozi-
mentos de legumes e sementes, e çumos de ervas tosca-
mente perparados: andam per huma rua, e a todos curam
com hum frasquo que trazem.
RU.VNO
Nam venha ahi Galeno, que mais pragueje de Tesalo, e
segundo mostraes em vossas palavras mal estaes com essa
gente: ei medo que vos dêem peçonha.
ORTA
Antes todos estam bem comiguo; porque, digem como
eu nam sam muyto cobiçoso, ou, por dizer mais verdade,
sam preguiçoso, deixo os curar quantas curas me tomão, e
perguntolhes primeiro o que lhe ande fazer, e se he mezi-
nha que eu conheço ser boa, ou que não fará mal, digolhe
que usem delia se o paciente se quer curar com ella; e se
he má, defendolha; e se he mezinha que não se}'^ se he
boa ou má (como muitas vezes acontece) também lha de-
fendo. Erram também estes íisicos nas graduações destas
mezinhas, porque a pimenta e o cardamomo dizem ser frio,
e o ópio ser quente; da anatomia nam sabem onde está o
fígado, nem onde está o baço, nem cousa alguma.
RUANO
Vós não me confesaes que tomaes algumas couzas delles?
Do mungo e melam da Lídia i3g
ORTA
Si, muytas; mas primeiro provo as mezinhas dos meus
doutores, quando me não aproveitam, tomo as dos Bra-
menes desta terra*.
SERVA
Aquella moça que trouxestes do Decanim, pedeme 7nimgo,
e diz que em sua terra lho davam a comer, tirada a casca,
e cozido: darlhoei asi?
ORTA
Dailho a comer, pois que o deseja; mas milhor fora pam
e frangam cozido, pois he da terra onde comem pam, e não
aroz; que he o Balagate, que o tem pouquo e em poucos
cabos.
RUANO
Ha trigo nesse Balagate e em Cambaia?
ORTA
Mu3^to ; posto que lhe não fazem ás terras o estercar e la-
vrar, como nós fazemos, senão semeamno á face da terra**
muyto pouco lavrada, e isto por novembro; e quando he
meado de janeiro colhemno muyto, e muyto bom; e ás vezes
sem lhe chover cousa alguma, somente com o orvalho e
grossura da terra, que he muyto boa pêra isso.
RUANO
E que mezinha he essa, que vos falia essa moça?
ORTA
He huma semente verde, e quando he muyto madura
e preta, do tamanho do coentro sequo; comem delia os ca-
valos, e a gente ás vezes; e os Guzarates e Decanins usam
» Os médicos ou curandeiros gentios eram geralmente Sudras, como
veremos na nota (2); mas os Brahmanes também se occupavam de me-
dicina, comquanto não exercessem a clinica.
*» «Semear á face» é ainda hoje uma expressão corrente em todo
o Alemtejo.
140 Colóquio trigésimo sexto
delia em as febres, e todo o homem que tem febres não
come 10 dias e ás vezes i5, e ao cabo delles lhe dam a beber
agoa de cozimento do miingo, onde vai alguma sustançia
delle; e depois lho dam a comer, tirada a corteza, e cozido
com arroz: pão de trigo lhe não dam a comer dahi a muitos
dias. E mais vos contarei o que me aconteceo; caminhando
com o Soltam Bhadur, em companhia do senhor Martim
Afonso de Sousa, adoeceo elle de febres, e chamoume elrey,
e perguntoume como avia de curar Martim Afonso daquellas
febres: eu lhe dixe que o avia de sangrar, e o avia de xa-
ropar com enxarope feito de çumo de limões, romans e açu-
care, e que o purgaria com uma pouqua de manná e rui-
barbo que trazia comigo, pois outras mezinhas nam avia no
seu arraial de mim conhecidas. Elle me respondeo que os
Portuguezes não sabiam tam bem curar febres como os Gu-
zarates; porque os Guzarates não as curavam com outra
cousa, senão com não comer; e eu, por não aporfiar com
elle, lhe dixe que dizia bem, e que por tanto avia 3 dias
que eu nam lhe dava a comer cousa alguma; e que já aguora
o queria xaropar, e darlhe a comer alguma dieta sutil. Elle
me dixe que 4 dias era muyto pouco, c que avia mester ao
menos estar 20 dias sem comer cousa alguma; e que os
Portuguezes elle me confessava serem muyto bons físicos
nas outras emfermidades, mas que nas febres não sabiam
tanto como os Guzarates. Eu nam quiz aporfiar com elle,
porque era voluntário e o maior rey que avia na Mourama;
e mais por não ser letrado, nem ter fisicos que o curassem
pella nossa regra*. E depois alguns annos me achei em Gam-
baiete, cidade muito principal do Guzarate, onde hum mouro
muyto rico deTripol de Berbaria**, que sabia falar português,
* Curiosíssima toda esta discussão, que teve logar no mez de no-
vembro ou dezembro do anno de i535, a caminho de Ahmedábád; ve-
ja-se Garcia da Orta e o seu tempo, p. 99 e seguintes.
•* Tripoli, na costa africana, que Orta distingue muito bem do Tri-
poli asiático, na costa da Syria, citado em outro Colóquio.
Do mungo e melam da índia 141
residia; e chamando-me pêra curar seu filho de febres, que
as tinha avia 4 dias, o curei, dandolhe a comer primeiro ga-
linhas, porque avia 4 dias que não comia cousa alguma; e
depois o sangrei, e, sem o purgar, sarou das febres; e elle
me alegava o modo de curar dos Guzarates, já acima dito.
Eu lhe respondi, que o çapateiro não calçava a todos com
huns çapatos; que aquelle curar he para os Gentios, que
naquelle reino não comem cousa de sangue; mas que seu
filho e os mercadores ricos, que eram acostumados a comer
muita carne e beber vinho, quando o tinham, aviam mester
outro modo de curar. Pareceolhe bem o meu dito, e suce-
deolhe milhor; e dahi avante os dias que ahi estive, todos
os Mouros se queriam curar comigo.
RUANO
Peçovos por mercê que me digaes, como se quer curar
O Nizamoxa, vosso amiguo; se desvaria muyto da nossa
maneira, e contaime algum caso, que vos aconteceo com
elle, se vier a propósito; porque esses casos decráram mu3'to
os erros que acontecem no curar*.
ORTA
Elle vontade tinha de se curar á nossa maneira; mas o
custume da terra está muyto em contrairo, e he mao de ar-
rincar, em especial porque os físicos letrados, que elle ti-
nha, folgavam de comprazer á gente da terra, e contradi-
zer a mim; de modo, que estando eu presente o curavam
de huma maneira, e ausente, de outra. E, se vos não emfa-
dar, vos direi o que me aconteceo, curando ao seu príncipe
erdeiro**, que entonces era homem de 3o annos, muyto for-
* Exactamente a exigência de um medico moderno, pedindo obser-
vações.
** Este enfermo era Huçein, filho de Buhrán Nizam Scháh, veja-se
Garcia da Orla e o seu tempo, 236; e as notas ao Colóquio decimo
(vol. I, p. 134).
142 Colóquio trigésimo sexto
coso, e bem acompreisoado e comedor. E porque aprendia
a lingoa portugueza comigo, me perguntou em português
que faria a huma sarna que tinha com muyto prorido; eu
lhe dixe que seria bom sangrarse, e tomar algum soro com
ruibarbo; elle me dixe que lhe contentava o sangrar, porque
aquelles dias passados avia deitado sangue pollos narizes.
E querendo fazerlho, estorvou hum físico seu, que he senhor
de muytas terras; e, posto que o pay e o filho eram meus
amiguos, folguaram de fazer o que lhe mandava o outro
físico; porque lhe dixeram que estava muyto gastado de
mulheres, avendome o enfermo dito o contrario disto; mas
aquillo foy feito por emveja dos físicos. E dahi a lõ dias adoe-
ceo o mesmo de febres, e o meu voto foy que se sangrase;
e os físicos e o pai não consentiram nisso polia rezam acima
dita: e mais diziam que aquillo aviam de ser bexiguas, a qual
emfermidade he muyto perigosa nesta terra: eu lhe dixe que
os sinaes das bexigas não os avia ahi, e que se os ouvesse,
que entonces era melhor sangrarse nos três primeiros dias,
conforme ao seu Avicena», e darlhe alguma espersam de ta-
marinhos; e elles me dixeram que era verdade que dizia
aquillo Avicena, mas que o custume da terra estava em con-
trario; e que também os Decanins tinham pêra si que os ta-
marinhos eram ruin cousa pêra as bexigas; de modo que
nem texto nem rezam me aproveitou com elles, de que bem
pesou ao pay e mais ao filho; porque loguo lhe começaram
a dar agoa de cozimento de figos e funcho e avenca, e aça-
fram, pêra que saissem as bexiguas, as quaes nunca sairam.
E por elle estar em cabo muito quente, sairamlhe somente
humas burbulhas muito miúdas polias costas, as quaes nam
foram bexigas, nem serampam, e elles me diziam que eram
bexigas, e que por ali se avia de determinar a febre ; e eram
já passados 14 dias, e nam se tirava a febre, nem avia mais
sinaes de bexigas, nem o queriam sangrar, nem purgar, nem
lhe davam a comer, senão mungo, e agoa de espersam de
Avicena, 4, 1 (nota do auctor).
Do mwigo e melam da índia 143
arroz, e o pecador morria de fome; e queixavaseme disso
cada dia em portuguez. E per derradeiro aconselhei ao pai,
que o mandasse sangrar, que milhor era tarde que nunca,
e lhe desse a comer galinhas gordas, pois era tam comedor
e bebia vinho do nosso, quando era são. Pareceo bem ao pai
o conselho, e ao filho milhor. Sangreio duas vezes copiosa-
mente, e deilhe de comer muyto bem, e disto nam souberam
liada os físicos, per conselho de elrey, até ver o suceso; e
acabados os 20 dias esteve sam, sem febres nem burbu-
Ihas, estando seus físicos com este suceso contentes, gaban-
dose em o modo de curar, lhe pediram alviçaras. Respondeo
o pae que, per sua cura mereciam asados, que, se eu nam
fora, seu fílho erdeiro fora morto. Então lhe contou a maneira
que tevera eu em o curar depois dos 14 dias pasados; e
elles, em ouvindo, meteram o dedo na boca dizendo Alá
qutbir, que quer dizer Deus grande; mas nem por isso fica-
ram envergonhados, nem corridos (2).
RUANO
Mercê vos faria o rey e o filho?
ORTA
Si, fizeram.
RUANO
E o mimgo que chamais, pareceme que não escreverão
delle os Arábios, nem os Gregos, posto que he cá tam usado.
ORTA
Na Palestina sei que o ha, segundo dixe hum mouro,
que dahi he; e também Avicena escreve delle no segundo
livro cap 489*, e isto ante de o saber me custou asaz traba-
lho, e chamase mesce, e o Belunense emenda mês, mas eu
soube dos fisicos e de outros letrados que se ade dizer tnex^
e a letra do cabo ade ser pronunciada com os dentes
* Avie. I, cap. 489 (nota do auctor); ou cap. 488 da edição de Rinio.
144 Colóquio trigésimo sexto
muyto fechados; porque asi a pronunciam elles. E bem se
que isto nam releva muyto, nem contar vos as estorias que
vos contei, mas muitas vezes as conta Galeno, ao qual eu
nam sam digno de desatar as correias dos seus çapatos ; por-
tanto perdoai o sobejo, que, des que homem entra a pairar,
desenfrease e paira muyto; mas vós podeis não escrever
mais que o neseçario disto.
RUANO
De mais vos guarde Deus, que de menos nam ei de es-
crever; e dizeime se fala em algum outro cabo Avicena
deste mex?
ORTA
No primeiro livro na fem terceira no capitulo 7*, diz que
nam comam aves com mex, e diz bem, porque se digerem
primeiro que o mex, e entonces penetra o mex indigesto (3).
* Avie. Lib. I, cap. 7 (nota do auctor) ; isto é Lib. i, Fen iii, Doctr. 11,
cap. 7; o fen, uma das divisões do livro árabe, conservou-se com o
mesmo nome nas versões latinas.
Nota (i)
A identificaçáo das patecas suscita um certo numero de difficuldades
á em parte apontadas por H. Yule e A. Burnell em um interessante
artigo do seu Glossary, e que é necessário examinar brevemente.
Queixando-se Ruano de que os melões de Goa eram de inferior
qualidade, Orta diz-lhe, que mais ao norte, em Diu e em Hormuz, ou
nas terras mais altas e temperadas do interior, no «Balagate», se en-
contravam melões tão bons ou quasi tão bons como os da Hespanha;
falia evidentemente do vulgar Oucumis 3I!elo, Linn., e sobre
isto não pode haver hesitação.
Refere-se depois a outros melões, a que chama melões da índia ou
patecas, os quaes devem ser o que hoje chamamos melancias, Ci-
■ti-ullus ^'ulgaris, Schrad. (Cucurbita Citrullus, Linn.). O que
nos diz do fructo ser redondo; de não ser tão doce como os nossos
melões, mas suave, frio, húmido, desfazendo-se todo em agua; das suas
Do mungo e melam da índia 145
sementes, a principio brancas, se tornarem pretas na maturação; tudo
isto se applica muito naturalmente á melancia. Os nomes citados levam-
nos igualmente a julgar que elle falia das melancias. «Batiec», isto é
o arábico bittikh, ou no modo mais vulgar de pronunciar battikh,
applica-se geralmente á melancia, comquanto por vezes se tenha dado
a outros fructos de cucurbitaceas. «Calangari« é a palavra maralha ka-
lingar, que — segundo Yule e Burnell — designa o water melon, ou
melancia. «Pateca» era entre os portuguezes do Oriente synonymo
de melancia: «pediu o mouro uma pateca ou melancia», diz Gouveia,
citado no Vocabulário de Bluteau. A mesma palavra, na forma bateca,
é dada por fr. João de Sousa nos Vestígios como um dos nomes da
melancia. Rumphius, fallando da melancia no seu Herbariínn amboi-
nense, chama-lhe Anguria indica seu Batteca. Finalmente recordare-
mos o {rancez pasteque, que designa o mesmo fructo. Tudo isto é claro
e conclusivo, no sentido de identificarmos a pateca de Orta com o fructo
do Citrullus vulgaris; mas vejamos o outro lado da questão.
Orta mostra as patecas a Ruano como uma cousa nova para elle
(Ruano), isto é, desconhecida na Hespanha. Poderemos por ventura
interpretar esta passagem, como significando que os portuguezes não
conheciam então as melancias, ou — como dizem Yule e Burnell — as
iynplying that the water melon was strange to the portuguese of that
time? Não me parece de modo algum acceitavel esta conclusão. A me-
lancia, cultivada desde tempos muito antigos na bacia mediterrânica,
não podia ser desconhecida na Península. O próprio Orta nos diz, que
tinha visto em Castella budiecas e samdias. Recorrendo aos dicciona-
rios hespanhoes, encontramos no de Covarrubias e no da Academia
as palavras, albudeca, badea e sandia, como nomes diversos de um
mesmo fructo, que o diccionario da Academia define: unos t7ielonajos
mui grandes, que em Roma se Ihaman melones de agua. Segundo Co-
varrubias, albudeca usava-se mais na Catalunha e Valença, e badea na
Castella. Pedro de Alcalá no seu Vocabulista (i5o5) dá o nome árabe
em caracteres hespanhoes, al-baticha. Effectivamente albudega, albu-
teca, bateca, pateca e badea vinham do árabe Ls-\J^^£j bittikha, ou com
o artigo is-JUíiJ I , al-bittikíia.Todos estes nomes designavam a sandia
ou melancia, e o facto de Pedro de Alcalá citar em i5o5 um nome
vulgar, o simples facto da origem árabe de muitos nomes portugue-
zes e hespanhoes, provam que a introducção e cultura na Península
da espécie Citrullus vulgaris remontava a uma epocha bastante an-
tiga, provavelmente aos primeiros tempos da dominação mussulmana.
É indubitável que Orta conhecia a melancia, chamando-lhe «budieca»
e «samdia»; como é, pois, que elle dá as patecas da índia por uma cousa
nova? Admittiremos que elle quiz designar por aquelle nome um fructo
diverso? O árabe battikh parece ter tido uma applicação um tanto vaga,
dando-se avarias cucurbitaceas, entre as quaes se fizeram sempre nume-
10
146 Colóquio trigésimo sexto
rosissimas confusões, tanto na linguagem vulgar como na nomenclatura
scientifica; e o próprio Orta diz que o melão se chama «batiec», e o
outro fruto «batiec indi». Apesar d'isso, battikh designou mais especial-
mente a melancia, e o seu derivado pateca ou bateca, como vimos já,
applicou-se sempre áquelle fructo. É, pois, difíicil admittir, que Orta
desse á palavra pateca um sentido diverso do que lhe davam todos os
mais. Por outro lado, também não é fácil encontrar um fructo de cucur-
bitacea, que não seja a melancia, e corresponda de um modo geral
á descripção de Orta, sendo agradável ao paladar, comido cru, e tendo
sementes pretas. É forçoso admittir que a pateca de Orta era a me-
lancia; e a única explicação plausível das suas palavras será, que elle
encontrou na índia alguma variedade cultural do Citrullus vulgaris,
e a não soube identificar com as sandias, que muitos annos antes tinha
visto em Castella. É a única explicação que encontro, e dou-a pelo que
pôde valer, pois me não satisfaz completamente.
(Cf. as palavras citadas em Yule e Burnell, Glossary; Bluteau, Voca-
bulário; Dicc. de la lengua castellana; Sousa, Vestígios; Dozy, Gloss.;
veja-se também Rumphius, Herb. Amb., v, 400; Cogniaux in Monogr.
Phanerogamarum, in, 5o8, Paris, 1881; De Candolle, Orig. des plantes
cultivées, 209.)
Estava escripta e impressa esta nota, quando reparei na referen-
cia ás patecas, que Orta faz adiante em um dos últimos Colóquios.
O dr. Dimas Bosque estabelece ali a identificação das patecas com as
balancias, e Orta, apresentando ainda algumas objecções, mostra-se
pouco seguro na sua opinião, e disposto a admittir que se havia enga-
nado. Isto confirma, pois, a nossa conclusão.
Nota (2)
As noticias, dadas n'este Colóquio acerca de medicina mussulmana
e de medicina hindu, constituem sem duvida uma das partes inte-
ressantes do livro; mas estas questões são conhecidas de um modo
geral, e unicamente nos occuparemos do que diz respeito ao exer-
cício d'aquella medicina em Goa e suas dependências, no tempo de
Orta.
O medico portuguez distingue de um modo claro os hakims, ou mé-
dicos mussulmanos, seguindo o systema Yunáni, dos vidyasi, ou mé-
dicos hindus, seguindo o systema Vaidak. Tem evidentemente maior
consideração pelos primeiros, e comprehende-se bem que assim succe-
' Vidyas ou Vitj'as. Orta náo emprega nenhum d'estes nomes, e parece que não eram
conhecidos dos portuguezes no seu tempo.
Do miingo e melam da índia 147
desse. Entre a sua sciencia e a d'aquelles physicos «Arábios e Coraço-
nes» havia estreitas relações. O Qanún de Avicenna, uma das principaes
fontes dos conhecimentos dos hakims, tinha sido o compendio de Gar-
cia da Orta nas aulas de Salamanca. Os livros de Rasis, de Mesué e
outros, e mesmo as versões dos gregos andavam-lhes nas mãos, como
elle diz explicitamente logo no Colóquio segundo. Com a sua leve tin-
tura de arábico, sabendo de cór os nomes das «mezinhas» e das «emfer-
midades», que lhe ensinara o seu amigo Buhrán ', Orta podia, pois,
discutir com elles, porque tinham um fundo commum de noções e
de principios. Na curiosa conferencia em que debateram o tratamento
a applicar ao filho de Buhrán, Hucein, Orta cita-lhes para os con-
vencer textos de Avicenna. Nem texto nem rasão os persuadiu, porque
os prendia a rotina e o «custume da terra»; e esta expressão mostra-
nos como Orta conhecia um facto que ainda hoje se dá, como conhecia
a influencia exercida no systemaYunáni peloVaidak, a modificação que
a medicina mussulmana experimentou na índia, no contacto com a hindu.
Orta julgava-se, e evidentemente era, muito superior aos hakims em
sciencia medica; mas chama-lhes «físicos letrados», e vê-se que tratava
com elles de igual a igual. Alem de lhes reconhecer illustração, en-
contrava-os nas cortes dos príncipes mussulmanos, onde tinha de usar
a seu respeito de certa diplomacia. Com effeito, da leitura dos Coló-
quios deduz-se que Orta tratou com os hakims principalmente no inte-
rior ou no norte. Pôde encontrar casualmente um ou outro em Goa;
mas em geral viu-os e conferenciou com elles no Balaghate, ou em
Cambaya, na corte de Bahádur Scháh, na de Berid Scháh, cujo irmão
foi tratar, e sobretudo na do seu amigo Buhrán Nizam Scháh. Parece,
pois, que elles não vinham a Goa, pelo menos com frequência, e assim
devia succeder. A sua qualidade de mussulmanos tornava-os particular-
mente suspeitos, e nem os médicos portuguezes estariam dispostos a
acceital-os ali em pé de igualdade, nem elles se sujeitariam a occupar
uma posição inferior.
Não succedia o mesmo com os vidyas; estes eram numerosos em
Goa, e conformavam-se pacientemente com a sua situação modesta.
Em um dos Colóquios seguintes, Orta põe em scena um «físico» gentio,
chamado Malupa; trata-o com muita amabilidade, mas com a condes-
cendência de um superior, como um medico antigo trataria um mestre
sangrador. Não havia n'isto simples arrogância europêa ou portugueza,
mas também um reflexo dos prejuízos indianos, porque os vidyas em
geral eram sudras, isto é, de casta muito baixa. E certo, que a sua si-
tuação em Goa foi modesta, e, quando alguns mais ricos se quizeram
elevar, as suas pretensões foram reprimidas pelas auctoridades portu-
' Veja-se o que eu disse sobre este ponto na Vida de Garcia da Orta, p. 243 e seg.
148 Colóquio trigésimo sexto
guezas com muita sem ceremonia. Um documento pouco posterior a
Orta é explicito a este respeito, e merece ser reproduzido:
«O governador da índia etc. Faço saber aos que este meu alvará
virem que eu hey por bem e me praz e por este mando a todos os
panditos 1 e phisicos gentios que não andem por esta cidade e arrabal-
des delia a cavallo nem em andores e palanquins, sob pena de pagarem
pela primeira vez dez cruzados, e pela segunda vinte para o sapal, e
perderem os taes cavallos e andores e palanquins, e pela terceira serem
cativos para as galés d'ElRev meu senhor; e isto se não entenderá no
pandito que cura minha casa e he meu phisico. Notefico assy ao Ou-
vidor geral etc. António Barbosa o fez em Goa a i5 de Dezembro
de 1574 — Governador, António Moniz Barreto.»
O alvará é curioso, porque mostra como o governador coUocava
rudemente os panditos e vidyas em uma situação subalterna, e ao
mesmo tempo declarava ter um d'elles para physico da sua casa. De
resto, isto está plenamente de accordo com o que Orta diz por mais
de uma vez, citando-nos casos de fidalgos honrados que se queriam
curar com os médicos da terra ou com os malabares. A casa do próprio
Orta vinha todas as manhas um d'aquelles médicos tratar as negras.
Resulta do que levamos dito, que o exercício da medicina hindu em
Goa e terras portuguezas, sem ser muito considerado, era no emtanto
perfeitamente legal e devia ser lucrativo. Os vidyas tinham como clien-
tes todos ou quasi todos os naturaes, e alem d'isso muitos portuguezes,
desejosos de novidade, e crédulos como são em geral os doentes —
«gente boa de enganar».
Em ultima analyse, o nosso medico portuguez não é muito severo
com os vidyas; accusa-os, como todos os que d'elles tem fallado, de
não saberem uma palavra de anatomia; condemna muitas das suas pra-
ticas, particularmente as abstinências prolongadas e exageradas a que
sujeitavam os doentes; descreve comicamente o modo por que imita-
vam os médicos europeus sem os perceber; mas reconhece que trata-
vam bem certas enfermidades; admitte que dispunham de uma matéria
medica valiosa; e, quando lhe perguntam se aprendeu alguma cousa com
elles, responde franca e- categoricamente : — «Si, muytas».
Se compararmos a sua apreciação com a que faz o viajante francez
Sonnerat dois séculos depois, veremos quanto ella é benévola. Sonnerat
descreveu aquelles médicos como simples curandeiros sem sciencia e
sem consciência; como homens de vários officios, lavadores de roupa,
ferreiros, tecelões, que á falta de trabalho se mettiam a tratar doentes
para ganhar a vida. Isto é evidentemente exagerado, e o que disse no
' Do sanskr. pandita, um homem instruído, versado nas scienciás ou nas leis ; a palavra
é hoje muito usada pelos inglezes nas formas pioidit e pandít.
Do miingo e vielam da índia 149
fim do século passado o illustreWilliam Jones, ou já no nosso o erudito
e escrupuloso VVhitelaw Ainslie, deve ser mais próximo da verdade, e
está mais de accordo com o que havia dito Garcia da Orta alguns sé-
culos antes. Reconhecendo a ignorância de alguns vidyas e o puro em-
pirismo da sua pratica, Ainslie reconhece também, que muitos são acti-
vos, desejosos de acertar e conhecedores de uma vastíssima matéria
medica, na qual ha muitas cousas aproveitáveis, ao lado de muitas inú-
teis e de algumas prejudiciaes. Ainda recentemente, no congresso de
orientalistas celebrado em 1891, nós vemos como os trabalhos relativos
á medicina indiana, apresentados pelo pandito Janardhan e por outros
vidyas illustrados, foram recebidos com geral interesse, reconhecendo-se
o valor scientifico doVaidak Hindu. É muito de notar, que o nosso Orta
tivesse ha três séculos, a perspicácia e a largueza de espirito, necessárias
para reconhecer e confessar que tinha aprendido muitas cousas com os
vidyas.
Orta parece ter conhecido diversas classes de vidyas; e em uma
passagem diz: «eu pergunto estas cousas aos físicos grandes, Arábios
e Gentios». Mas, em geral, só teve relações com os que exerciam a
clinica em Goa, sudras pela maior parte, bastante ignorantes de litte-
ratura sagrada, e — como elle diz — curando apenas «per experiência
e per custume». D'aqui resultou o facto de elle não alcançar noticia
da litteratura medica dos hindus, como já indiquei mais largamente
na sua Vida. Por um lado, os vidyas com quem fallava conheciam mal
a sua própria litteratura, e não estavam dispostos a revelarem a um
estrangeiro o pouco que d'ella sabiam; e, por outro, era-lhe difficil
reconhecer nas breves menções de um Xarch indus, ou de um Scerak
indum, encontradas nas suas versões latinas de Avicenna ou de Se-
rapio, referencias ao venerável e lendário escriptor sanskritico Cha-
raka. Quanto ao conhecimento directo da litteratura sanskritica, esse
estava fora da questão. As noções de medicina, contidas no Atharva
Veda, ou nas obras de Charaka e de Susruta, que, nos fins do século
passado e princípios d'este, começaram a ser reveladas á Europa pelos
trabalhos de sir W. Jones, de Colebrooke ou de Wilson, eram então
letra morta. No tempo de Orta apenas se começava a suspeitar da
existência de livros sagrados, escriptos em uma lingua que se não en-
tendia, e em caracteres que se não decifravam^, — esses livros que,
annos depois, Diogo do Couto chamava os «Vedáos», escriptos «no
seu latim». Era, pois, naturalíssimo, que Orta não soubesse das no-
ções medicas contidas n'aquelles livros, e julgasse que os vidyas cura-
vam unicamente «per custume» — por uma sciencia tradicional e pura-
mente oral.
' Sousa, no Oriente conquistado, diz que o padre Belchior Carneiro obteve em iSSg al-
guns manuscriptos, roubados a um brahmane das terras firmes de Goa.
1 5o Colóquio U^igesimo sexto do mungo e melam da Lídia
(Cf. Garcia da Orta e o seu tempo, 287 a 247 e 337; Sonnerat,
Vqyag-e aux Indes orientales, i, iio a 121; Ainslie, Mat. Ind., 11, v a
xxxvii; Royle, Ant. of Hindoo med., 47 e seguintes ;772e Imp. and Ásia-
tic quarterly review (october 1891), p. lxxxv; Zimmer, Altindisches
Leben, 374 e seguintes, Berlin, 1879; para a Goa moderna, algumas
interessantes indicações, em Lopes Mendes, índia portugue^^a, 11, 107.)
Nota (3)
O Mungo é o Phaseoliis M^ungo, Linn., uma leguminosa,
cultivada com muita frequência na índia, e particularmente apreciada
nos annos de escassez, em que falta o arroz. É também cultivada em
outras regiões quentes, como o Egypio, e deveria sel-o na Palestina,
como disse o mouro a Orta. De uma phrase muito obscura do texto,
pode talvez concluir-se que Orta conhecia a variedade de sementes
verdes, Phaseohis Mungo, Linn., e Roxburgh; e a variedade de se-
mentes pretas, Phaseohis Max, Linn., e Roxburgh.
O t}ies ou Jiíex ou mesch de Avicenna, ^i'-*, a propósito do qual
Orta nos dá uma curiosa lição sobre o modo de pronunciar a letra
schin, era evidentemente uma semente de leguminosa, e provavelmente
um Phaseolus; mas não é fácil decidir se seria propriamente o Pha-
seohis Mungo. O nome especifico Max, dado por Linneu em 1753 á
variedade de sementes pretas, parece ser procurado em uma designa-
ção vulgar, o que viria confirmar a identificação de Garcia da Orta.
Confesso, porém, não saber qual a origem d'este nome linneano.
Na segunda citação de Avicenna, Orta enganou-se; a palavra vem es-
cripta inest, e os annotadores explicam-na: lac coagulatum acetosum, sed
minoris acetositatis quam lac coagulatum. Parece, pois, que Avicenna
recommendou que não comessem carne de aves com leite azedo, o
que alem de ser indigesto devia ser péssimo.
(Cf. Roxburgh, Flora Indica, 111, 292 e 294; Avicenna, Qanun, Lib. i,
Fen III, Doct. 11, cap. 7, p. 118 da edição de Rinio; e Lib. 11, cap. 488;
Clusius, Exotic, 236 e 252.)
COLÓQUIO TRIGÉSIMO SÉTIMO
DOS MIRABOLANOS
t
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Eu me conheço por muito descuidado, pois a principal
cousa porque avia de perguntar he os mirabolanos, tanto
louvados de todos os Gregos e Arábios antiguos e moder-
nos, e até ao presente nam perguntei por isso.
ORTA
Também, se vos praz, sam louvados dos Castelhanos; por-
que dizem: aqiiel* honibre, que tanto pio, mirabolanos comio.
RUANO
Deixaivos desses adágios ou provérbios; e dizeime os no-
mes delles polia linguoa da terra, ,e porque se chamaram wz'-
rabolanos acerca de nós; e como lhe chamam os Arábios
e os Indianos; e se os físicos desta terra usam delles, e pêra
que enfermidades se servem delles.
ORTA
Craro está que os mirabolanos dos Gregos antiguos nam
sam estes; nem Dioscorides, nem Galeno, nem Plinio co-
nhecerão estes nossos mirabolanos; senam chamaram mira-
bolanos outra mezinha, de que faziam azeite; e mirabolanos
quer tanto dizer em grego, como noz ou bolota cheirosa ou
unguentaria. E porque estes nossos pareciam feiçam de no-
zes ou bolotas, por isso lhe chamaram asi a estes de que
usamos, ainda que mais verdadeiramente me parecem a mim
ameixas, mas isto nam he cousa que faz ao caso; e o que
* «Aquelle» na edição de Goa.
i52 Colóquio trigésimo sétimo
treladou Aviçena e Serapio do arábio em latim, por lhe pa-
recer milhor, lhe pos este nome; e onde Aviçena lhe chamou
delegi pos elle mivabolanos (i).
RUANO
Pois Serapio lhe chama aliligi, sendo tam arábio como
Aviçena.
ORTA
Foy isso error do escritor, ou o tempo corrompe estes
nomes, mas os físicos arábios a quem perguntei, me dixeram
estes nomes, scilicet, delegi a todos, e os citrinos a-^far^ e
os Índios açuat, e os quebulos quebulgi, e os belericos hele-
regi, e os emblicos embelgi; e daqui lhe tomámos nós os
nomes.
RUANO
Os negros porque nam falastes delles, nem dos de Seni,
dos quaes faz menção Aviçena?
ORTA
Os negros nam os ha ahi, nem sam outros senam os Índios;
e porque sam mais negros que todos, nam avia nesecidade
de me perguntardes isto; pois muytos doutores modernos
o escrevem, em especial os vossos Frades italianos que os
chamam negros, porque sam mais negros que todos, quando
sam maduros; e isto provam elles da ordem do texto do
Serapiam e Mesue; porque está muito craramente provado
por elles, como podeis ver, nam fallo mais nisto.
RUANO
Pois bem está isso, mas esses Frades, que vós alegaes,
dizem que nam ha mais que 4 especias; porque faltam os
de Seni nomeados por Aviçena; e já vos pedi que me deseis
a razam delles; e vós, desimulando, nam me respondestes
a isto.
ORTA
Esses de Seni sam os emblicos, os quaes conta Mesue
e Aviçena; e chamoulhe de seni, e por esta maneira sam
Dos mirabolanos i53
5 especias; porque os belericos não faz mcnçam delles Avi-
cena, e esta he a verdade; porque Serapiam diz que tem
corteza sutil, estes sam os ejublicos, porque a tem mais
delgada que todos.
RUANO
Outra especia traz Sarapiam per auctoridade de Mesa-
runge, e chamalhe de Damasquo, e diz que aproveita pêra
a melancolia: que respondeis a isto?
ORTA
Diguo que em Damasco não ha mirabolanos, senam foram
levados lá em conserva alguns mir^abolanos indos; e porque
as achou ahi, lhe chamou de Damasquo, e porque aprovei-
tavam á melancolia dixe isto delles; mas elles não sam ou-
tros senam os que nós chamamos indos.
RUANO
Pois o mesmo Serapiam diz, aleguando a Mesue e Alba-
sar, que os de Seni sam da especia da azeitona?
ORTA
Não ha azeitonas em toda esta terra, senão porque os
emblicos sam usados nesta terra a comerse salgados, e per
outra maneira com vinagre (a que chamam achar) lhe cha-
mou azeitonas: mas elles mais se parecem com ameixas re-
dondas, e nisto não releva muyto enganarse.
RUANO
Parece rezam serem todos de huma arvore, e que huns
seram maduros e outros não; e que quando huns forem se-
quos, seram os outros verdes; e deste parecer sam alguns,
scilicet, que os quebidos e citrinos ao menos, sam de huma
mesma arvore; verdade he que Mateolo Senense diz que
nem aprova nem reprova isto: vós, que o vistes, nos podeis
desenganar a todos.
ORTA
Enganados estam todos os que dizem que sam de huma
arvore; porque sam cinquo arvores de cinco especias de
i54 Colóquio trigésimo sétimo
mÍ7'abolanos; e, o de que mais vos maravilhareis, que huns
ha em huma terra, e outros 6o legoas e loo delia; porque
em Goa e em Batecalá ha huns, e no Malavar e em Dabul
e em toda Cambaia ha as 4 feições de mirabolanos, e os
quebulos ha em Bisnager e no Decam, e no Guzarate e em
Bengala, e pode ser que os aja em outras partes. E estes
arvores sam todos montezes e nam cultivos; e os que levam
a Portugal sequos sam pola mor parte ávidos de Dabul até
Cambaia; porque se acha per esperiencia a terra mais che-
gada ao norte dar as frutas menos sujeitas a putrefaçam,
segundo que eu soube nesta ilha de Goa dos físicos gentios
delia. E achei que nella ha três feições de mirabolanos, de
que usam pêra purgar, onde o querem fazer sem trabalho,
e em pouqua cantidade; e chamam a estas três feições ou
maneiras, em lingoajem da terra, tinepala, que quer dizer
três feições, scilicet: a primeira chamam arare (e isto no
povo, porque os físicos lhe chamam aritiqui), e estes sam
redondos, e purgam a cólera, e nós chamamoslhe citrinos:
a outros chama a gente indiana anvale, e nós lhe chama-
mos emblicos: e a outros chamam re^^anvale, e sam os que
chamam Índios: ha outros que chamam gotim, e sam redon-
dos, e sam os que nós chamamos belericos: e os quebulos
que purgam a freima (que os ha em Bisnager e Cambaia
e Bengala) chamamse aretca. E asi tendes ahi cinquo ma-
neiras; scilicet, três usadas em Goa, e huma achada em
Cambaia e Bengala e Bisnager; e porque amde ser cinquo
maneiras, vos diguo que o mirabolano, dito anvale, posto
que he achado em Goa, porque não usam delle em física,
não chamam em Goa mais que as três maneiras já ditas,
e as de Bengala e Bisnager e Cambaia; e a este que elles
chamam atwale, e nós chamamos emblicos, usam delle em
cortimento de pelles, como çumagre, e em tinta, afora co-
merem os verdes por apetite. E pois tendes as cinquo ma-
neiras, vede que quereis mais de mim, em que vos sirva;
e eu quero de vós o que dizem os escritores do Peru, sci-
licet, que em muytas terras ha mirabolanos, se he verdade
ou não?
Dos jnivaholanos i55
RUANO
Nunqua os vi em Espanha, senão os que de cá vam;
c quero mais que me digaes a feiçam de cada huma es-
pecia, e das arvores e das folhas.
ORTA
Diguo que o arare, o que chamamos citrino^ he redondo,
e tem a folha como de sovereira: o anvale, que sam os em-
hlicos, tem a folha como feto, e a estes já vos dixe que lhe
chamamos emblicos: o re^aripale, que sam os índios, tem
oito quinas, e a folha como de salgueiro: os helénicos, a que
chamam guíi, tem a folha como de louro, senam que he mais
pardaça : os quebulos, a que elles chamam aretca, sam gran-
des e redondos, e quando sam maduros, alguma cousa mais
compridos, e tem quinas, e a folha do arvore he como de
pexegueiro; e todos os arvores sam do tamanho de amexu-
eiras: e isto he o que pude saber e ver da feiçam de todos
e das suas arvores.
RUANO
Vós o tendes tam bem esplicado, que não he neseçario
falar mais nisso-, mas aguora quero que me satisfaçaes ás
minhas duvidas, dizendo de que compreições os fazem os
índios, porque todos confessam serem de compreiçam fria
e seca, e Serapiam, alegando a Xarach, diz que sam quentes,
todos universalmente: que dizeis a isto?
ORTA
Dizem* que sam frios e sequos, ainda que o não dixeram
os índios, e os Arábios e Latinos-, porque o seu sabor he
pontico, mesturado com acetoso, que parece como sorvas
verdes, senão que he mais azedo; e mais sam pesados todos,
e aquestas cousas todas arguiem e decraram ser a com-
preisam delles fria e seca.
Parece ser um erro por «digo», o que faria melhor sentido.
i56 Colóquio trigésimo sétimo
RUANO
Do modo da preparaçam delles me dizei como os pre-
param os Indianos; porque Serapiam manda os preparar
com ameixas, pêra reprimir a ponticidade delles.
ORTA
Não se preparão cá, porque não os querem senam pêra
comprimir e reprimir; nem usam delles pêra purgar, senão
em cozimento, e deitam mu3^to mais cantidade do que nós
deitamos em Portugal: usam também delles em conserva,
scilicet, dos quebulos que tem em muyto preço; estes fazem
em Bisnager, e Bengala e Cambaia: e também usam em
conserva dos citrinos e Índios, feitos em Batecalá e Bengala;
e sem duvida nenhuma, que esta he huma mezinha, que
elles muyto louvam, e com o seu uso nenhum físico he des-
onrado. E quando embora fordes, levai estas três especias
em conserva, porque será pêra Castella muyto boa merca-
doria; e eu vos farei serviço de duas jarras delles, que mandei
trazer de Bengala, se em boa ora vierem; e sabei que eu uso
também de mandar estilar a agua de mirabolanos verdes
pêra dar a beber sobre alguma conserva pontica; e a mando
mesturar nos xaropes, quando he neseçario; e sobre estes
mirabolanos verdes sabe muyto bem a agoa. E eu uso de
citrinos e belericos no principio de comer, em quem tem
camarás ou estômago muyto corredio; e he hum comer bom
e estitico, com ser azedo hum pouco; e também do çumo
destes mirabolanos uso muyto, nas camarás, quando sam
verdes; e já provastes muytos destes em minha caza.
Nota (i)
Efíectivamente os myrobalanos dos antigos escriptores procediam
de uma planta muito diversa d'aquellas a cujos fructos depois se deu
o mesmo nome. O paXavo^ u/jisÇur, de Dioscorides, aupsPaAxv:; de outros,
myrobalanum de Plinio, tem-se identificado com uma planta da familia
Dos mirabolanos iSy
das Legiiminosce, ]Mox*iiig'a aptei^a, Decaisn., de habitação
principalmente africana, de cuja noz, ou antes semente, conhecida pelo
nome de «Of de ben ou glans unguentaria, se extrahe um óleo especial
(Cf. Diosc, I, 645, ed. Sprengel; Plinio, xii, 46, ed. Littré; Guibourt,
Drogues simples, iii, 286).
Nota (2)
A divisão corrente dos fructos, impropriamente mas geralmente cha-
mados ynyrobalanos^, em cinco sortes ou qualidades, indicos, citrinos,
quebulicos, belericos e emblicos, esta divisão vinha de tempos muito an-
teriores a Orta, e continuou a ser seguida depois, encontrando-se ainda
em livros modernos, como o de Guibourt. Os árabes haviam dado a
todas estas qualidades, ou a parte d'ellas, o nome geral ^JJL», heliledj
11 - ^ ".
(forma persiana íXIí, helileh), que nas edições latinas de Avicenna com
notas do Bellunense vem incorrectamente transcripto delegi ou dilegi,
e Orta repetiu na mesma forma.
As três primeiras qualidades, isto é, os myrobalanos indicos, citrinos
e quebulicos procedem da mesma espécie, Tex"iixiiialia Clie-
1>ixla, Retz, da familia das Cotnbretacece, uma arvore bastante fre-
quente por quasi toda a índia. As differenças parecem depender unica-
mente do estado de desenvolvimento do fructo; e alguns escriptores
hindus, como alguns escriptores persas relativamente modernos — ci-
tados por Dymock — enumeram nada: menos de sete formas diversas,
resultantes todas do momento da colheita. As formas, mencionadas por
Orta, parecem corresponder ás três seguintes:
— helileh-i-hindi, droga que consiste no fructo ainda pouco des-
envolvido, quando tem proximamente as dimensões de uma uva, e que»
depois de colhido, se torna enrugado e negro. Estes são os myrobalanos
chamados indicos, e também negros, ou — segundo Orta — «açuat», da
palavra .>o^!, asuad, que significa preto. Não encontrei o nome «re-
zanvale», citado pelo nosso escriptor.
— helileh-i-asfar, consistindo no fructo maior, já quasi chegado á
maturação, e de côr amarella. Estes são os citrinos, chamados também
— segundo Orta — «azfar», de yL^\^ açfar, que simplesmente significa
amarello. Diz Orta, que o vulgo lhes chamava «arare», o que corres-
ponde ao nome moderno har ou hara em hindustani; e os physicos
«aritiqui» o que é o sanskrito ^TTTrT^, hãritaka, ou mais vulgarmente
haritaki.
' Não se sabe claramente como se fez a transferencia de nome ; e é possível ser devida
— como diz Orta— aos traductores medievaes, que trasladaram para latim as obras dos
árabes.
i58 Colóquio trigésimo sétimo
— helileh-i-kabuli, que é o fructo perfeitamente maduro, o myroba-
lano quebulico, menos adstringente que os anteriores, e empregado ge-
ralmente na medicina hindu como laxante. Deve notar-se, que o nome
oaretca», dado por Orta a estes myrobalanos, se prende ás designações
acima hãritaka e haritaki, as quaes não são simplesmente applicadas
aos citrinos, mas de um modo mais ou menos geral ás três formas. O
nome mais commum, quebulicos, vem do adjectivo kabuli, e este parece
derivar do Kabul, por onde se fazia parte do commercio da índia com
a Pérsia. A derivação vem já indicada por Pedro Teixeira, o qual, a
propósito de yriyrobalanos, citou o nosso escriptor: Alilah Kabidy,
vnrabolanos que vienen de Kabul, que son los que nuestros médicos
llaman Kebulos. El dotor Garcia dorta trato destos y de todos suffi-
cientemente
Sendo estas três sortes procedentes de uma mesma espécie, segue-se
que Orta estava em erro, quando affirmava a existência de três arvores
distinctas, e indicava os seus caracteres, ou pelo menos as formas difFe-
rentes das suas folhas. É necessário dizer, no emtanto, que na índia
existem algumas variedades da espécie Terminalia Chebula, o que o
pôde induzir n'aquelle erro*. Comquanto, ainda muito depois e até ao
tempo de Guibourt, algumas duvidas existissem sobre a identidade de
procedência d'estes myrobalanos, devemos confessar, que Duarte Bar-
bosa já diz da maneira a mais clara, que indicos, citrinos e quebulos
nascem todos sobre a mesma arvore. Não é a primeira vez, que nós
vemos Barbosa mais bem informado do que Orta em um ou outro
ponto, mesmo na especialidade do ultimo.
Os myrobalanos belericos são o fructo de uma espécie bem distincta
do mesmo género, Tex*iiiiiialia "belei^ica, Roxb., bastante
frequente também em diversas partes da índia. Estes fructos são menos
alongados que os precedentes; e a folha d'esta espécie pôde compa-
rar-se na forma com a do «louro», sendo menos brilhante, ou um pouco
mais «pardaça», o que resulta das suas numerosas pontuações esbran-
quiçadas. Orta cita um nome d'estes fructos, nas formas «guti» e «go-
tim», que não encontrei mencionado em outros livros.
Por ultimo os myrobalanos emblicos são o fructo de uma planta muito
diversa da Terminalia, a espécie Phyllanthus Eiixlblica,
Linn., da familia das Euphorbiacecp, chamada em hindustani anvula,
ou antes anvala^ o «anvale» de Orta. O Phyllanthus tem uma folhagem
finamente dividida e recortada, que o nosso escriptor compara não
muito impropriamente com as frondes de alguns fetos, posto que na
realidade seja uma cousa muito diversa.
' Existe também uma espécie particular, Terminalia citrina ; mas esta espécie só se
encontra para oriente do Ganges, de modo que os myrobalanos citrinos da parte occidental
e septentrional deviam proceder da Terminalia Chebula (Cf. Hooker in Fl. of Brit. índia).
Dos niirabolanos 159
Os myrobalanos em geral, e nomeadamente os procedentes da Ter-
minalia Chebula, chamados haritaki, e tendo muitos outros nomes sans-
kriticos, foram altamente louvados pelos antigos escriptores hindus,
como poderosos medicamentos tónicos e alterantes, e em certos casos
laxantes. Uma prova da estima em que os tinham, é a curiosa lenda
relativa á sua origem : contavam os hindus, que Indra, bebendo néctar
no céu, deixara cair sobre a terra uma gota d'aquelle precioso liquido,
e d 'essa gota nascera a planta. Os myrobalanos belericos são igualmente
empregados na medicina; e os emblicos, alem de terem os mesmos usos,
servem para preparar conservas em vinagre e sal, a que os inglezes cha-
mam pikles, e Orta chamava achar, nome que ficou na nossa lingua. O
uso dos myrobalanos no tratamento das «camarás» é também muito
conhecido, apontado por Bontius, valent adversus Dysenterias,
Choleras, et cceteros è bile natos affectus, e seguido até aos tempos mo-
dernos pelos vid)'^as da índia.
Notaremos ainda, quanto é vulgar o emprego dos myrobalanos no
«cortimento das pelles» e na tinturaria, não só dos emblicos, a que Orta
se refere mais especialmente, mas de todas as formas, sendo hoje ex-
portadas da índia grandes quantidades d'estes fructos, exclusivamente
destinadas a essa applicação industrial.
Orta menciona a «tinepala, que quer dizer três feições». É fácil re-
conhecer n'esta «tinepala», o nome hindustani tin-phal, e o sanskrito
triphala, os três fructos, nome que se dava a um celebre medicamento,
constituído pelos três myrobalanos, muito louvado na mais antiga me-
dicina dos hindus, mencionado no Amarakocha e em uma receita de
Susruta, e usado até hoje no tratamento de variadíssimas enfermidades.
Este medicamento e o seu nome sanskritico chegaram ao conhecimento
dos árabes, e por estes ao dos gregos modernos, como Actuario (xiii sé-
culo), o qual falia da tryphera, e da sua applicação nos mesmos casos
para que a recommendam Serapio e Mesué.
Os myrobalanos fornecem-nos, de feito, um dos exemplos mais fri-
santes da influencia que os antigos tratados de medicina hindu exerce-
ram sobre os escriptores arábicos. Não só aquelles fructos são de pro-
cedência indiana e só indiana; mas os árabes dizem claramente, que
consultaram a seu respeito os escriptores hindus, citando nominalmente
Charaka. Serapio diz o seguinte : et Xarch Indus dixit in mirobalanis,
universaliter mirobalani sunt calidi et stiptici — é esta a phrase, que nós
encontrámos citada por Orta, sem que este soubesse muito bem a quem
se referia. Avicenna, fallando dos emblicos, nota et apud Scirek
indum in ipso est calefactio. E Rasis, a propósito da mesma droga, cita
também o escriptor sanskritico inqiiit Scarac indianas. Sob estas
diversas formas, Xarch, Scirek, Scarak, mais ou menos deturpadas nos
códices arábicos, e mais ou menos alteradas também na translitteracão
imperfeita das versões latinas, é fácil reconhecer o nome do celebre e
i6o Colóquio trigésimo sétimo dos mirabolanos
lendário Charaka. Como se v8, os médicos árabes não só receberam
da índia este medicamento, como aprenderam nos velhos livros sans-
kriticos as suas propriedades, provando-se assim, que conheciam aquelles
livros.
Os myrobalanos passaram, pois, da matéria medica hindu para a
arábica, e d'esta para a europêa, que durante séculos foi regida pelas
prescripções dos árabes, sobretudo pelas do divino Mesué. Orta refere-
se explicitamente ao emprego d'aquelles fructos em Portugal, especial-
mente como laxantes, explicando como na índia deitavam muito maior
quantidade «do que nós deitamos em Portugal». Abrindo a Pharma-
copéa de Barcelona de iSSy, encontramos em muitas composições uma
certa quantidade de myrobalanoriim citrinorum, indonim, etc. Estes
fructos, que hoje só tèem na Europa um emprego industrial, deviam
ter então um largo consumo nas pharmacias.
D'esta procura, e dos seus usos na índia, resultava-lhes uma certa im-
portância commercial. Thomé Pires escrevia de Cochim (i5i6), que os
«mirabulanos são cinquo sortees e todas estas sortees são mer-
cadorias nestas partes». Duarte Barbosa notava .cuidadosamente os
preços das diversas variedades no mercado de Calicut. Em Goa, en-
travam na chamada «Renda da especiaria», isto é, no contrato para o
exclusivo da venda de uma serie de objectos diversos : « alhos e
cebolas sequas, cânfora, aguila, mirabulanos sequos, papell, saal d'ur-
muz, ffio de coser, tamarinhos sequos, azougue, vermelhão, etc». An-
tónio Nunes (iSS^) diz-nos, como em Hormuz se vendiam «mirabulanos
secos», e «mirabulanos em comserua» (conserva). Esta conserva, á
qual se refere também Orta, era feita em assucar, e usava-se desde
tempos muito antigos. Pegolotti (i343), enumerando as mercadorias
vindas do Oriente, falia dos mirabolani conditi, isto é, conservados em
calda de assucar, e que se deviam guardar em jarras ou panellas de
barro vidrado. De tudo isto se vê como estes fructos eram, desde a
idade-media, um objecto de regular commercio para a Europa.
(Cf. Guibourt, Drogues simples, ii, 364 e iii, 282; Dymok, Mat.
med.,' 317, 699; Roxburgh, Fl. Ind., 11, 431; Hooker, Fl. of British ín-
dia, 11, 445; Pedro Teixeira, Relac, 76; Ainslie, Mat. Ind., i, 336, 11, 128;
Pharm. o f índia, 88; Bontius, Hist. nat., Livro vi, cap. 24, na edição
de Piso, Inditv utriusque Re nat. et med., Amstelodami, i658; Royle,
Ant. of Hindoo medic, 35; Avicenna, Qanún 11, 11, 228, 457; Thomé
Pires, na Ga:^. de Pharm. (1866), 41; Duarte Barbosa, Livro, 385;
Lyvro dos Pesos, 8, 19; Tombo, 40; Pegolotti em Yule e Burnell,
Gloss., 460.)
COLÓQUIO TRIGÉSIMO OITAVO
DAS MANGOSTÃES
t
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Queixavase comiguo aquelle fidalgo, que andava falando
comvosco nas cousas de Malaqua, dizendo que parecia que
tinheis ódio ás frutas de Malaqua e dessas bandas; porque
escasamente falastes no dortam, sendo a mais louvada fruta
que ha na índia: e nas cousas da China não falastes cousa
alguma, avendo lá muyto louvadas frutas, asi como são li-
xias (i), e outras frutas muyto boas que lá ha.
ORTA
Eu nas cousas da China não falei, porque a China he
terra em que ha tanto que contar, que he nunqua acabar:
falei de algumas mezinhas delia, como he galanga, e o pau
da China, porque eram medicinaes; e das outras frutas
nam faltará quem fale ; e nos diiriôes de Malaqua nam falei
mais que o geral, porque sei que he hum arvore grande,
tamanho como huma nogueira, e a folha he como loureiro,
e o arvore também he asi em geral. E no geral sempre ouvi
dizer, que eram as mais saborosas frutas do mundo as de
Malaqua*.
RUANO
Gabaramme huma fruta muyto, que chamão mangostães;
falemos do que sabeis nellas.
ORTA
O que tenho sabido das mangostães, he que he huma das
saborosas frutas que ha nesta terra. He hum pomo tamanho
* Da galanga tratou Orta no Colóquio vigésimo quarto, e dos doriões
no vigésimo; mas do pau da China só trata em um dos seguintes.
II
i62 Colóquio trigésimo oitavo das mangostães
como huma laranja pequena, a casca he separada do ama-
guo-, a cor da casca he lionada e crara; tirandolhe a casca
fora, o de dentro sam âmagos, asi como de laranjas peque-
nas. O arvore he tamanho como huma maceira, e não he
muyto grande; a folha, he como de louro; dá flores ama-
relas; dizem que o sabor desta fruta não he tam doce que
faça fastio, e mais não sei a que volo compare, pois nam a
provei (2),
Nota (i)
Este fructo da China, chamado por Orta «-lixia», deve ser o li-tchi,
produzido por uma espécie da família das Sapindaceo', IVeplie-
liuni Litclii» Camb. {Dimocarpus Lichi, Loureiro), cultivada
desde tempos antigos na China e Cochinchina, e hoje também na índia
e outras regiões tropicaes. Que eu saiba, Orta foi o primeiro escriptor
europeu que o mencionou.
Nota (2)
O mangostão, produzido por uma arvore da familia das Gitttiferce,
Gí-ax-ciniíi iiiíiiigostana., Linn., passa por ser um dos me-
lhores, senão o melhor fructo das regiões quentes. A espécie é mais
do que tropical, póde-se dizer equatorial, afastando-se poucos graus
para o norte do equador, e ainda menos para o sul. Não se encontrava,
portanto, na hidia, o seu fructo não se podia transportar em bom estado
nas antigas e demoradas viagens, e Orta apenas o conhecia de repu-
tação, como conhecia os duriÕes. Apesar d'isso a sua descripção é bas-
tante exacta; o que elle chama «-âmagos» são as sementes, envolvidas
em uma camada tegumentar, branca, succulenta, aromática, e de excel-
lenie sabor. Na Garcinia, a parte comestivel não é propriamente o fru-
cto, mas a semente.
COLÓQUIO TRIGÉSIMO NONO
DO NEGUNDO OU SAMBALI
»
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVA
RUANO
Guabam muyto estas vossas negras hum arvore, que
dizem que nós lavamos aqui sempre os pés com o cozi-
mento delle, e dizem que aproveita pêra tantas cousas que
estou pasmado.
ORTA
Pareceme que nesta orta está : venha qua a negra que o
gaba. Moça?
SERVA
Que manda vossa mercê?
ORTA .
Que arvore he esse que gabas muyto?
SERVA
He negwido.
ORTA
He huma arvore que tem mais propriedades ou milhores
que pode ser; e quanto mais lhe tiram os ramos, tanto crece
mais. He mezinha muito resulutiva, e metiga o dor em grande
maneira, quando não ha chaga, scilicet, o lavatório do cozi-
mento desta erva quente, ou a mesma erva quente pisada,
posta emcima, ou frita em azeite e posta emcima. E verda-
deiramente que deita a perder os físicos ; porque não entrais
em casa a curar cousa alguma de dor, que nam saia loguo
de travez alguma pessoa que digua: pondelhc negundo co-
zido, oii torrado, ou frito em azeite. Também dizem muytos
homens que o puseram emcima de chagas muido em tal
164 Colóquio trigésimo nono
maneira, e que em huma noite degiriam a matéria de tal
maneira, que ficava sem dor \ e dahi por diante continuando,
as folhas a modificavam em tal maneira que cerava* de todo
ponto; e isto contam muitas pessoas e não huma só. As
mulheres o tem por muyto bom pêra preparar a madre
pêra conceber, e dizem que bebido faz este mesmo efeito.
Eu julgoa por milhor mezinha, e mais forte que macela;
tem mu3'to bom cheiro; mastigando queima hum pouquo,
como masturço, por onde he manifesto ser de compleiçam
quente. Chamase este arvore comummente negimdo, e alguns
no Balagate o chamam sambali, e em Malavar lhe chamam
noche, e usam os Malavares disto em caril. A folha delle he
similhante á do sabugueiro, farpada como elle, e velosa
polias costas hum pouco ; e o arvore he tamanho como hum
pecegueiro, deita flores brancas e algum tanto pardas, e
huma semente preta, tamanha como pimenta e alguma cousa
maior. Ouve hum boticairo nesta índia, homem velho em
quem confiava muyto hum governador casto e vertuoso, e
querendo reprimir os estimules da carne, perguntou áquelle
boticairo se avia alguma cousa pêra isso; o boticairo lhe
dixe que si, e que era hum arvore que chamavam agnocasto;
e fez usar este governador deste negwido, o qual usou delle
muytos dias, porque não faltou hum fisico que dixe que era
verdade, que aquelle era o arvore chamado agnocasto; e
quando me foy dito isto, oulhei o capitulo do agnocasto, e'
cotejeio com o arvore chamado negundo, e acheio tam de-
ferente, que não pudia mais ser; entonces dixe que não
era negundo, agnocasto, e nam quis afirmar isto sem ver o
livro, porque eu nam conheço agnocasto, nem avia boticairo
aqui, que o conhecese. Despois veo a esta terra hum fisico
letrado e homem que fala verdade em seus ditos**, e disseme
que em Portugal avia ao presente muytos agnocastos, e que
eram bem deferentes destes na folha, e em tudo.
* Pôde entender-se, que a chaga cerrava ou sarava.
** O licenciado Dimas Bosque (nota do auctor).
Do negundo ou sambali i65
Nota (i)
Duas espécies do género Vitex, da família das Verbenacece,^ ites:.
Negniido, Linn., e T^itex trifolia, Linn., gosam na medi-
cina hindu de quasi igual reputação, e são designadas pelos mesmos
nomes vulgares, ou por nomes muito similhantes, de modo que não
é fácil saber a qual d'ellas Orta se quiz referir, ou se abrangeu ambas
sob a designação de «negundo», o que julgo mais natural:
— este nome, «negundo», prende-se ao sanskrito nirgundi e outras
formas similhantes, que parecem applicar-se ás duas espécies (Cf. Ain-
slie, Mat. Ind., ii, 287, 252 ; e Amarakocha, 94, ed. Lois. Deslongchamps).
— «sambali» é o nome vulgar hindustani J'_^.:J;,, chambali (Ains-
lie, 1. c).
— «noche» é o nome tamil nochie, ou nochchi.
Ruano não exagera, dizendo que estava pasmado de ouvir para quan-
tas cousas aproveitava o negundo, pois o dr. Waring nota que poucas
plantas têem na índia usos medicinaes tão variados como as duas espé-
cies citadas de Vitex. D'estes usos, o principal é justamente aquelle em
que Orta mais insiste, isto é, no tratamento de qualquer «cousa de dor»,
causada por rheumatismo, contusões ou distensões. Em qualquer d'estes
casos, o negundo é considerado um resolutivo poderoso, ao qual re-
correm desde logo os clínicos hindus, ou a medicina caseira. O dr. Fle-
ming descreve o modo de applicação exactamente como Orta: as folhas
frescas são aquecidas em uma vasilha de barro, e simplesmente coUo-
cadas sobre a parte affectada, mantidas por uma ligadura. Repetida
esta applicação três ou quatro vezes, pôde dar — segundo o mesmo
dr. Fleming — resultados extremamente favoráveis. Roxburgh menciona
o habito de as mulheres indianas tomarem, depois do parto, banhos
preparados com as folhas aromáticas do negundo — o que lembra o bom
effeito sobre a «madre», apontado pelo nosso escriptor.
Um dos conhecidos commentadores de Garcia da Orta, o medico
hollandez Bontius, fallando (1629) da curiosa doença, chamada beribéri,
diz que em Java empregavam com resultado no seu tratamento fomen-
taçóes e banhos da herba nobili Lagondi dicta^; e, segundo Waring
e Dimock, era igualmente útil este lagondi em outra enfermidade dos
naturaes, obscuramente alliada com o beribéri, a que davam o nome
de pés queimados (burning of the feet); este era talvez o motivo de
lavarem por precaução os pés com o cozimento do lagondi ou negundo,
como affirma o nosso escriptor. Como se vê, todas as informações dos
' Lagondi é o nome javanez do negundo, e segundo parece de ambas as espécies de Vi-
íex, ás quaes Rumphius chamou respectivamente Lagondium vulgare e Lagondium litto-
rale.
i66 Colóquio trigésimo nono do negundo ou samhali
Colóquios, relativas aos usos therapeuticos do negundo, são confirma-
das pelos médicos que posteriormente têem habitado as regiões orien-
taes, desde Jacob de Bondt, ou Boniius, até aos clinicos inglezes do
nosso século.
Orta distingue com rasáo o negundo do agno-casto; mas não tem
igualmente rasão em dizer que eram muito differentes, pois o agno-casto
pertence ao mesmo género Vitex, o qual de mais a mais é muito natural.
(Cf. Dymock, Mat. rned., 600; Phannac. o f índia, i63; Roxburgh, 7^^.
Ind., iii, 70; Jac. Bontii, Hist. nat. et med. Ind. orient. libri sex, a p. 18
da edição de Piso.)
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO
DO NIMBO
r
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Querovos alembrar o arvore com que curastes o vosso
cavalo muito estimado, que me dixestes que volo lembráse.
ORTA
Tendes muita rezam, porque certo he hum arvore muito
proveitoso e medicinal acerca das gentes que conheço, e em
todas se chama nimbo. Vim a conhecer sua bondade no Ba-
lagate, porque vi curar com elle chaguas de cavalos muito
deficultosas de modificar e alimpar, e alimparemse muito
asinha as chagas, e o cavalo foy muyto asinha sam; e nam
foi com mais que com pôrlhe as folhas deste arvore pisadas,
e postas emcima das chaguas, mesturadas com çumo de
linicão; e asi o fazem nas chaguas dos homens, e dizem que
milagrosamente saram com só o çumo desta erva. E mu3'tas
pessoas ma gabaram já, e me diserão que no Malavar o usa-
vam muyto pêra o que Já disse-, e o çumo destas folhas o
usavam pêra lombriguas, e pareceme que tem rezam porque
amarga algum tanto.
RUANO
Lembrame que, quando me falastes nisto da cura do ca-
valo, me dixestes que nesta cidade não sabeis mais que huma
arvore destas, e que ma queríeis mostrar hindo a Sam Do-
mingos a ouvir missa, o que eu vi, e he do tamanho de hum
freixo, e tem a folha como de oliveira, e ao redor he farpada
toda, e verde de todas as bandas, não he parda nem vellosa,
tem a ponta mais aguda que a da oliveira; he o arvore muyto
cheo de muytas folhas: diguovos isto porque vejais se pinto
bem o arvore, mas huma só cousa não sei, e he se tem frol
ou fruito.
i68 Colóquio quadragésimo
ORTA
Mu3'to bem pintastes o arvore; mas o milhor tendes por
saber, que he dar fruito muito proveitoso, o qual he como
azeitonas muito pequenas, das quais fazem azeite mu3^to me-
dicinal pêra os nervos, com que se muyta gente acha bem,
untandose com elle quente: he muyto usado em Bisnager
e no Malavar, e trazemno aqui a Goa a vender por merca-
doria em que ganham muyto, e as froles sam brancas, e
deste arvore, até ao presente, não sei mais, e como souber
eu volo escreverei de qua (i).
Nota (i)
O «nimbo» é a Mielia A-zadiraclita, Linn. [Melia indica,
Brandis, A:^adirachta indica, Juss.), uma bella arvore da família das
Meliacece, conhecida em geral na índia pelo nome vulgar de nim ou
nimb, e no sul pelo de nimbu ou nimba. Gosa entre os hindus, desde
tempos antigos, de grande reputação medicinal, e parece que já vem
mencionada nos escriptos de Susruta, sob o nome de |H^o|, nimba
(para outros nomes sanskriticos, cf. Amarakocha, 92). Em tempos mo-
dernos foi admittida officialmente na Phantmcopéa da índia, sendo cha-
mada nas pharmacias margosa (a casca córtex margosce), o que cla-
ramente se deriva da palavra portugueza amargosa.
A casca é considerada adstringente, tónica e antiperiodica, e as folhas
estimulantes. Na Pharmacopceia of índia vem indicada uma cataplasma
das folhas frescas, pisadas e humedecidas com agua tépida, como uma
excellente applicação em chagas e ulceras indolentes e de mau caracter,
applicação muito recommendada pelo dr. Grant e pelo dr. Dunbar.
É exactamente a indicação, dada ha três séculos pelo nosso medico.
O óleo das sementes é também empregado medicinalmente, ou como
anihelmintico, ou em uso externo no rheumatismo e outras doenças,
o que ainda concorda com o que diz Orta.
Segundo notaram já Fliickiger e Hanbury na Pharmacographia,
o nosso auctor foi o primeiro europeu que tratou d'esta arvore e das
suas propriedades medicinaes. Poucos annos depois. Acosta deu uma
figura bastante boa de um ramo, confirmando o que Orta havia dito,
e acrescentando varias informações sobre a therapeutica indiana do
nimbo.
Do nimbo 169
Comquanto a Melia A^adirachta seja vulgar na índia, em Goa existia
— segundo Orta diz — um único exemplar na cerca de S. Domingos,
que ficava na parte oriental da ilha, para lá da Alfandega e do Bazar,
perto do Passo de Daugim.
(Cf. Fliick. e Hanb., Phannac, i35 ; Dymock, Mat. med., 168; Ainslie,
Mat. Ind., 11, 453; Phannac. of índia, 53; Christoval Acosta., Tract. de
las drogas, 283.)
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO
DO AMFIAM DITO ASSI CORROMPIDAMENTE
PORQUE O SEU NOME HE ÓPIO
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Queria saber a certeza do amjiam, que he o que a gente
desta terra usa, se he o que chamamos ópio; e donde ha
tanta cantidade quanta se gasta, e quanto comem cada dia.
ORTA
O amjiam he o ópio, e por ser muyto usado em comer
entre muitos, ainda que o comam em pouca cantidade, fica
em mercadoria necesaria muyto pêra todollos cabos onde
se usa comer; porque, se o nam usam, correm perigo de
morrer-, e por esta causa na .terra onde faltou vai muyto
caro, e apetecese bem muyto sempre, pêra o ter (como quem
CTuarda o trigo pêra maio). Faz os homens que o comem
andar dormindo; e dizem que o tomam pêra nam sentir o
trabalho.
RUANO
E não o tomam pêra a luxuria, como me dizem *, porque
isto he contra toda a medecina, e contra toda a rezam, se
pêra obra de Vénus aproveita.
ORTA
He muyta verdade o que dizeis, porque pêra isto não
aproveita, mas antes dana; e asi os que o tomam para isto
nam sam reys, nem pessoas poderosas, nem mercadores
ricos, que entendam bem a verdade; porque estes nam o
tomão senão em pouca cantidade, e pêra outros efeitos; e os
físicos todos letrados, a nossa guisa, me afirmavam que
tornava os homens inpotentes, e os fazia leixar a Vénus
1 72 , Colóquio quadragésimo primeiro
mais cedo. E eu conheci no Balagate hum português que
andava lá alevantado, o qual foy com uso delle tornado
inpotente, e os Portugueses que lá andavam mo certifica-
ram asi.
RUANO
Pois tanta gente usa isto pêra deleitaçam carnal, não pode
ser que todos se enganem.
ORTA
Eu vos direi pêra que aproveita, se me derdes licença,
porque a matéria não he muyto limpa, em especial dita em
português.
RUANO
Dizei, porque as cousas não são cujas, senam quando as
dizem os cujos, e com não limpa emtençam,
ORTA
A vertude imaginativa ajuda mu3to a deleitaçam carnal,
e como ella seja superior da vertude expulsiva, obedecelhe
a ella, a qual vertude imaginativa, quanto he mais forte,
tanto mais asinha se acaba o auto de Vénus, porque manda
a imaginativa vertude á espulsiva, que deite nos companhois
a semente genital, e quanto mais se imagina niso, tanto vem
mais asinha ao membro a semente; e porque os que comem
este amjiam, estam como fora de si, acabam este auto ve-
néreo mais tarde; e porque muytas fêmeas não deitam a
semente tam asinha, em quanto tarda o homem, exercita
ella a obra de Vénus mais tarde, e em hum tempo junta-
mente se acaba o auto de conceber delles ambos, e pêra isto
ajuda o comer do amjiam, scilicet, pêra acabar o auto venéreo
mais tarde; e mais o amjiam aperta os caminhos por onde
vem a semente genital do cérebro, por causa da sua frial-
dade, e vem a fazerse a confeiçam de ambos juntamente,
E bem sei que isto o entendeis muyto bem, mas se o escre-
verdes em romance*, não parecerá pratica muito honesta.
* Em portuguez, ou na nossa lingua vulgar. Camões applica a palavra
a qualquer lingua vulgar: «que o romance da terra chama Oby»
(Lus. X, 96).
Do amfiam lyS
RUANO
Logo alguma rezam tem elles, posto que não muyto ho-
nesta; e porém me dizei, como lhe chamam amjiam, e quem
lhe chama asi.
ORTA
Todos lhe chamam ajiom, scilicet, os Mouros donde o
tomaram os Gentios, e nós mais corrompidamente lhe cha-
mamos amfiam; e a causa de os Mouros o chamarem afiom
ou ofiom, he porque os Arábios tomarão muytos nomes da
lingua grega, a qual elles chamam jhunani (casi lingua joni-
qua*): e porque os Gregos lhe chamam ophmi, e porque
ácerqua dos Arábios a letra /e a letra jc sam muito hirmans,
e põemse muytas vezes huma por outra, chamaramlhe elles
ofiiim ou afiinn, e também ápeonia chamam áks Jaunia, e
asi outros muytos nomes, mudando o p por^**.
RUANO
De quantas maneiras o ha?
ORTA
De muitas maneiras o ha, deferençandoo polias terras e
sinaes: o do Cairo (a que elles chamam meceri) he alvo,
e vai muyto dinheiro, e deve ser o que nós chamamos te-
baico: o de Adem, e de outras partes vizinhas ao mar Roxo,
he preto e muyto duro, e este em humas terras vai muyto,
e em outras pouquo: e o de Cambaia, e do Mandou, e do
Chitor, que he mais molle e mais louro, vai em muytas
terras mais, porque se acustuma a comer ahi; de modo que
o acustumado em cada terra a comer vai mais nella; e este
que diguo de Cambaia vem a mais cantidade delle de huma
terra, que chamam Mal vi.
• Já os antigos hindus chamavam aos gregos Yavana. de Iónicos, ou
♦• Não porque as letras sejam irmãs ou similhantes, mas porque ca-
recem dop. Veja-se a nota, vol. i, pag. 164.
iy4 Colóquio quadragésimo primeiro
RUANO
Como se faz ou o que leva, porque cheira a troinsco.
ORTA
Nam he mais que a guoma das durmideiras, o qual eu
soube em Cambaiete, vendo na praça vender cascas de dur-
mideiras, tam grandes que cada huma levaria huma canada,
e também vi algumas pequenas como as nossas; e pregun-
tandolhe por o nome, me dixeram que era caxcax (e he ver-
dade que asi se chama em arábio) e dixeramme que destas
durmideiras se fazia o amjiam, dando cutiladas nas durmi-
deiras por onde corria o amjiam. E quanto he ao troinsco
nam o ha em toda Cambaia, nem ouvi dizer que o ouvesse
em toda a índia, por onde podeis bem descansar que o nam
leva.
RUANO
Seram durmideiras pretas, pois diz Avicena* que quando
tevermos necessidade de fazer algum estupor ou mortifi-
camento em algum membro, nam pasemos de dor7}iideiras
brancas; porque ainda que façam estupor, sam domesticas;
e também Avicena diz** que o ópio se faz de durmideiras
negras.
ORTA
Antes nam vi durmideira preta em Cambaia, nem ouvi
dizer que a avia, por onde Avicena foy emganado nisso, ou
nas outras terras se faz das durmideiras pretas.
RUANO
Muyto me maravilho disto, sendo tam narcótico e estu-
pefativo quanto he. E aguora me dizei a quantidade que
toma huma pessoa cada diar
* Avicena, 4, i, cap. i, (nota do auctor).
** Avie. Libr. 2, cap. 527 (nota do auctor) ; isto é 522 da edição de
Rinio.
Do amjiam 176
ORTA
O que tive por emformação he de 20 até 5o grãos de trigo
de peso; mas eu conheci hum secretairo do Nizamoxa, cora-
çone de naçam, que comia cada dia três tollas, que he peso
de 10 cruzados e meio*; mas este coraçone, posto que era
bom letrado e grande escrivam e notador, sempre toscane-
java ou durmitava; e porém, metendoo em pratica, falava
como homem letrado e discreto; e por aqui podeis ver quanto
faz o custume (i).
* O «tolla» ou tola, peso que não vem mencionado no Lyvro dos
pesos, mas se encontra citado nas Lembranças, equivalia a 96 ratíis,
e é computado hoje officialmente na índia ingleza em 180 grãos (de
troy). Três tolas pesariam, portanto, 540 grãos, e sendo isto equiva-
lente ao peso de 10 — cruzados, teríamos para o peso do cruzado menos
de 52 grãos. Isto está a baixo da verdade, e devemos admittir um peso
superior para o tola de então, o que de resto não nos surprehende,
pois todos estes pesos variaram muito de epocha para epocha e de re-
gião para região. É bastante singular este emprego do cruzado como
unidade de peso.
Nota (i)
O opto, como todos sabem, procede da espécie Papaver* so-
iiiiiifex^aim, Linn, da qual em diversas regiões se cultivam distin-
ctas variedades, tidas por alguns na conta de espécies particulares, mas
reunidas modernamente por Boissier e outros botânicos na espécie
citada. O sueco leitoso das capsulas das papoulas d'esta espécie é co-
nhecido desde tempos muito antigos, e recebeu dos gregos o nome de
u.r,ic(óv£'.ov ou de c-o'í, que os latinos, como Plinio, escreveram opion, e de
que os árabes fizeram . ^ <wi1 , ^""j não que ope o/fossem muito simi-
Ihantes no seu alphabeto, como diz o nosso Orta, mas por que careciam
dop. De a/iun os portuguezes da índia derivaram afiam, e depois por
uma alteração phonetica natural amfiam. Para terminarmos desde já
com a nomenclatura, diremos que árabes e deckanis chamam á papoula
do ópio , iLsr\Lss., khaschkhasch, o «caxcax» de Orta.
Tudo quanto diz respeito ao ópio, á sua composição chimica e ás
suas applicaçóes medicinaes, á cultura da planta e ao processo de extrac-
i-jb Colóquio quadragésimo prijjieiro
cão do seu látex, é demasiado conhecido para que nos deva demorar
n'estas notas, e remettemos o leitor para os livros clássicos de Matéria
medica, particularmente para o excellente artigo da Pharmacographia
de Fliickiger e Hanbury, e, pelo que diz respeito á cultura na índia,
em uma região expressamente mencionada por Orta, para o que expõe
largamente o dr, Dimock, na Vegetable mat. med. ofwestern índia. Unica-
mente procuraremos deduzir, do que dizem Orta e outros escriptores
portuguezes do seu tempo, quaes eram as condições do commercio
do ópio pelos melados do xvi século, limitando-nos naturalmente a al-
gumas indicações muito breves, pois não temos espaço, nem elemen-
tos para mais.
O dr. Dymock, no artigo acima citado, diz-nos que os antigos escri-
ptores hindus não mencionam o ópio, e que o seu nome sanskritico em
obras relativamente modernas é ahiphena, tendo alguma similhança com
o nome arábico e podendo talvez derivar-se d'elle. Por outro lado, os
eruditos auctores da Pharmacographia são de opinião, que a introduc-
ção na índia da cultura do Papaver se deve relacionar com a entrada ali
dos árabes e do islamismo i. Parece, pois, que esta cultura não é muito
antiga n'aquella região; e o que dizem os nossos escriptores vem re-
forçar este modo de ver, mostrando-nos, como a índia não era no xvi se-
cvdo o que hoje é, uma região exportadora de ópio, mas pelo contrario
uma região largamente importadora.
No dia I de Dezembro do anno de i5i3, Affonso de Albuquerque
escrevia a D. Manuel unia carta, datada de Cananôr, dizendo- lhe o se-
guinte :
«Se me vos alteza quyser crer, mamday semear dormydeyras das
ilhas dos açores em todollos paúes de purtugall, e manday fazer afiam,
que he a melhor mercadaria que cobre pêra estas partes, e em que se
ganha dinheiro: por este açoute que demos adem, nam veo afyam á
imdia, e onde valia a doze pardaos a faraçoUa, nam se acha agora a
oytemta: o afyam nam he outra cousa, senhor, senam leite de dorme-
deiras ; do cayro, domde soyam a vyr, nam vem, mem d adem ; portanto,
senhor manday o semear e laurar, porque hua náo carregada se gastará
cada ano na Imdia, e os lauradores ganharam também muyto, e a jem-
te da Imdia perde-se sem elle, se o nam comem; e meta vos alteza este
feito em ordem, porque nam vos esprevo pouquo.»
Este trecho de cartas é interessantíssimo, como são em geral os
documentos emanados de Affonso de Albuquerque, mostrando-nos o
seu alto e activo espirito, occupado de todas as questões que por qual-
quer modo podiam interessar Portugal. Sob o nosso ponto de vista
' E necessário, no emlanto, advertir, que A. Pictet menciona um nome sanskrito kas-
khasa, de onde deriva o nome persa, e o nome árabe já citado khaschkhasch, parecendo in-
clinar-se á opinião de uma cultura antiga na índia (Orig. Indo-Eur., i, 2g5).
Do amjiam 177
actual, é perfeitamente conclusivo. Albuquerque não diz uma palavra
da cultura na índia, e informa-nos de que, cortado o caminho de Adem,
a droga havia subido extraordinariamente de preço, passando de doze
a oitenta pardáos. A producção estava, portanto, longe de satisfazer
ao consumo, e a índia era, como dissemos, uma região largamente im-
portadora.
Poucos annos depois, no livro terminado em i5i6, mas dando no-
ticias relativas a annos anteriores, Duarte Barbosa é o primeiro a men-
cionar o ópio fabricado na índia. Na sua lista final de drogas, traz o se-
guinte :
«Opioi que vem de Adem aonde o fazem,
vai em Calicut a farazola, fanões 280 a 820
«Outro ópio que se faz em Cambaya 200 a 25o
Paliando de Malaca, diz também, que os juncos levavam para o
Oriente, provavelmente para a China «vermelham, azougue, an-
fiam, e outras muytas mercadorias e dragoarias de Cambaya.» Não diz,
porém, que este amfiam fosse todo colhido em Cambaya, e sem du-
vida devia vir na maior parte do occidente, passando em transito pelos
portos da índia, como succedia com o azougue e vermelhão. Isto é con-
firmado pelo facto, de muitos annos depois os chins não terem ainda
o ópio como um producto da índia. O dr. Bretschneider, em uma carta
dirigida ao sr. A. De CandoUe, nota que uma Matéria medica chin
(i 552-1 578) menciona o ópio, chamando-lhe a-fou-yong (evidentemente
uma transcripção chineza do arábico afiUn), e dizendo, que era produ-
zido no paiz de Tienfang (Arábia). É certo, no emtanto, que algum
ópio da índia já então devia ir para a China, como logo veremos me-
lhor. Em resumo, Barbosa é o primeiro a mencionar a producção de
ópio na índia, e o primeiro a mencionar a sua importação no extremo
Oriente.
Quasi pelo mesmo tempo (27 de Janeiro de i5i6) Thomé Pires es-
crevia a D. Manuel a sua conhecida carta, dando-lhe as seguintes infor-
mações sobre a procedência do ópio:
«nacee em tebes cidade do Reyno do cairo; nacee em adem, em
canbaya, no Reino de coús, que he na terra firme de Bengala.»
Colloca em primeiro logar o do Egypto e de Adem, e só depois o
da índia, dando-nos n'esta parte a noticia nova e interessante, de que
já se colhia em Coús (Kus Behar) no valle do Ganges, hoje uma das
principaes, ou a principal região productora da índia.
Do mesmo modo que Thomé Pires, Garcia da Orta menciona pri-
meiro o ópio do Egypto, dizendo dever ser o chamado «tebaico», como
' Esta parte falta no manuscripto portuguez, e foi traduzida da versão de Ramusio ; pro-
vavelmente Barbosa escreveu <anfiam» e não ópio.
12
178 Colóquio quadragésimo primeiro
Pires havia dito que vinha de «tebes» ou Thebas. Já séculos antes,
Simão Januense — varias vezes citado nos Colóquios — havia fallado
do opiíim ihebaicum; e uns vinte annos depois da publicação do livro
de Orta, Prospero Alpino visitou o Egypto, e informa-nos de que na
provincia chamada Thebaida cultivavam a papoula e colhiam o ópio.
O Egypto era, pois, no xvi século, como ainda hoje é, uma região ex-
portadora; mas era n'aquelle tempo exportadora para a índia.
Orta falia depois no ópio de Adem e regiões «vizinhas ao mar Roxo».
Apezar de Barbosa usar a expressão de «Adem aonde o fazem», eu
creio que este ópio devia vir da Ásia menor, onde a cultura da papoula
é antiquíssima, e passaria por Adem. em transito para a índia, o caminho
natural n'aquelle tempo. O próprio Barbosa, fallando especialmente do
porto de Adem, menciona o opeo (sic) entre muitas mercadorias, que
ali vinham ter de diversas regiões e d"ali seguiam para Cambaya. Este
ópio de Adem, ou mais provavelmente da Ásia menor, era bom, e o
mais altamente cotado no mercado de Hormuz (i554): «vai a mão do
(amfiam) d'Adem a 6 azares^». Logo abaixo estava o da Pérsia: «e o
que vem da Pérsia a 5 azares». Como se vè, o ópio de Adem ia também
para a índia, quer por esta expressão se deva entender o colhido nas
proximidades, quer, como parece mais racional, se deva entender o da
Ásia menor e do Egypto, cujo commercio se fazia por aquelle porto.
Por ultimo, Orta falia da producção de ópio em Cambaya, nas terras
de Chitor, Mandou a Malvi. Já notámos (vol. i, pag. 268), que Chitor era
o nome dado pelos portuguczes ao principado rajpút de Udipura, e
Mandou o que davam ao reino mussulmano de Mahvá, de modo, que o
«Mandou» e «Malvi» de Orta são a mesma região. Ainda hoje esta re-
gião, isto é, todo o planalto que se estende para o norte da cordilheira
de Vindhya até ás serras de Aravalli, é um dos principaes centros in-
dianos da cultura do Papaver e colheita do ópio. O dr. Impey, que re-
sidiu ali alguns annos, dá uma minuciosa descripçao — transcripta pelo
dr. Dymock — da cultura da papoula n"aquellas terras, dizendo que a
planta se desenvolve perfeitamente, e algumas das suas capsulas chegam
a medir 3 — pollegadas de altura, por 2 -^ de diâmetro — ainda assim não
sei se levariam «uma canada». Este ópio de Mahvá, que vinha aos por-
tos de Cambaya, Surrate, Baroche e outros, valia em Hormuz menos
que o de Adem, apenas 4 — azares a mão; mas era o mais apreciado no
sul e no oriente : «e o de cambaia he o milhor pêra malaqua e mala-
var». Como se vê, já então ia algum ópio indiano para Malaca, e se-
guramente d'ali para a China.
' A «ináo> (hind. man) pela qual se pesava o ópio em Hormuz equivalia a pouco mais de
um kilo (1,1212); e o «azar> valia iSg a 140 reaes, proximamente em valor intrínseco 700 réis
da nossa moeda actual
Do amjiam 179
Resumindo, poderemos, me parece, chegar ás seguintes conclusões,
A índia era na primeira metade do xvi século uma região largamente
consumidora de ópio, por ser muito geral o uso d'esta droga — «por
ser muyto usado em comer entre muytos», como explica Garcia da Orta.
Na própria índia cultivava-se a papoula e preparava-se o ópio, já na
região de Cambaya e Malwá, segundo o testemunho de Orta, já no
Bengala, segundo o de Pires. Esta producção de modo algum chegava
para o consumo, como se vê pelo facto, mencionado por AíTonso de Al-
buquerque, de que, cortada a importação, a droga subia extraordina-
riamente de preço. Os portos donde a índia se abastecia, eram Hormuz,
por onde vinha o ópio da Pérsia, e principalmente Adem, por onde
vinha o do Egypto e provavelmente também o da Ásia menor. Final-
mente passava já bastante ópio da índia para Malaca, e d'ali naturalmente
para a China; e n'este ópio, que em grande parte devia ser de proce-
dência Occidental, começava a ir algum colhido em Cambaya.
E curiosa esta marcha de oeste para leste do consumo, e, em seguida
ao consumo, da producção: primeiro o Levante, Egypto e Ásia menor,
abastecendo a índia; depois a índia abastecendo a China; e dentro em
pouco, a China produzindo o sufficiente para o seu consumo, e abas-
tecendo talvez de morphina a civilisada America e a civilisada Europa.
(Cf. Fliick. e Hanb., Pharmac, 38 a 60; Dymock, Mat. med., Sg;
Albuquerque, Cartas, 174; Duarte Barbosa, Livro, 262 e 3S3;Thomé
Pires, Carta, Sg; Lyvro dos Pesos, i3.)
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO SEGUNDO
DO PAO DA COBRA. E HE DE TRÊS MANEIRAS
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Aqui em vossa caza vejo dar pêra os meninos huma raiz
ou pao, e chamamlhie pao da cobra; dizem aproveitar pêra
as lumbrigas. Peçovos por mercê, que em breves palavras
me digaes o que he, de que terra vem, e se he abusam ou
dito falso do povo, ou se aproveita pêra alguma cousa.
ORTA
Nam he senão mezinha muyto apropriada á peçonha das
serpentes ou cobras \ e disto ser esprementado pêra as lum-
brigas, e pêra as bexiguas, e sarampam, e pêra colérica pasio
(chamada nestas partes mordexi) ,hQ. fama comum da gente
da terra, onde ha este pao. Também dizem aproveitar pêra
as febres de difícil medicaçam, segundo me dixe hum frade
de Sam Francisquo, digno de fé, que a dera a hum homem
que padecia febres antiguas; e que lha dera duas vezes,
moida e deitada em agoa em cantidade de huma onça, e
que ficou sam, arrevesando muyta cólera; e por aqui se
soube que aproveitava ás febres antiguas.
RUANO
E como se sabe que he bom pêra a mordedura das ser-
pentes?
ORTA
Na fermosa ilha de Ceilam, ainda que seja chea de muitas
frutas e boas, e caça e montaria, todavia ha muytas serpen-
tes, a que chama o vulgo cobras de capelo; e nós em latim
as podemos chamar regulus serpens; e pêra estas deu Deos
nella este pao da cobra; e soubese aproveitar pêra a morde-
dura delia, porque ha nesta ilha huns bichos, como forões,
i82 Colóquio quadragésimo segundo
a que chamam quil (e outros lhe chamam çz//rj[?e/eje pelejam
com estas serpentes muitas vezes; e se sabe que ha de pe-
lejar com ella, ou se teme disso, morde hum pedaço desta
raiz que está descuberto, e lambese com a mão, ou por mi-
Ihor dizer untase com a mão, que tem molhada com o çu-
mo, e faz isto na cabeça e no corpo, e nas partes onde sabe
que a cobra, com o seu salto, lhe ha de ir morder; e peleja
com ella até que a mata, mordendoa e arranhandoa; e se
não acaba de a matar, ou ella tem mais força que elle, vaise
o bicho chamado quil ou quirpele, e esfregase na raiz, e torna
a pelejar com ella, e asi acaba de matar ou vencer; e daqui
tomaram ocaziam os Chingallas, e com esta experiência
viram que aproveitaria esta raiz e pao para as mordeduras
das cobras; e os Portuguezes com isto creram os bens,
que a gente desta terra lhe dizia deste pao, e per tempo
viram algumas espiriencias fundadas em rezam, por onde
souberam aproveitar pêra a peçonha; e também souberam,
e viram pollos seus olhos muytos, esta pelleja do bicho com
a cobra ser verdadeira. E pêra dardes mais fé a isto, se vos
não enfadardes, vos contarei huma cousa que vio este frade
de Sam Francisco, dino de fé e virtuoso, estando em Nega-
patam, que he huma terra firme, perto desta ilha de Ceilam*.
RUANO
Antes me fareis muita mercê em ma contar.
ORTA
Tem muitos homens portuguezes em caza estes bichos
domésticos e mansos, pêra lhe matarem os ratos, e pêra
os fazer pelejar com as cobras de capello, que trazem os
jogues com que pedem á gente esmolas. E sam estes jogues
huns gentios, que andam pidindo per todas as terras, e
andam emfarinhados com cinza, e sam venerados de todo
• Nagapattanam, na costa de Coromandel, logo ao norte do cabo de
Calimere, a que os portuguezes chamavam cabo de Canhameira.
Do pao da cobra i83
o povo gentio, e de alguns mouros; e porque andam muytas
terras, sabem muytas mezinhas e esperiencias, mentirosas
e verdadeiras: e alguns exercitam o joguo de passa passa,
e trazem estas cobras, que dixe, e embebedam as, e mais
lhe tiram os dentes e presas, porque lhe não façam mal;
e com isto, e com os benefícios que lhe fazem, as tratam
com as mãos, e as cingem ao pescoço, e nos metem em ca-
beça que sam encantadas; mas eu o tenho por mentira. E
o cazo foy, que chamou hum portuguez em Negapatam a
hum jogue, que trazia cobra, e dixelhe, se queria pelejar a
cobra com o seu bicho, e o jogue porque tinha tirado alguns
dentes, donde tinha a força, não o quis fazer até que lhe
deu hum crusado ; e veo o bicho pêra a batalha apercebido,
e andou primeiro metendose debaixo dos asentos, buscando
se cheirava algum pao ou raiz, que fose do pao da cobra,
e não a achando, com a sua própria saliva se molhou, e
saio pêra pelejar com a cobra ; a qual lhe saltou na cabeça,
e o firio mal duas a três vezes, e elle a ella outras tantas,
até que se apartaram ambos mal feridos, porém ella pior
que o bicho. E o jogue, achandose com o ganho da batalha,
e com a cobra viva (porque sarou depois), trouxe outra cobra
que não tinha os dentes tirados, e cometeo ao portuguez
se queria que tornasem á batalha os animaes, e porém
que lhe avia de dar mais, porque a sua cobra estava perto
da morte, e que por isso trazia outra; e o portuguez lhe
deu outro tanto como antes lhe avia dado, e o jogue foy
contente; porque a sua cobra vinha milhor armada, e o por-
tuguez com seu bicho apercebido pêra a luta ou guerra, o
qual elle afagou primeiro, e lhe trouxe raizes, e elle as mordeo
por hum pouco espaço, e se untou com a mão molhada no
que avia mordido; isto fez pela cabeça e lombos e pella
barriga; e estando elle já apercebido, veo o jogue com a
serpe, a qual se levantou em pé, casi do meo para cima,
e deu hum salto, e o bicho lhe furtou o corpo, saltando
para outro cabo, e asi se fizeram alguns cometimentos, to-
cando o bicho a cobra ás vezes, e outras vezes sendo mor-
dido delia; finalmente o bicho lhe saltou na cabeça, e hum
184 Colóquio quadragésimo segundo
pouquo mais atras donde a mordeo, e a apertou, e a arra-
nhou de tal maneira que, por andar cansada, a matou, porque
andava muyto emfraquecida dos morsos primeiros; porque
he veneno o baíFo do bicho pêra ella, e desta maneira foy
a cobra do jogue morta, e elle desesperado.
RUANO
Certamente que foy isso muyto, e deve ser verdade; pois
volo dixe esse religioso, dino de fé e credito: e peçolhe que
me digua se ha este páo em outros cabos mais que em
Ceilam, e me descreva e pinte a feiçam delle (i).
ORTA
Ha este pao de três maneiras em Ceilam, e chamase,
este de raiz mais estimada que vos contei, em Ceilam (terra
dos Chingalas) rannetul*, e he hum arbusto, e crece até dous
palmos ou três; deita poucas asteas, scilicet, até 4 ou cinquo,
e sam muyto delgadas. E a raiz he a que se aproveita, e
he delgada como a mais delgada vide nossa, e tem nós ou
cabeças, e sempre alguma raiz deste pao está de fora da
terra; e se a mordem ou arrancam per alguma parte, lança
loguo outras raizes, donde lhe tiraram a outra. A fruta que
dá este pao he como a do sabuguo, tirando que esta he
vermelha e mais dura; nace em cachos redondos, feitos
como madresilva, e sam mais pequenos os grãos vermelhos,
e mais apertados, como dixe; e a frol que deita he muyto
vermelha, e deita hum cacho redondo, e apartado da folha,
que he como de pexegueiro, e o verde delia he mais escuro;
e a cor da raiz he entre branco e pardo, e he muyto macia
ao tocar, por não ser molle, e amargua muyto. Ha este
pao em muitas partes, asi como em Goa, nas terras firmes:
este se dá bebido em agoa, e moido primeiro; e nós o da-
mos em vinho ou em alguma agoa cordial, e faz muyto pres-
* Clusius transcreveu rametul, e assim tem sido citado o nome de-
pois; mas é claramente rannetiiL
Do pao da cobra i85
tes sua operaçam: e também se móe, como sândalo, e se
põe no lugar mordido; este chamam boqueti avale em chin-
galá*, e asi mo dixe o embaixador (2). Ha em Ceilam outro
pao ou raiz contra a peçonha usado, como estoutro, e he hum
arvore como romeira, e não maior, e as folhas sam ama-
relas muyto fermosas; tem todo o pao espinhos, e os espi-
nhos sam rombos, e a casca he branca e grossa, e gretada
e muyto maciça e amarga, mas nam tanto como a do pri-
meiro pao. O pao e a raiz e a casca he o que se dá tudo
mesturado, mas a raiz dizem ser a milhor; e este arvore,
quando está só, crece tanto como huma romeira, e se está
com outros arvores ou mato, a que se arrime, lia o todo
a modo de abobreira, e asi os ramos mais altos do arvore
os cinge todos. Deste arvore mandei ja a emfermos que fi-
zesem copos, e estes emfermos aviam sido tocados de peço-
nha, que lhe foy dada; e creo que lhes aproveitara, porque
as cousas continuadas aproveitam; e já pode ser que apro-
veitem estes vasos pêra fazer a comprisam triacal**, como
alguns doutores nossos a emsinão fazer, que he pêra lhe não
fazer mal a peçonha. Este pao dizem também alguns que
ha na ilha de Goa, mas eu ainda o não tenho esprementado (3).
Quando o viso rey dom Constantino foy a Jafanapatam, que
he huma ilha, que parte com Ceilam ***, troxeramlhe de pre-
sente huns feixes de hum pao com suas raizes, por ser cousa
muito estimada contra a peçonha; e cheira esta raiz bem,
e he delguada e dura e preta; e destas raizes e pao dizem
que ha muyta nestas terras firmes de Goa. A folha deste
derradeiro pao que diguo he como lentisco, he asi delguada
e comprida, e malhada de branco e pardo, com malhas
# Boqueti avale parece ser um segundo nome do rannetul; mas
pôde também designar a mordedura ou ferida.
** A composição da triaga ou theriaca,
*»* Jafnapattam é habitualmente chamada uma peninsula, mas po-
dia sem erro considerar-se uma ilha, mormente no tempo de Orta, em
que os esteiros divisórios seriam mais pronunciados.
i86 Colóquio quadragésimo segundo
brancas e pretas: nam he verde. E os ramos sam delgados,
e estendendose muito por terra, mais de quatro ou cinquo
covados; e as foliias sam muyto poucas, e os ramos poucos
e delgados, que se não podem sostentar direitos. Deste derra-
deiro pao me deu conta o licenciado Dimas Bosque, pessoa
de muito boas letras, e homem de muyta verdade, e de
muyto gentil juizo nas curas que faz ; e pois mo elle gabou,
e lá ouve tantos doentes, elle o podia bem esprementar, e
ao menos seivos dizer que me avia de dizer verdade (4).
RUANO
Dizemme que em as partes de Malaqua tiram humas frei-
chas empeçonhentadas, e que ha huma raiz contra essa peço-
nha, muyto esprementada; folgaria de saber que cousa he.
ORTA
Por ser o mato cheo de tigres, e a gente pouco curiosa,
nunqua me souberam dizer a feiçam da arvore; e por isso
vos não fallo aqui nella; somente me dixeram algumas pes-
soas que delia vieram, ser o pao da cobra destas terras, e
que asi lhe parecia, por serem as raizes de huma mesma
feiçam; e tudo pôde ser, mas não o afirmo, porque o nam
sei bem sabido.
Nota (i)
Vários escriptores portuguezes dão noticias mais ou menos desen-
volvidas dos conhecidos ascetas, nómadas e mendicantes, chamados
por elles «jogues», do nome hind.yo^F, e do sanskr. j^o^m, derivado da
yoga, um systema de meditação e austeridades, que se dizia conferir
a quem o praticava poderes sobrenaturaes. Duarte Barbosa, attribuin-
do-lhes — sem razão, segundo creio — uma significação politica de
reacção hindu contra a usurpação mahometana, descreve-os detida-
mente, insistindo, como Orta, no seu habito de andarem «emfarinha-
dos com cinza»:
« andaom nuus e descalsos, nem trazem nenhúa cousa na ca-
beça hos corpos e rostos trazem untados de cinza estes cha-
Do pao da cobra 187
maom Jones (sic) e Coamerques * quer dizer tanto como servidores de
Deos».
Gaspar Corrêa menciona também o emprego habitual da cinza, á
qual dá uma origem particular:
«....andão sempre enfarinhados com cinza d'outros jogues, que
morrendo os queimão, e chegando a seus devotos lhe põem d'aquella
cinza na testa, e nos peitos, e nos hombros.»
Orta, que os não toma muito a serio, diz-nos que elles reuniam ao
seu caracter religioso, a quahdade de prestidigitadores. Encontramos
esta noticia confirmada pelo viajante Bernier, um medico francez, que
percorreu a índia pouco depois de i65o, e exerceu a sua profissão nas
cortes de Scháh Jehan e de Aureng Zeb. Segundo Bernier, os jauguis,
para demonstrarem a sua sciencia e poder, ou o seu jaiiguisme, como
elle lhe chama, adivinhavam os pensamentos, faziam florir e fructificar
um ramo secco em menos de uma hora, chocavam ovos no seio em
menos de um quarto de hora, e executavam outras habilidades da cu-
riosa e mal explicada prestidigitação oriental, a que o nosso escriptor
chama desdenhosamente «jogos de passa passa». Exerciam também a
profissão de domadores ou incantadores de cobras venenosas, particu-
larmente da cobra capello {Naja tripiidians)^ uma profissão muito vul-
gar até hoje, e sobre a qual será desnecessário insistir. Unicamente no-
tarei, que estes domadores de cobras não eram desconhecidos de outros
escriptores portuguezes, contemporâneos de Orta. Como diz Barbosa:
« muytos tregeitadores trazem estas (cobras) vivas em pane-
las, encantadas que nam mordem, e cora ellas ganhaom muyto dinheiro,
pondoas ha ho pescoço, mostrandoas.»
Gaspar Corrêa, referindo-se á malevolencia com que algumas cobras
de capello haviam sido introduzidas na fortaleza de Calicut, conta como
o capitão as mandou buscar por homens da terra:
« que as sabiam tomar sem ellas lhe fazerem mal, por que le-
vão elles atada nas mãos huma raiz de huma herva, que tem tal vertude,
que a cobra em a cheirando fiqua douda sem picar nem bolir comsigo.»
Como se vê, Gaspar Corrêa attribue também a immunidade d'estes
incantadores de cobras ao emprego de certas plantas, questão que logo
teremos de examinar mais detidamente.
(Cf. Yule e Burnell, Gíoss., 35 1; e a citação de Bernier, 425; Duarte
Barbosa, Livro, 3io e 841; Gaspar Corrêa, Lendas, i, 65i, e 11, 776).
A menção dos jogues e das suas cobras vem no Colóquio subsidiaria-
mente, a propósito do combate da cobra com um «bicho», e sobretudo
' Ha aqui vários erros de imprensa ou copia ; o nome em Ramusio é Coames, e parece
que no manuscripto se deveria ler : «Coames, que quer dizer » . A palavra Coames, ou
Coames, pôde derivar-se de stiãmin, que em sanskrito significa senhor, e por extensão um
servidor do senhor (Cf. Ramusio, i, 3o3 verso ; Yule e Burnell, Gloss., 671).
i88 Colóquio quadragésimo segundo
a propósito das plantas a que esse bicho recorria. Os «bichos como
foróes» são fáceis de identificar com o bem conhecido Hei*pestes
TMCung-o, Blandford {Herpestes griseus de muitos zoologos, Viverra
e impropriamente Ichneumon de alguns livros). Se a identificação d'este
pequeno carnívoro é fácil e não deixa duvida alguma, a dos nomes que
Orta lhe dá é difficil, e não encontrei cousa parecida com «quil» ou
«quirpele». O nome sanskritico d'este animal é HsfiM, nakula, ao qual
se devem prender uns nomes indianos modernos, newal ou nyaul, cita-
dos por Yule e Burnell ; por outro lado o seu nome telugu é mangísu,
donde vem viongiis (como escreve João Ribeiro), o mwigoose dos in-
glezes, a mangouste dos francezes e outras formas. Nada d'isto se pa-
rece com «quil», e repito não saber qual a origem dos nomes citados
por Orta, sendo no emtamto segura a identificação do animal, pois os
seus hábitos são perfeitamente característicos.
Todos conhecem as menções clássicas do Ichneumon do baixo Egy-
pto — uma espécie do mesmo género Herpestes — e dos seus combates
com os áspides, vivamente descriptos por Plinio : mergit se limo
scepius, siccatque sole. Mox ubi pluribus eodem modo se coriis loricavit,
in dimicationem pergit. In ea caudam attolens, ictus irritos aversus ex-
cipit, donec obliquo capite speculatus invadat in fauces.
Descripção posta em verso e ampliada por Lucano na sua Pharsalia:
Aspidas ut Pilarias cauda solertior hostis
Ludit, et ir atas incerta provocai umbra:
Ohliquus que caput
Do mesmo modo que o seu congénere do Egypto, o He/pestes da
índia ataca denodadamente as cobras, tanto as inoffensivas, como as
venenosas e de grandes dimensões. D'ahi lhe veiu uma reputação muito
antiga, sendo o nakula mencionado já, nada menos que no Atharva
Veda {Dic. de S. Petersburgo, s. v.). E d'esta mesma circumstancia,
assim como de ser um activo caçador de ratos, resultou o facto de ter
sido domesticado na índia, Ceilão e outras partes do Oriente, desde tem-
pos muito remotos. Em uma fabula ou conto do Panchatantra (v, 2), re-
petida com algumas variantes de redacção no Hitopadecha (iv, i3), nós
vemos um Brahmane, deixando o seu filho entregue á guarda de um na-
kula fiel, creado de pequeno na casa. Estes hábitos conservaram-se até
ao tempo de Orta, que nos falia «dos bichos domésticos e mansos«; e até
ao de João Ribeiro, que na sua Fatalidade histórica nos conta o caso es-
cabroso de um mongús, imperfeitamente domesticado, embora dormisse
na cama com o dono. Como se vê, o Herpestes da índia tem uma litte-
ratura tão respeitável pelo menos como o do Egypto, e se o ultimo foi
mencionado por Heródoto, .Eliano e Plinio, o primeiro vem citado nos
Vedas, e em mais de uma fabula do Panchatantra e do Hitopadecha.
Do pao da cobra 189
Do facto do mongiis ou nakida atacar as cobras as mais venenosas,
saindo muitas vezes vencedor e incólume do combate, resultou natu-
ralmente a idéa de que elle possuísse uma certa immunidade, ou na
sua própria natureza, ou proveniente do emprego de varias plantas,
nas quaes procura uma espécie de preservativo ou de antídoto. Esta
idéa é muito antiga, e no Amarakocha encontramos citados vários sv-
nonymos da planta ou das plantas que o nakula procura como antídoto,
sendo alguns d'esses synonymos derivados do próprio nome do animal,
como TRTtTT rtãhidl e H=ll(Tl'è'l nakulechta. É extremamente difficil
saber a que planta ou plantas davam estes nomes. Sir W. Jones, em um
interessante artigo acerca de plantas indianas, e a propósito de uma
espécie de Ophioxylum, da qual teremos de fallar na seguinte nota
mais largamente, Sir W. Jones cita os nomes d'aquelle celebre voca-
bulário de Amarasinha, mas sem se pronunciar abertamente pela iden-
tificação. De resto, o Ophioxylon, como em geral a botânica indiana,
era mal conhecido no seu tempo. Posteriormente têem-se citado varias
espécies vegetaes, pretencentes a diversas famílias, como podendo ser
aquellas a que recorre o mongús; tem-se citado a Aristolochia indica,
a Rauwolfia serpentina {Ophioxylon serpentinumj, a Ophiorrhitja Mun-
gos e outras; mas não ha relativamente a nenhuma d'ellas, nem a prova
de que sejam realmente activas, nem a prova de que o animal as pro-
cure.
Sir E. Tennent cita o testemunho de uma pessoa, que presenceou
vários encontros do mongús com a cobra capello, e viu o animal comer
herva nos intervallos do combate; mas apparentemente uma gramínea,
uma herva qualquer, como para se refrescar. Blandford também não
crê, que elle procure uma ou mais plantas especiaes como antídoto ou
prophylactico, assim como não crê, que da sua constituição lhe resulte
immunidade em relação ao veneno da cobra capèllo e outras. Segundo
este observador, os triumphos frequentes do mongús resultam da sua
pellagem espessa e eriçada, em que os dentes da cobra penetram diffi-
cilmente, da dureza do seu couro, e sobretudo da astúcia e destreza
com que evita o ataque da cobra, e aproveita a occasião de lhe pegar
no toutiço, inutilisando-lhe as presas venenosas — d'aquelles artifícios,
descriptos já por Plinio e Lucano.
Assim como se tem attribuido ao uso de varias plantas a immunidade
supposta do mongús^ assim se attribue a essas plantas, como já dizia
Gaspar Corrêa, a immunidade também supposta dos domadores de
cobras. É certo que elles apparentam usar de certas raizes; mas parece
haver n'isto uma simples illusão, ou um acto de charlatanismo. O seu
principal meio de acção, quando lidam com cobras ainda munidas das
presas venenosas, como succede varias vezes, parece consistir na re-
solução enérgica e na promptidão dos movimentos, que dominam com-
pletamente o reptil. Em todo o caso a immunidade não existe, e citam-
igo Colóquio quadragésimo segundo
se vários casos de domadores, mordidos pela cobra capello, e que suc-
cumbiram promptamente ao effeito do veneno.
Voltando a Orta, vemos que elle repetia simplesmente uma crença
commum e muito antiga.
(Cf. Blandford, The fauna of British índia, i23, London, 1888; Pli-
nius, viii, 36, ed. Littré; Lucanus, Pharsalia, iv, v, 729; Ribeiro, Fatali-
dade histórica, na CoU. de not., v, 58; Amarakocha, tr. de Loiseleur
Deslongchamps, i" partie, io3, Paris, 1839; Sir W. Jones, Botanical
Obs.y in Asiat. Res., iv, 309; Tennent, Ceylon, i, 145 e 197.).
Nota (2)
Do que fica dito na nota anterior, se vê como naturalmente se in-
dicaram muitas e diversas plantas, dizendo-se serem aquellas a que
o mongús e os naturaes da terra recorriam como prophylacticos ou
antidotos, e podiam, portanto, aproveitar nos casos frequentes de mor-
deduras de cobras. Multiplicaram-se, pois, os chamados jfáoí da cobra,
e é muito difficil identificar todos aquelles de que faliam os diversos
escriptores, podendo mesmo suscitar-se alguma duvida acerca dos três,
mencionados e descriptos por Orta.
O primeiro e —segundo elle diz — o mais estimado pode identifi-
car-se com a K-aiXTVolíia serpentina, Benth. (Ophioxylon
serpentinum, Linn; Ligustrum foliis ad singula internodia ternis, Bur-
mann.; Cleviatis indica, Persictv foliis, fructii Periclyvieni, Gaspar Bau-
hino?) uma pequena planta, pertencente á familia das Apocynacece, que
foi figurada já nos tempos antigos por Rhede, Rumphius e João Bur-
manno. A descripção de Orta, salvas uma ou duas notas menos con-
cordes, quadra bastante bem áquella planta. Assim, elle diz que cresce
até dous palmos ou três; e — segundo as diagnoses de Hooker — a
Ramvolfia attinge habitualmente de 6 a 18 pollegadas, chegando exce-
pcionalmente a 2 ou 3 pés: diz que a flor é «muyto vermelha»; e, com-
quanto a corolla da Ramvolfia seja superiormente branca, os pedún-
culos e tubos da corolla são intensamente vermelhos, de modo que o
vermelho é a côr dominante na inflorescencia, sobretudo na inflores-
cencia nova: diz que deita «um cacho redondo e apartado da folha»;
e a inflorescencia da Ramvolfia consiste em cymos arredondados e lon-
gamente pedunculados: compara a folha com a do pecegueiro, e o fru-
cto com o da madresilva, o que não anda muito fora de propósito, e
lembra a phrase de Bauhino no Pinax: diz, na verdade, que a fructa é
vermelha, quando as drupas da Rauwolfia são negras, mas n'isto pode
haver um engano, ou uma má apreciação do tom roxo denegrido. Em
resumo, e quanto podemos julgar por uma diagnose, feita nos meados
do XVI século, o primeiro jpao da cobra deve ser a Ramvolfia serpentina.
Do pao da cobiça ini
Aos motivos de identificação, que resultam da curta descripçao de
Orta, acrescem outros de diversa natureza. Esta planta foi uma das
mais celebradas, ou a mais celebrada na índia, como antídoto supposto
ou verdadeiro nos casos de mordeduras de cobras. Parece ser a planta,
ou uma das plantas mencionadas na passagem do Amarakocha, que
citámos na nota antecedente; e uma circumstancia —ainda não apon-
tada que eu saiba— vem em apoio d'esta identificação. Um dos nove
synonymos do Amarakocha, ^^WT, chatrãkt, significa umbella, ou
cousa em forma de umbella, e podia muito bem applicar-se ao cymo
denso e achatado da Rauwolfia. Passando aos botânicos posteriores a
Orta, temos Rhede, que falia d'esta planta, sob o nome malabar tsjo-
vanna amelpodi, diz que os portuguezes lhe chamavam talona, e affirma
que a raiz tinha a reputação de ser um remédio soberano contra mor-
deduras de cobras e picadas de lacraus: temos Rumphius, dando-lhe
o nome latino radix mustela^, e o nome portuguez raz^ de mongo, iden-
tificando-a assim com a planta do mongús: temos também Burmanno,
identificando-a explicitamente com o Lignum colubrimm primurn et
laudatissimimi Garpa^ ab Horto. Tudo isto, junto naturalmente á con-
cordância de caracteres, nos leva a uma identificação bastante segura.
O nome vulgar d'esta planta é, segundo Orta, «rannetul«, que foi
por engano transcripto rametul na versão latina de Clusius, e depois
todos citaram na ultima forma. Nem na primeira, nem na ultima forma
se encontra; e já o antigo botânico Hermanno, nos rótulos do seu her-
bario, notava que a planta se chamava vulgarmente em Ceylão acawe-
rya ou akawerya, e elle^ não sabia por que motivo Orta havia dito que
lhe chamavam rametul. É claro que esta troca de nome vulgar de modo
algum pôde lançar uma duvida sobre a identificação, que me parece
segura (Cf Hooker, Flora of British índia, ui, 632; Rhede, Hort. ína-
labaricus, vi, t. 47; Rumphius, Herb. Amb.wi^ Aucluavmm, 29; J. Bur-
manni. Thesaurus Zeylanicus, 141, t. 64, Amsteleedami, 1787; Ainslie,
Mat. Ind., 11, 441; Dymock., Mat. med., 5o5.).
Nota (3)
A identificação d'este segundo /'ao da cobra é um pouco mais incerta-
parece, no emtanto, que Orta quiz fallar da Sti-ychiios coUi-
l>i*iiia,, Linn., uma planta lenhosa da família das Loganiacea; que
passou sempre por ser a origem da maior parte do pão de cobra do
commercio, e Rhede figurou e descreveu sob o nome malabar viodira
caniram, e o nome portuguez páo da cobra.
O que Orta nos diz do porte da sua planta, comprehende-se bem,
poisque a S. colubrina, sendo uma espécie lenhosa e sarmentosa, pode
formar uma arvore pequena quando esteja isolada de qualquer supporte.
ig2 Colóquio quadragésimo segundo'
e desenvolver-se mais largamente, como todas as plantas trepadeiras,
quando se enleia em outras arvores. Também os caracteres da casca
não desdizem da S. colubrina, cuja casca é esbranquiçada (ash colour-
ed, diz Roxburgh) e bastante espessa e gretada, havendo no género
Strychnos um desenvolvimento considerável da camada suberosa. É
também muito amarga esta casca, como é a da Strychnos Nux-vomica
e de outras Lxtganiacece. Comprehende-se menos o que Orta quer dizer,
quando falia de «folhas amarellas muyto fermosas»; e suscita sobretudo
difficuldades a sua referencia aos espinhos, pois a S. colubrina é iner-
me. Elle usa, porém, de uma expressão um tanto enygmatica, dizendo
que os espinhos são «rombos*». Talvez por esta expressão elle quizesse
designar os cirrhos simples e incurvados da S. colubrina, que nos cau-
les mais antigos engrossam e se tornam lenhosos.
Ha outra espécie do mesmo género, espontânea no Malabar e Ceylão,
Strychnos ininor, Blume, a que Orta se podia também referir; mas
a difficuldade resultante da menção dos espinhos subsistiria, porque
a S. minor é também inerme. Em resumo, parece claro que Orta falia
de uma espécie de Strychnos, e muito provavelmente da 5. colubrina,
que foi geralmente chamada páo da cobra, e teve uma grande reputa-
ção nas applicações a mordeduras de cobras venenosas, e outros «to-
ques de peçonha» — como diz o nosso escriptor.
(Cf. De CandoUe, Prodromus, ix, 14; Roxburgh, Fl. Indica, i, 577;
Herail e Bonnet, Manip. de Botanique médicale, 1. 14, Paris, 1891; Rhede,
Hort. malabaricus, viu, t. 24 para a Strichnos colubrina, e vn, t. 5, para
a S. minor; Ainslie, Mat. Ind., 11, 202 ; Dymock, Mat. med., 533, adver-
tindo que a citação de Rhede vem errada, tanto em Ainslie como em
Dymock.)
Nota (4)
O terceiro páo da cobra de Orta deve ser o Heiiiid.esiiiiis
inclicTis, R. Brown [Periploca íni/Cír, Willd., Asclepias pseudosarsa,
Roxb.), uma pequena planta trepadeira, da familia das Asclepiadece,
que habita na índia e em Ceylão.
O professor Fliickiger e o fallecido Daniel Hanbury chamaram, em
uma nota da Pharmacographia, a attenção para a similhança das raizes
de Hemidesmus com uma droga, figurada e descripta por Acosta sob
o nome de Paio de Culebra; e eu julgo que o terceiro fáo da cobra de
Orta é idêntico a este paio de culebra de Acosta e ao Hemidesmus in-
dicus, identificação que assenta sobre os caracteres apontados por Orta.
' A versão de Clusius não é exacta; spinis brevibus et Jirmis não traduz os problemá-
ticos tespinhos rombos>.
Do pao da cob?^a 193
Diz o nosso escriptor, que a raiz d'este seu páo de cobra é delgada,
dura, preta e cheira bem : segundo a Pharmacographia, as raizes do
H. indicas são delgadas, de — a -^ de poUegada de espessura, tem a
côr escura fdark bronm) e um cheiro agradável, similhante ao arfava de
Tonka ou do meliloto. Diz ainda Orta, que as hastes da planta são del-
gadas, débeis «que se não podem sustentar direitas»; e as folhas, com-
pridas e delgadas, como as do lentisco, e malhadas de branco e pardo;
segundo Roxburgh, os caules da Asclepias pseudosarsa (H. indicus) são
delgados (slender), diffusos ou trepadores; e as folhas dos rebentos no-
vos são lineares, agudas, estriadas de branco ao longo da parte media.
Se abstrahirmos de algumas incertezas de expressão, naluraes em uma
descripção do tempo de Orta, vemos que a concordância de caracteres
é absolutamente satisfactoria.
As raizes de Hemidesmus são muito usadas na medicina hindu, ad-
mittidas otiicialmente na Pharmacopéa da índia, e tidas na conta de
tónicas, alterantes, diuréticas e diaphoreticas. Não admira, pois, que
fossem consideradas especialmente úteis em toda a mordedura de cule-
bras, assim como em tercianas, desinayos, /laqueias de estômago, y tem-
blores de coraçon. Segundo Acosta, bastava trazer uma d'estas raizes na
mão para estar seguro contra toda a culebra ou bivora, que fugia para
outra parte.
Em Goa — segundo refere Dymock — encontram-se hoje á venda
nas lojas dos hervanarios as raizes de Hemidesmus, sob o nome de uper.
ção, que é uma simples alteração do nome mahrata uparsára.
(Cf. Fliick. e Hanb., Pharmac, 379; C. Acosta, Tractado de las dro-
gas, 341; Roxburgh, Fl. Indica, 11, 3g; Dymock, Mat. med., 509).
i3
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO TERCEIRO
DA PEDRA DIAMÃO
E DA PEDRA ARMÉNIA E DA PEDRA DE CEVAR
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVA
RUANO
Dizei da pedra diamão, que em latim e em grego he cha-
mada adamans, e nós os Castelhanos lhe chamamos dia-
mante, e vós os Portuguezes diamam; e será bem, porque
he rey das pedras, que falemos nella, pois tem eminência
sobre todas, e loguo as pey^olas, e logúo as esmeraldas, e
loguo os robins, se cremos a Plinio*.
ORTA
Qua nesta terra e em toda a do mundo, ácerqua dos la-
pidairos, se faz mais caso (e 'he de mais preço se for em
toda perfeiçam, e tamanho por tamanho) da esmeralda, e
depois do robi, e loguo do diamão; mas porque se não acham
pedras em toda a perfeiçam, com boas agoas, tam grandes
como diamam, acontece daremse por mais dinheiro muytas
vezes. E a valia das pedras nam he por mais que por a von-
tade da gente e carência delias; porque maiores virtudes
e mais esprementadas tem a pedra de cevar, e a que estanca
o sangue,'* e vendemse por mãos*** (que sam em Cam-
* Esta successão, pelo menos a dos diamantes, pérolas e esmeraldas
vem muito claramente exposta em Plinio (Lib. xxxvu).
*» A laqueca ou cornelina; veja-se a nota ao Colóquio seguinte.
»•» «Mão«, do hind. e marathi man, que dizem ligar-se ao accadico
mana; variava muito, mas em «Cambaia», pelo menos em Baçaim e
Diu, andava por iS arráteis e 9 onças, ou proximamente os 26 arráteis
de Orta. O maund (forma inglezaj de Bombaym equivale a 28 libras
avoirdupois.
196 Colóquio quadragésimo terceiro
baia, donde as ha, 26 arrates), e as esmeraldas se vendem
por ratis, que sam peso de três grãos de triguo*^ e as outras
pedras se vendem por quilates em Europa, que sam quatro
grãos, e na índia por mangelis, que sam 5 grãos**; e portanto
Plinio nam falou como mercador de pedras ou lapidairo,
no valor delias.
RUANO
Dizei os nomes, e se he usada na física.
ORTA
Em arábio, ao qual emitam os Mouros todos onde quer
que estam, se chama alma:[, posto que Serapio o chama
por outro nome, capitulo 391, e o gentio todo, onde se acha
a nacença destas pedras, as chama iraa, e no Malaio, onde
também as ha, se chama itam. E quanto he á física, nam
se custuma usar destes diajiiães, posto que eu achei físicos
gentios, que os davam pêra quebrar a pedra, administrados
per seringa-, e per cima nam os dando, porque caio hum erro
no povo que era peçonha, isto por sua grande penetraçam,
e que furava as tripas.
RUANO
E não he isso asi? Pois Laguna com outros muytos os conta
por peçonha, e o uso comum asi o tem?
ORTA
Falando a verdade comvosquo não ha tal cousa, porque
já ouve nestas terras negros de lapidairos, que enguliram
* O rata era o peso médio da semente de Abrus precatorius; Taver-
nier dá o rati como equivalendo a -^- do quilate, o que differe um pouco
do que Orta diz. Nos livros inglezes encontramos o ratti, como igual
a 1,75 grãos troy.
* * O mangelim, teling. manjall, também variava bastante. O de Cey-
lão equivalia a 8 gráos de arroz, e vem calculado nos Subsídios em
o>""-,2i9. O viangiar (mangelimj do Malabar, segundo Barbosa, pesava
duas taras e dois terços, e as duas taras equivaliam a um quilate de
bom peso. Segundo Tavernier, em algumas localidades correspondia a
7 grãos, e em Goa a 5, exactamente o que diz Orta.
Da pedra diamão 197
diamães, e confesaráo a seu senhor (achandoos menos) que
os emguliram, e esperou, e deitou os diamães por baixo
sem nenhum dano, e disto sam eu testemunha.
RUANO
A mim dizemme, que feito em pó he veneno, e traz re-
zam, porque se achegará ás partes do estamago e das tripas,
e furálashá.
ORTA
Não será em pó veneno, porque a vertude atrativa das
partes do estamago não o trará pêra si, e elle correrá abaixo,
como cousa grave (pois he pedra); e mais eu conheci huma
molher, que, tendo o marido enfermo de humas camarás
antiguas, e avorecendolhe mm^to a doença comprida, lhe
mandou comprar diamães moidos, e lhos deu tantos dias
(sem morrer) que se emfadou; e depois lhos deixou de dar,
porque lhe certificaram, que não podia escapar da emfer-
midade, e asi, sem os tomar mais dias, morreo muvto tempo
depois: isto soube eu da pessoa que hia a comprar os dia-
mães. Asi que dizem que os diariíães sam venenosos he abu-
sam, e cousa não scrita per doutores autênticos.
RUANO
Pois aguora vos quero perguntar alguns erros, e isto será
dizendovos o que os antiguos dixeram, em que tenho alguma
duvida: dizem nacer nas mineiras do cristal, e posto que
naça perto da mineira do ferro, por ser cheguado ao cristal
nam o deixa ter cor do ferro, antes he mais craro que o
cristal: e dizem mais que adamajis quer dizer força não
domavel: e asi dizem que posto em huma bigorna, nem
pode ser quebrado com força de martelos, antes os despreza,
e bota a escama do ferro fora: e porém que, se for deitado
o diamam primeiro em sangue de bode, amolece, principal-
mente, como alguns dizem, se o bode primeiro comer aipo
e outras cousas abridoras, e se beber vinho: dizem mais
que, desta maneira se lavra, c doutra maneira não: e asi
dizem que nunqua se achou maior que huma avelan. E por-
igS Colóquio quadragésimo terceiro
que nam diguais que vos aleguo falso, diz Plinio, quando
falia no sangue de bode, que he emvençam do homem; c
alguns dizem que Plinio está corruto, e que ade dizer que
he emvençam não de homem, como se dixese, que isto do
sangue do bode aconteceo por revelaçam, porque doutra
maneira nam se podia saber*.
ORTA
Não paseis mais avante; porque nam tenho memoria pêra
responder a tantas objeições, polias não chamar fabulas.
E por tanto aveis de saber que em três ou quatro cabos
achamos qua diamães, scilicet, em Bisnaguer, em duas ou
três rocas que rendem muyto a elre}^ de Bisnaguer; e asi
corrio em Espanha, dos atuns que se pesquam tem elrey
grandes direitos, e se vem algum solho he tomado pêra elrey,
assi nestas mineiras tetn elrey muito grande renda, e a pe-
dra, que he de 3o mangelis pêra riba, he de elrey; e sobre
isso se põem grandes guardas em os cavadores; e se acham
em algum tempo que a tem alguma pessoa, he tomada com
toda a sua fazenda a quem a tem. Ha outra roca no Decam,
perto da terra do Imadixa (a quem nós chamamos Madre-
maluco), huma terra de hum senhor gentio, outra roca, e de
milhores diamães, e não tam grandes; estes sam chamados
de roca velha, e vamse a vender a huma feira, muyto no-
meada, de huma cidade do Decam chamada Lispor, das
terras do Madremaluco; e ali os compram os Guzarates, que
noUos vem a vender aqui a Goa, e os levam a vender a Bis-
naguer, onde tem muyto preço estes diamães de roca i'e-
Iha, em especial os que chamam naifes**^ que sam aquelles
* Não se percebe bem o que Orta discute; Plinio diz exactamente no
fim o que elle repete : numimim projecto miineris talis inventio omnis
est; veja-se a nota (i).
»* A palavra não se encontra em Bluteau, e vem nos diccionarios
hespanhoes e alguns portuguezes, com a significação geral de diamante
bruto. Isto é um erro ; diamante naife era unicamente o diamante bruto,
manifestando claramente a sua forma crystallina. E o que se deprehcndc
Da pedra diamão 199
que a naturaleza lavrou, e fez perfeitos sem hirem á mó,
posto que acerca dos Portuguezes valham mais os lavrados^
mas dizem os Canaras que, asi como a molher virgem vai
mais que a corruta, asi vai mais o diamarn naife que o la-
vrado. Ha outra roca, no estreito de Tanjampur, nas ban-
das de Malaqua, também de roca velha; sam pequenos e
muyto bons, senam que tem huma tacha, que pesam muyto;
cousa que não he boa pêra quem comprar, e he bom pêra
quem vender. E em nenhuma destas partes ha cristal, nem
em toda a índia; porque o cristal quer terras muyto frias,
asi como Alemanha-, e porém qua na índia ha berilo, que
he asi como cristal, e o ha em grandes pedaços, de que
fazem jarros e escudellas; e eu dava por hum 200 crusados,
e não mo quiseram dar: porém este berilo não no ha em
Bisnaguer, senão em poucas partes e longe das roquas; mas
ha muyto deste berilo em Cambaia e em Martavam e cm
Pegu; per onde he mercadoria muito boa os diamães, poUos
lá nam aver; e asi ha berilo em Ceilam (onde não ha dia-
mães). E ao que dizeis, que he tam forte que despreza a
bigorna de ferro, e os martellos" que os quebra, a isto vos
diguo que, se tiverdes algum diamam de preço, não façais
nelle tal experiência, porque quantos tiverdes tantos fareis
em pedaços com hum martello; e muyto facilmente se que-
bram com huma mão de almofariz, e asi os fazem em pó
pêra lavrar os outros, e eu vi isto em diamães pequenos;
e em hum grande o fizeram aqui lapidairos, do qual, per
sua má feiçam, quiseram fazer dous ou três, e asi o que-
braram. Verdade he que os diamães não podem ser lavrados
senão com outros diamães postos na roda; e não se podem
furar, posto que hum doutor moderno diga que si. A maneira
de conhecer os diamães, se he diamam ou nam, he toqualo
com outra ponta de diamam, ou com huma lasqua, e se
nam for diamam, fazlhe risquo; posto que ha outros diamães
do que Orta diz, e é n'este sentido que os lapidados francezes applicam
a designação de pointc naive. Tanto nai/c como naive vem evidente-
mente de nativas.
200 Colóquio quadragésimo terceiro
tam fortes, que ferem o outro diamam, mas isto he resva-
lando, e nam firmando nelle; porque diariiam nam consente
ser verrumado, nem picado, nem o foguo lhe faz nojo. E
comtudo vos sei dizer que o diamam he muito conhecido
dos lapidairos, porque dizem que tem agua viva; e o topázio
e a safira de agua e o cristal tem as aguas mortas. E de
amolecerse com sangue de bode fo}'' huma fabula tomada
em verem que o sangue de bode quebra a pedra da bixi-
gua e dos rins; mas )á o esprementei, e he tanto como se
lhe não deitasse cousa alguma. E ao que dizeis que ne-
nhum he maior que huma avelan, nisto não tem culpa Pli-
nio, nem os outros escritores; porque falaram do que viram,
que mu3'to maior diamam ha cá que quatro avelans ; e eu o
maior que vi nesta terra foy de loo e corenta maugclis*, e
outro de 120; e ouvi dizer que tinha hum homem desta
terra hum de 260 mangelis. Se o tem, façalhe muyto boa
pró, posto que elle o nega; mas mu3'tos annos ha que ouvi
dizer a hum homem, dino de fé, que vira em Bisnaguer
hum, como hum ovo pequeno de galinha; e tudo pode ser.
E do que mais me maravilho, he ver que cousa tam forte
avia de estar metida muyto dentro na mineira, e aviase de
criar em mu3tos annos, e vejo que se criam em dous ou
três annos; porque cavam a mineira este anno altura de
hum covado de medir, e dahi a dous annos tornam a cavala,
e tiram diamães, como primeiro: isto dizem muytas pessoas
em comum, porém outros me dixeram que os diamães gran-
des não se criam na face da roca, senam muyto dentro;
porém asaz he que aja nisto duvida, e que se criem em tam
pouquo tempo alguns, ainda que sejam pequenos. E ao que
rrje dizeis de ser vencido do chumbo por causa do azougue,
não traz rezam, porque pois o diamam vence o ferro, e a
todolos outros metaes e pedras, não he bem dizer, que he
vencido do chumbo, por causa do azougue; porque asi o
* Sic, isto é 140, proximamente 170 quilates; e 25o mangelis, pro-
ximamente 3 12 quilates.
Da pedra diamão 201
corta o diamam, como huma faca corta hum nabo, e quem
o escreveo o sonhou, ou, por falar mais craro, não falou o que
era. Eu vos dixe já a resposta das vossas perguntas, per-
guntai mais avante as duvidas que tiverdes; e se vos pare-
cerem mal as minhas respostas, não vos maravilheis, porque
quem falia contra o comum he avorrecido,
RUANO
Escreve hum coronista, chamado Francisco de Tâmara,
que ha diamães no Peru: dizei o que nisto passa.
ORTA
Eu nunqua o ouvi dizer a pessoas que os vissem no Peru,
vós o podeis milhor saber, pois estaes em Espanha. E porém
eu vi nesse autor que alegaes, muitas fabulas ácerqua do
tirar dos diamães destas nossas terras, porque diz que vigiam
as serpentes os diamães, porque os não tirem; e a gente
que ha os diamães em sua mão deitando carne confeiçoada
em certo modo pêra que a comão as serpentes, estando ellas
em outro cabo tiram as pedras á sua vontade. Bem fora
que pois Francisco de Tâmara queria contar fabulas, que
as contara das suas índias, e não das nossas*.
RUANO
Também escreve hum frade dominico, chamado frei Do-
mingos de Baltanas, que ha roca de diamães em Espanha**.
ORTA
Eu conheci esse frade em Salamanca, segundo me parece,
e tenhoo por bom religioso; diria o que achou escrito por
outros, porém eu nunca o ouvi dizer.
* Sobre Francisco de Tâmara, e o livro que traduziu, veja-se a no-
ta (i).
* * Provavelmente no seu Compendio de sentencias tiiorales, y de
algunas cosas notables de Espana.
202 Colóquio quadragésimo terceiro
RUANO
Outro gcnero de diamães contam que ha na Arábia, que
nam he tam forte; porque se quebra sem sangue de bode;
e que nam tem igual resplandor a este e, asi he de menor
preço.
ORTA
Eu nunqua vi nem ouvi dizer destas pedras criadas na
Arábia, mas cá ha huns a que chamamos topa-{ios, que sam
almecigados em cor, e humas çafíras de agiioa que parecem
craramente diamães; mas nam ouvi dizer que estes ouvessem
na Arábia; e mais estes nam sam diamães, senam chamam-
Iho polia semelhança que com elles tem; mas o que nam
tem a fortaleza indomável nam he diamam, e o que dizem
que seria em Chipre, não o vi, nem ouvi que o lá ouvesse,
nem o de Macedónia; e pareceme que os Turcos nam fa-
riam tanto por elles, se em sua terra os ouvesse, ou perto
delia: isto vos diguo porque a maior parte destes diamães
sam levados dos Turcos.
RUANO
Dizem mais que todos trazem o ferro, e o de que me
mais maravilho, he que dizem que a pedra de ceifar, estando
presente o diamam, nam traz o ferro.
ORTA
Isso de trazer o diamão o ferro, loguo vereis o contrario,
quando o esprementar quiserdes ; mas que a pedra de cevar
nam tragua o ferro, presente o diamam, he grande fingi-
mento, porque diante de muytos esprementei o contrario,
asi em diamães de roca velha, como de roca nova, e diante
de vós o esprementarei se mandardes. E das outras vertudes
que delle escrevem, nam he fora de rezam serem verdadei-
ras; porque pedra que Deos criou, com ser tam invencível,
he bem que lhe dê os dotes que dizem; posto que dizer
que se se puser debaixo da cabeça da molher, nam o sa-
bendo, e estando dormindo, que acordando ella abraçará
o marido, se lhe he fiel, e se he o contrario, que foge delle;
eu não o posso crer, ainda que me digam que o dizem es-
Da pedra diamão 2o3
critores de autoridade, porque asi o dizem de algumas er-
vas, e sabemos ser abusam. Mas huma cousa vos direi que
vi em diamães muyto finos da roca velha, e eram pontas
que, esfragandoos hum com outro, se pegavam e estavam
apegados sem se despegar; e asi vi diamães esquentados
trazer a palha, como alambres: e porque vi estas cousas,
e vós as podeis ver se quiserdes, dou fé delias. E posto que
algum escritor emsina a falsificar pedras, não volo quero fa-
lar, porque não he obra de filosofo, e muyto menos será de
teologuo, porque ensina este escritor a fazer da çafira da
agua, dianiam, mas não fica senão çafira, e não diamam,
posto que o pareça (i).
RUANO
Porque não seja tudo falar em cousas alheas na fisica,
vos pergunto, se vistes nestas terras pedra arménia, porque
carecemos delia em Europa, ainda que temos lápis la\uli
em muytos cabos.
ORTA
Mandarvosei aqui trazer pedra arménia loguo. Moça, dá
cá aquclla chave.
SERVA
Eila aqui.
ORTA
Tira o pano atado com grandes pedras.
SERVA
Eilo aqui.
ORTA
Agora \^àiQ, pedra arménia.
RUANO
Muitos sinaes tem do que dizeis; porque com ser azul
algum tanto, he verde craro: como sabeis que he pedra
arménia ?
ORTA
Os Mouros, grandes fisicos, que curam o Nizamoxa, me
deram estas pedras, c purgam com ellas melancolia, e cha-
204 Colóquio quadragésimo terceiro
mamlhe asi em arábio, scilicet, hager armini, que he o mes-
mo que pedra arménia. Pergunteilhe donde avia estas pe-
dras, dixeramme que em Ultabado (cidade muyto conhecida
do Balagate*); e pergunteilhe se o avia em Turquia ou na
Pérsia, pois eram delia, e dixeramme que já a viram lá,
mas que era em pouca cantidade; e que nam sabiam se
vinha da Arménia ou nam; e comtudo seivos dizer que
purga muyto pouquo esta mesinha, segundo esprementei;
e já perguntei a muitos Arménios, cá na índia, se a avia
em sua terra, e disso me nam souberam dar rezam (2).
RUANO
A pedra de cevar he cousa mu3"to comum, e com tudo
vos quero perguntar o que sabeis delia, porque Laguna c
outros dizem ser veneno, e que faz o homem aluado.
ORTA
A pedra de cevar nam faz o homem aluado, nem he ve-
neno, porque temse cá ácerqua dos Gentios, que comida em
pouca cantidade os faz não emvelhecer, e os conserva em
sua mocidade; e por tanto elrey de Ceilam, velho, mandava
fazer panellas desta pedra, pêra lhe fazerem de comer nellas.
RUANO
Como sabeis isto?
ORTA
Alem de ser isto fama comum, mo dixe Isac do Cairo,
que lhas mandava fazer: e este Isac do Cairo he hum judeu,
que foy a Portugal levar as novas da morte do Soldam Ba-
dur**.
RUANO
Diz António Musa, que os Portuguezcs que navegam pêra
Calecut, acham lá náos com pregos de pao, e que o fazem
* Talvez erro de imprensa por Dultabado, a cidade effectivamente
muito conhecida de Daulutábád.
* * Veja-se a nota a pagina 89.
Da pedra diamão 2o5
por causa dos montes de pedra de cevar, que nam traguam
o ferro dos pregos pêra si.
ORTA
Isto sam fabulas; porque nunqua Português vio tal cousa,
e em Calecut e em toda essa costa ha mais navios de pregos
de ferro que de pao; verdade he que, nas ilhas das Maldivas,
ha navios com pregos de pao, como vos já dixe, mas a causa
disto nam he por mais senão por nam gastar o dinheiro em
ferro.
RUANO
Dizem também que a mina da pedra de cevar está junta
com a mina do ferro, e que por isso traz o ferro pêra si?
ORTA
Nam ha tal cousa, porque em cabos deferentes se criam,
scilicet, onde nam ha ferro.
RUANO
Hum filosofo pariense diz, que a pedra de cevar move
o ferro pêra si, mediante a vertude que nelle emprimio, pêra
que se mova a ella*; e que por esta rezam não pesa mais
a pedra de cevar com muyto ferro, que com pouquo.
ORTA
O contrario disto espermentámos já, eu e algumas pes-
soas, por isso nam vos maravilheis, porque nam acertam
em todas as cousas os homens (3).
* Náo sei quem seria este philosopho, mas a sua explicação lembra
a do Malade imaginaire sobre a acção do ópio :
Quia est in eo
Virtus dormitiva,
Cujus est natura
Sensus assoupire.
2o6 Colóquio quadragésimo terceiro
Nota (i)
Garcia da Orta é muito correcto em todo este Colóquio, demolindo
com intransigência verdadeiramente scientifica os erros e falsas opi-
niões, relativos ao diamante, e que chegaram ao seu conhecimento. E
é tanto mais para louvar n'esta intransigência, quanto a maior parte
dos factos contestados por elle se encontravam mencionados no livro
de Plinio, gosando ainda então de extraordinária auctoridade. De Pli-
nio, estes erros haviam passado sem correcção, ou mesmo aggravados
e ampliados, para alguns escriptos dos Santos padres, e para aquellas
espécies de encyclopedias da edade-media, a de Santo Izidoro, a de Al-
berto Magno, a de Glanvilla e outras; e seria fácil demonstrar, que ao
livro do nosso Orta se deve a destruição de algumas d'estas falsas opi-
niões, e a vulgarisação de noções mais exactas sobre as propriedades
do diamante.
De Plinio é a affirmação sobre a resistência do diamante ao martello
e á bigorna ita respuentes ictum, ut/errum utrimque dissultet,
incudesque etiam ipsa; dissiliant; e esta idéa correu muito tempo. Em
um curioso livro do anno de iSô", intitulado Hieroglyphica, encon-
tramos ainda a mesma asserção, illustrada pela representação de um
diamante collocado entre a bigorna e o martello. Mas no livro de
Boodt do anno de 1609, Gemmarum et lapidarum historia, vem emen-
dado este erro como muitos outros, fandando-se evidentemente o au-
ctor no que Orta havia dito *.
De Plinio é também aquella estranha noticia sobre a acção do sangue
de bode hircino rupitur sanguine — facto, segundo elle diz, conhe-
cido por uma espécie de revelação : Numinum projecto muneris talis
inventio omnis est. A noticia ainda mais singular — a que Orta também
allude — relativa á alimentação especial do bode, é uma ampliação da
edade-media, e lê-se, por exemplo, em Alberto M.2í.s,no : precipue siyrcus
aliquandiu ante biberit vinum et petroselinum vel siler montanum cotne-
derit. Estas auctoridades eram de muito peso; e Orta só se atreve a
contrarial-as depois de ter procedido a experiências: f já o exprementei,
e he tanto como se lhe não deitasse cousa alguma».
E ainda Plinio, quem attribue ao diamante a dimensão máxima de
uma avelã; e affirma que a sua presença tolhe a acção do magnete :
adamas dissidet com magnete lapide in tantum, ut juxta positus ferro
non patiatur abstrahi. Esta asserção, repetida ao que parece por Santo
Agostinho, ainda vem citada sem refutação por um contemporâneo il-
' Boecio de Boodt copia claramente Garcia da Orta; mas, por um singular equivoco, cita
Monardes. Esta confusão nasceu sem duvida de elle ter consultado as publicações de Clusius,
onde vinham reunidas as traducções de Garcia da Orta e de Nicolau Monardes.
Da pedra diamão 207
lustre de Orta, Nicolau Monardes, que, no Dialogas de ferro, diz: adeo,
ut dicant nonnuli, in ejus prcesentia ferrinn non attrahere. Também
n'este caso, Orta se certificou experimentalmente de que tal asserção
não tinha fundamento, propondo-se a repetir a experiência diante de
Ruano, se este assim o desejasse.
A ídéa de que o diamante era «vencido do chumbo» encontra-se
com frequência mencionada nos livros da edade-media. Glanvilla, no
seu famoso tratado De proprietatibus reriim, diz o seguinte (cito pela
versão hespanhola de ir. Vicente de Burgos) : No hay cosa tan dura, que
el piorno no la enblandet^ca aunque sea el diamante. E no Lapi-
dario de AfFonso X, explica-se detidamente o modo por que o diamante
se podia quebrar, depois de envolvido em um metal que os árabes cha-
mavam a^rob, e os latinos estanno. A esta influencia de certos metaes,
allude ainda um poeta francez dos princípios do xvn século, Remy Bel-
leau*, notando quanto era singular a natureza do diamante:
Ne pouvant estre combattue
Que de soy, se voir abattué
Aufray d'une lime de plotn.
Que esta influencia do chumbo se attribuisse á presença do «azou-
gue», explica-se facilmente pelas idéas que então vogavam sobre a na-
tureza do chumbo, e se podem ver, por exemplo, no capitulo de Alberto
Magno, De natura plumbi. Também- n'este caso Orta tinha feito a ex-
periência, e diz categórica e pittorescamente, que o diamante corta
o chumbo «como huma faca corta hum nabo».
Era, por ultimo, bem conhecida a applicação do diamante para re-
conhecer a infidelidade ou fidelidade da mulher casada, historia con-
tada por Glanvilla e por outros, e repetida por Boecio de Boodt, posto
que este diga já ser contra a experiência e a rasão. Em todo o caso,
Boodt sempre lhe attribue um effeito salutar nas relações conjugaes,
dizendo que lhe chamavam a pedra da reconciliação, reconciliationis
gemma, o que, sob certos pontos de vista, ainda hoje se pôde consi-
derar verdadeiro.
Procurámos, por curiosidade, a origem das noticias refutadas por
Orta, algumas datando sem duvida de uma remota antiguidade, com-
piladas por Plinio, e conservando-se depois sem alteração durante a
edade-media, outras de creação mais moderna, ou, embora de origem
antiga, complicadas e aggravadas pelo desejo de maravilhoso d'aquelles
tempos. Que o Colóquio de Orta, onde elle muito singelamente disse
' Devo a indicação d'esta passagem de Remy Belleau, assim como a do Lapidaria de
Aífonso X, ao favor do distincto mineralogista o sr. A. Bensaude.
2o8 Colóquio quadragésimo terceiro
o que viu, e desassombradamente contestou o que lhe pareceu falso,
que este Colóquio contribuiu poderosamente para dissipar os erros an-
tigos, é um facto que me parece incontestável. No livro do hespanhol
Gaspar de Morales, publicado no anno de 1604, e tendo um titulo si-
gnificativo, Libro de las virtudes y propriedades maravillosas de laspie-
dr as preciosas, ainda se encontram quasi todas as velhas historias. Com-
tudo, Morales cita Orta em varias paginas, acceitando já parte das suas
emendas, e refutando-o uma ou outra vez, sempre sem rasão. No livro
de Boetius de Boodt (1609), que durante tempo fez auctoridade no
assumpto, a influencia de Orta é perfeitamente sensível, e a essa in-
fluencia são devidas emendas importantes, e uma comprehensão mais
clara das propriedades do diamante. No emtanto, Boodt ainda está longe
de ter o scepticismo scientifico do nosso Orta ; e diz, entre outras cousas,
que o diamante tem a virtude de combater o veneno, a peste, as fas-
cinações, os encantamentos, a loucura, os pesadellos, o ataque dos in-
cubos e succubos, e os malefícios dos demónios. O modo de ver mais
sóbrio de Orta não foi naturalmente recebido desde logo ; e elle próprio
faz uma concessão ás antigas idéas sobre as virtudes do diamante,
quando diz: «porque pedra que Deus criou, com ser tão invencível, he
bem que lhe dê os dotes que dizem».
(Cf. Plinius, Lib. xxxvii, i5, ed. Littré; J. Pierii, Hieroglyphica, 3o6,
Basileee, 1567; A. Boetii de Boodt, Gemmarum et lapidaram historia,
Lib. u, 57, Hanoviae, 1609; Alberto Magno, De mineralibus, Lib. u, cap.
de lapidibus incipientibus ab a, e Lib. m, cap. de natura plumbi, Vene-
tiae, 1495; Monardes, em Qusius, Exotic, 3o; Barth. Glanvilla, De pro-
prietatibus rerum, cap. do diamante, ed. de Tolosa, 1494; G. de Morales,
Libro de las virt. y propr. maravillosas de las piedras preciosas, 189,
Madrid, 1604).
Orta havia lido no livro conhecido de Boemus, traduzido por Fran-
cisco de Tâmara, uma historia de diamantes, guardados por cobras ve-
nenosas; e, attribuindo toda a responsabilidade do dito ao traductor
hespanhol, diz-lhe com uma certa graça, que, se tem de contar mentiras,
melhor será contal-as das suas índias occidentaes, que das nossas ín-
dias portuguezas. E, no emtanto, estas historias de serpentes e pedras
preciosas, haviam sido contadas n'aquella ou n'outras formas por muita
gente, e por gente muito seria. Santo Epiphanio, bispo de Salamis no
IV século, em um tratado sobre as doze pedras preciosas, engastadas
no peitoral ou racional, preso ao ephod do summo sacerdote hebraico,
affirma que os jacinthos se encontravam na Scythia, no fundo de valles
profundos, escuros e inaccessiveis. Para os obter, serviam-se do seguinte
artificio : lançavam no fundo do valle cordeiros esfollados, que as águias
iam buscar, trazendo para os seus ninhos a carne, e as pedras precio-
sas, que vinham pegadas com ella, e depois se iam procurar nos ni-
nhos. Esta mesma historia, applicada ao diamante, e complicada com
Da pedra diamão 209
a presença de serpentes venenosas no fundo dos valles, encontra-se
depois nos escriptores arábicos, e nomeadamente nas Mil e uma noites,
onde forma a base de uma das numerosas e maravilhosas aventuras
de Sindbad. E é certo, que devia correr com insistência nas terras orien-
taes. Marco Polo, sendo um viajante veridico, e tendo visitado portos
da índia não muito afastados das minas de diamantes, acceita uma ver-
são muito similhante á das Mil e uma noites: segundo elle diz, os dia-
ynantes encontravam-se em valles profundos, onde era impossível descer
por causa das numerosas cobras peçonhentas; ali lançavam do alto
fatias de carne, que as águias brancas iam buscar e traziam para cima;
então, os mesmos homens, que haviam lançado a carne no fundo do
valle, assustavam as águias com grandes gritos, e iam procurar os dia-
mantes, pegados em grande numero á carne fresca. Depois de Marco
Polo, Nicolo di Conti, que andou vinte e tantos annos pelo Oriente^
e esteve em Bijayanagara, o centro de uma das regiões das minas de
diamantes, ainda conta a historia quasi do mesmo modo. Já se vê, que
o nosso Orta não tinha rasão para ser tão severo com o pobre Tâ-
mara, o qual apenas repetia uma versão já enfraquecida e diluida de
uma velha lenda, e de mais era um simples traductor, sem responsabili-
dade. (Cf. Lane, Arabian nights, iii, 88, ed. de 1S59; Yule, Marco Polo, 11,
347, 349; Major, índia, xl, e 29).
Entre outras cousas, Orta havia lido no livro de Plinio, que o dia-
mante da índia nascia ou procedia de uma substancia similhante ao
crystal .... quadam crystalli cognatioue. Não admitte o facto; mas,
ignorando as profundas differenças de composição chimica e outras,
que separam o diamante do crystal, tem de procurar diversos rodeios
para refutar Plinio. Diz que na índia não ha crystal, o que é um en-
gano; e que embora haja ali pedras muito claras, com.o o «berilo», e
a «çaíira de aguoa», estas se não encontram nas regiões e junto das
«rocas» de diamantes. Não creio que elle se refira ao verdadeiro be-
rylo^ — um silicato de alumina e glucina — , e deve por aquelle nome
designar alguma variedade do crystal de rocha, assim como pelo de
sapphiras de agua designa talvez uma variedade azulada do mesmo
crystal, ou quartzo hyalino. A parte interessante d'esta discussão, é o
que elle nos diz sobre a situação das rocas ou minas de diamantes —
parte que será necessário examinar um pouco mais detidamente.
Não é possível procurar uma a uma, quaes seriam aquellas minas;
já porque as indicações de Orta são um tanto vagas, já porque as ex-
plorações mudavam com frequência de logar. Tavernier é bem mais
explicito do que Orta, pelo que diz respeito á localisação das minas
' Porque raros seráo os crystacs de berylo em que se possam talhar «jarros e escudellas»
e porque o nome de berylo se deu muitas vezes ao quartzo esverdeado.
2 IO Colóquio quadragésimo terceiro
onde esteve, e não obstante as cuidadosas pesquizas de um dos seus
eruditos traductores, o professor V. Bali, ainda hoje se podem levantar
duvidas sobre a verdadeira situação das suas minas de Raolconda, de
Gani e outras. Com mais rasão teremos de nos limitar no nosso caso
a identificações muito vagas e muito latas.
Em primeiro logar, Orta falia das «rocas» ou minas de «Bisnaguer».
Isto é exactíssimo; e elle refere-se ás explorações muito conhecidas do
sul da índia, nas margens do alto Pennar, nas terras de Bellari, nas
margens do Tumbadra, aífluente do Kishna, localidades todas situadas
em volta de Vijayanagara, e todas exploradas em variados pontos desde
tempos remotos. Os estados do râjã de Vijayanagara eram então muito
extensos*, e Orta podia sob aquella designação referir-se também ás
explorações, ainda mais conhecidas e situadas a nordeste, nas alluvióes
do Kishna, e nas do Godavery, uma região depois muito celebrada sob
o nome geral de Golconda. Devemos notar, que estas minas do sul são
também mencionadas de um modo geral por Duarte Barbosa, o qual
falia dos diamantes do Reino de Narsinga, isto é, de Bisnaguer, pois Nar-
singa e Bisnaguer eram synonymos para os nossos escriptores daquel-
les tempos.
Orta falia em seguida de uma «roca» no Deckan, perto da terra do
«Imadixa» ou «Madremaluco», isto é, perto do Berar, governado então
pela dynastia de soberanos mussulmanos, que tomaram o titulo de Imad
Scháh. Estes diamantes vendiam-se em uma feira muito nomeada, ce-
lebrada em «Lispor«, e não é difficil n'este nome reconhecer Elichpura,
a capital do Berar. Onde estava propriamente situada esta roca é o que
me parece ditiicil averiguar. Em vários pontos, das hoje chamadas Pro-
víncias Gentraes, se tem encontrado diamantes, nomeadamente em
Sumbulpur, e d'ali os podiam facilmente trazer a Elichpura. Por outro
lado, em uma noticia acerca das pedras preciosas da índia, escripta
pelo rãjã Sourindro MohunTagore — citado por Streeter — vem men-
cionada a antiga Kosala, identificada com o Berar, como uma das re-
giões em que se encontravam diamantes. Ou no Berar, ou nas proxi-
midades, em todo o caso no chamado Deckan, existiram varias minas,
a que Orta — de accordo com Duarte Barbosa — chama de «roca velha»
distinguindo as pedras dali das do sul, chamadas de «roca nova», con-
sideradas por elles de qualidade e valor inferiores. É possível que elles
temporariamente tivessem rasão, isto é, que justamente por aquelle
tempo se explorasse no sul algum jazigo, em que os diamantes tivessem
um ou outro dos numerosos defeitos que os depreciam; mas de um
modo geral esta apreciação dos nossos dois escriptores não se pôde
' Orta escreve em i563, e pouco depois aquelle estado desmembrou-se e quasi desappa-
receu.
Da pedra diamão 211
acceitar — os diamantes do sul e da região de Golconda erão tão bons
como os melhores. É também a propósito das rocas do Deckan, que
Orta falia dos diamantes naifes, tomando a palavra — como já notá-
mos— no mesmo sentido em que os joalheiros francezes empregaram
a expressão pointe naive.
Por ultimo, Orta falia de rocas de diamantes no estreito de Tanjam-
pur, para «as bandas de Malaqua». Esta indicação geographica é muito
vaga; mas felizmente João de Barros encarrega-se de a explicar. Pal-
iando da ilha de Borneo, diz assim: «nascem n'ella pelas praias do mar,
junto da cidade de Tanjanpura, diamantes mais finos e de maior valia
que os da índia». Portanto os diamantes de que Orta falia são os de
Borneo.
É forçoso confessar, que o nosso escriptor é exacto e completo n'esta
parte : as aUuvióes dos rios do sul desde o Pennar até o Godavery, o pla-
nalto do Deckan, a ilha de Borneo, são no Oriente as três regiões prin-
cipaes dos terrenos diamantiferos ; e todas três são mencionadas por Orta
nos meiados do xvi século. Quanto á lavra e regimen das minas vê-se
que elle tinha sobre isso idéas geraes, mas bastante exactas, e unica-
mente cáe em um erro grave quando julga que o diamante se formava
e crescia em pouco tempo, citando em apoio d'esta opinião o facto de
se poder explorar fructuosamente uma «mineira» já explorada dois
ou três annos antes. O facto era verdadeiro; mas a sua explicação era
muito diversa. Em alguns pontos, comp conta detidamente Tavernier,
exploravam nas epochas de estiagem as areias e cascalhos das ribeiras,
e, passados annos, voltavam a explorar os mesmos sitios, para onde alguns
diamantes haviam sido arrastados de novo das montanhas vizinhas. Isto,
porém, em nada se parece com a formação in situ do diamante, na qual
Orta acreditava. A parte esta apreciação errada de um facto verdadeiro,
todas as outras indicações de Orta sobre localisação e exploração do que
elle chama «rocas» ou «mineiras» são muito chegadas á verdade (Cf. Ta-
vernier, Voyages, 11, 826 a 355; Edwin W. Streeter, Precious stones and
gems, 104 a i23, fifth edition, 1892, London; Barros, Ásia, iv, vi, 19;
Duarte Barbosa, Livro, 278).
Passaremos muito de leve sobre outros pontos para não alongar em
demasia esta nota. Acerca de propriedades do diamante, Orta acertou
algumas vezes e errou naturalmente outras. Alem das observações já ci-
tadas, em que emendou algumas idéas falsas dos antigos, reconheceu
a dure^^a do diamante, sabendo que só podia ser lavrado por outro dia-
mante ou pó de diamante, «posto na roda». Vê-se por esta phrase, que
elle conhecia o modo de trabalhar dos lapidairos indianos, minuciosa-
mente descripto annos depois por Tavernier. Diz também que o dia-
mante não consentia ser «verrumado»; e, comquanto a partir justamente
do seu século se começassem a perfurar alguns na Europa, é bem
possível que esta delicada operação se não fizesse na índia. Reconhe-
212 Colóquio quadragésimo terceiro
ceu experimentalmente que os diamantes se eleclrisam pela fricção, e
viu-os depois de «'esquentados trazer a palha, como alambres»; mas
exagera talvez um pouco quando affirma, que dous diamantes esfrega-
dos ficavam adherentes. Por outro lado, engana-se quando diz serem
os diamantes de Tanjanpura mais pesados que os da índia, pois a sua
densidade é sempre a mesma. Engana-se também quando nota que
«nem o foguo lhe faz nojo»; mas é claro que elle não dispunha de tem-
peraturas sufficientemente elevadas, e não podia saber que o diamante
era simplesmente carvão, antecipando-se assim ás experiências da .Aca-
demia dei Cimento, e de Lavoisier.
Acerca de propriedades toxicas, é perfeitamente acceitavel — e é
conhecida na índia e no Brazil — a historia dos trabalhadores que
enguHam os diamantes inteiros sem inconveniente; mas é mais sujeita
a caução, a do pobre doente a quem a mulher administrava diamante
moido, sem com isso lhe determinar a morte.
Garcia da Orta residiu trinta e tantos annos em Goa, um dos mais
importantes centros do commercio de pedras preciosas, e, curioso como
era, deve ter visto muitos e muito bons diamantes. Não é nada exage-
rado no que diz a este respeito; diamantes brutos do peso de 140 man-
gelis^ ou proximamente 170 quilates, como um que viu, ou do peso
de proximamente 3i2 quilates, como um de que ouviu fallar, sendo
seguramente muito bellos, estão dentro das dimensões conhecidas.
Mesmo o que tinha o tamanho de um «ovo pequeno de gallinha» não
está fora dos limites. O diamante do Grão Mogol, visto porTavernier,
e do qual elle dá uma representação no seu livro, pesava em bruto
793 quilates, e depois de talhado e mal talhado pelo veneziano Hor-
tensio Borgis ficou pesando 280 quilates; na primeira forma devia se-
guramente ter as dimensões de um ovo, e não muito pequeno'.
Nota (2)
É necessário não confundir esta pedra arménia com a terra arménia
ou bolo arménio, uma argilla ferruginosa, que, como a terra de Lemnos
ou terra sigillata, figurou largamente na matéria medica do tempo de
Orta, e ainda muito posteriormente. A pedra arménia do nosso Orta,
«hager armini" dos árabes, ( .-^ ^ y^ hadjer el-armeni) era «verde
craro» e «azul algum tanto», o que de modo algum concorda com a
côr avermelhada da terra arménia. Era um quartzo tinto de azul pelo
íTfií/ de cobre, com uma mistura de côr verde, ou uma pedra calcarea
' Estava escripta e impressa esta nota, quando me s'eio parar á mão o artigo sobre
O Diamante, publicado pelo sr. A. Bensaude na Rev, de Scienc, nat, e sociaes, 11, 8 ; e que
por isso não pude já citar n*este meu trabalho.
Da pedida diamão 2 1 3
corada pela mesma substancia; ambos foram chamados jceir^i arménia
pelos naturalistas até a uma epocha relativamente recente. Ás vezes
confundiam-se estes mineraes com o lápis la:^uli, como faz, por exem-
plo, Pedro Teixeira : Tienne mas la Pérsia Ager Armeny, que es el lá-
pis Armenus de nuestros médicos, que por otro nombre dijen lápis la^uli.
(Cf. Haiiy, Traité de miner., iii, 570; Teixeira, Relaciones, 166).
Nota (3)
A pedra de cevar ou pedra iman, o oxydo de ferro magnético ou
magnetite polar, não era veneno, nem fazia os homens aluados ou
doudos. Também os não impediria de envelhecer, como diz Orta na
sua curiosa historia das panellas do rei de Ceylão, que foi depois co-
piada pelo nosso clássico escriptor, Amador Arrais.
Quanto aos barcos das Maldivas, veja-se a nossa nota (vol. i, p. 245) ;
e seguramente eram feitos assim pela rasão que Orta dá, e não pela
que traz António Musa.
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO QUARTO
DAS PEDRAS PRECIOSAS, QUE SAM, SCILICET, ÇAFIRA,
JACINTO, GRANADA, RUBIM, MEDECINAES
INTERLOCUTORES ^
RUANO, ORTA
RUANO
Aguora hc bem que falemos, pois he mais nesseçario á
física, das pedras preciosas que emtram nas composições
e letuairos cordiaes.
ORTA
Não vos ei de dizer senam das pedras medicinaes c das
que ha na índia, porque se dixesse de todas, seria numca
acabar-, e das medicinaes somente vos direi das que emtram
no letuairo de gemis, que comnjumente sam chamadas fra-
gmenta preciosa (i).
RUANO
Dizei dessas, porque depois volo rogarei, e me direis de
algumas outras.
ORTA
Direi em breves palavras. E porém destoutras he mais
nesseçario, por vos aconselhar que leveis lo crusados delias,
pêra que deis aos buticairos de Castella, que daqui avante
comprem as verdadeiras pedras, pois não sam tam caras.
A primeira he çajira, que he huma pedra que merece valer
muyto, e comprase por pouquo dinheiro, o azul da qual he
muyto aprazível avista: ha as de duas maneiras, scilicet,
humas muyto escuras, e outras muyto craras, que chama-
mos çajira de agiioa, e estas não sam de tanto preço, e
algumas vezes se emgastam com alguma tinta, que lhe dam,
e parecem diamães, com que alguns foram emganados. E
asi humas como outras ha em Calecut, e Cananor, e em
2i6 Colóquio quadragésimo quarto
muytas partes dos reinos de Bisnagua*; e porém as milhores
de todas sam as de Ceilam, e muyto milhores as de Pegú.
E com serem pedras tanto apraziveis aos olhos, nunqua se
achou alguma por grande e limpa, e de boas agoas que
fosse, que escasamente chegasse a looo pardaos ou looo
cruzados**: isto diguo, segundo o que ouvi nestas terras.,
Quando embora fordes pêra Cochim, podeis comprar em'
Calecut e em Cananor, dos pedaços que ficam quando as
lavram, alguma cantidade, e também comprai delias, asi
inteiras, porque vallem pouquo dinheiro (2) .
RUANO
Dizei dos Jacintos e granadas.
ORTA
Destas ha tanta cantidade, que não he nesseçario, senão
com pouquo dinheiro levardes hum saquo delias : muitas acha-
reis em Calecut e Cananor, e as lavradas dam huma corja
(que sam 20) por hum vintém; e as por lavrar muito mais ba-
ratas; e as gi^anadas nam tam somente ha nas partes que
dixe, mas em todas as terras firmes de Cambaia, e do Ba-
lagate se estam vemdemdo na praça por muito pouquo
preço (3).
RUANO
Seguese da sardonix.
ORTA
Esta pedra nam ha nesta terra, e se alguma ha, vem de
fora delia; e alem disso ha muita deferença em saber que
pedra he (4) ; por tanto de meu conselho deveis de deitar em
seu logar, quando a nam achares, jacintos ou granadas;
os quais /ac/";z/os ha também perto de Lisboa em hum lugar
que se chama Belas, e asi os pode aver em muitos cabos
* Habitualmente Orta escreve Bisnaguer.
** De 1 :542;;ff)ooo réis, a 2:160^000 réis em valor intrínseco, ou, sup-
pondo o valor effectivo da moeda quatro vezes superior ao actual, de
6:000^5^000 réis a Sroooííooo réis proximamente.
Das pedras preciosas 2 1 7
de Espanha, se os buscassem; e estas duas pedras jacintos
e granadas, querem alguns dizer que sam especias de rii-
bins.
RUANO
E do rubim e do carbúnculo que me dizeis?
ORTA
Digo que, debaixo deste nome de rubim, se contem muitas
especias, e a mais principal se chama em grego antrax,
e em latim carbuncidus, que tanto quer dizer como brasa
acesa.
RUANO
Essa queria eu ter para mim, e nam pêra gastar na bu-
tica, porque ouvi dizer desta que alumiava de noite.
ORTA
Não creais isto, que sam ditos de velhas.
RUANO
E não vistes vós, ou ouvistes dizer que a avia?
ORTA
Nunqua a vi. Verdade he, que hum lapidairo me dixe que
contara em huma mesa huns poucos de rubins muyto finos,
que vieram de Ceilam, muyto meudos, a que chamamos
rubins de corja, que he tanto dizer como comprados 20 a
vinte, e diz que ficou hum metido entre as dobras da meza,
e que de noite, ás escuras, parecia a meza que tinha huma
faisca de fogo, e foy á meza com huma candêa, e achouse
hum rubim muyto pequeno, e que des que o tirou nunqua
mais pareceo a faisca na meza: se isto he verdade ou men-
tira, não o sei. E sei que mo contou este lapidairo, o qual
oficio faz dizer ás vezes mentiras, posto que as dizem por
seu proveito, porém ficam tam mal acustumados disto, que
ás vezes as dizem por falar á sua vontade maravilhas.
2i8 Colóquio quadragésimo quarto
RUANO
Loguo, quando o riibim for muyto fino, em cor e aguoas,
quero dizer que seja de vinte quatro quilates em cor*, cha-
marlheemos carbúnculo?
ORTA
Pareceme que si; e eu vi já alguns destes a que chamam
toques, e tem o preço segundo a grandura, e feiçam e aguoas,
e o mais caro que eu vi foy hum que diziam valer 20 mil
cruzados**; este tinha hum grande senhor no Decam, que
mo mostrou por ser eu muito privado seu, e me tomou mi-
nha palavra que o nam dixese á gente daquella terra, nem
ao rey delia; dixeme que lhe custara seis mãos de ouro, que
sam perto de cinquo arrobas portuguezas.
RUANO
Esse era bom pêra gastar na botica, segundo os buticai-
ros sam liberaes.
ORTA
Não, que para a botica achareis muytos tam baratos
como os jacintos; por tanto também levai alguma cantidade
a Castella. Ha outra especia, que chamam balax, que he
algum tanto roxa, este he de menos preço; ha outra a que
chamam espinhela, este he de cor mais cheguada á braza,
e também este he de menos preço, porque não tem as agoas
de verdadeiro rubim. Ha outros rubins brancos em muyta
maneira. Ha outros que tiram hum pouquo a encarnado, ou
mais propriamente a cereija branca, que se quer fazer ma-
dura. Ha outros rubins que sam ametade brancos e ame-
tade vermelhos, e outros que sam ametade çajiras e ame-
tade rubins. E de todas estas feições vi, e se vos relevar,
volas mostrarei, antes que vos vades. E posto que ha outras
muytas especias destes rubins, delles vos nam quero falar.
* Isto é, absolutamente perfeito na côr.
** Um pouco mais de 43:ooO''*ooo réis em valor intrínseco; ou o
equivalente a 172:000^000 réis de hoje.
Das pedras preciosas 2 1 9
nem de seus preços, porque não sei isto muito bem sabido,
scilicet, o dos preços.
RUANO
Não podeis escusar de me dizer a conta da variaçam das
cores desses inibins.
ORTA
O que ouvi dizer mais conforme á rezam he, que o riibim
na roca, quando he perto do seu nacimento, he branco, c
em amadurecendo adquire aquella perfeiçam que he ser
vermelho; e, porque esta perfeiçam não se pode adquirir
subitamente, ás vezes o acham encarnado como dixe, e
outras vezes de huma das bandas vermelho, e de outra
branco. E porque a çajira e riihim dizem ser de huma roca,
portanto se acha em huma pedra hum riibim meo çajira e
meo riibitn; e ha outras pedras, que tem tam mesturado o
azul com o vermelho, que parece huma verdadeira compo-
siçam de azul escuro e vermelho, e casi como roxo; e a
estas pedras chamam em algumas lingoas desta terra nilá-
candi;j\uç. quer tanto dizer, como rubim e çajira.
RUANO
Os nomes destas pedras me dizei em arábio e na lingoa
da terra.
ORTA
O rubiw chamam os Arábios e VtTÚos jacut, e a gente
desta terra nianica, e os jacintos e granadas tem uns nomes
particulares, como quem diz riibim amarelo, e riibim preto
a granada; e a çajira se chama nilá.
RUANO
A milhor pedra e a mais nesseçaria me não dixcstes, que
he a esmeralda, que entra no letuairo de gemis, chamandoa
ferrmegi?
-^ ^ ^ ORTA
Não valem as esmet^aldas tam baratas, que por esme-
ralda se aja de entender Jerriqegi: porque as esmeraldas
ha muito poucas, e de muito grande preço; e não se sabe
a própria roca delias; de maneira que as que ficam donde
220 Colóquio qiiadragesijno quarto
as soem lavrar, não se pode achar tanta cantidade que
abaste; e quem diz quQ ferni:[eg{ quer dizer esmeralda não
sabe arábio; nem a emtençam de Mesue foy entrar esme-
ralda nesta composiçam, posto que o contrairo sentio Cris-
toforo de Honestis*, comentador de Mesue. E a causa disto
he, porque esmeralda em pérsio e em lingua desta terra,
se chama pachec, e em arábio '{amarriit; e Serapio no ca-
pitulo da esmeralda**, onde diz :[aharget, ha de estar :{a-
marriit; nem ha de estar tabarget, como sente o Pande-
tario***.
RUANO
Pois ferruiegi que quer dizer?
ORTA
Aveis de saber que p e f no arábio sam letras muyto
irmans (como já outras vezes vos dixe); por onde, no Mesue
em arábio, este ferruiegi quer dixer tiirque:{a ou da tur-
queza: porque /^z/n/^^a em arábio**** quer dixer turquesa,
das quaes ha muita cantidade em toda a Pérsia.
RUANO
Verdadeiramente que por este só ponto ouvera de vir á
índia, e se vos nam achara, por ventura mo nam dixeram
cá; daqui em diante onde achar fei~ru\egi em Avicena ou
em qualquer livro dos Arábios, entenderei turquesa, e nam
consintirei a buticairo, que deite no letuario de gemis es-
malte verde, nem outras pedras verdes; porque me lembra
que o outro dia, vindovos aqui a vender huma joia^ com
muitas esmeraldas meudas, me 'dixestes que todas aquellas
eram falsas, e que no Balagate e em Bisnaguer as faziam
* Cristoforo de Honestis, (nota do auctor).
* • Serapio, cap. 384 (nota do auctor).
*** Matheus Silvaticus (nota do auctor).
* » » * Parece que Orta se enganou, e quereria dizer em persiano, ou
parsio; veja-se a nota (6).
Das pedras preciosas 221
de vidro dos frasquos, scilicet, do mais grosso delles, e que
era cousa tam comum entre elles, que se nam corriam disso;
e por isso onde eu vir esmeralda, direi antes que a não bote
no letuairo sem saber muito certo o que he, a viride vitro
libera nos domine. E mais as nossas esmeraldas do Peru,
diz hum doutor moderno, que sam muyto más pêra o uso
da medecina
ORTA
Diguo que estas pedras do Peru chamadas esmeraldas
vieram cá a esta terra; no principio valiam muyto, e de-
pois que cairam nellas, acharam ser falsas, e não dam di-
nheiro por ellas; portanto também dessas me parece que
vos aveis de guardar (5).
RUANO
Dizeime das turquesas, se sam usadas em física ou não.
ORTA
Alguns me dixeram que si, e outros que não, entre os
Gentios, porque entre os Mouros, todos os mais dizem
que sam usadas na física (6).
RUANO
Dizeime da crisolita e da amatista, e do birilo (pois dizeis
que cristal não ha nesta terra) e da alaqueca, e áo jaspe.
ORTA
Do jaspe vos nam direi, pois o ha mais nas vossas terras,
e sabeis mais delle que eu; com tudo vos sei dizer que ha
cá porcelanas pequenas áo. jaspes, ou de pedras verdes, que
parecem de esmeraldas, e já pode ser que a pedra que está
em Genoa, que dizem ser de esmeralda, seja desta pedra,
e amostralaam poucas vezes por alcançar mais autoridade,
e falarem á sua vontade os Genoeses; porque a mim me
davam no Balagate huma porcelana por 200 pardaos*; e se
fora esmeralda, a milessima parte delia ma não deram por
* «Porcelana» é tomada aqui no sentido de taça, como se tomava
habitualmente por aquelle tempo; veja-se a nota (7).
222 Colóquio quadragésimo quarto
elles, segundo a estima que ácerqua delles está a esme-
ralda (7). Do birilo já vos dixe, falando no diamam, a muita
cantidade que ha delle nas terras de Cambaia, e de Bisnaguer
e Geilam, e em outros muytos cabos. A crisolita ha em Cei-
lam, e as ametistas também ; e asi ha em Balagate do Niza-
moxa estas pedras e outras muytas; e todo aquelle Balagate
está cercado de muytos géneros de pedras (8). A alaqueca
chamada de nós (que he em Arábio chamada quequtj, vai
hum arrátel desta pedra lavrada em peças meudas hum real
castelhano ; e esta pedra tem a vertude mais crara que to-
dallas outras, porque estanca o sangue mui de supito (9).
RUANO
Os olhos de gato me parecem muyto bem; onde os ha?
ORTA
Os milhores ha em Ceilam, e valem mais cá que em Por-
tugal, porque eu vi hum, levado pêra Portugal, que valia cá
600 cruzados, e em Portugal não davam por elle mais que
90, e tornou cá e foy vendido por sua valia : e por isso não
leveis de cá estas pedras pêra Portugal por mercadoria (10).
RUANO
Que propriedade tem?
ORIA
Diz a gente desta terra, que tem a propriedade de con-
servar ao homem nas riquezas que tem, e não diminuir
delias, e porém que se pode acresentar mais nellas.
RUANO
Onde ha estes rubiiis, que mo não dixestes?
ORTA
Alguns poucos ha em Ceilam, porém sam muito bons,
outros vem do Pegú, e dizse que vem ali ter das terras do
Brama, que he muyto longe. E isto sam emformações as
mais certas que tenho; se nisto erro alguma cousa, perdo-
aime, que nam sei inteiramente todas as cousas.
Das pedras preciosas 223
Nota (i)
A formula do «letuario de gemis», extrahida de uma pharmacopêa
pouco posterior ao tempo de Orta, é a seguinte :
ELECTARIUM DE GEMMIS SINE SPECIEBUS DOMINI MESUES
R. Margaritarum albarum — drachmas duas
Goralli rubri — scrupulos duos
Sapphirorum
Hyacinthorum
Granatorum
Sardii
Smaragdi
Foliorum auri
Foliorum argenti
—ãn drachman unam
et semifsem
Misce et fac pulverem artificiose'.
Parece, pois, que os fragmenta pretiosa eram a sapphira, jacintho,
granada, sardonix e esmeralda. Sobre a applicação d'estes nomes havia,
porém, duvidas, não se sabendo bem ao certo o que fosse o jacintho
e a sardonix. Também não é claro que a esmeralda devesse entrar
n'esta composição. Mesué havia indicado um dos ingredientes com o
nome de ferujegi, que os commentadores suppunham em geral ser a
esmeralda: fem^egi id est smaragdi; mas Orta, como melhor ve-
remos em outra nota, tem duvidas e bem fundadas de que o feru^egi
de Mesué seja eftectivamente a esmeralda.
Nota (2)
Reuniremos n'esta nota o que diz respeito á sapphira e ao rubim,
de que Orta falia no seguimento do Colóquio. As duas pedras são simples
variedades da mesma espécie mineralógica, o eoryiiíloii. [telesio de
Haiiy), um sesquioxydo de alumínio; e é notável que Orta suspeitasse
já este facto, comquanto não podesse saber que a composição chimica
das duas pedra é idêntica ou quasi idêntica, nem que ellas crystallisam
no mesmo systema. E muito explicito a este respeito: «e porque a ça-
fira e rubim dizem ser de uma roca, portanto se acha em huma pedra
hum rubim meo çafira e meo rubim». São hoje bem conhecidas estas
224 Colóquio quadragésimo quarto
pedras de duas cores. O sr. Streeter affirma ter tido em seu poder
um coryndon de 20 quilates, meio azul e meio vermelho; e cita uma
noticia de Crawfurd, a quem, estando em Ava, trouxeram á venda duas
pedras d'esta natureza, uma das quaes era dividida pelas cores azul e
vermelha em duas partes iguaes. É justo dizer, que Duarte Barbosa
tinha a mesma correcta noção sobre a identidade fundamental das duas
pedras. Paliando do topapo diz o seguinte: «he pedra mui dura e mui
fria e do peso do Rubi e Safira, porque todas três são de huma mesma
espécie». Esta phrase é extremamente notável, e é exactíssima, admit-
tindo que Barbosa se referia ao topasio oriental, uma variedade ama-
rella do coryndon.
A respeito dos rubins e de antigas lendas, Orta falia unicamente da
que lhes attribuia luz própria, chamando-lhe sem hesitação «ditos de
velhas». A idéa era antiga, e nasceu naturalmente do brilho e côr do ru-
bitn, que lhe davam a apparencia de possuir luz e calor próprios, e de
onde lhe vieram os nomes de xvâpa; e de carbunculus. Plinio diz, que
os sinetes de carbúnculos derretiam a cera ceras signantibus his
liquescere, quamvis in opaco. O conhecido peregrino buddhista do vii sé-
culo, Huen Thsang, affirma que um rubim, collocado sobre o templo
de Ceylão onde se guardava o dente de Buddha, se via brilhar em noites
serenas a uma distancia de 10:000 //. E, muitos séculos depois, o fa-
moso e pouco verídico viajante, Sir John Maundeville, falia de um ru-
bim ou carbúnculo de meio pé de comprimento, que o Grão Cão do
Gathay tinha em um dos seus quartos e illuminava de noite todo o apo-
sento.
Acerca da procedência dos rubins, Orta sabia em primeiro logar que
estas pedras vinham de Ceylão, o que é exacto. Aquella formosa ilha
deveu uma parte da reputação, de que gosou desde tempos muito anti-
gos, ás suas pedras preciosas e nomeadamente aos seus rubins. Entre
os variados nomes da ilha, Taprobana, Serendib e muitos outros, en-
contram-se alguns derivados d'aquella circumstancia, como Ratnadvipa,
a ilha das pedras preciosas, ou DJaprat ai- Yacut, a ilha dos rubins. Orta
conhecia igualmente a sua procedência do Pegu, como a conheciam
outros escriptores portuguezes do seu tempo. «Achão-se principal-
mente» — diz Duarte Barbosa — «em um rio chamado Pegu, e estes são
os melhores e mais finos». Gaspar Corrêa dá a mesma noticia «
e mormente por amor dos rubys, que comprão escondidos, que na terra
(Pegu) ha os milhores que se achão na índia». Orta sabia mais, que estes
rubins vinham do interior «vem ahi ter das terras do Brama, que
he muyto longe». O mesmo sabia Duarte Barbosa, dizendo que para
dentro de Daua (de Ava), em roda de «Capeiam» se «achaom muitos
rubis, que trazem a vender á feira Daua». A situação exacta d'estas
minas de rubins foi desconhecida durante muito tempo; mas recente-
mente um relatório do sr. W. Lockhart, engenheiro da Burma Ruby
Das pedras preciosas 22 5
Mining Company, diz que os jazigos se encontram na margem esquerda
do Iravady, muito acima de Mandalay e da antiga capital Ava, em volta
da villa de Mogok, e da localidade de Kyat-piyu, que deve ser o «Ca-
peiam» de Barbosa. Como se vê, aquellas minas estão e estavam situa-
das no alto Burmá, em plenas «terras do Brama», ficando assim per-
feitamente confirmadas as noticias, alcançadas por Orta e Barbosa ha
mais de três séculos.
Quanto á procedência das sapphiras, Orta indica Ceylão e Pegu, o que
é exacto, pois em ambas as regiões se encontram á mistura com os ru-
bins; e indica também o Malabar e terras de Vijayanagara, no que pôde
haver um engano, tendo elle tomado outras pedras por verdadeiras sa-
pphiras (Cf. Jannetaz, Diarnant et Pierres précieuses, 243, Paris 1881;
Streeter, Precious stones and gems, i5i, 168, London, i892;Tavernier,
Voyages, 355; Plinius, xxxvii, 25;Yule, Cathay, clxxvii; e Marco Polo,
II, 296; Duarte Barbosa, Livro, 363, 3/6, 38 1; Gaspar Corrêa, Len-
das, III, 85 1).
Ao mesmo tempo que Orta approximava a sapphira do rubim, não
obstante terem cores diversas, separava do verdadeiro rubim algumas
pedras vermelhas, e habitualmente designadas pelo mesmo nome, o
rubim balax e o rubim espinela. Ainda n'este caso tinha rasão; aquel-
las pedras pertencem á espécie mineralógica ^pinela., um alu-
minato de magnesia, crystalisando no systema cubico. Orta caracterisa
bem as suas cores, mais «cheguada á^braza» na espinela, e mais des-
maiada no balax; e separa-as do rubim oriental\>\i coryndon vermelho
por uma nota bem observada: «porque não tem as aguas do verda-
deiro rubim». Barbosa também as distingue, dando sobre a sua pro-
cedência algumas noticias interessantes, e indicando a origem do nome
de balax ou balass, pois diz que vinham da «Balassia», uma terra firme
para dentro de Pegu e Bengala. O nosso Duarte Barbosa não podia
conhecer a geographia do interior tão bem como a do littoral; e a sua
Balassia, isto é o Badakhshan, ficava muito longe d'ali, para os lados
do alto Oxus e do Pamir. Ibn Batuta explica muito bem a derivação
do nome, dizendo que o rubim badakhshi, se chamava vulgarmente
al-balakhsh.
Orta distingue também a sapphira de agua da verdadeira sapphira
oriental. E provável, que elle designasse já por aquelle nome a mesma
pedra a que hoje se applica, a coi*d.iei*ite (ou iolitej, um silicato
de alumina, magnesia e oxydo de ferro, bastante commum em Cey-
lão; mas é possivel, que algumas das suas sapphiras «muito craras»
fossem simplesmente variedades azuladas do crystal de rocha, ás quaes
ainda no tempo de Romé de Lisle se dava também o nome de saphir
d'eau (Cf. Jannetaz, i. c, 254 e 278; Streeter, 1. c, 208 e 294; Barbosa,
Livro, 278; Yule e Burnell, Gloss., 39; Haúy, Traité de mineralo-
gie, 11,418).
i5
220 Colóquio quadragésimo quarto
Nota (3)
Varias pedras têem recebido o nome dejacinthos ou hiacinthos; e por
vezes estas duas formas do mesmo nome têem sido applicadas por di-
verso modo, comquanto habitualmente se tomem como synonymos.
Não é fácil saber, se o «jacinto» de Orta seria uma variedade át coryndon
chamada _;"acm//zo oriental, ou o silicato de zirconia, também chamado
jacintho; mas é mais provável, que elle designasse assim uma variedade
amarella alaranjada da gi^anacla (um silicato de alumina e outras
bases) bastante frequente em Ceylão. Se Orta diz, que estas pedras se
encontravam em abundância nos portos commerciaes de Calicut e Ca-
nanor, é porque as traziam para ali de Ceylão. Quanto ás granadas
ordinárias de côr escura, alem de virem de Ceylão, encontravam-se em
varias partes do Hindustão, e por isso Orta diz serem frequentes nos
mercados do interior. Estas pedras eram communs e deviam ser extre-
mamente baratas, tendo sobretudo em vista, que Orta não falia como
um joalheiro, procurando bonitos e grandes exemplares, mas simples-
mente como um medico, contentando-se com pequenos fragmentos,
próprios para o uso das boticas de então.
Em um dos paragraphos seguintes, Orta falia dos jacintJios (granadas)
de Bellas. É bem sabido, que não longe de Bellas, nos basaltos do monte
Suimo, assim como em Cintra, na zona de contacto dos terrenos sedi-
mentares e eruptivos, se encontram granadas, que em tempos deram
logar a algumas explorações ou tentativas de exploração. A existência
d'estas pedras parece haver chegado já ao conhecimento de Plinio,
o qual, fundando-se na auctoridade de um certo Bocchus, diz encon-
trarem-se carbúnculos (e por esta palavra designava qualquer pedra ver-
melha ou roxa) nos campos de Lisboa: Bocchus et in Olisiponensi erui
scripsit, rnagyio labore ob argillam soli adusti. (Cf. Jannetaz, i. c, Syi
e seguintes; Plinio, xxxvii, 25).
Nota (4)
«Ha muyta deferença em saber que pedra he a sardonix», diz o nosso
escriptor. Seria eífectivamente difficil averiguar o que era a pedra d'este
nome, engastada no logar superior á direita no racional do summo sa-
cerdote hebraico ; ou o que era a pedra do anel, lançado ao mar por
Polycrates de Samos, e maravilhosamente encontrado depois no interior
do peixe. É pouco provável, que estas famosas pedras fossem simples-
mente as agathas com veios corados, bastante communs, a que hoje
chamamos sardonix. Orta não trata de profundar muito a questão, e
diz com uma certa indifferença : quando não tiverem sardonix, sirvam-
Das pedras preciosas 227
se dos jacintos ou granadas — evidentemente o effeito therapeutico de-
via ser o mesmo.
«
Nota (5)
Orta falia da verdadeira esiiti.ci*alcla, um silicato de alumina
e glucina, tendo a composição chimica do berylo e da agua marinha;
mas distinguindo-se bem d'estas pedras vulgares e de baixo preço, pela
cór verde, intensa e caracteristica.
A esmeralda era n'aquelle tempo uma pedra rara e cara, a mais cara
de todas; e Orta ignorava a sua procedência: «e não se sabe a própria
roca d'ellas». Um século depois, Tavernier, não obstante haver percor-
rido todo o Oriente, occupando-se muito particularmente do commer-
cio das pedras preciosas, Tavernier estava na mesma ignorância :
j'avouequeje n'ay pii encore découvrir les lieux et les endroits de nostre
Continent d'oii on tire ces sortes de pierres. Parece que as esmeraldas
dos antigos, pelo menos a parte do que elles chamaram Gu.apa-j-^ci; e sma-
ragdiís que se pôde considerar como sendo a verdadeira esmeralda,
porque sob aquelle nome elles designaram evidentemente variadas pe-
dras verdes, parece — digo — que as esmeraldas dos antigos procediam
principalmente da Africa, por exemplo, de Sikait e Djebel Zabbara no
alto Egypto, a leste do Nilo e não longe das costas do mar Vermelho.
Cosmas Indicopleustes já falia (545 prpximamente) d'estas esmeraldas
da Ethiopia, que eram levadas para a índia, e pagas ali por altos preços.
Edrisi (1154) ainda se refere ás minas, situadas nas proximidades de
^u~.l, Asuan, como sendo activamente exploradas no seu tempo; mas
caíram depois n'um certo abandono, ou pelo menos n'uma certa obscu-
ridade. Como acabamos de ver, eram completamente ignoradas de Gar-
cia da Orta e de Tavernier. Duarte Barbosa tem, porém, a este respeito
uma indicação muito notável: «as esmeraldas nascem no Reino (paese)
de Babilónia, aonde os Índios chamão o Mar Deiguan». Não sei o que
os Índios chamariam mar Deiguan; mas o reino ou paiz de Babilónia
no tempo de Barbosa (i5i6) deve ser o Egypto; e temos assim mais
uma, na extraordinária copia de informações exactas, colligidas por
aquelle escriptor. O flamengo Linschoten, copiando muitas cousas de
Orta, dá no emtanto noticias suas, e entre ellas uma que concorda com
a de Barbosa: ex Cayro ALgypti orientales (smaragdi) qiioque dicti
multi in Indiam deferuntur. Isto está de accordo com a opinião de Laet
— citado por Streeter — de que se tiraram esmeraldas d'aquellas minas
até ao XVII século. Esta velhas minas abandonadas do Egypto foram
visitadas no principio do nosso século pelo francez Cailliaud, e muito
recentemente (1891) pelo sr. E. A. Floyer, que escreveu acerca delias
uma noticia interessante. Fora da Africa, algumas esmeraldas se encon-
travam na Ásia central, mas em regiões afastadas e mal conhecidas,
228 Colóquio quadragésimo quarto
que muito naturalmente escaparam ás investigações de Orta e Taver-
nier.
Alguns annos antes de o nosso Orta escrever haviam começado a
vir para a Europa e para o Oriente as estneraldas do Peru, que mais
tarde, pela sua relativa abundância, determinaram uma grande baixa de
preço. Orta conhecia-as, e tinha-as na conta de falsas. Isto é mais uma
prova, sobre muitas, de que elle se deve considerar um tanto parcial no
que diz respeito ás cousas das índias occidentaes. Aquellas riquíssimas
possessões dos hespanhoes otfuscavam-no, como oftuscavam quasi to-
dos os portuguezes, e esta espécie de ciúme ou rivalidade traduzia-se
por vezes em apreciações menos justas. Ao contrario do que elle diz, as
esmeraldas da America eram perfeitamente verdadeiras e de excellente
qualidade e agua. Pelo que diz respeito ás propriedades medicinaes
d'aquellas esmeraldas, as duvidas eram naturaes, e não foram manifes-
tadas unicamente pelo nosso escriptor. Na formula, por exemplo, da
Lunonata smaragdorum, recommenda-se expressamente o emprego das
esmeraldas orientaes^, condemnando-se implicitamente o das occiden-
taes.Todo o empenho consistia então em encontrar os verdadeiros in-
gredientes, mencionados pelos antigos, e acceitavam-se difficilmente
estas pedras novas, vindas de uma região nova, não conhecida de Avi-
cenna e de Mesué. É claro que tudo isto nos parece hoje pueril; mas
quem sabe se a medicina futura não considerará também pueris algu-
mas das distincções que hoje se fazem (Cf Tavernier, Voyages, ii, 35q;
Edrisi, Géogr., i, 36; Duarte Barbosa, Livro, 382; Linschoten, Naviga-
tio, 86; Streeter, 1. c, 222; Jannetaz, 1. c, 262; Concórdia pharmac, 28).
Nota (6)
E difficil annotar com uma certa ordem este desordenado Colóquio,
e reuniremos aqui as breves reflexões a fazer sobre o pouco que Orta
diz da tiirqiieja em todo o Colóquio. Elle sabia que estas pedras vinham
da Pérsia, como o sabiam em geral os portuguezes do seu tempo, por
exemplo, Pedro Teixeira, o qual marca exactamente a situação das
minas em «Nixábur», ou Nischapur. Orta diz-nos, também, que os «mou-
ros», não os hindus, consideravam a turque:;a medicinal. A este respeito
faz algumas considerações interessantes. Mesué havia indicado, entre
os componentes do Electarium de gemmis, um denominado ferur^egi,
que os commentadores, como Cristóvão de Honestis e outros, interpre-
' Isto é, esmeraldas de procedência oriental ou do Velho Mundo; e não o que os livros
especiaes chamam hoje esmeralda oriental, que é uma variedade verde do coryndon, exce-
pcionalmente rara.
Das pedias preciosas 229
tavam esmeralda, que nas Pharmacopêas se tomava também pela esme-
ralda: feru^egi, id est smaragdi; mas que Orta quer que seja a tur-
que^a. Orta tem rasão; o nome arábico da turquesa é ^\^jj^jiru^edj\
derivado do persiano s\j^, piru:^á, portanto o feru^egi das translit-
teraçóes latinas é claramente a turquesa (Teixeira. Relaciones, i56;
Freytag, Lexicon s. v.).
Nota (7)
Orta deve ter rasão, quando diz que a grande pedra de Génova não
deveria ser uma esmeralda, e sim qualquer outra pedra verde, talvez
um jaspe. Do mesmo modo, como já indicámos, algumas das enormes
pedras, mencionadas por Theophrasto como (i;i.á:5',-/),oç, e por Plinio
como smaragdus, podiam ser tudo, menos verdadeiras esmeraldas
(Theophrasto, De Lapidibus, 344, edição Wimer; Plinio, xxxvii, 19).
Orta falia das «porcelanas» ás jaspe verde que se vendiam na índia,
tomando a palavra no sentido de taça, independentemente da substancia
de que era formada. Porcelana parece ter significado primitivamente
a concha de um moUusco, cuja madre pérola se applicava ao revesti-
mento de objectos de ornato e de taças. Tem este sentido em um do-
cumento portuguez do século de Orta. No dote da infanta D. Beatriz,
duqueza de Saboya, figuram (i522): «Seis manilhas de porcelana, en-
castoadas em ouro; e ás duas falecem peças de porcelana». Eviden-
temente a palavra designa aqui uma substancia, que revestia as mani-
lhas ou pulseiras. Pelo facto d'aquella substancia revestir algumas taças
passou depois a significar a taça. Em uma relação de objectos perten-
centes á guarda roupa de El-Rei D. Manuel, encontra-se a seguinte
menção: «quatro porcelanas da China de prata«; e em um inventario
de jóias e prata a cargo da camareira D. Mecia Dandrade (i558) vem
indicadas: «Quatro porcelanas, a saber, três de ágata, uma de jaspe,
guarnecidos bocal e pé de ouro ». E exactamente o sentido em que
Orta toma a palavra. Mais tarde a mesma palavra passou naturalmente
a designar uma substancia de que se faziam taças, e fixou-se no sentido
que ainda conserva. Mais alguma cousa haveria a dizer sobre estas va-
riações de sentido, com as quaes não concordam todos os etymologis-
tas; mas não temos tempo para debater este ponto especial (Cf Pro-
vas da Hist. Genealog., 11, 348, 460, 776) .
Nota (8)
A amethista, uma variedade roxa do qtiíirtzo hialino, é fre-
quente em Ceylão e outras regiões. O nome de crysolitha tem sido
dado a diversas pedras; mas parece que Orta quereria fallar da cryso-
23o Colóquio quadrageshno quarto das pedras preciosas
litha oriental, uma variedade do ci:*ysol>ei-yl (ou cymophana), um
aluminato de glucina, que se encontra no Oriente, Pegu, Borneo, Cey-
lão (Cf. Jannetaz, i. c. 259).
Nota (9)
A laqueca ou alaqueca era a variedade vermelha ou côr de carne
da ealcedonia (um quart:^o amorpho e semi-transparente) vulgar-
mente chamada hoje cornalina ou cornelina. O antigo nome portuguez
vinha do arábico 'aqiqá («quequi« do nosso Orta), junto ao artigo, ia^sJ!
alaqiqa (Sousa, Vestígios, \<\3\ Dozy, 56).
A laqueca encontrava-se nas terras do Guzerate, em uma locaHdade
chamada «Limadura», e dava logar a um commercio de certa activi-
dade. Eis o que diz Duarte Barbosa:
«Indo mais ha ho diante desta cidade de Cambaya, ha ho certam
dela, está huu lugar que chamaom Limadura, honde está húa pedra
(pedreira) dalaqueca, que he huma pedra branqua leitenta e vermelha,
e dentro no foguo ha fazem muyto mais vermelha; arranquam-na em
muy grandes pedaços, e aquy ha grandes mestres que a lavraom, e fu-
raom e fazem de muytas feições, scilicet, compridas, outavadas, redon-
das, folhas doliveia (?), e em muytos anéis, cabos de tresados e adaguas,
e de outras maneiras».
Dá depois noticia de que estes objectos de laqueca saíam d"ali para
o Mar Roxo, para a Arábia, Pérsia, e «pêra a índia (Goa e índia por--
tugueza) honde as nossas gentes as compraom pêra levarem a Por-
tugal». Na Lembrança das Cousas da Ymdea encontra-se também uma
longa lista de preços da «alaqueca de canudo, dolyveta (?), de co-
souro (?j«, e de contas, anéis, cabos de facas, colheres, garfos, tachas
de punhaes, tudo feito d'aquella pedra, e valendo preços relativamente
muito baixos (Cf. Barbosa, Livro, 286; Lembrança, 5i).
A virtude, attribuida á laqueca, de estancar o sangue, era muito sa-
bida, e vem citada repetidas vezes em livros antigos, por exemplo, no
de Ibn-al-Baitâr (citado por Dozy).
Nota (10)
A diversas pedras se deu o nome de olho de gato, por exemplo, a
algumas variedades de quartzo; mas o verdadeiro olho de gato de Cey-
lão, parece ser — segundo Streeter — uma variedade do crysoberyl já
citado. João Ribeiro descreve-o com muito enthusiasmo «mos-
trão (estas pedras) uma côr composta de quantas Deos creou : nenhuma
d'ellas per si se divisa, de todas se faz uma composição maravilhosa»
(Streeter, 1. c, 228; Ribeiro, Fatalidade, 60).
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO QUINTO
DA PEDRA BEZAR
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
ORTA
Muito me maravilho não me perguntardes poWn pedra be-
■{ar, pois he tam louvada de todos os Arábios, e com muita
rezam.
RUANO
Não vos perguntei por ella, porque )á na pratica que ti-
vemos sobre a colérica pasto a louvastes muyto, e eu leixava
de vos falar nella, por me parecer cousa falsificada polia
maior parte; e nam por ella não ser tam louvada, que as
mezinhas que livram de peçonha, lhe chamamos be:{edaricas
per excelência*; por tanto me fareis muita mercê de me dizer
em breves ditos de seu nacimento, e eleiçam, e falsificaçam,
e o pêra que se usa na gente desta terra, e se sam estimadas
em muyto.
ORTA
Chamase o carneiro (ou mais verdadeiramente hoáé) pa-
\am em lingua da Pérsia, e ha este carneiro no Coraçone e
na mesma Pérsia; e eu vi aqui em Goa hum ruivo e grande,
e dixeramme que avia outros mais pequenos e da mesma
cor, e doutra cor. E nos buchos destes bodes se cria esta
pedra sobre huma muyto delgada palha, que está no meo,
e ahi se vai tecendo, e fazemdo casco, como de cebola;
a qual he feita como huma coluna redonda, e ás vezes não
he de huma feiçam; e muytas vezes se acha esta palha na
pedra, como eu já vi; e outras vezes não lha acham, e por
* Monardes usa a mesma expressão; omnia medicamenta ve-
nenis resistentia, be^aardica per excellentiam nuncupentur.
232 Colóquio quadragésimo quinto
a maior parte he muyto lisa, e a cor he como de bringela-,
e ha as grandes e pequenas; e os senhores estimam em
mais as muyto grandes, porque dizem que no maior corpo
consiste a maior virtude; e eu tive cá huma que pesava
perto de cinquo oitavas, e comtudo em Pormgal foy estimada
em pouquo; e comtudo deuse lá por 3o e dous mil reis,
e cá custou mais alguma cousa. E, senão fora por a diligen-
cia que teve quem a vendeo, nam se achara dinheiro por
ella; porque trabalhou muyto polia vender bem.
RUANO
Sabeis certo de como se gera?
ORTA
Si, porque desfazendo a pedra, acheia feita sobre esta
delgada palha; e homens dignos de fé me dixeram, que asi
eram todas em Ormuz. E depois me achei em huma armada,
na ilha das Vacas, (que he alem do cabo de Comorim) onde
vi matar mu3'tos bodes pêra a armada, que eram muyto
grandes; e os bodes grandes, polia mor parte, tinham esta
pedra no bucho; onde ouve muytas pedras a gente que as
quis buscar. E depois ficou em custume aos que tomam
aquella ilha de matarem muytos bodes; e tomaram aos de
Benfiala aquella ilha, pêra descaregar alguma parte do na-
vio, por causa dos baixos de Ghilam, assi que sempre trazem
dahi muytas pedras de be\ar (i).
RUANO
Logo não as ha somente na Pérsia?
ORTA
Tendes muyta rezam, porque também as ha aqui nesta
ilha que dixe, e asi as ha em algumas partes de Malaqua;
porém temse por muyto milhores as da Pérsia, e as do
Goraçone; e conhecem os Mouros a deferença que ha emtre
humas pedras e outras; e pêra saber se sam falsificadas,
apertam as na mão, e lhe asopram pêra ver se lhe sai o
Da pedra be^ar
233
vento; porque estas tem elles por contrafeitas. Chamase esta
pedra pa^ar, do pa-{am (bode asi chamado), e asi quando
vos cá pedem alguma mezinha contra a peçonha, lhe cha-
mam pa^am, e asi chamam o locornio* e a triaga alguns.
Este nome de pa:{ar lhe chamam todos os Coraçones e Pér-
sios e Arábios; e nós os da Europa coruptamente lhe cha-
mamos be^ar, e a gente indiana mais coruptamente lhe chama
pedra de ba^ar; que quer dizer pedra da praça, ou da feira;
porque ba:{ar quer dizer luguar donde se vendem as cousas.
RUANO
E pêra que usam delia, e quem usa mais delia?
ORTA
A gente desta terra usa delia, porque nos vê fazer o mesmo
pêra a peçonha; e os Mouros de Ormuz e do Coraçone
tomão até 3o grãos, quando muyto; e assi usam desta pe-
dra pêra todas as emfermidades melamcolicas e venenosas.
E todallas pesoas ricas se purguam duas vezes cada anno,
huma per março, e outra per setembro, depois de purgados
tomam por cinquo manhans dez grãos cada manhã, deitados
em aguoa rosada; e dizem que com isto se conserva a mo-
cidade; e alguns me dixeram a tomavam cada mez duas
vezes, pêra fortificar os membros principaes, e pêra serem
mais poderosos nos jogos de Vénus. E eu seivos dizer que em
mu3'tas enfermidades velhas melamcolicas uso delia, asi co-
mo sam sarnas grossas, lepra, prurido antigo, empingens,
pêra as quais me dixe hum guovernador que se achara bem;
e pêra estoutras emfermidades usei delia, e me achei muyto
bem, e por esta rezam me parece que seria boa pêra as
quartans.
RUANO
E se hum homem tomar muyta cantidade delia, fazerlheha
mal?
* Seguramente um erro de imprensa; é o licornio ou unicorneo.
234 Colóquio quadragésimo quinto
ORTA
Posto que esta não seja mesinha venenosa, nem composta
de veneno como triaga, eu acho que o mais seguro he to-
mar delia pouqua cantidade. E asi dam delia em Ormuz
mu3fto pouqua; e dizem que he mao tomar muita cantidade:
e hum feitor de Ormuz, meu amigo, diziam os físicos Mouros
que morrera por lhe darem mwyXd. pedra be^ar; e tem rezam,
porque as cousas que usam per propriedade fazem suas
obras em mais pequena cantidade. E certamente que me dixe
hum homem de Ormuz, digno de fé, que fora lá feitor do
capitam, e tinha mu3'ta conversaçam com esses Mouros on-
rados, que avia Mouros que estavam mui debilitados, e que
pêra aquella fraqueza queriam tomar a pedra be^ar, e que
elle os via tam fracos, que lhe parecia que não podiam es-
capar, e que elle dizia aos físicos que o seu parecer que era
que não podiam escapar, e o físico lhe dizia que, depois que
tomassem a pedra, que os olhase, que os não conheceria;
e que elle os olhava depois, e que os via muyto rijos; por
onde davam graças a Deos que tal pedra criara.
RUANO
Diz Mateolo Senense que, se toca a carne esta pedra,
trazendoa no braço, preserva ao que a traz de lhe fazer mal
a peçonha; e diz também que deitada da banda de fora,
feita em pós, sobre as chaguas, que chupa o veneno, se he
de mordedura de bicha ou de cam raivoso.
ORTA
o primeiro que diz, que posta da banda de fora perserva
tocando a carne, nam está cá em uso, nem se pratica: mas
nas- outras chagas venenosas que diz, he verdade que apro-
veita, deitada em chagas feita em pó, se sam venenosas,
dizem muyta verdade; porque eu sei, que nas chaguas de
todalas mordeduras venenosas aproveita, e nas apostemas
da peste, quando estam abertas, aproveita muyto; e dizem
que perserva da peste e que a cura; e porque nesta terra
as bexigas e sarampam sam mui venenosas e matam, muy-
Da pedida beiar 235
tos temos qua por uso darlhe esta pedra be:{ar cada dia,
em cantidade de hum grão até dous, deitada em agua ro-
sada, e com isto he o veneno emfraquccido (2).
Nota (i)
Esta viagem de Garcia da Orta á ilha das Vacas teve sem duvida
logar no anno de i543, acompanhando o seu amo e amigo Martim Af-
fonso de Sousa, já então governador da índia, como seis ou sete annos
antes o havia sempre acompanhado nas viagens a Diu, ao Malabar e a
Ceylão, sendo elle apenas capitão mor do mar^.
N'aquelle anno, Martim Affbnso de Sousa saiu de Goa com uma
grande armada de quarenta e cinco velas, dirigindo-se para o sul em
uma mysteriosa e pouco gloriosa expedição, que deu muito que fallar.
Ou por ordem expressa de D. João III —segundo affirma Diogo do
Couto—, ou por inspiração sua própria, o governador ia pura e sim-
plesmente roubar o famoso pagode de «Tremelle», e a feira ou romaria
que junto d'elle tinha logar em certa epocha do anno, e na qual, como
ingenuamente diz Gaspar Corrêa, se juntavam todas as riquezas do
mundo: «todolas cousas do mundo todo onyuerso».
A armada foi de Goa a Cochym, e de Cochym a Beadala (Vedãlay)
na costa de leste, onde tomou pilotos da terra para passar os baixos de
Chilão, indo reunir-se na ilha das Vacas ao norte dos baixos. Segundo
Diogo do Couto, quando a armada ah chegou já tinha passado a mon-
ção favorável de seguir para a costa de Coromandel, e este foi o mo-
tivo de o governador desistir do seu intento. Gaspar Corrêa, porém,
conta que ali vieram trazer más informações ao governador, dizendo-
Ihe ser difficil a entrada no rio de Paleacate (Pulicat das cartas moder-
nas, um pouco ao norte da moderna Madrasta), e avisando-o de estar já
reunida muita gente para defender o pagode, tanta, que se elle lá fosse
com dois ou três mil homens «nom escaparia pé d'elles'i. Esta versão pa-
rece-me muito mais plausível; mas, fosse qual fosse o motivo, Martim
Affonso não passou da ilha e demorou-se ali algum tempo: «esteve de-
vagar na ilha das Vaquas». Não nos pôde restar duvida alguma de que
Orta fosse n'esta armada, já porque elle acompanhava sempre Martim
' Sobre estas expedições veja-se Garcia da Orta e o seu lempo. A viagem à ilha das
Vacas foi ali apenas mencionada de passagem, por não haver reparado attentamente n'este
Colóquio.
236 Colóquio quadragésimo quinto
Afíònso, já porque não sabemos de outra, que por aquelles tempos ali
se demorasse, e tivesse de se abastecer da carne dos bodes e cabras,
abundantes na ilha.
A ilha das Vacas, depois chamada pelos hollandezes ilha de Delft,
estava situada na bahia de Palk, entre Ceylão e a índia, e era pouco
extensa, tendo apenas sete ou oito milhas de comprimento. Tinha, po-
rém, agua em um pequeno lago central, e abundantíssimas pastagens;
de modo que os portuguezes de Manaar e Jafnapatam estabeleceram
ali creaçóes de gado. Davam-lhe por isso o nome de ilha das Vacas, ás
vezes o de ilha dos Cavallos, e também o de ilha das Cabras, segundo
diz Tennent, citando João Ribeiro, posto que eu não encontrasse esta
indicação na Fatalidade histórica.
(Cf. Gaspar Corrêa, Lendas, iv, 287 e seguintes, e 324 e seguintes;
Couto, Ásia, v, IX, 7; Tennent, Ceylon, 11, 549.)
Nota (2)
O nosso Orta deriva «bezar» do persiano «pazar»; e esta ultima pa-
lavra do nome do bode «pazam». Não ha duvida alguma de que be^ar,
ou na forma hoje mais usada be:^oar, seja o arábico ba^ahr, que corres-
ponde ao persiano pajahr ou pad^ahr; mas este vocábulo não tem a
origem que Orta lhe dá. Pedro Teixeira diz: Pa^ahar, que quiere de^ir
tanto como antidoto, y propriamente reparo de ponçona o veneno, de
Zahar que es nombre general de qualquier veneno, y pá, reparo. Esta
etymologia de Teixeira, seguida no século passado no diccionario de
Meninski, e recebida modernamente por Littré e por Yule, pode accei-
tar-se como segura. A palavra be:;oar encontra-se mesmo em escriptores
antigos tomada na accepção geral de antidoto, usando-se n'este sentido
no Oriente, como indica muito claramente o próprio Orta; e só depois
veiu a designar especialmente a chamada pedra bc^oar, por isso que
esta se considerava o mais poderoso dos antídotos; não tinha, portanto,
na origem, nenhuma relação com o nome do bode.
Deu-se, pois, o nome de pedra be^oar ao calculo intestinal de diver-
sos animaes, principalmente ruminantes. A mais celebrada d'estas pe-
dras provinha da Pérsia, e procedia, segundo diziam, da cabra selvagem,
Capra jEgagrus, chamada pelos persas /»a5e« ou pa^én, o «pazam» de
Orta. E possível, que o «bode ruivo e grande», visto por Orta em Goa,
fosse efFectivamente d'esta raça selvagem. É certo, no emtanto, que as
cabras domesticas creavam também aquelles cálculos. Pedro Teixeira,
fallando dos carneros da Pérsia, em cujos estômagos se encontram os
be^oares, parece mais referir-se a animaes domésticos, que a uma espé-
cie selvagem. As cabras da ilha das Vacas, nas quaes —segundo Orta
e Teixeira — se encontravam be:^oares, considerados apenas inferiores
Da pedra beiar 287
aos da Pérsia, eram originariamente domesticas, dizendo-se introduzi-
das ali pelos portuguezes. E João Baptista Tavernier, que fez o com-
mercio dos be^oares juntamente com o das pedras preciosas, e viu as
cabras da região de Golconda que os produziam, descreve-as como de
belles bestes, fort haiites, et qui ont un poiljin comme de la soye — evi-
dentemente uma raça domestica. Isto não impedia, que os be^oares dos
animaes selvagens, sendo mais raros, fossem por isso mesmo mais apre-
ciados. Kampfer, dando nas Amcenitates exoticce uma longa noticia acerca
d'estes cálculos, indica como origem do be^oar oriental legitimo, verus
Q pretiosus, a cabra selvagem da Pérsia, principalmente da província de
Lar'. Alem do be^oar legitimo da cabra selvagem, e dos outros menos
apreciados das raças domesticas, encontravam-se em circulação os que
procediam de vacas, Antílopes e outros ruminantes, assim como alguns,
provenientes de animaes de distinctas ordens.
Orta conhecia a estructura interior d'aquellas concreções intestinaes,
formadas de tinas camadas concentiicas, descrevendo-as em uma phrase
muito clara: «e ahi se vae tecendo e fazemdo casco, como de cebola».
E conhecia também o facto de se formarem ás vezes em volta de uma
«palha», ou pequeno corpo estranho. Todos os escriptores citados in-
sistem sobre a influencia da ahmentação no apparecimento dos be^oares.
Kampfer diz, que algumas plantas resinosas e muito aromáticas, abun-
dantes em certas partes da Pérsia, determinavam a formação d'aquellas
concreções. Segundo Tavernier, o be^oar formava-se em volta dos re-
bentos e pequenos ramos de um arbusto especial, roido pelas cabras,
e do qual elle não sabia ou havia esquecido o nome. Na opinião de
Teixeira, o pasto era la matéria de las piedras; e aquelle escriptor cita
mesmo a tal respeito uma observação, que, a ser exacta, seria conclu-
dente. Conta elle, que no anno de i585 uma grande tempestade innun-
dou toda a ilha das Vacas, salgando e estragando as pastagens. Leva-
das d'ali as cabras, nunca mais produziram be^oares; mas, passados
alguns annos, adoçados e melhorados os pastos, e tornadas as cabras
á ilha, criarõ piedras como de antes. A observação — como disse — é
concludente, e o facto de modo algum improvável.
A pedra be^oar gosava de universal e excepcional reputação ainda
no tempo de Orta. Um comtemporaneo seu, o illustre medico hespa-
nhol Nicolau Monardes, reuniu toda a litteratura medica relativa ás fa-
mosas pedras em uma interessante memoria, intitulada : De lapide Be-
:^aar et Scor^onera herba. Ali se podem ver os louvores, dispensados
áquelle celebre antídoto pelos velhos médicos, desde Serapio e Rasis,
até Amato Lusitano, Agrícola, Musa e outros do seu tempo. As opiniões
alheias, Monardes acrescenta as observações de sua própria clinica.
' Não tenho n'este momento o livro de Kampfer, e cito em segunda mão.
238 Colóquio quadragésimo quinto
Conta o caso de um filho da Duqueza de Bejar, soffrendo desde creança
de «delíquios» e «syncopes», e maravilhosamente curado por elle com
a pedra bejoar. Note-se, que as duas pedras empregadas n'este caso
foram de Lisboa por intermédio de um genovez, e eram pequenas,
pouco maiores que um caroço de tâmara, indo montadas ou encerra-
das em oiro, por onde se pôde ver em quanta estima eram tidas. No
tratamento de uma menina nobre, Maria Catafío, soffrendo igualmente
de «delíquios», Monardes empregou também com proveito a pedra,
mandando-a ir expressamente de Lisboa; e com uns restos d'esta pedra,
pois que outra se não pôde encontrar, salvou o licenciado Luiz de
Cueva, que se havia envenenado por imprudência. O medico hespanhol
ainda cita o excellente effeito da pedra be^oar nos ataques de melan-
colia e tristeza sem causa, recordando o facto de o imperador Carlos V
a tomar para aquelle fim: in hunc effectuin scepe sumebat.
Como acabámos de ver, Monardes mandou ir por duas vezes as pe-
dras de Lisboa, pois a nossa cidade, estando em relações directas com
o Oriente, tinha então o monopólio d'este famoso medicamento, como
tinha o das especiarias. Effectivamente, o erudito investigador Carlos
de rÉcluse, diz-nos ter encontrado á venda em Lisboa pedras de varias
formas. Algumas, porém, eram falsas, e os compradores exigiam a prova
da sua elTicacia antes de terminarem o negocio, prova a que os vende-
dores raras vezes se queriam sujeitar, o que facilmente se comprehende.
A prova fazia-se do seguinte modo : tomava-se um fio, enfiado em uma
agulha, e passava-se pela herba balestera^, atravessando-se depois a
perna de um cão com o fio assim envenenado, e deixando ficar o fio
na ferida; quando o cão apresentava todos os symptomas do envene-
namento, administrava-se-lhe em agua o pó da pedra raspada, e julga-
va-se da legitimidade da pedra pelos seus effeitos. Comprehende-se,
como disse, que os vendedores se sujeitassem difficilmente a esta prova,
ainda que seria fácil sophismal-a por vários modos.
Do que temos dito, se vê bem como o be^oar gosava ainda no tempo
de Orta de excepcional reputação, e como elle seguia pura e simples-
mente as opiniões geraes do seu tempo. O bejoar era propriamente um
medicamento oriental, quer dizer, arábico e persiano, ou da eschola
de medicina mussulmana, mas não indiano. Orta diz claramente, que
os práticos hindus apenas o empregavam como imitação dos portugue-
zes, ou talvez até certo ponto dos mussulmanos; mas que não fazia
' Este veneno preparava-se, pisando e espremendo as raizes de Helleborus, chamado em
hespanhol verdegambrv e hierba de ballestero, e em portuguez lierva de besteiros ; o sueco
assim obtido cosia-se e coava-se, levando-se de novo ao lume para lhe dar a consistência de
xarope grosso. Esta preparação fazia-se para envenenar os virotes das bestas, empregadas
na caça, e provavelmente também em tempos mais antigos na guerra, e d'ahi vinha o nome
vulgar da herva (Cf. A. M. de Espinar, Arte de Ballesteria, Lib. i, cap. 8, Madrid, 1644).
Da pedra be^ar 289
parte da sua matéria medica tradicional. Sendo, porém, recommendado
nos livros árabes, penetrou logo na idade-media nos usos da medicina
europêa, e conservou a sua reputação até ao tempo de Orta, e mesmo
durante todo o século seguinte e parte do passado. O nosso padre
Bluteau ainda lhe chama um precioso contraveneno. Desappareceu ha
muito da matéria medica europèa; mas parece que não completamente
da oriental. No principio do nosso século, o Scháh da Pérsia mandou
de presente a Napoleão I alguns be^oares, por onde se vê que ainda
lhes ligava importância e valor.
Notaremos, antes de terminar, que o be:ioar de Malaca, succintamente
mencionado por Orta, devia ser o mesmo ou análogo áquelle de que
temos fallado, e não a pedra de Malaca, da qual Orta se occupa e nós
teremos também de nos occupar em um dos seguintes Colóquios.
(Cf. Pedro Teixeira, Relaciones, i5j e seguintes; Yule e Burnell,
Gloss., 68; Guibourt, Drogues simples, iv, io3 e seguintes; Tavernier,
Voyages, 11, 889; Hecker, em Phannaceutische Post, xxv (1892) p. 21;
Monardes, De lapide Be^aar, 8, in Exotic; Clusius. Exotic. 216).
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO SEXTO
DA PIMENTA PRETA, E BRANCA, E LONGA, E CANARIM :
E DOS PEXEGOS
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Nam he fora de rezam, pois tantos trabalhos os Portu-
guezes levam por aver toda íí pimenta á sua mão, comendo
a menos parte, e as partes de Alemanha e Frandes guas-
tando a mór parte delia, que me digais onde he a força e
a cantidade delia maior, e como se chama nas terras donde
nace, e mais como se chama em arábio, e como se colhe,
e a feiçam do arvore, e se he cá usada pêra medicina.
ORTA
A mór cantidade desta pimenta ha em todo o Malavar,
e ao longo desta costa, do principio do cabo de Comorim
até Cananor: lá nas bandas de Malaqua também ha alguma
cantidade desta pimenta, ainda que nam he tam boa, por-
que a acham mais van; e colhese em algumas ilhas da Java
e na Çunda, e em Queda e em outros cabos, e guastase
esta toda na China, e na própria terra, e também a levam
a Pegú e a Martavam. E a do Malavar também se guasta
toda a mais na própria terra, porque, ainda que a terra do
Malavar seja pequena, se guasta muyta mais cantidade que
em nenhuma outra terra; e alguma guasta a gente da fralda
do mar, e outra levam pêra o Balaguate caregada em bois;
e muyta cantidade levam os Mouros pêra o mar Roxo, con-
tra a defeza delrey^, porque nunca cousa alguma pode ser
tam bem guardada, que se nam furte muyta cantidade pêra
as partes ocidentais por os Mouros da terra. Asi que estas
sam as partes donde se colhe esta pimenta, ainda que aja
alguns arvores de Cananor pêra o norte, mas he tam pouca
i6
242 Colóquio quadragésimo sexto
cantidade, que nam fazemos caso delia, porque a gente da
terra a gasta \ porque estes arvores nam se criam no sertam,
nem em outras partes; e asi he mercadoria boa pêra lá, por-
que eu vi muyta cantidade que se levava em bois pêra lá.
RUANO
Dizei os nomes na terra onde a ha.
ORTA
Ghamase acerca dos Malavares, donde ha maior copia,
molanga; e em as partes de Malaca, onde também se co-
lhe (como disse jáj lada; e em arábio se di\z filjil, e asi
a chamam os Arábios físicos e o vulgar. Se Avicena (se-
gundo tralada o Belunense) a chama fulful, e darfulful á
pimenta longa*, ^falfel, e Serapio**, que eram Arábios, to-
davia me parece que JiljU he o mais certo nome, e náo fid-
ful, nem falfel; porque facilmente se podia corromper o
nome escrito, e fícou o próprio na voz do povo. Porque nisto
vai pouquo nam me detenho mais, senam diguo que o Gu-
zerate e o Decanim diz a pimenta meriche, e o Bengala mo-
rois, e a pimenta longa pepilini.
RUANO
Da feiçam do arvore, e como crece, e como se cria toda
em hum arvore me dizei; pois nisto concordam os Gregos
e Latinos e Arábios todos, e os novos escritores que oje em
dia escrevem.
ORTA
Todos a huma voz se concertaram a nam dizer verdade,
senão que Dioscorides*** he digno de perdam, porque es-
creveo per falsa emformaçam, e de longas terras, e o mar
• Avie. 2 Libro, cap. 5']5 (nota do auctor).
** Serap. i, 367 (nota do auctor). A phrase está muito confusa, mas
o sentido é bastante claro.
*** Dioscorides, Lib. 2, cap. i53 (nota do auctor); aliás 188.
Da pimenta 248
nam ser tam navegado como aguora he; e a esse imitou
Plinio*, e Galeno** e Izidoro, e Avicena e todos os Arábios.
E mais os que aguora escrevem, como António Musa e os
Frades, tem m.aior culpa, pois não fazem mais que dizer
todos de huma maneira, sem fazer deligencia em cousa tam
sabida, como he a feiçam do arvore, e a fruta, e como ma-
durece, e como se colhe.
RUANO
Gomo, todos esses que diseis, erraram?
ORTA
Si; se chamaes errar a dizer o que não he.
RUANO
Ora pois isso he asi, dizei o que vistes e ouvistes a pes-
soas dignas de fé; e per derradeiro eu virei com minhas
duvidas.
ORTA
A pimenta, scilicet, o arvore ou planta he plantada ao pé
de outro arvore; e polia mor parte a vejo sempre plantada ao
pé de alguma areqiieira ou palmeira, e tem a raiz pequena,
e crece tanto quanto he o arvore a que está arrimada e en-
costada, abraçandose com o arvore; a folha não he muyta,
nem muyto grande, e he mais pequena que de laranjeira, e
verde, e aguda na ponta, e queima algum pouco, sabe casi
como o betele, de que já falei; nace como as uvas em cachos,
e nam difere mais que serem os cachos da.pime7ita mais meu-
dos nos grãos, que os das nossas uvas, e mais não sam tam
grandes os cachos em si como os das uvas, e sempre estam
verdes até ao tempo que seque d. pimenta, e este em sua per-
feiçam e força, que he até meado de janeiro; neste Malavar
a planta he de duas maneiras, huma que áà^ pimenta preta,
* Plinius, Lib. 12 (nota do auctor).
* • Galenus, Lib. 8, Simpl. medic. (nota do auctor).
244 Colóquio quadragésimo sexto
e outra branca*; e, afora estas, ha outra em Bengala, que
he da longua.
RUANO
Pareceme que destruis a todos os escritores antiguos e
modernos, por isso oulhai o que fazeis^ porque Dioscorides
diz, que o arvore da pimenta he baixo, e produz hum fruto
longuo a modo de bainha, ao qual chamam pimenta lon-
gua; e dentro nesta bainha estam huns gramsinhos meudos
semelhantes ao milho, e que estes amde ser a pimenta per-
feita; porque abrindose no próprio tempo as ditas bainhas
descobrem huns cachos peguados, e cheos daquestos grãos
que conhecemos, os quaes, colhendose antes que se acabem
de madurar, sam agros, e estes sam a pimenta branca, e
mesturamse nas mezinhas que fazem pêra os olhos, e he
contra o veneno bebido, e mais das feras peçonhentas; a
primeira he pimenta longua, e he fortemente mordiíicativa,
e algum tanta amargua, por se aver colhido antes de tempo,
e asi he proveitosa pêra as cousas que dixe ; e a pimenta ne-
gra he mais suave e mais aguda, e mais agradável ao gosto,
por aver sido colhida em seu tempo, e mais aromática que
a branca; e asi temperam os comeres, por ser mais provei-
tosa. A mais fraca de todas he a branca, por se colher antes
de ser madura. E da pimenta negra a mais pesada he mi-
Ihor; porque se acham entre ella alguns grãos vazios, chama
esta pimenta a gente da terra bracamasim**. Isto he, o que
diz Dioscorides do ser delia, porque das cousas pêra que
aproveita não he nesseçario falar ao presente; e ao cabo do
capitulo diz, que a raiz he semelhante ao costo. E Plinio
diz que os arvores sam semelhantes SiOsjuniperos, e que na-
* Isto é um erro, veja-se a nota (i).
** Uns grãos vazios e chochos, chamados Pfáaaa; mas Dioscorides
não diz que isto seja um nome indiano, ou da «gente da terra». Segundo
o erudito Saumaise é um vocábulo puramente grego; Plinio é que se
enganou, escrevendo brechma, e dando uma feição e uma significação
indiana á palavra. Não sei porque Orta escreve bracamasim; mas diz
com rasão adiante que a palavra não era conhecida na índia.
Da pimenta 24b
cem somente de fronte do monte Cáucaso, segundo alguns
dixeram, e que as sementes sam semelhantes ás áo junipcro,
e que se dividem ou apartam huma semente da outra em pe-
quena parte da bainha, asi com os feigóes. O preço delia
he de 16 até 18 livras, e o preço ádi pimenta longa de 2 5 li-
vras, e o preço da branca he 17 livras: contase por cada livra
3 crusados*. E diz que a pimenta em sua terra he silvestre
e não plantada, e que em Itália ouve hum arvore destes, que
parecia como murta. Também ha esta pimenta na parte da
Arábia, chamada Trogoldita: chamase esta pimenta na lin-
goa da terra onde a ha bracamasim. Todalas outras cousas
mais de dizer pêra que aproveita sam tomadas de Diosco-
rides; por tanto não as ponho aqui. Aviçena faz dous capí-
tulos, scilicet, hum de fidful, e outro de darfulful (que he
pimenta longa) e asi elle como Galeno não dizem mais que
contar com brevidade o que diz Dioscorides, e o mesmo faz
Serapiam, coligindo o que dixeram Dioscorides e Galeno so-
mente, e se ha alguma cousa que dixe Paulo Egineta não
faz ao caso. Estas sam as cousí^s que dixeram os antiguos,
tirando Santo Izidro**, que, com ser santo e de muyta au-
toridade, diz que quando a gente da terra sente que api-
menta he madura pêra se colher, por medo das serpentes
põe fogo ao mato, e fogem as serpentes, e a pimenta fica
asi preta com o foguo que puzeram ao mato; mas eu, fa-
lando comvosco a verdade, tenho estas cousas por fabulo-
sas, e que por taes as escreveo o primeiro que o dixe; e
que Santo Izidro não falou isto porque o elle crese, senam
por relatar os ditos dos outros; asi que destas cousas não
quero que me deis desculpas, pois as não creo. E por estas
cousas vos diguo que não sei com que rezam reprendeis
* Os números não estão certos; por um singular equivoco, Orta som-
mou o signal indicativo do denarius, com o algarismo romano, achando
25, onde esta escripto X. XV, e assim para os outros números.
* * Orta escreve Izidro, e deixei ficar esta forma, posto que o famoso
bispo de Sevilha seja mais conhecido entre nós como Santo Izidoro.
246 Colóquio quadragésimo sexto
a estes doutores tam antiguos, e de tanta autoridade, sendo
confirmados pollos modernos, scilicet, Mateus Silvatico, Se-
púlveda, António Musa, o Frade hespanhol, os Frades ita-
lianos, e quantos escreveram livros de botica. Por isso re-
queirovos da parte de Deos, que não me digaes senão o
que vistes ou ouvistes a pessoas muito dignas de fé, ajudan-
dovos com vossas razoes, que as sabereis muy bem dar, e ao
cabo veremos como se usa na medecina pollos físicos desta
terra, e asi farei minhas perguntas nccesarias: e perdoai se
falei até aqui demasiadamente.
ORTA
Primeiramente saiba vossa mercê, que não nace esta pi-
menta na raiz do monte Cáucaso, ou defronte, como diz
Plinio; pois nessas terras tem maior preço a pimenta, que
em as outras terras sabidas, e isto vós o sabeis, pois sabeis
o monte Cáucaso onde está, e quam longe está do cabo do
Comorim, e de Çamatra (cabos onde ha maior cantidade de
pimenta): nem he semelhante a.o Junipero, pois se planta arri-
mada, e doutra maneira nam, e o junipero he planta sobre
si: nem nas folhas se parece com o junipero, e a feiçam da
folha he como vos já dixe, e nacem os cachos como as nossas
uvas, quando estam verdes, com os bagos destintos, e desta
maneira quando está em agraço se lança em vinagre e sal;
e isto sei eu muyto bem sabido como testemunha de vista.
E pella mesma maneira sei que ha arvore ási pimenta longa,
e mais a pimenta longa nace em terra muyto distante do
Malavar, que o mais perto será 5oo leguoas, porque ha em
Bengala e na Jaoa; e esta pimenta longa valia em Cochim,
que he a maior cantidade da pimenta preta, a cinquo cru-
sados o quintal; e de 4 annos a este cabo, por se gastar mais
d. pimenta longa pêra outros cabos, vai o quintal a i5 ou 20
crusados. E vai em Cochim a pimenta preta usual a dous
crusados e meo; a c\\ia\ pimenta usual vai em Bengala hum
quintal 12 crusados, e a longa, quando a compram lá em
Bengala, vai hum crusado e meo: e isto vos abastava pêra
saberdes que não he huma mesma arvore a áa.pitnenta longa.
Da pimenta 247
e da pimenta usual, quanto mais que as cousas que homem
ve pelos olhos nam tem necesidade de as provar. K pimenta
branca he outro arvore sobre si, e falando comvosco a ver-
dade, nam ha muytos arvores delia nestas bandas do Mala-
vir, senam poucos, e asi ha nas bandas de Malaqua-, e desta
pifuenta branca põem nas mesas dos senhores, como nós po-
mos nas nossas sal; e asi se faz no Malavar e em ambos
cabos a tem por boa, pêra a peçonha e pêra os olhos; e prou-
vera a Deus que em tudo dixera Dioscorides tanta verdade,
como em dizer que aproveitava pêra a peçonha. E por aqui
vereis como sam defrentes estes três arvores, scilicet,jE?/mew/a
longa, e preta, e branca; a qual pimenta longa se chama
em Bengala, pimpilim, e o arvore d'ella nam tem mais se-
melhança com o da preta, do que tem as favas com os
ovos: as outras duas arvores da branca e da preta sam
muyto semelhantes uma com outra, e nam se conhece, se-
nam da gente da terra, asi como nós nam conhecemos as
videiras pretas das brancas, senam quando tem uvas. E se
me não quereis crer, crede a estas três sementes, que ahi
vam, huma he da piynenta longa e outra branca e outra
preta; e quanto he chamarse á pimenta barcamansi, nunqua
tal nome eu ouvi em parte alguma destas terras, nem nome
que se lhe parecese em alguma cousa.
RUANO
Verdadeiramente que eu me acho corrido, como eu não
via e os outros isto, que está tam craro.
ORTA
Pois vedes aqui ha mais pimenta verde em cachos nacida,
neste páo do arvore, e vedes aqui estoutra, que está feita
em achar, de vinagre e sal, que não he defrente de todas,
se a provardes.
RUANO
Bem vejo tudo, e ja que estou corrido de ver que nunqua
isto especularam bem os escritores novos, não me corraes
248 Colóquio quadragésimo sexto
mais; porque Laguna se queixa dos Portuguezes, porque
lhe nam dizem estas cousas, e diz que não tem mais cui-
dado que de robar e esfolar os índios.
ORTA
Verdade he que os Portuguezes não sam muyto curiosos,
nem bons escritores: sam mais amiguos de fazer, que de
dizer. Trabalham de aquirir per suas licitas mercadorias*,
porém nam tratam mal os Índios, porque os índios da paz
sam mu3^to favorecidos dos guovernadores. E a raiz ádi pi-
menta nam he semelhante á do casto, nem o costo he raiz,
senão páo, como já vos dixe*, e, porque vos nam maravi-
lheis da gente vulgar não saber bem estas cousas, vos con-
tarei o que pasei com hum boticairo no tempo de hum guo-
vernador, que era muito curioso de saber das mesinhas,
ao qual eu falei nas três especias da pimenta ditas, e lhe
dixe os nomes delias. E quanto he hl pimenta longa ser outra
arvore, confessou ser verdade; e quando lhe dixe que a
branca e preta eram arvores distintos, rindose de mim me
dixe, como estava enganado; e pêra isto contou ao guover-
nador diante de mim, como estando elle invernando em Mo-
çambique, se achou a sua náo fazer muyta agoa, e nam estar
pêra navegar, e que por isso se descaregou a náo, e que
elle por seu passatempo oulhava a pimenta, e que nella es-
colhera alguma branca, por ser esfolada da casca, e que isto
acontecia muytas vezes na pimenta velha e muyto bulida.
E eu lhe dixe que podia ser ter a muyta cantidade át pimenta
dX^xxmdi pimenta branca; e mais que pudia ser, pois se achava
esta pimenta em Moçambique, muyto milhor se acharia em
Portugal na casa da índia, onde a pimenta he mais velha,
e mais bulida e baldeada; e porque o guovernador vio que
o buticairo me não queria crer, escreveo a elrey de Cochim,
que lhe mandasse dizer a verdade daquilo, o qual lhe mandou
um saquo áç. pimenta branca; e lhe escreveo que avia muytos
arvores em sua terra da branca; entonçes desestio o buticairo
da sua porfia, por nam ir contra um guovernador. E com
isto faço fim aos ditos àsi pimenta; porque pêra dizer o pêra
Da pimenta 249
que aproveita he pratica muyto usada, e nam ha cousa nova
acerqua dos índios delia, que nós não usemos. E dizerem
os índios que he fria a pimenta^ he cousa mais pêra rir que
pêra praticar; aos quaes eu digo muytas vezes que não lhe
saberei provar ser o foguo quente, porque a via, por onde
se avia de provar, era porque queimava.
RUANO
E os físicos desse rey vosso amiguo, que dizem, pois di-
zeis que sam letrados?
ORTA
Dizem que he quente no terceiro gráo, como os Portu-
guezes. E pois que Já sabeis que sam arvores diversos, nam
he neseçario que em logar áSi pimenta branca ponham /rc/a,*
porque isto não soube Galeno nem Avicena, nem queraes
mais saber, que a pimenta branca queima mais, e he mais
aromática; e quando se achar, que a ponhaes sempre, e
quando nam, fazer que deitem a preta antes que a longa,
porque he diversa planta ; e nàm ponham em lugar da longa
alguma delias, porque mais convém, entre si, a branca e a
preta, que com a longa. E porque vos não fique alguma
pimenta por saber, vedes aqui estas sementes vans, a que
nesta terra chamam pimenta canarim, e usam delia pêra
desfreimar, e pêra os dentes, quando doem; he muito boa
mezinha, e asi a dam aos que tem mordexi; e não vos diguo
a feiçam do arvore, porque vos nam he necesario, nem vai a
Portugal (i). E bebamos sobre alguma conserva, pois não
vos falecerá, pois que falastes muyto; e será sobre conserva
de pexeguos, que vem aqui muyto bons de Ormuz.
RUANO
Bons estam e frescos, e nam he de maravilhar; pois a
somana pasada volos deram, de maneira que devem ser
deste anno. Dizeime se dizem cá que eram venenosos na
Pérsia, e que trcsplantados em Egito ficaram despojados do
veneno.
25o Colóquio quadragésimo sexto
ORTA
Estes, que comeis, sam da Pérsia; porque delia vem toda
a fruta a Ormuz; e ácerqua delles nunqua ouve tal presun-
çam, nem se acha em memoria de homens serem algum
tempo venenosos. Eu falei com físicos da Pérsia sobre isto,
e lhes dixe que isto se devia entender polia fruta, que chama
Dioscorides jDersca; elles nam me souberam dar rezam dessa
fruta; nem os tem senão por muyto bons, os quaes ha tam-
bém no Balagate, que veo a planta da Pérsia: por isso comei
sem medo (2),
RUANO
Mujto bem me soube a conserva; e porém milhor me
soube o que me dixestes da pimenta, porque, falando com-
vosquo a verdade, já hum autor novo escreve o que dixestes,
que sam três arvores distintos; mas dilo a medo, como pessoa
que lho dixera gente a quem não dava fé inteira.
Nota (i)
É necessário em primeiro logar estabelecer, de que plantas ou dro-
gas distinctas Orta falia sob os nomes de pimenta preta, branca, longa
e canarim; e examinar ao mesmo tempo a sua nomenclatura.
A pimenta preta do commercio, mercearias e pharmacias é o fructo
imperfeitamente maduro do Piper nig-i-iim, Linn., uma trepa-
deira da família das Piperaceíe, espontânea e cultivada nas florestas do
Malabar, cultivada já no tempo de Orta em outras regiões orientaes, e
hoje também em alguns pontos da America intertropical. Todos os seus
nomes, citados nos Colóquios, são conhecidos e de fácil identificação :
— «Meriche» no noroeste da índia, «morois« no Bengala, assim como
meeritch, mirch e outras formas mencionadas em livros modernos, são
simples modificações de um dos nomes sanskriticos da pimenta preta,
H I i "M , maricha (Ainslie, Mat. Ind., i, 802; Dimock, Mat. med., 718).
— «Molanga» no Malabar; prende-se á forma tamil mellaghoo ou mi-
lagu, e outras do sul (Ainslie, 1. c. ; Piddington, Index, 69).
— «Lada» em Malaca, é a palavra malaya lada, que significa ardente
ou pungente, e se applica a todas zs pimentas, distinguindo-as depois,
como nós fazemos, pelos qualificativos preta, longa, etc. (Crawfurd,
Dict., 333).
Da pimenta 25 1
— «Filfil'), ás vezes escripto nas versões laúnas fui fui, falfel, porque
nas translitterações ha muita incerteza pelo que diz sobretudo respeito
ás vogaes, é o conhecido nome arábico Jjili,^^///. Deriva-se depippali,
ou das (órmas pilpil e outras, pela habitual mudança do p em/. Pippali
é um dos nomes sanskriticos da pimenta longa; mas comprehende-se
bem que na boca dos estrangeiros passasse para a pimenta preta^ o
objecto principal do seu commercio. De mais^Jilfil é um nome geral,
ás vezes acompanhado do seu qualificativo, por exemplo, ^j^] J-ili,
filfil asuad, a pimenta preta. De pippali se derivçu também o grego
iT£iT£5i, O laúno piper, e o nome geral áQ pimenta em quasi todas as lin-
guas modernas da Europa. Bluteau procura a mesma origem para a
palavra portugueza pimenta, dizendo vir da indiana pimpilim. E Co-
varrubias deriva pimienta de piper. As palavras portugueza e hespa-
nhola têem, porém, outra origem ; derivam-se de pigmentam, que na
baixa latinidade designou um vinho aromatisado e carregado em côr,
pigmentatum, com diversas especiarias, depois passou a designar as
especiarias, e depois a principal d'ellas (Ainslie, 1. c; Bluteau, Vocab.;
Covarrtibias Thesoro; Ducange, Glossarium s. v.)
Orta enganou-se, julgando a pimenta branca proveniente de uma es-
pécie vegetal particular; é simplesmente o mesmo fructo do Piper ni-
grum, colhido em estado de maturação mais adiantada, e privado da ca-
mada externa do pericarpo pela lavagem e fricções, tornando-se assim
menos ardente. O boticário, que se riu de Orta, e lhe disse ter visto nas
baldeações em Moçambique pimenta branca, que era simplesmente a
pimenta preta «esfolada da casca», esse boticário tinha toda a rasão.
A pimenta longa procede de duas espécies, I*ipex' oABlcina-
i*niix C. DC. (Chavica officinarum, Miquel) um arbusto dioico, espon-
tâneo em parte do archipelago malayo; e Pipei* loiígviiii Linn.
íChavica Roxburghii, Miquel), um arbusto espontâneo na índia, Cey-
lão, e parte também do mesmo archipelago. As duas espécies são si-
milhantes, cultivadas nas mesmas regiões, e comprehende-se bem que
Orta as não distinguisse. Distingue, porém, os arbustos que as produ-
zem da trepadeira que dá a pimenta preta, dizendo com alguma ou bas-
tante exageração, que se parecem tanto, como um ovo com uma fava.
Orta dá alguns nomes vulgares áa pimenta longa:
— «Pepilini», e «pimpilim» no Bengala; nos livros modernos encon-
tramos as formas pipU, pipilie, pipulee. Todas se prendem a um dos
nomes sanskriticos d'esta droga iqoqr^SI, P'PP^lh do qual, como já
observámos, se derivou o da pimenta em um grande numero de linguas
(Ainslie, 1. c; Dymock, 1. c; Amarakocha, 99).
— «Darfulful» entre os árabes; é o conhecido nome JiJi ,1^, dar
filfil (Ainslie, 1. c).
Sob o nome indiano de pokli miri, o dr. Dymock referiu-se moder-
namente á droga chamada por Orta pimenta canarim, confirmando os
252 Colóquio quadragésimo sexto
seus usos na matéria medica dos hindus. Segundo aquelle observador,
esta droga parece consistir nos fructos abortados — «sementes vans»
de Orta — dos pés femininos do Piper trioicum, mencionados e des-
criptos por Roxburgh na Flora Indica (Dymock, 1. c, 721; Roxburgh,
1. c, I, i5i).
Garcia da Orta consome a maior parte do seu Colóquio em discutir
as opiniões de Dioscorides, de Plinio ou de Izidoro de Sevilha, e esta
discussão tem hoje para nós pouco interesse. Comprehende-se bem, no
emtanto, que elle insistisse ainda no seu tempo na refutação de opiniões
erradas, que se conservaram durante muitos séculos extremamente vi-
vazes. Não obstante haverem decorrido sessenta ou setenta annos, em
que os portuguezes frequentaram diariamente o Malabar, passando-lhes
pelas mãos as diversas pimentas, e podendo observar os arbustos ou
plantas de que procediam, os escriptores scientificos continuavam a re-
petir o antigo cliché. Se algum se atrevia a dizer o contrario, dizia-o «a
medo»; e Orta tinha, portanto, a necessidade de rectificar as asserções
de Plinio e de Dioscorides, porque continuavam a ser as do seu tempo,
as de Sepúlveda, de Musa, dos frades e de muitos outros.
Tive um momento a intenção de dar n'esta nota uma breve histo-
ria do commercio da pimenta; mas essa historia, por curta que fosse,
excederia de muito o limite natural d'estas notas. Contar o que foi
o trato da pimenta, seria quasi o mesmo que contar o que foi a admi-
nistração económica e financeira da índia durante séculos, e isto daria
assumpto largo para um livro especial. Devo limitar-me, pois, a recor-
dar alguns factos mais salientes, que, embora conhecidos, o leitor es-
timará encontrar reunidos n'este logar.
A pimenta foi conhecida na Europa desde tempos antigos. Theo-
phrasto menciona mais de uma espécie d'esta droga, o que também faz
Dioscorides séculos depois, affirmando ser uma producção da índia.
Plinio é mais explicito, nomeando os portos indianos de embarque,
como Barace, também citado no Périplo do mar Erythrêo. A pi-
menta vinha de Cottonara a Barace em barcos cavados em um só ma-
deiro Régio aiitem, ex qua piper monoxylis lintribus Baracen con-
vehunt vocatur Cottonara. Qualquer que fosse a posição exacta de Ba-
race e Cottonara, estas localidades estavam evidentemente situadas no
Malabar, e o modo de embarque da mercadoria lembra-nos o que logo
veremos praticado pelos portuguezes. Depois, o Malabar continuou
a ser a terra clássica da pimenta, o belad el-filfil dos navegadores ára-
bes, por intermédio dos quaes a droga vinha á Europa na idade-media.
Os caminhos seguidos eram aquelles de que temos fallado muitas vezes,
o do mar Vermelho e o do golfo Pérsico, minuciosamente descriptos
por João de Barros, por António Galvão, e em parte já pelo auctor
do Roteiro da viagem de Vasco da Gama. Estes caminhos eram demo-
rados, e, alem de numerosas baldeações, as drogas estavam sujeitas
Da pimenta 253
a impostos pesados e repetidos, bem conhecidos já do auctor do Ro-
teiro :
«Da quall (de toda a especearia) se acha que ha o gram soldam de
direito seis centos miil cruzados.»
A pimenta chegava, portanto, á Europa por um preço exorbitante;
em Inglaterra valeu em media, nos annos decorridos do de i263 ao de
i399, I shelling por libra (equivalente a 8 s. de hoje); em França valia
em iSyo o equivalente a 21 francos proximamente, e ainda em 1542 o
equivalente a 11 francos por librai As outras especiarias eram igual-
mente caras; mas aphnenta chamava mais a attenção por ser mais pro-
curada. Apimenta era a especiaria por excellencia, e tanto que os ne-
gociantes de drogas recebiam o nome particular de piperarii, em inglez
pepperers, em francez poivriers.
Todo este commercio estava na mão dos árabes na parte oriental
na mão dos venezianos e genovezes na parte mediterrânica; e os por-
tuguezes tinham um vivo desejo de o chamar para si. Quando no anno
de 14S6 encontraram na costa africana uma pimenta, á qual chamaram
de rabo, porque trazia o pedúnculo pegado ao fructo [Piper Clusii, C.
DG), pensaram logo em a lançar no commercio. Foi mandada a Flan-
dres, onde a acharam muita boa, segundo diz Garcia de Rezende, onde
lhe pozeram alguns defeitos, segundo diz João de Barros. Estas tenta-
tivas, porém, não tiveram seguimento, porque poucos annos depois
Vasco da Gama chegou ao verdadeiro paiz da verdadeira pimenta.
EHectivamente, no anno de 1498, as naus portuguezas mettiam a bordo
em Gahcut os primeiros sacos de pimenta, directamente carregados
na índia em navios europeus. Logo na segunda viagem dos portugue-
zes, Pedral vares Cabral foi carregar a Cochym, «a mór fonte de pi-
menta que ha na India«. E pouco depois, Vasco da Gama, voltando
ali, mandou carregar á costa de Coulão, com os barcos pequenos da
terra atracados ás naus, ficando estas em poucos dias «abarrotadas»
de pimenta a granel. Passam muito poucos annos, e nós vemos D. Fran-
cisco de Almeida dando conta de um commercio já perfeitamente re-
gulado: haviam-se feito «izames e alealdação« dos pesos indianos com
os portuguezes, e reconhecido que o «bar» correspondia a tresquintaes
e tanto do peso velho: calculára-se que o quintal de pimenta saía
a «mil e quinze reis»: andavam paráos grandes no serviço da carga:
estavam montadas duas balanças, dando aviamento a pesarem-se mil
quintaes até horas de «vespora» : emhm todo o cunho de um puro
estabelecimento commercial. Mas já então as operações commerciaes
se apoiavam nas operações militares, e os portuguezes queriam ter
pela /orça o monopólio de todo o commercio dQ pimenta. D. Manuel
' Veja-se a Pharmacographia, e Leber já citado nas notas ao Colóquio do cravo. N'este rá-
pido resumo de factos bem conhecidos, eu supprimo em geral a indicação dos logares citados.
204 Colóquio quadragésimo sexto
queixava-se de ainda ir pimenta á Europa pelo «Levante»; e D. Fran-
cisco de Almeida respondia-lhe : não vae do Malabar, vae de Malaca e
das terras de leste, «bem sey por onde passa», mas ainda lhe não pude
«tolher a passagem». N'este empenho de lhe tolher a passagem, anda-
ram os portuguezes emquanto dominaram na índia, sem nunca o con-
seguirem completamente, pois — como diz Orta — sempre se furtou
«muyta cantidade pêra as partes ocidentaes, por os Mouros da terra».
A maior parte da pimenta embarcada era da preta, e a maior parte
d'esta procedia do Malabar. Começava a enconirar-se a planta que a
produz em Cananor, onde já havia alguma boa, mas «nom he muyta»,
como diz Barbosa; augmentava a sua frequência em Calicut; ainda
mais em Cochym e Coulão; e extendia-se até ao cabo Comorim. Não
se creava, ou pelo menos não abundava, nas terras baixas do littoral,
recortadas em ilhas e penínsulas por numerosos esteiros e braços de
rios; mas pelo contrario nos valles apertados, húmidos e ensombrados,
das vertentes occidentaes da linha de montanhas, que vem correndo pa-
rallela á costa a morrer no cabo Comorim. Os nossos escriptores sa-
biam isto, e chamam ás vezes áquellas montanhas, ou a parte d'ellas,
a Serra da Pimenta. Os reis ou rajás de Cochym, de Calicut e outros
da costa, obrigados pelo interesse e ás vezes pelos tratados e pelas ar-
mas, a fornecerem pimenta aos portuguezes, estavam dependentes dos
chefes da Serra — chamados também reis — para a obterem. Um d'estes
estados da Serra, situado ao que parece nos confins e a leste das terras
de Cochym, foi sempre chamado pelos nossos escriptores o Reino
da Pimenta. Os portuguezes estiveram umas vezes mal e outras bem
cora o rei da Pimenta, e pagaram-lhe mesmo durante algum tempo uma
tença de 72:000 reaes, mencionada por Simão Botelho. Uma das pri-
meiras expedições militares de Luiz de Camões nos mares das índias,
foi contra este rei, e em favor do rei de Porca, um chefe de piratas
do littoral :
Huma Ilha que o Rei de Porca tem,
E que o Rei da Pimenta lhe tomara.
Fomos tomar-lh'a, e succedeu-nos bem.
Os habitantes da Serra, brahmanes alguns, christáos nestorianos
outros, occupavam-se na cultura das plantas da Pimenta, multiplican-
do-as de estaca, aproveitando as que se desenvolviam espontanea-
mente, ligando-as aos troncos das arequeiras e outras arvores, e co-
lhendo os cachos, quando os fructos da base começavam a avermelhar.
Gaspar Corrêa falia explicitamente das culturas de pimenta da Serra :
« estes bramenes que tem as hortas da pimenta». E refe-
re-se também aos depósitos d'aquella mercadoria ali estabelecidos:
« com que fazyão muyto proveito os bramenes da Serra, que ti-
nhão os celleiros de pimenta».
Da pimenta 255
Da Serra saía, pois, quasi toda a pimenta e em enormes quantidades.
Em primeiro logar toda a que se consumia no próprio Malabar e
nas villas do littoral, e que era muita, segundo nos diz Orta. Depois,
a que se levava para o interior «caregada em bois», tanto para o Bala-
ghate, como para a costa de Coromandel. Gaspar Corrêa também nos
falia d'estas «cáfilas de bois de carga«, que faziam caminho pela Serra,
e eram tantas «que esgotavão toda a pimenta». Este desvio da mer-
cadoria chegou a dar cuidado aos portuguezes, e Diogo Lopes de Se-
queira, de accordo com a rainha de Coulão, mandou assaltar as cáfilas
que passavam pela serra do «Rei grande» de Travancore. Roubadas
as cáfilas, e mortos os recoveiros, cessou momentaneamente aquelle
transito, o que —diz Gaspar Corrêa— foi «muy grande bem para o
. proveito da pimenta que se por ally vazava». Saía por ultimo da Serra
toda a pimenta carregada nas naus portuguezas em Calicut, Cochym,
Coulão e outros portos. Descia pelos rios e esteiros em barcos da terra,
em tones e manchuas, pouco mais perfeitos que os monoxylis lintribus
do tempo de Plínio ^
^ Fora do Malabar, colhia-se pimenta em todas as localidades men-
cionadas por Orta, e em varias outras. Colhia-se em abundância nas
terras de Queda na costa occidental da península de Malaca, como diz
Barros, como diz Barbosa «muyta e fermosa pimenta», como diz tam-
bém Camões:
Tenassarí, Queda, que é só cabeça,
Das que pimenta alli'tem produzido 2.
Colhia-se, como dizem igualmente Barros e Barbosa, na ilha de
Java, e na «Çunda» ou Sunda, então geralmente considerada uma ilha
distincta de Java. É impossível estabelecer em que proporção esta pi-
menta de leste entrava nas remessas para a Europa, durante o domínio
portuguez; mas tudo nos leva a crer, que viria em pequena quantidade,
comparada com a que saía do Malabar. Deve ser exacto o que nos diz
Orta, isto é, que seguia em geral o caminho de leste, indo para a Chma
e outras partes do extremo Oriente.
Acerca da pimenta longa pouco ha a notar. Orta e Barbosa indicam
a sua cultura em terras de Bengala, e Orta acrescenta Java, onde
efíectivamente a planta se encontrava, tanto cultivada como espontâ-
nea. A pimetita longa valia mais que a preta nos mercados do Occi-
dente, porque era mais rara e vinha de mais longe. Já em plena idade
' De feito, Rhede no Hortus malabaricos dá o nome de manchuas (mansjoas) a barcos
formados de um só tronco escavado.
' Na Flora dos Lusíadas admitti que esta pimenta de Queda, e em geral de leste, fosse
apimenta longa; mas evidentemente devia ser a usual.
256 Colóquio quadragésimo sexto
média, Pegolotti nos diz (i34o), que em Gonstantinopola apimenta re-
donda se vendia por pesos de loo libras, e a pimenta longa por peso
de I libra, como outras substancias e mercadorias das mais preciosas.
E dous séculos depois, as duas pimentas pesavam-se em Hormuz tam-
bém por modos diversos, vindo a pimenta ordinária as mais das vezes
em alcofas, e entrando a tara no peso, o que não succedia com a pi-
menta longa, pesada como o benjoin. Em todo o caso, o que importa
notar, é que z pimenta longa — como também a branca — figurava por
uma parte relativamente insignificante no grande commercio portu-
guez, que teve principalmente por hase a pimenta preta usual, e d'esta,
principalmente a do Malabar.
A partir logo dos primeiros annos, que se seguiram ao descobri-
mento do novo caminho para a índia, o commercio das especiarias, e
muito especialmente o da mais importante de todas, a pimenta, foi
vedado aos particulares, ou foi-lhes consentido apenas sob certas con-
dições e apertadas restricçóes. Já em um longo, minucioso e interes-
santíssimo regimento, dado a Fernão Soares, no anno de i5o7', se es-
tabelece: « que toda a especiaria, que se ouver de comprar na
Jmdia, se compre por nossos ffeitores, e oficiaes, que la estam, e nam
por outra maneira; e pêra asy o fazerem, lhe á de ser entregue nosso
dinheiro e asy o das ditas partes, pêra a pimenta, que ham d aver».
As partes, isto é, os capitães e gente das guarnições dos navios, com
outras pessoas que obtinham esta mercê especial, não podiam, pois,
comprar livre e directamente a pimenta, mas entravam n'uma espécie
de parceria com o rei, partilhando com elle os ganhos, assim como as
perdas e quebras do negocio. Mais tarde as restricçóes tornaram-se
ainda mais severas, e no anno de i5i8, D. Manuel, dirigindo-se a Fer-
não d'Alcaçova, veador da fazenda na índia, prohibiu toda a trans-
acção em pimenta: « defendemos e mandamos por este pre-
sente que nhú christão Português não compre por modo algum nhua
pimenta», sob pena de perder toda a sua fazenda. Isto não foi bastante,
e algumas pessoas, levadas pelo interesse, continuavam a comprar, tor-
nando assim a mercadoria mais cara e mais escassa, de modo que os
feitores d'elrei se viam obrigados a tomar pimenta «verde, e suja, e
mascavada». Então D. Manuel, em um alvará escripto em Évora a 7 de
Fevereiro de i520, confirmou todas as prohibições: « nhuas pes-
soas, asi christãos como mouros, gentios, judeos, e quoaesquer outros
de qualquer condição que sejão, nom tratem com a dita pimenta »
A penalidade imposta era severa; perder toda a sua fazenda, e ficar
alem d'isso sujeito á «pena crime que vos bem parecer» — isto é, en-
' Ultimamente publicado em Alguns doe. do Arch. 7iac. da Totre do Tombo, etc. Lis-
boa, 1892.
Da pimenta 257
tregue ao pleno arbítrio do governador. A pimenta ficou assim sendo,
o que na índia chamavam uma droga defeca; e todo o seu commer-
cio se concentrou nas mãos de el-rei ou do estado. Exceptuavam-se
apenas certas porções de pimenta, dadas na índia em pagamento de
soldos, ou concedidas aos capitães e guarnições das naus por um sys-
tema complicado, datando logo da viagem de Cabral, conhecido depois
pelos nomes de qiiintaladas e partidos do meio, e que seria impossível
explicar nos estreitos limites d'esta nota.
Igualmente nos é impossível discutir aqui os preços ádi pimenta e as
suas variações, tanto na índia como em Portugal; e só darei a tal
respeito indicações muito rápidas. Segundo o nosso Orta, o quintal
de pimenta preta usual valia em Cochym dous cruzados e meio. Isto
é muito proximamente confirmado por António Nunes, o qual dá
o quintal como valendo líJbioo, e uma fracção de real, setido com-
putado o cruzado de oiro em 426 réis^. Não conheço os preços de
Lisboa nos meados do século, mas nos últimos annos, a partir do de
1587, oscillavam de 26 cruzados, preço minimo, a mais de 5o, podendo
talvez tomar-se uma media de 3o a 40 cruzados por quintal. Segura-
mente, de 2^ a 40 cruzados ia uma larga margem de lucros; mas a
despeza de viagem era grande, excedendo 12 cruzados por quintal, e ha-
via quebras e outras perdas. Bastava um sinistro para annullar os ga-
nhos. No anno de 1594, em que ardeu a nau Chagas, o negocio áz. pi-
menta deu perda, não obstante vender-se a das naus que chegaram
a salvamento pelos preços altos de 45 e*52 cruzados o quintal. Em ou-
tros annos, porém, os ganhos eram avultados; e o trato áa pimenta con-
stituiu um dos grandes rendimentos do estado. Em um orçamento, feito
por Figueiredo Falcão, para um dos annos do principio do xvi século,
calculando-se os rendimentos geraes de Portugal em 1:672 contos
de réis proximamente 2, computava-se o producto de 20:000 quintaes
de pimenta em 240 contos, o dos direitos de cinco naus em i5o contos,
e os rendimento próprios da índia em 355 contos proximamente, ou
sejam 745 contos, quasi metade do rendimento geral, derivados directa
ou indirectamente da índia. Mas se examinássemos parallelamente os
orçamentos de despeza, e tomássemos em consideração os enormes
gastos de administração na índia, de construcçóes navaes e outros,
nós chegaríamos de certo á conclusão do sr. Oliveira Martins em um
' Estes i3»ioo réis, ou antes reaes, tinham um valor intrínseco superior a 5íh5oo réis,
e equivaliam talvez a 22^000 réis de hoje; mas sobre estas equivalências tenho graves
duvidas, quando se trata da índia e mesmo de Portugal ; vejam-se as notas ao Colóquio
do Cravo.
' Dou os próprios numeres de Falcão, que têem naturalmente de soífrer as correcções
á conhecidas.
17
258 Colóquio quadragésimo sexto da piínenta
dos seus estudos, isto é «que di pimenta foi um mau negocio para
o thesouro de S. A.»
A pimenta, com outras drogas e mercadorias, vinha para a Casa da
índia, e d'ali saía para o consumo do paiz, e principalmente para o
consumo geral da Europa, ou por vendas feitas em Lisboa, ou pelas
remessas directas. Diz-se, que no dia 21 de janeiro do anno de i522
um navio portuguez levou pela primeira vez directamente a pijjtetrta e
especiarias da índia á cidade de Antuérpia. Parece-me esta data um
pouco tardia, posto que não tenha noticia de remessa anterior. Mais
tarde, estabeleceu-se a Feitoria de Flandres, pela qual corriam as ven-
das. Esta Feitoria serviu principalmente para base de operações finan-
ceiras desastrosas; faziam-se vendas antecipadas; sacava-se a desco-
berto sobre apimenta futura; e no anno de 1544 deviam-se ali e em
Castella, proximamente 4:000 contos de réis, somma enorme para o
tempo; e isto a juros tão altos, que «se dobra o dinheiro em quatro
annos». Como dizia o Conde da Castanheyra em um interessante do-
cumento, que hoje chamaríamos um relatório sobre o estado da fa-
zenda publica: o grande mal «foy começar-se a tomar dinheyro a
cambio. E des que se começou a tomar ategora nunca se outra cousa
fez: e quasi se não sostem dal as despezas de Vossa Alteza». Triste-
mente actual toda esta phase.
Ficaremos por aqui, notando unicamente, que a historia, sobrema-
neira interessante, da Casa da índia e da Feitoria de Flandres, não está
feita, e não seria possível fazel-a pelos documentos até hoje publicados.
Não obstante as notas curiosas, dispersas por todos os nossos chro-
nistas, o valiosíssimo auxilio dos Subsidias, publicados por Felner, o
livro capital de Figueiredo Falcão, alguns documentos importantes,
reunidos por fr. Luiz de Sousa para os seus Atinaes de D. João III, e
publicados por Herculano, os do Archivo Portugue^oriental de Rivara
e vários outros, não obstante o que de tudo isto se pôde deduzir, ainda
restam muitas lacunas e muitos pontos obscuros, que só uma revisão
minuciosa e intelligente dos nossos archivos poderia preencher e es-
clarecer.
Nota (2)
Os pecegos, como muitos outros fructos das regiões temperadas, iam
da Pérsia para a índia por Hormuz, e eram muito apreciados dos por-
tuguezes, que tinham algumas saudades da fructa da sua terra. A idéa
de que primitivamente foram venenosos era uma velha lenda clássica,
contada já por Columella, e á qual allude também Camões :
O pomo que da pátria Pérsia veio,
Melhor tornado no terreno alheio.
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO SÉTIMO
DA RAIZ DA CHINA
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Queria levar a Portugal alguma rjz^ ou páo da China,
pois nam he droga defesa; e pêra isto queria que me dixeseis
a feiçam delia, e vosso parecer, e pêra que enfermidades
aproveita; e me diguaes todos seus sinaes, e a maneira da
administraçam nas enfermidades* que se dá; e se usaram
em Portugal desta raiz, por ser a terra mais fria e a mezinha
ir de qua mais fraca; e como se conservará milhor esta raiz,
pêra ir mais fresca; e qual he milhor, se esta, se o giiaiacam
das nossas chamadas índias; e nam vos cegue** afeiçam
porque esta mezinha está mais perto, e será de vos mais
usada.
ORTA
Este páo ou raii nace na China, terra muito grande, e
que se presume confinar com Moscovia, e se Laguna lhe
chama índias mais orientaes, não acerta nisso mu3'to, senão
se escusa com dizer que todas as terras não sabidas se cha-
mavam índias; e nam vos direi aqui as rezÕes, por onde
se presume confinar com Moscovia, por ser cousa de pouquo
proveito, e nam conforme á vossa entençam***. E porque
nestas terras todas, e na China e em Japam, ha este morbo
napolitano, quiz o misericordioso Deos darlhes por remédio
esta raiz, da qual sabem lá bem curar os bons fisicos; por-
que os máos em todo cabo erram. E como elles curam lá
* Parece faltar a palavra «emn.
** Deve também faltar aqui o artigo «a»,
*•* Veja-se a nota, vol. i, pagina 271.
26o Colóquio quadragésimo sétimo
com esta mezinha, acertaram acaso de trazer delia esta raiz
os Chins pêra se curar cá no anno de i535.
RUANO
E como soubestes o uso deste páo, pois as náos da China
não vinham mais que até Malaqua, e os Portuguezes que
iam á China nam conversavam em terra com os Chins?
ORTA
Eu vim de Portugal hum anno antes, e trouxe pouca fa-
zenda (como se acontece a muytos), entre a qual trouxe
cinquo quintaes do páo chamado guaiacam, o qual ao tempo
de agasalhar, não foy bem alojado, e tomaramme delle o que
quiseram as pessoas que o queriam tomar; e, chegando a
esta terra, achei que pereciam muytas pessoas de talpat^ias,
e de outras chaguas de saivia castelhana, e a muytas delias
não aproveitava o remédio das unturas. E chegando a esta
terra, eu fuy mui festejado por trazer este pao, porque já
cá se aviam curado com elle algumas pessoas, ás quaes
avia socedido bem, e asi esperavam por elle de Portugal,
e eu vendi o que trouxe por mil crusados; e quiz Deos isto,
porque trazia pouqua mercadoria, e afora isto dei algum
de graça, e, como dixe, muyto me furtaram ao embarcar
e desembarcar, e quiz Deos, que a todos que o tomaram
sucedesse muito bem. E como loguo se acabou o vnQupáo,
compravam o páo, já cozido, a cinquo crusados o arrátel *,
e, porque custava tanto, queria Deos que aproveitasse. E
nesse tempo vivia a gente esperando as náos, que aviam
de vir do reino, pêra ver se traziam pão, e veo muito pouco
ou nenhum. E neste tempo foy curado hum homem muyto
honrado e riquo, o qual, estando em Dio, contou a meu amo
Martin Afonso de Sousa, que lá estava tomando posse da
fortaleza que lhe ahi deu o soldam Bhadur, rei de Cambaia*,
como avia sido curado com o páo da China, com que se
» Pôde ver-se Garcia da Orta e o seu tempo, pagina gS e seguintes.
Da rai:{ da China 261
achara muyto bem, e tivera inteira saúde, e que não requeria
dieta alguma, somente lhe vedavam que nam comesse carne
de vaca, nem de porquo, nem peixe, nem frutas verdes; e
ainda na China lhe concedem o peixe; porque sam os Chins
muito comedores. E, como isto foy bem divulgado, desejava
a gente em grande maneira aver este páo; porque todos os
homens sam inclinados a comer e beber, e muyto mais os
desta terra por sua ociosidade, e mais porque entonces to-
mavam o giiaiacam com muyta dieta; porque também asi
se tomava em Espanha. Asi que vindo as náos de Malaqua,
■ valeo algum pouquo desta raiz, que nellas veo, a dez cru-
sados a ganta (que he peso de vinte quatro onças)*, e de-
pois os outros annos valeo tam barato, que vai ás vezes a
trinta reis a ganta. Desse tempo pêra cá, foy degradado o
pdo das índias de Castella, como castelhano que vinha a ma-
tar de fome a gente que cá abita; em tanta maneira que as
náos que corresponderam ás em que eu vim, troxeram grande
soma àQpáo de Portugal, com a fama que levaram da minha
boa venda, e não foy dado por dinheiro algum, e pouquo a
pouco se guastou nesta terra, queimandose. Ora olhai senhor,
se tenho eu rezam de estar milhor com este giiaiacam, que
com o páo da China, e certo que destoutro, dandose pella
maneira que se dá, scilicet, dado, considerando primeiro a
calidade e compreisam do enfermo e a natura da enfermi-
dade, e o tempo e regiam, se he fria, se quente, e o sexo,
e a idade de quem o toma**. E não vos maravilheis louvalo
eu tanto, pois que ninguém ouve que o louvase; escrevendo
tantos escritores cada dia louvando o giiaiacam; porque en-
* No Livro dos pesos, «gamta» é uma medida de capacidade, equi-
valente a 5 quartilhos; e no mesmo sentido é tomada no Tombo, onde,
nas despezas da igreja de Malaca se descrevem :
"E OYto guantas d'azeite de coquo cada mês pêra as alampadas.»
Yule e Burnell, no Glossary, dizem, porém, que ganton, segundo al-
guns viajantes antigos, era uma medida ou peso, usado no Archipelago
Malayo.
* * Orta esqueceu-se evidentemente de terminar a sua phrase.
202 Colóquio quadragésimo sétimo
tre elles hum fidalgo alemam escreve hum livro de seus lou-
vores, em muyto copioso estilo e mui puro latim, e pudera
ser escrito em huma folha de papel (i); e destoutra i^ai^ da
China dizem Vesalio e Laguna muytos males, dizendo que
hé podre, e sem vertude esta rai:^ da China, e que custa
muito dinheiro, e eu nam tenho que ver com que custe
muyto, nem pouco, nem que seja cara, nem barata, antes
me parece bem o que diz Mateolo Senense, que abasta pêra
esta raiz ser boa mezinha tomala o emperador Carlos quinto,
e aproveitarlhe. E certo que dado com as condições acima
ditas, muyto aproveita a todos.
RU AN o
Quanta cantidade deste pão ou rai^ cozem pêra huma
pessoa?
ORTA
Se O mal,he muyto grande, cozem huma onça desta rai^
em quatro canadas de agoa, e gasta a metade da agua; e
a outra guardamna em vidro ou barro vidrado-, e tiramlhe
a escuma ao cozer, porque he boa pêra deitar em algumas
chaguas-, e ás vezes a deitamos sobre as chaguas ou incha-
ços, e o baífo, quando está cozendo, he muyto bom pêra
a dor-, e outras vezes fazemos fomentaçam com esta agoa
quente nos inchaços: e outras vezes pomos panos molhados
em chagas, e he muyto bom mondificativo. Os Chins cus-
tumam dar mais cantidade de páo, em suas terras; e al-
gumas pessoas desta terra quiseram imitar os Chins, co-
zendo duas onças de pdo ou onça e mea, e acharamse mal
com isto, porque os esquentou muito; e eu mesmo tomei
este pdo com suadoiros pêra huma ciática que tinha, sem
suspeita de morbo galico; e porque tomei suadoiros, e be-
bia aguoa quente, como se custumava em principio, quando
este páo veo, encheoseme o corpo de eresipula e leicenços,
poUo grande esquentamento que me fez no fígado; e foime
necesario sangrarme, e beber aguoa de cevada, e açucare
rosado, e pôrme ao vento, e asi fui restituído á saúde. E de
mim tomaram exemplo muytas pessoas depois, e não qui-
Da rai^ da China 263
seram tomar mais aguoo quente, nem deitar tanta cantidade
de páo, como deitam na China; porque a terra he lá fria
em estremo, e esta muyto quente. Somente a tomam cá,
quando ha a neseçidade dos suadoiros, pella manhan quente
pêra suar, e quando ha nccesidade dos suadoiros e as en-
fermidades sam maiores, tomam suadoiro polia manhan e
á noite; e também nos tempos muyto quentes, não damos
o páo a ninguém, quanto mais suadoiros. Esta he a maior
cantidade, que custumamos a dar cá, scilicet, huma onça
cozida em quatro canadas de aguoa, e coza até que gaste
a metade; e a outros dam mais pequena cantidade áq páo,
ou que tenha menos cozimento.
RUANO
E não a retificaes com algumas mezinhas?
ORTA
Senhor, si; porque a mandam retificar, e quando o mal
he mais pequeno, ou a compreisam mais quente, damos hu-
ma onça de pão cozido em quatro canadas de aguoa, e que
fique em duas e mea, e ás vezes ém três; e daqui passamos
poucas vezes; e também trabalhamos que o páo seja bom
e pesado, e que não tenha caruncho; e se, com estas con-
dições, fôr branco he melhor que o vermelho. E quanto he
á retificaçam, custumam os Chins deitar raiz de aipo no
cozimento; e dali, e mais da rezam em que se fundavam os
Chins, acustumei eu nam ád^v páo sem retificaçam: scilicet,
quando padece mais a cabeça ou os nervos, deito rosmani-
nho, ou rosas, ou aipo se o fígado está opilado, ou raizes
de endivia se está quente, com alguma opilaçam; outras
vezes o dou pêra ulceras dos rins e bixigua, e lhe deito alca-
çuz; e aqui ouve hum tisico*, aquém o eu dei, mesturado
com outro tanto de cevada como era o páo, e com pouquo
cozimento, e oje em dia está sam.
* Na edição de Goa «fisico« ; mas da errata, apezar de errada, e
do sentido, julgo deduzir que deve ser tisico.
264 Colóquio quadragésimo sétimo
RUANO
Que vos moveo a dar o pão, em enfermidade tam quente
em membros esperituaes?
ORTA
Moveome ver o paciente cheo de inchaços na cabeça, e
em outros cabos, e escarrar matéria, e não lhe aproveitarem
os outros remédios, e irse consumindo, e como quer que
foy, socedeo mu3'to bem, e o homem ficou sam; e depois
o fizeram outros mu37tos, e acharamse bem com isto. E já
aguora ninguém toma o pdo, que o não tome retificado com
alguma mezinha; porém eu me quero gabar que fui o pri-
meiro que isto usei, e por meu exemplo o fizeram os outros.
RUANO
Dizeime, se he bem purgar primeiro ao enfermo que tome
este pdo, e se tem alguns acidentes nelle os que o tomam,
porque he bem sabelos, pêra o remediar quando vierem;
e quando aproveita mais este pdo, se no principio das en-
fermidades ou no estado delias; e se aproveita mais nas
enfermidades grandes, ou nas pequenas.
ORTA
Regra geral he xaroparemse e purgaremse os homens
antes que o tomem; e se o mal he muyto grande, fazemos
os xaropes solutivos. E porque polia maior parte he este
negocio freima, acrecentamoslhe turbit ou agarico; e mando
agoar os xaropes ás vezes com aguoa do páo; e depois de
purgado, com boa regra, lhe começamos a dar o pdo, e aos
quinze dias, se he necesario, lhe damos hum minorativo,
e ás vezes outro, ao cabo dos trinta dias; e se neste tempo
não faz camará, cada dia o cristelizamos com a aguoa do
pdo e mel rosado, e olio violado, e canafistola, e isto se-
gundo o que a nesecidade requer; e estes minorativos, que
lhe damos ás vezes, não sam de mais que de manná e ca-
nafistola, e ruibarbo desatado em aguoa do pdo ou de en-
divia, ou de cozimento de ameixas ou de alcaçuz, ou aguoa
de cevada: e se o enfermo se esquenta muyto, damoslhe a
Da rat:{ da China 265
aguoa do páo em menos cozedura, ou mesturamoslhe aguoa
de envidia ou de fumus terrse, se a ha, ou de linguoa de
vaca, se se acha; e se muyto se esquenta o paciente, leixa
o páo, e toma outra vez mais oportuna e conveniente pêra
isso. Algumas vezes aproveita este páo aos 20 dias, e ás
vezes mais tarde, e ás vezes mais cedo: mas o que comu-
mente he crecerem as dores até os i5 dias, e dahi por di-
ante vam em declinaçam. E porém eu vi hum mancebo,
que lhe creceram as dores em grande maneira 25 dias, e
aos 3o dias estava sam de todo ponto : por onde diguo que
nam desespere ninguém. Outros vi que o tomaram muytas
vezes, e a derradeira lhe aproveitou, e as outras nam: pa-
rece ser que eram os humores mais frios. E de meu conselho
avia vossa mercê de dar lá em Portugal o páo da China,
levandovos Deos lá a salvamento, acresentando a cantidade
que cá damos, porque a terra he mais fria; e fazer como
cá fazemos, quando a nesecidade he muyta comer galinha
cozida com a agoa do páo, e ás vezes pam amasado com
a mesma agoa, segundo que ^a nesecidade ouver.
RUANO
Bebemno quente ou frio, e comemno temperado com sal
ou não?
ORTA
Poucas vezes o mando dar quente, como se dava no prin-
cipio, senão nos suadoiros. Polia manhan doulhes a comer
galinhas, frangãos, e carneiro temperado com sal e açafram
e coentro seco, e ás vezes lho dou asado, segundo o que a
enfermidade requer;. sempre lhe tolho o vinho, senam quando
dou o páo pêra fraquezas do estomaguo de muytas freimas,
e de nam degerir; porque pêra isto aproveita muito o páo
com vinho, comvem a saber, aguado com agua do páo, por-
que tira o fastio, e procura boa digestam.
RUANO
Pêra o guaiacam de todo ponto lhe tolhemos o sal, por-
que he imigo dos humores adustos e das freimas salgadas;
266 Colóquio quadragésimo sétimo
e muitos homens, que de cá foram, me dixeram, que nesta
terra também o tiravam: pêra este páo não sei como vós
quereis usar do sal.
ORTA
Uso do sal temperadamente, porque nam he neseçario
ser muito escrupuloso na física, senam deixar tudo ao bom
juizo do físico : e por isto me parece que o comer temperado
com pouco sal não pode fazer mal nem a humor adusto,
nem ás freimas salgadas, e eu com isto me achei bem sem-
pre, e espero em Deos de me achar sempre bem. E também
os Chins usam nesta cura de comer pam com mel.
RUANO
Vistes alguma pessoa que o tomase muytas vezes, ou em
muyta cantidade?
ORTA
Conheci hum meu amiguo, que tomou unturas e fumos,
e o páo guaiacam, e esta raiz também, e cada vez se achava
pior. E foy a Malaqua, e achouse muyto enfermo lá, e cu-
rouo hum Chin, e davalhe a comer esta rai^ da China na
galinha cozida, e fícou este homem muyto sam, e nunqua
mais adoeceo, porque este páo he milhor pêra as doenças
velhas, que pêra as novas, e pêra onde ha inchaços grandes,
e chagas muyto roins. E por tanto nam vos maravilheis, se
aproveitou mais ao cabo, porque pêra as ultimas enfermi-
dades as ultimas curas sam poderosas*; e ainda que este
aforismo se emtenda na dieta, também se pode aleguar na
cura, e comtudo olhe bem quem o dá o que faz, porque
já ouve muytos que pereceram, e se consumiram de muyta
quentura.
RUANO
Está isso bem dito; e porém queria saber se ha outra
maneira de tomar este páo ou raii.
* Anph. I, anphorismo 6 (nota do auctor) ; um dos mais conhecidos
aphorismos de Hippocrates.
Da raii da China 267
ORTA
Algumas pessoas vi no Balagate, que tomavam opáo como
acima dixe, e mais mesturavam na aguoa quente, que polia
manhan e á noite tomavam, cada vez, huma dracma e mea
de páo mx)ido; e com isto diziam que se achavam bem, e
dizem que o faziam por conselho de bons físicos; e outros
tomam polia manhan huma boa talhada de conserva, feita
do pó do páo em mel (ou açucare se a quentura for muyta)
e sobre ella bebem aguoa do páo, e esta conserva leva o pó
do páo, segundo o arbitro do bom físico: e esta conserva
também pode ser retificada, segundo a nesecidade do paci-
ente, o qual fareis milhor que eu, como vos nisso exercitar-
des. E loguo se pode ver quanto páo he neseçario nesta
conserva, pois que commumente se guasta em huma cura,
pêra aguoa dos trinta dias, trinta onças: eu curei com isto
a duas pessoas que tinham os companhões* muyto inchados
de muito tempo, e hum sarou totalmente, e o outro lhe fícou
muyto pouco pêra se resolver; e ficou pêra sarar com os
remédios locaes somente. E por tanto vos aconselho que
varieis os remédios, e mais vos diria, se vos não enfadáse.
RUANO
Daqui a mil annos folgarei de vos ouvir, portanto dizei.
ORTA
Na China comem este páo cozido com a carne, como nós
os nabos; porque elle he muyto tenro, quando he novo, e
a mim me parece que seria muito boa cousa tomar aguoa
estilada deste páo; e nam sei se mo quereram lá estilar, e
trazermo; porque aguora a eide mandar trazer, e pêra isso
mando lá alanbique.
RUANO
Fundado em rezam está, que será muyto boa mezinha
esta aguoa estilada: e porém dizei pêra que enfermidades
o acharei proveitoso?
* Os testículos; o hespanhol compaíion.
268 Colóquio quadragésimo sétimo
ORTA
Pêra qualquer enfermidade onde ha morho napolitano, e
pêra humor enfecionado delle, e por a parte lesa ser já to-
cada delle, e ainda que não seja tocada desta enfermidade,
he bom pêra paralíticos, e que tem tremor (do qual eu curei
ao Nizamoxa em pouquo tempo) pêra artetica, ciragra, po-
dagra, ciática, alporcas, e pêra inchaços reduzidos a melan-
colia ou freima como geso*, pêra indigistÕes do estômago,
pêra xaqueca velha, pêra pedra e ulceras da bexiga ás ve-
zes, porque com este páo deitam a pedra, que antes não
pudiam deitar. E, pêra que mais vos maravilheis, sabei que
hum físico bom letrado, e pratico asaz experto pêra curar
os outros, adoeceo 6o legoas desta cidade, onde elle rese-
dia, e curava hum honrado esprital em huma cidade de el-
rey nosso senhor. Enfermou elle de huma latica, da qual
foy doente quatro mezes; e elle, porque vio que se não ti-
rava a febre, e por ser mais amiguo seu que de outrem,
tirouselhe o bom conhecimento, e tevese por ético, e bebia
leite de asnas, e trazia após de si huma asna, a qual o se-
guia já, e o consentia mamar; não se achava milhor, senão
empeorava com ter inflações no estomaguo; veiose aqui cu-
rar comiguo, e pousou em minha casa; eu o vi, e lhe senti
alguma opilaçam no fígado, e lhe senti excrecencias e prin-
cípios na febre manifestos; e vendolhe as orinas o convenci
que aquilo era latica, com alguma mestura de melancolia por
adustam; o qual elle, lendo por os livros, me confessou, e
me dixe que certamente se fora curando outra pessoa não
me** enganara, mas porque os homens, asi como se queriam
mais, asi tinham as suas enfermidades por maiores. Eu cu-
rei este homem alguns dias, e ficou sem febre com huma
inflaçam e dor no estomaguo, e com humas ventosidades
grossas nelle, pêra o qual lhe dava conserva de gengivre,
• Ignoro completamente o sentido d'esta expressão.
** A palavra me não faz sentido, pois aquelle medico falia de si,
e deve dizer, não se inganara.
Da raii da China 269
com que se achava melhor; e nunqua pôde este físico sarar,
até que lhe dei o pdo da China, retiíicando a aguoa com
huma pouca de aguoa estilada de canela, e asi foy perfei-
tamente sam.
RUANO
Certamente que me contastes muitas cousas de boa pra-
tica de medecina, e não quisera que acabareis tam asinha.
Por tanto dizei o nome e a feiçam áo páo ou rai^ da China.
ORTA
Diguo que he huma mata, do tamanho de três ou quatro
palmos de altura sobre a terra, e terá de raiz hum palmo,
pouquo mais ou menos: he huma raiz grossa, e outra del-
gada, como cá vedes estas raizes, que he o que qua vem,
tudo raizes; e quando se colhe esta raiz he muyto tenra,
e comese a bocados, crua e cozida; e quando a comem,
lança de si huma humidade, como cana de açucare mal doce;
e saem desta raiz á frol da terra humas asteas pequenas
como pena de escrever, e segjundo a raiz he, asi lança as
asteas, e do pé destas vergonteas até o alto saem humas
folhas ralas da feiçam da laranjeira nova. Este páo ou mata
se chama na China lampatam: e isto he o que pude saber
desta mata e raiz, e já vi huma mata pequena nesta Goa,
e secouse antes que crecesse. E porém antes que acabemos
a estoria do páo, vos direi o que me aconteceo nos tempos
passados. Antes que este páo viesse á índia, avia hum mer-
cador de pedras, a que cá chamamos lapidar ios, e também
lhe pudiamos cha^mox pedreiros, senão chamamoslhe o nome
latino pêra os mais honrar: este teve huma parlesia universal
em todo o corpo e braços, e pernas e mãos e pés, em tanta
maneira que nam pudia bulir hum anel pêra o ver: avia
já seis mezes que era doente sem nenhuma melhoria, pediu-
me que o aconselhase, se seria bom tomar o giiaiacam, e
lhe dixe que ao menos nam lhe faria mal. A este homem
curei xaropando e purgando primeiro, e no meo menoran-
doo, ao fim também; e ficou muyto sam. E avendome elle
pagado muyto bem, por fim me deu hum anel com hum
270 Colóquio quadragésimo sétimo
diamam, pello qual me deram 5o crusados, e asi me deu
hum relógio, com hum mostrador muyto bom, e me dixe que
lhe perdoase, que bem sabia que me não paguava, senam
que me dava aquilo por lembrança; e porém que me daria
hum conselho, e era que nam mandáse a nenhum dos que
curase, que não dormisse com molher, senão que nam a vise;
por que elle, comendo por dia seis onças de pam e passas,
sendo vinte cinquo dias do páo, tivera aceso com huma sua
moça três vezes: vede quanto pôde o estimulo da carne! E
mais me dixe que, quando o achava muyto triste e elle dizia
que avia de morrer, que nam era senão com o pensamento
de aver pecado contra Deos e contra sua saúde. E dahi
avante sempre vedo o coito aos que tomam esta j^ai^ ou páo;
porque, se com a dieta muyto grande se acontece isto, que
fora com a larga da raii da China? E mais todos dizem que
este páo ou raiz incita muyto isto; e por tanto vos requeiro
que os que curardes, que não vejam molheres, porque as
não toquem (2), E o páo que ouverdes de levar pêra Portu-
gal, seja metido tm jarras martavans de colo alto; porque
sam vidradas por dentro, e sostem muyto o páo sem se
danar (3).
Nota (i)
O nome de «guaiacam», do americano giiaiacan, usado, segundo pa-
rece, pelos indígenas das Antilhas, dava-se ás madeiras de duas arvo-
res do mesmo género, e da família das Zygophjyllece : GviaiacTxm.
oflieinale, Linn., uma arvore mediana das Antilhas, Cuba, Jamaica,
Trinidad e outras, e também da terra firme da America: Grixaia-
cnin. sanctvim, Linn., uma arvore muito similhante á precedente,
da qual se distingue por caracteres puramente botânicos, e habitando
nas mesmas regiões. Cuba e outras ilhas, e parte meridional da Florida.
Esta madeira foi conhecida, ao que parece, logo depois das primei-
ras viagens de Colombo, e começou a ser considerada um remédio
poderoso nas doenças syphiliticas, que se haviam desenvolvido pela
Europa de uma maneira pavorosa por aquelles fins do xv século e
princípios do seguinte. Julgava- se a doença de importação americana,
como vimos já (11, p. 11 5), e isto contribuía para dar importância ao
Da 7'at\ da China 271
remédio, americano também. A madeira foi por isso conhecida pelos
nomes de guaiacum sanctum, ligiium sancíum, lignum vitce, derivados
da sua verdadeira ou supposta efficacia; e deu logar a uma abundante
htteratura. Logo no anno de iSij, um Nicoláo Poli, depois medico do
imperador Carlos V, escreveu um opúsculo curto. De cura Morbi Gal-
lici per Lignum Guayacanum, onde nota, que aqueUe remédio, quod
sanctum cognominam, parecia vir providencialmente da terra, donde
viera a terrivel doença. No anno seguinte (i5i8), Leonardo Schmauss
conta no seu De Morbo Gallico tractatus, como mandara pedir infor-
mações a respeito do novo remédio, e obtivera de Portugal e Hespa-
nha dezenove cartas e noticias, sobre as quaes redigira o que dizia
de arbo) e guaiacana. As dezenove cartas levaram de certo tempo a re-
unir, por onde se vê, que se devia ter começado a fallar do remédio
logo no começo do século, como já antes notámos. Também no anno
seguinte (iSig) Ulrich von Hutten, o conhecido partidário da Reforma,
e tido na conta de um excellente latinista, escreveu um opúsculo en-
comiástico, onde celebrava a sua própria cura: Ulrichi de Hutten equi-
tis de Guaiaci medicina et rnorbo gallico liber unus. Este era o «fidalgo
alemam» do nosso Orta, que, reconhecendo-lhe as qualidades de es-
criptor «em muyto copioso estilo e mui puro latim», lhe nota, no em-
tanto, que tudo aquillo podia ser escripto em «huma folha de papel».
Oviedo, no seu conhecido livro sobre as índias occidentaes (i526), e
muito mais tarde Monardes, no não menos conhecido tratado das
Drogas de las índias (1569), deram" igualmente varias noticias interes-
santes sobre o guaiacan; noticias que não vem ao nosso caso, e não
será necessário resumir.
Aquella droga vinha, pois, das novas possessões americanas hespa-
nholas a Sevilha e outros mercados de Hespanha, d'onde, comovemos
pelo nosso Orta, passava a Portugal, sendo exportada d'aqui para a
índia oriental.
(Cf Pharmac, 92 ; Poli, Schmauss, e Hutten, em Aloysio Luisino,
Aphrodisiacus, sive de lue venérea, p. 241, 383, 275; Oviedo, em Ramu-
sio, III, 54 e 124; Monardes, nos Exoticorum, 3 12.)
Nota (2)
A rai:; da China pertencia a uma planta trepadeira e espinhosa da
familia das Smilacece, Snxilax China, Linn. (^5./eroA-,Wallich),
espontânea na China e Japão, assim como em algumas provincias
orientaes da índia; mas Orta não conhecia esta ultima procedência.
Todo o Colóquio, com as suas longas e um tanto fastidiosas espla-
nações sobre as regras a seguir na applicação da rai^ da China, e regi-
men dietético a observar, é estremamente interessante para a historia
272 Colóquio quadragésimo sétimo
da medicina, pois é a primeira noticia scientifica, sobre a introducção
na índia de um novo remédio, que d'ali passou para a Europa. Não
exige, porém, nem comporta uma longa nota, pois não tem muitos
pontos obscuros a elucidar.
A nova droga, começada a applicar com proveito na índia, no anno
de i535, depois da noticia dada em Diu a Martim Affonso de Sousa,
foi trazida desde logo para a Europa, creando-lhe sobretudo repu-
tação o facto de ser tomada com favorável resultado pelo impera-
dor Carlos V, que sofFria de gotta. E o celebre medico e cirurgião,
André Vesalio, escreveu e publicou em o anno de 1 546 uma carta sobre
este assumpto especial : Epistola rationevi, jnodinnque propinandi ra-
dieis Chince decocti, quo miper invictissimus Carolus V imperator iisus
est. Orta conhecia esta carta, onde vem algumas criticas e reparos ao
novo remédio ^; assim como conhecia o que haviam dito em seu des-
favor, e em seu louvor, o erudito André Laguna, e o eruditíssimo
Matihioli. A rai^ da China, preconisada no tratamento das doenças
syphiliticas, que atrahiam então todas as attenções, foi eflFectivamente
muito discutida, louvada e preferida ao guaiaco por uns, e n'esse nu-
mero entrava o nosso Orta, tida em conta inferior por outros e creio
que pelo maior numero. Por outro lado, as sarsaparilhas, provenien-
tes de diversas espécies americanas do mesmo género Smilax, come-
çaram quasi pelo mesmo tempo a ser conhecidas na Europa, e a sua
crescente reputação contribuiu para diminuir a voga da rai^ da China.
Na Europa caiu em quasi completo abandono; mas no Oriente, na
China e na índia, onde é geralmente conhecida pelo nome persa
chúb-chini (páo da China), consomem-se ainda hoje enormes quan-
tidades d'aquella droga, sendo geralmente considerada anti-rheuma-
tica, anti-syphilitica e aphrodisiaca.
A noticia de Orta, de que «na China comem este páo cozido com a
carne, como nós os nabos», vem confirmada modernamente por Polak,
citado na Pharmacographia, o qual afRrma que serve de alimento aos
Turcomanos e aos Mongoes. É possível, no emtanto, que a noticia de
Orta, como a de Polak, resulte de alguma confusão da rai^ da China,
chamada n'aquelle payz tu-fuh-ling, com um singular cogumello, o Pa-
chyma Cocos, chamado fuh-ling, e que effectivamente serve de alimento.
Orta toca n'este Colóquio, como já tinha feito no trigésimo quarto,
em uma questão complicada, a antiga existência da syphilis no Oriente,
questão em que reconheço a minha absoluta incompetência. Não se
percebe muito bem, se Orta admitte a importação da doença na Europa
nos fins do xv século, o que era então a doutrina corrente, e unicamente
' O nosso Orta tem rasão, e Vesalio faz effectivamente varias críticas ao novo remédio,
devendo eu emendar n'este ponto o que disse em Garcia da Orta e o seu tempo, p. 294.
Da raii da China 278
diz, que ella existira de todo o tempo n'aquellas «terras todas e na China
e em Japam», como existia na America; ou se francamente rejeita a dou-
trina da importação, suppondo aquella doença antiga em todo o mundo.
Este ultimo modo de ver, foi sustentado em tempos relativamente an-
tigos, assim como nos modernos, admittindo-se, por exemplo, que o
ch.zmB.áo fogo persa, muito espalhado pelo Oriente, seria a syphilis;
e encontrando-se também na Biblia algumas passagens, significativas
da existência da doença entre os hebreus, desde o tempo de Moysés.
No caso de Orta, como em muitos outros, a questão complica-se pelo
facto de elle não distinguir claramente as doenças syphiliticas das sim-
plesmente venéreas; e eu — repito — deixarei a discussão a pessoa
mais competente.
Notarei unicamente dous factos, que parecem contrariar a opinião
de Orta, e indicar uma importação no Oriente pelos europeus, princi-
palmente pelos portuguezes: o primeiro, apontado pelo próprio Orta
no Colóquio trigésimo quarto, é o nome fringui dado ás boubas na
índia, e que é a simples corrupção de frangue, e indica uma origem
europêa do mal, trazido pelos frangues ou francos : o segundo é uma
phrase de António Pigafetta, o companheiro de viagem de Magalhães
na primeira circumnavegação do globo, o qual diz, que em Timor e
outras ilhas (i522) chamavam á sj-philis mal de Portugal: in
tiitte qiieste isole regna una malatthia che quei popoli la chia-
mano il mal di Portogallo, e noi altri in Itália il mal francese.
(Cf. Pharmac, 648; a carta de André Vesalio em A. Luisino, Aphro-
disiacus, 586; Dymock, Mat. med., 838; sobre o Pachyma Cocos e outras
producçóes análogas, Hanbury, Science papers, 200 e seguintes; Ha-
monic, Les maladies vénériennes che:^ les Hebreux à VEpoque Biblique,
nos Ann. de Dermatologie et de Syphiligraphie (1886 e 1887) ; Pigafetta
em Ramusio, i, 368 verso.)
Nota (3)
As jarras martavans eram fabricadas na região da Indo -China, que
lhes dava o nome, e muito apreciadas em todo o Oriente. Deviam ser
de barro vidrado, posto que Duarte Barbosa diga serem de porcellana.
Eis a passagem de Duarte Barbosa : « . . . . lambem se fazem n'este lugar
(Martabam) muytas e grandes jarras de porcelana, muy grosas, rijas, e
fermosas; ha hy delias que levaom hua pipa dagoa; saom vidradas por
dentro de preto e muyto estimadas entre os Mouros».
Linschoten (i5g8) ainda lhes attribue maiores dimensões, dizendo
que algumas podiam levar duas pipas; e Pyrard de Lavai (1610) tam-
bém as louva muito : . . . des jarres les plus belles, les mieux vernies
et les mieux façonnées que faye vu ailleurs (cf. Duarte Barbosa, Li-
vro, 36i; Yule e Burnell, Gloss., v. Martaban).
18
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO OITAVO
DO RUIBARBO, O QUAL SE DIZ EM POUCAS PALAVRAS
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Do ruibarbo queria saber a feiçam do arvore, e folhas e
fruta que tem; e se esta raiz que a nós vem, se vem verda-
deira ou falcificada; que certamente que por ver hum arvore
destes daria muyto agora.
ORTA
Muytos annos ha que vi no tesouro de Cochim hum caxam
da China cheo de ruibarbo, o qual estava muito podre, e
todo se fazia em pó. E dixeramme em Cochim, que os Chins
coziam aquellas raizes ou as estilavam, e que se purgavam
com aquella agoa; e posto que isío me dixeram muytas pes-
soas, nunqua descansei, porque nenhuma era testemunha
de vista, e porque nós temos por certo que todo o ruibarbo
que vem de Ormuz ter á índia, vem ter a Ormuz primeiro
da China, pella província de Uzbeque, que he parte da Tar-
taria; e he fama que da China vem ahi ter per terra, e
alguns dizem que o ha na mesma terra de Uzbeque em
huma cidade chamada Çamarcandar; porém este he muito
ruim, e de pouco peso, e purgam com elle os cavalos na
Pérsia, e eu também os vi purguar no Balagate, e a meu pa-
recer este deve ser o ruibarbo, que nós chamamos em Eu-
ropa ravam turquino, e não porque elle seja da Turquia nem
perto delia.
RUANO
E dos que vam á China não averá algum que diga a ver-
dade, perguntandolhe vós?
ORTA
Em estremo desejei saber isto, e dizemme os mercadores
que lá vam, que o nam ha no porto de Cantam, senão pella
276 Colóquio quadragésimo oitavo
terra dentro; e trazemno ahi a Cantam a vender, e dahi
vem á China*, e algum a esta índia; donde vem ter tam
danado pollo mar, que o não queremos cá gastar, por ser
milhor o que vem pella via de Ormuz.
RUANO
Por tam certo tendes que não ha ruibarbo senão na China?
ORTA
Si, porque o que vem de Ormuz elles mesmos confesam
que vem ter á Tartaria da China, e da Tartaria ou Uzbeque
vem a Ormuz e a toda essa Pérsia, e por isso lhe chamam
rapam chim', e os Mouros muytos nesta terra lhe chamam
somente rapam ^ mas todos confessam não aver outro, senão
o da China; que he asi, que nam ha ruibarbo trazido de
Berbéria nem rapam indico; senão o que se traz á índia,
ou Berbéria, ade vir primeiro da China á índia, ou á Berbé-
ria.
RUANO
Falando comvosco a verdade, milhor ruibarbo me parece
o que vendem em Castella, scilicet, em Medina ou em Se-
vilha, que o que se vende em Portugal na caza da índia; e
asi vai mais caro muyto.
ORTA
O ruibarbo que vem á Pérsia ou Uzbeque, vai dahi ter
a Veneza, donde vai a Espanha, e este vai a Veneza pella
via de Alexandria; e muyto outro vai ter, pella via de Alepo,
a Tripol de Suria, donde vai á mesma Veneza ; e porque
todos estes caminhos sam pouquos por mar, e muitos por
terra, nam danam tanto o ruibarbo; porque tenho por ave-
riguado, que gasta mais e apodrece hum mez de mar que
hum anno da terra. E já o ruibarbo que vem á índia por
maio, com estar nella até setembro, não he para se guastar
* Não se percebe bem o que quer dizer, e a phrase deve estar alte-
rada na impressão.
Do ruibarbo 277
já, e entonces vem outro de Ormuz milhor e mais novo; e
o compram pêra a índia, e pêra o levarem a Portugal; e o
que invernou na índia, deitamno na praia, e isto nam se
entende no que inverna nas terras do sertam; porque nam
he terra sogeita a potrefaçam; e quem nesta terra o quizer
bem guardar, mandeo a Bisnaguer ou a Balagate. E peço-
vos muito por mercê que me perdoeis por vos não falar no
ruibarbo^ senam pouco ou nada; porque o não pude saber.
E espero em Deos, que se saiba tudo mais bem sabido
ainda, pois a China se conversa tanto já com os Portugue-
zes (i).
Nota (i)
O rhuibarbo do commercio, a raiz do R-heuin. olHcinale,
Baillon, da família das Polygonacece, e porventura também a de ou-
tras espécies próximas, vinha de regiões distantes, que no tempo de
Orta — e ainda até certo ponto hoje — eram mal conhecidas, e das quaes
elle tinha naturalmente escassas noticias.
Os antigos conheceram uma droga, chamada pã, p-íiov, rhacoma, e de-
pois rha-ponticum, rheum barbarum, reii barbanmi, que seguramente
deveria ser a raiz de uma ou mais espécies do género Rheum, entre as
quaes figurava de certo a que depois forneceu a maior parte da droga.
A palavra ponticum vinha da sua procedência, ou antes simplesmente
passagem, pelas regiões próximas ao Ponto Euxino; emquanto a de-
signação de barbarum se quiz derivar da sua exportação pelo antigo
porto de Barbarike na costa da índia, mas deve antes resultar de ser
trazida de regiões desconhecidas e barbaras '. De reu-barbarum se de-
rivou facilmente a palavra portugueza e hespanhola ruibarbo, que já
encontramos n'esta forma em um documento de Barcelona de 1271,
citado por Capmany.
Orta não conhecia, nem a feição da planta, nem exactamente a sua
habitação, o que de modo algum nos pôde surprehender. Apenas, al-
guns séculos antes, um único viajante europeu, o famoso Marco Polo,
havia passado pela região e cidade de Sukchur (Su-chau, na provinda
' Também a primeira parte do nome, se attribuiu, na sua forma Rha, ao antigo nome do
Volga, por onde se dizia vir; e na forma reu, raved, ravam (como diz Orta) simplesmente
a ser uma raiz.
278 Colóquio quadragésimo oitavo
de Kan-su), dando noticia de que ali havia pelos campos muito rhui-
barbo, em que na cidade se fazia um activo commercio, concorrendo
a ella mercadores de todas as partes do mundo. Esta noticia isolada
podia facilmente escapar, como escapou, ao nosso escriptor. Também
este não podia conhecer uma noticia interessante e mais minuciosa,
pouco anterior ao seu livro. Ahi pelo anno de i55o, pouco mais ou
menos, Ramusio deu um almoço em Murano, fora de Veneza, ao qual
assistiam os seus amigos, o architecto messer Michele San Michele, o
celebre editor e impressor messer Thomazo Giunti, o interprete em
lingua turca da Illustrissima Signoria de Veneza messer Michele Mam-
bré, e um mercador mussulmano Chaggi Memet (Hadj Mohammed),
recentemente chegado com uma carregação de rhiiibarbo. A sobre-
mesa, a conversação versou particularmente sobre aquella droga, e o
mercador contou como havia penetrado até á cidade de Succuir (Su-
chau, o Sukchur de Polo), dando informações sobre o commercio do
rhuibarbo, e uma descripção da planta, acompanhada por um dese-
nho. Esta descripção e desenho foram fielmente inseridos pelo Ra-
musio no seu livro; e aproveitados depois pelo erudito Matthioli nas
suas annotacões á obra de Dioscorides. O desenho não era muito exacto ;
e, um século depois, o padre Kircher reproduziu-o na sua China illus-
trata, confrontando-o com um desenho mais correcto, obtido pela in-
tervenção dos Jesuítas, que já então começavam a penetrar na China
septemtrional. Modernamente vários viajantes —como Prjevalsky, Pias-
setsky, que esteve em Lan-tchu, junto ao rio Amarello e á Grande Mu-
ralha, um dos mercados conhecidos d'aquella droga, o capitão William
Gill, mais recentemente Bonvalot e Henrique de Orleans — tèem pas-
sado pelas terras onde se cria o rhuibarbo, ou nas suas proximidades;
mas são principalmente os missionários, estabelecidos nas fronteiras do
Thibet, como o vigário apostólico Chauveau e outros, que têem for-
necido informações valiosas. Por seu intermédio se obtiveram as plan-
tas, que se cultivaram e floriram no jardim botânico de Montpellier, e
pelas quaes o sr. Baillon fez a sua diagnose da espécie.
A área habitada pelo Rheum é bastante vasta, comprehendendo as
províncias de Shan-si, Shen-si, Ho-nan, Kan-su e parte da de Sz-chuen
na China, assim como todo o Thibet oriental, terras de Zaidam, Min-
jak e outras. O Rheum cresce ali espontaneamente nas pastagens e
encostas relvadas das montanhas. Se em toda a região, o rhuibarbo
do commercio procede da única espécie Rheum officinale, ou se outras
espécies o produzem também, é questão que não está ainda resolvida.
No tempo de Orta, e antes, algum rhuibarbo vinha á índia dos por-
tos da China por Malaca; mas nas viagens longas d'aquelle tempo, e
mal acondicionado nas embarcações, chegava geralmente em péssimo
estado á índia, e em muito peior a Portugal. Thomé Pires queixava-se
da mesma cousa :
Do ruibarbo 279
«Também foy Ha ter hiia soma de Ruybarbo podre, que se comprou
em Malaca : eu nom fuy na compra delle, que estava em Cananor : foy
comprado por quatro centos cruzados a Ruy daraujo e Joham viegas :
devem tornar o dinheiro a vosa alteza, pois venderam mercadoria po-
dre »
O ravam chnii, vindo directamente da China por mar, era de tão má
qualidade, que nunca podemos supplantar na Europa o que seguia o
antigo caminho; e o próprio Orta confessa, dever ser o da Casa da ín-
dia peior, que o vendido em Hespanha e procedente de Veneza. Este
> vinha pelo longo caminho das caravanas, por Yarkand, Kashgaria,Tur-
questan, passando em Samarcanda («Çamarcandar» de Orta), e pela
Pérsia a Hormuz, ou para occidente aos portos da Syria, donde ia a
Veneza.
Muito mais tarde, este caminho desviou-se para o norte, indo as
caravanas pelo deserto de Gobi a Kiachta, e tendo então a Rússia o
monopólio do commercio de rhuibarbo para a Europa.
(Cf. Baillon, Adans., x, 246; Pharmac, 442; Yule, Marco Polo, (,219,
220; Ramusio, Nav., 11, i5; Kircher, China illustrata, i83 e 184, Amste-
lodami, 1667; Ga^. de Pharm., 38.)
COLÓQUIO QUADRAGÉSIMO NONO
DE TRÊS IVIANEIRAS DE SÂNDALO
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
He o sândalo muyto neseçario, por ser muyto cordial, e
com ser frio cheira bem (cousa que em poucas mezinhas
se acontece); e por isto parece mal a Mateolo Senense o
que dizem os Arábios da compleisam do sândalo. E o saji-
dalo vermelho dizemme nesta terra que he ávido por mais
frio, e a causa disto he porque não tem cheiro, e por en-
tender milhor isto, folgaria de saber o nome delle acerqua
das linguoas da terra onde o ha, e da Arábia; e saber em
que terras nasce, e saber se he em uso de medecina acerqua
da gente desta terra.
ORTA
O sândalo nasce acerqua de Timor, onde ha a maior can-
tidade; e he chamado chandam: com este nome se chama
por. todas as terras visinhas a Malaqua; e os Arábios, como
pessoas que cheiravam o comercio destas terras, corrom-
pendo o vocábulo, lhe chamaram sandal. Todo o Mouro de
qualquer naçam que seja o chama asi; e os Canarins e De-
canins e Guzarates o chamam cercandá. Nacem e crecem
os arvores do sândalo em Timor, donde he a maior canti-
dade; e sam matas que não se acabam de gastar, asi de
huma banda da ilha como da outra.
RUANO
E todo o sândalo nasce nestas ilhas somente?
ORTA
Em outras partes nasce, como vos direi; e porém em Ti-
mor não nasce este sândalo vermelho, senão em Tanasarim
282 Colóquio quadragésimo nono
e na costa de Charamandel*, scilicet, em alguns cabos delia.
E a feiçam deste arvore do sândalo vermelho, até ao presente,
não o pude saber ^ mas sei certo que vem dali todo o sândalo
vermelho, o qual se guasta muyto pouquo nesta terra, por-
que não o gasta a gente mais que pêra febres, e algum se
leva para Portugal e pêra as bandas do ponente. E também
se gasta cá o vermelho em pagodes ou Ídolos, e amde ser os
páos mu3lo grandes ; e por isso quanto o páo he maior, que
entram mais pouquos páos em hum bar (que sam quatro
quintaes) tanto vai mais preço. E quanto he ao sândalo bran-
quo e amarelo-, muyto grande cantidade se guasta em toda
a índia; porque toda a mais gente, ora sejam Mouros ora
Gentios, se untam com sândalo desfeito em aguoa, e pisado
em pedras, que pêra esse mister tem feitas; e asi untam todo
o corpo até que se seca pêra estarem frios, e cheirarem bem;
porque esta terra he muito quente, e a gente delia muyto
amigua de cheiros.
RUANO
Diz Mateolo Senense que nace em ambas as índias, sci-
licet, na que está primeiro que o Ganges, e na que está
alem do Ganges.
ORTA
Não nasce o sândalo vermelho senão na índia, que está
ante do Ganges** (o qual rio a gente da terra chama Gam-
gua), e outro sândalo branquo e amarelo nasce alem do
Ganges (i).
RUANO
Como sabeis que este páo vermelho he sândalo, e não
bra\il, pois nenhum delles tem cheiro?
* A mesma orthographia se encontra em outros escriptores portu-
guezes, e parece representar correctamente a pronuncia de então, que
depois se alterou, sem rasão, para Coromandel.
** Isto é um simples equivoco, pois disse antes encontrar-se em Te-
nasserim, que elle sabia muito bem estar alem do Ganges.
De três maneiras de sândalo 283
ORTA
Verdade he que nenhum cheira bem, mas o bra:{il he
mais doce, e mais tinge; e o sândalo nem he doce, nem
tinge. E deste modo perdeo hum meu amigo mercador,
porque trouxe sândalo i'ermelho por brasil, e os tintoreiros
lho compraram, e como viram que não tingia, tornaramlho
a engeitar, e assi ficou por vender a mercadoria.
RUANO
Não vai mais dinheiro o sândalo vermellio que o hraiil? (2).
ORTA
Vai mais o sândalo vermelho, porém gastase pouco, e do
hra:[il guastase muyto ; e por isto quando vem muyto sândalo
vai pouquo. E tornando a dizer donde nasce o sândalo
branco e amarelo, diguo que em Timor (a qual ilha tem
muytos portos de huma banda e de outra); e diguo que o
de Mena, que he hum porto, he o milhor de todos, e tem
menos páo que os outros: e Matomea, que he outro porto,
tem hum sândalo amarelo, mas tem muyto páo. E diguo
ter muyto páo, ter pouco cerne, porque no cerne está o
cheiro; e o outro porto dito Camanace tem ruim sândalo,
porque he de muyto páo e de pouco cerne, ou amaguo: e
desta maneira he o sândalo de Cerviaguo (outro porto asi
chamado). E os mercadores esprementados vendo o sândalo
loguo dizem donde he, e se tem muyto páo ou pouquo. E
também ha sândalo em Verbali (que he hum porto de Jaoa),
e ha nelle sândalo amarelo e branco, e tem muyto forte
cheiro, mas dura esto^ sândalo pouquo; porque, se está hum
anno sem se vender, he neseçario cortarlhe o páo, e ficar
mais no cerne. E também se achou em Macaca* huma mata
de sândalo, e guastouse já, ou por dizer mais verdade era
tam ruim que o não compravam, e por isso não foram lá
por elle.
* Talvez Macassar?
284 Colóquio quadragésimo nono
RUANO
Ha de duas maneiras sândalo em Timor, ou he todo
branco? E qual he mais estimado?
ORTA
O mais estimado e de milhor cheiro he o amarelo, mas
na parte onde o sândalo he milhor, que he em Timor, ha pou-
quo do amarelo; e vem entre 5o páos hum. E se viesse muyto
venderseia sobre si, e valeria mais. E o outro sândalo ama-
relo, que dixe, he somenos, e duralhe o cheiro mais pouquo,
o que não acontece no de Timor, a esse pouquo que de lá
vem; posto que falando o outro dia com hum mercador,
que sabe bem essas terras, me disse, que na parte que he
mais descuberta do sol ha muyto sândalo amarelo, e mais
ambas as maneiras do sândalo tem os arvores semelhantes,
que nós nam conhecemos a deferença que ha entre os arvo-
res. E pode ser que conheça esta deferença a gente da terra,
que trata com estes arvores.
RUANO
Digua a feiçam do arvore, e se dá fruto ou não, e se dá
flores.
ORTA
O arvore do sândalo he tamanho como huma nogueira;
e a folha he muyto verde, e he feita como a da aroeira;
deita frol azul escura, e dá huma fruta verde do tamanho
de cereja, e cae azinha, e he primeiro verde, e depois preta
e sem sabor.
RUANO
Aguora quero eu dizer as duvidas, que tenho do que di-
zem OS autores Arábios e Latinos, pois que os Gregos anti-
guos o nam conheceram; e dos Arábios, Rasis*, posto que
o conheceo, não diz que cousa he, senam para que apro-
* Rasis, trat. cap. 10 (nota do auctorj.
De ires maneiras de sândalo 285
veita. Serapiam* perfere o citrino a todos, e vós asi o afir-
maes, e diz que o vermelho he após elle: e asi diz outras
cousas em que não tenho duvida, somente em dizer que se
traz da Siria; e mais duvido aleguar Galeno, pois delle nam
escreveo.
ORTA
Em ambos esses ditos errou Serapiam; e pois da índia
he mercadoria pêra a Siria, nam he muyto dizer que se
trazia delia, nam dizendo que nacia nella; e asi em aleguar
Galeno também erra, mas esta vez não he a primeira, por-
que asi o dizem muytas vezes os Arábios, porque nam viam
os livros de Galeno, e como ouviam algum grego dizer que
Galeno falava na mezinha, loguo o criam. Nem Avicena**
nam^diz cousa alguma do sândalo, em que aja duvida, que
ja não tinhaes bem decrarado, nem Avenrroís***. Pois asi
passa, falai nos Latinos, e dizei alguma duvida se delles
tendes.
RUANO
António Musa diz que o sândalo aos Portuguezes o de-
vemos; que o trazem do campo de Calecut, onde se colhe,
e que Calecut he a principal feira que ha na índia; e vós
dizeis que o ha em Timor, e o vermelho emTanasarim, terras
confins de Malaca****.
ORTA
Foy celebrada a cidade de Calecut em estas partes, onde
se compravam e vendiam todas as mercadorias, e ali eram
trazidas das outras partes, onde vinham os Chins com suas
mercadorias, e com ellas traziam sândalo mesturado, o qual
vendiam ahi, e o levavam pêra o ponente; e como já vos
* Serapio, cap. 846 (nota do auctor).
* * Lib. 2, cap. 656 (nota do auctor).
»** Avenrois, 5o, Coliget (nota do auctor).
* * * * Tenasserim era confim de Malaca ; mas o nosso bom Orta de-
via saber, que Timor ficava muito longe d'ali.
286 Colóquio quadragésimo nono
dixe outras vezes, a feitoria dos Chins, chamada Chinacota,
oje em dia permanece nessa cidade, em a qual os Chins
moravam. Mas porque a gente da terra fez huma traiçam
aos Portuguezes, quando em principio vieram a esta terra
os Portuguezes, e se foram a Cochim, elles estruiram Cale-
cut per muytas vezes; e asi pouco a pouco se foy estruindo,
sendo primeiro cidade muyto chea de riquos Mouros (á mam
dos quaes vinha toda esta fazenda); e por esta razam diz
António Musa que no campo de Calecut nacia o sândalo;
e em Calecut não ha campo, senam serras e palmares ao
longo da praia; e o que vem, os Portuguezes o trazem nas
suas náos de Malaqua em muita cantidade, donde vem ter
a Cochim e a Goa; e destes portos se reparte para o Ma-
lavar e o Canara, e Benguala, e pêra o Decam, e pêra o
Guzarate -. e a mais pequena parte vai pêra Ormuz, e pêra
Arábia, e pêra Portugal, como vos já dixe.
RUANO
Chamam commumente o sândalo citrino, macha^ari ou
maha:{ari, e per outros nomes a estes semelhantes; e por
essa causa eu queria saber, que quer dizer este nome; porque
dizem os Frades*, que em alguns livros de sinónimos se diz
7?iacha\ari, scilicet, odoliferi ; e que Serapio diz que, quando
se nomea sândalo por excellencia, se entende do citrino; e
em outro cabo dizem os mesmos Frades, que não se acha
em Europa sândalo citrino, senam dentro no miolo se acha
em muytos páos; e muytos autores dizem isto asi como Se-
púlveda**; e diz mais este Sepúlveda, que milhor he deitar
ametade do pó do vermelho, e ametade do pó do branco;
e mais diz elle, louvando-se, que já vio sândalo amarelo.
E de tudo isto me dai a resuluçam, como pessoa que o
vio; e para isto não me deis mais rezam, que a vossa vista.
* Os frades (nota do auctor); os commentadores de Mesué de que
já antes falíamos.
** Sepúlveda (nota do auctor).
De três maneiras de sândalo 287
ORTA
De ser mais cheiroso o sândalo amarelo não ha duvida,
e de ser de mais preço; e ha o ahi em muytos cabos, e
eu vi já muyto, e muitos outros o viram; e, porque se com-
pra cá na índia milhor que em Portugal, não o levam lá,
e mais por o pouquo cuidado dos boticairos portuguezes,
que o não pedem na casa da índia, pêra que o mandem
trazer de cá, e também se am de culpar os que fazem estas
drogas a elrey em o não mandarem a Portugal. E quanto
he ao nome de macha:[a?'t ou maha\ari, pareceme (salvo
milhor juizo) que quer dizer trazido de Malaca; ou pode
ser que estava escrito ma:{afram, que quer dizer dos ama-
relos ou dos açafroados. E, como quer que seja, he noto
ser milhor o citrino que todos. E quanto he a deitar ame-
tade do vermelho, e ametade do branco, nam he sqt citrÍ7io;
antes he milhor deitálo todo branco, porque o branquo he
mais cheguado á natureza do citrino; pois ambos se acham
em huma mesma terra, e o vermelho he muyto longe donde
nasce o branco. E também que^o que saibaes que este ar-
vore do sândalo se dá em outras partes, se o prantam, e
eu o vi em Amdanager, onde foy trazido para se semear:
e he este Amdanager huma cidade do Decam, onde reside
o Nizamoxa, cuja he, mu3'tas vezes. E eu o vi ahi, em huma
caza de prazer onde ha muytos pomares, arvores de sân-
dalo, e muytas das nossas; e algumas das nossas dam fruto;
mas este páo de sândalo no arvore não cheirava: e mais
me dixeram muitos que o sândalo não cheira, senão des
que está escascado e muyto seco.
RUANO
Ha em outras partes sândalo?
ORTA
Na ilha de Sam Lourenço, e em alguns cabos da costa
de Melinde o ha, segundo dizem os negros da terra; mas
depois soube que he hum páo cheiroso, como ha muytos
entre nós, e mais não tem os signaes do sândalo. E também
288 Colóquio qimdragesimo nono
dizem as Malavares que ha na sua terra hum páo cheiroso
que parece ser sândalo branquo; e untamse com elle pêra
as febres, e chamamlhe os Malavares sambaraiie (3).
Nota (i)
O sândalo vermelho é a madeira de uma pequena arvore da família
das LegutJimoscr, o Ptei^ocai-pus santalinus, Linn. f., ha-
bitando as florestas do sul da índia, tanto da parte Occidental, do Ca-
nará para baixo, onde Orta o não menciona, como na costa e terras
de Coromandel.
A arvore do sândalo vermelho é absolutamente diversa e muito afas-
tada da que produz os outros sândalos, não sendo fácil saber por que
lhe deram o mesmo nome. Em todo o caso não ha aqui confusão ou
invenção de Orta, porque já antes lhe chamavam assim, e o nome
sanskrito, J rh^^^^eí^^H, raktachandana, significa a mesma cousa. A ma-
deira, apesar de insípida e inodora, é empregada medicinalmente, como
adstringente e tónica, e externamente como refrigerante, empregos si-
milhantes aos que tem o verdadeiro sândalo, d'onde talvez veio o dar-
se-lhe o mesmo nome. Serve também na tinturaria; mas o seu uso
principal é, como já dizia Orta, nas construcçóes, sendo os troncos
maiores muito apreciados ainda modernamente para pillares e traves
dos templos ou pagodes (Cf Pharmac.^ iji; Ainslie, Mat. Ind., i, 385;
Amaracocha, iSy; Dymock, Mat. med., 237).
Nota (2)
O brapl, de que Orta falia apenas de passagem, merece no emtanto
uma nota especial. Era a madeira de uma arvore da familia das Legu-
minosce, Ccesalpinia Sappan, Linn., madeira empregada
na tinturaria, e conhecida no commercio europeu, desde os antigos
tempos da idade media, pelos nomes de brasil, brésil, em italiano ver-
^ino, os quaes se julgaram derivados de brasa ou braise pela còr ver-
melha da madeira.
É bem sabido, como uma madeira ou diversas madeiras, similhantes
a esta, tendo os mesmos usos, e procedendo de varias espécies do
mesmo género Ccesalpinia, se encontraram nas terras da America,
visitadas pelos portuguezes logo no começo do-xvi século. E é também
conhecida a phrase, em que Barros lamenta, que o nome de Santa
Cruz — primitivamente Vera Cruz — se mudasse por influencia do diabo
De três maneiras de sândalo 289
no de um «páo que tinge pannos». Deixaremos, porém, esta phrase e
as reflexões que poderia suscitar o nome Brazil, dado ás terras de San-
cta Cruz. Começando a vir o pau brasil em maior quantidade da Ame-
rica, passou o nome especialmente para a mercadoria nova; e o antigo
brasil da índia e outras partes da Ásia voltou a ser geralmente desi-
gnado pelo nome asiático de sappan, ou sapang no archipelago Ma-
layo, o qual parece prender-se ao sanskrito patanga, ou ao maláyalam
shappan, que significa vermelho.
O brapl asiático havia sido conhecido dos portuguezes e designado
por este nome antes do descobrimento da America; e no Roteiro da
viagem de Vasco da Gama se lê, que em Tenacar — provavelmente
Tenasserim — se encontrava «muito brasyll, o qual faz muito fino ver-
melho». Depois de a mercadoria da Ásia ser geralmente supplantada
no commercio pela de procedência americana, ainda continuou, no
emtanto, aquella a ser conhecida por algum tempo. O brapl de que
falia Orta, é evidentemente o asiático, confundido occasionalmente
pelo seu amigo mercador com o sândalo vermelho. E do Lyvro dos
pesos se vê também, como, no meado do xvi século, o brai^il era uma
mercadoria bem conhecida, tanto em Hormuz como em Malaca.
(Veja-se o que eu disse na Flora dos Lusíadas, 91; e Dymock, Mat.
med., 25i; Ainslie, Mat. Ind., 11, 450; Barros, Ásia, i,v, 2; Roteiro, iio;
Lyvro dos pesos da Ymdia, 18 e 39.)
Nota (3)
O sândalo é a madeira de uma pequena arvore da família das San-
talacece, Saiitalvxiii all>uiii, Linn., que habita no sul da índia,
nas florestas de Mysore, Travancore e outras, assim como nas ilhas do
archipelago Malayo, particularmente na de Timor, e na de Sumba, ao
sul da de Flores, que foi mesmo chamada por isso a ilha Chandana,
isto é, a ilha do sândalo.
O nome santalum e sândalo deriva-se do arábico J JJ-v», sandal, que
era, como Orta diz, uma corrupção ou antes um modo de pronunciar
e escrever o sanskrito ^^T^J/T, chandana. Por este ultimo nome vem
a substancia mencionada no Nirukta, um dos mais antigos commen-
tarios dos Vedas, assim como nos celebres poemas, o Ramayana e o
Mahabharata. E igualmente citada no Périplo do mar Erythreu, nas
viagens de Cosmas Indicopleustes, e em outras obras antigas. Se o al-
gum ou almug, trazido pelas frotas de Salomão e de Hiram do paiz
de Ophir, era igualmente esta madeira, é questão diversa e um pouco
mais duvidosa.
Distinguiam já os escriptores sanskriticos duas variedades de ver-
dadeiro sândalo, o amarello ou citrino, chamado pitachandana, e o
»9
290 Colóquio quadragésimo nono do sândalo
branco, chamado srikhanda; mas não procediam nem procedem estas
duas variedades de duas arvores ou espécies diversas, como Orta pa-
rece indicar; e o citrino, mais carregado em côr, pesado e aromático,
é simplesmente o cerne perfeito de alguns troncos. Os usos do sân-
dalo são bem conhecidos, servindo para o fabrico de cofres ou moveis,
trabalhados e entalhados, principalmente nos templos e edifícios sagra-
dos, entre os quaes se podem citar as famosas portas do templo de
Somnath, ainda conservadas em Agra, e que se diz terem mais de mil
annos. Tinha egualmente empregos medicinaes, sendo considerado frio
e secco, cardíaco ou «cordial», tónico, adstringente, alexipharmico, re-
solutivo, e applicavel também, misturado com leite, no tratamento das
gonorrhoeas. Gastava-se e gasta-se, sobretudo, como perfume, redu-
zido a pó em umas espécie de pequenas mós de pedra, e misturado
depois aquelle pó com agua rosada e outros ingredientes. Igualmente
se consumia na cremação dos cadáveres dos hindus muito ricos, que
os outros naturalmente não podiam esperar este luxo post-mortem.
Orta, á parte uma phrase curta e duvidosa, menciona unicamente
o sândalo de Timor, e em segundo plano o de Java e outros pontos do
archipelago Malayo, O mesmo faz Duarte Barbosa, fallando do «Sân-
dalo branco e côr de limão, que nasce em huma ilha chamada Timor».
E o mesmo faz também Camões, limitando-se a mencionar o d'aquella
região :
AUi também Timor, que o lenho manda
Sândalo salutifero e cheiroso.
É incontestável, pois, que a ilha de Timor era então a principal e
mais importante origem do sândalo do commercio; e parece, que as
arvores das florestas do sul da índia seriam pouco conhecidas e apro-
veitadas. No emtanto, o Santaluni albinn não é raro na índia, e a ma-
deira d'esta procedência alcança hoje nos mercados os preços mais ele-
vados, e passa por ser superior á de Timor e outras terras de leste.
É possível também, que se não tivesse feito a identificação entre a ar-
vore da índia e a das regiões mais afastadas; e inclino-me a aceitar
esta hypothese. Na ultima phrase do Colóquio, Orta diz, que os ma-
labares tinham na sua terra uma arvore, que parecia ser sândalo branco,
e da qual se serviam para os mesmos usos medicinaes; e em um dos
Colóquios anteriores (ir, p. 5o e 64) fallou de uma madeira das proxi-
midades do cabo Comorim, chamada aguila brava, que, segundo todas
as probalidades, era o próprio sândalo. Em resumo, o Santalum álbum
da índia, não parece haver dado logar por aquelles tempos a uma ex-
ploração activa; e sobretudo não estava bem clara a sua identidade com
a madeira, mais conhecida e celebrada, procedente da ilha de Timor.
(Cf. Pharmac, 540; Crawfurd, Dict., SjS; Ainslie, Mat. Ind., i, 3/6;
Dymock, Mat. med., 75 1; Duarte Barbosa, Livro, 385; Lusíadas, x, 134.)
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO
DO ESPIQUENARDO*
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
o espiquenardo foy de muyto preço, e muyto louvado an-
tiguoamente; que diz no evangelho que aquelle ingoento pu-
dia ser vendido por mais de trezentos dinheiros; e trezentos
dinheiros, contados segundo a conta de Budeu**, sam 40
crusados nossos, que pêra aquelle tempo era gram valia o
que custava aquelle ingoento; posto que aguora, polia muita
abundância de cheiros que ahi ha naturaes e perigrinos, nam
vai tanto ao presente; dos quaes cheiros fazem as suaves
pastilhas e caçoleas, os delicados pivetes, e mesturas de âm-
bar e almisqiie, e algitalia, e linaloe, e outros muytos cheiros.
Asi, por esta rezam, como por o-uso que delle ha na física,
he bem que façamos huma pratica delle, e mais, porque al-
guns escritores dizem que carecemos do verdadeiro espique.
ORTA
Nam carecemos de verdadeiro espique, antes temos mais
mezinhas, do que nunqua tivemos; e nam sam tam falsifi-
cadas como eram primeiro, polia muyta abundância que vai
destas partes orientaes para o ponente; porque, se oulhar-
mos o que diz Plinio*** destas mezinhas, nam nos mara-
vilharemos se as falsificaram ; porque o muito preço os con-
* Orta, coUocando aesta situação alphabetica um nome começado
pela lettra e, lembrou-se evidentemente da forma latina, começando
por s; e o mesmo se pode dizer dos dois Colóquios seguintes.
* * Um escriptor citado pela primeira vez : veja-se a nota final ao
Colóquio.
*** Plinius, Lib. 12, cap. 12 (nota do auctor).
292 Colóquio quinquagesimo
strangia a falsificálas; mas aguora que a navegaçam he mais
descuberta, e com mais náos, asi pera Portugal como pêra
as outras bandas do ponente, não nos maravilharemos de
valer tam barato, e aver tanto, sem ser falsificado. E mais
compram estas mezinhas milhor aos da terra, e a terra as
cria milhor aguora; porque é mais cultivada e aparelhada
pera as dar.
RUANO
Digua donde nascem, e como se chamam nestas terras
acerca das naturaes? E mais os Mouros como as chamam,
porque os Gregos e Latinos bem sei o nome que lhes põem.
E acabado isto examinaremos, que dizem os escritores que
delias escreveram.
ORTA
Chama-se o espiqiie nas terras donde nasce acerca do gen-
tio cah^çava, e nasce no Mandou, e em Chitor, e em algumas
partes de Benguala, perto do rio Ganges (a que os índios
chamam Giianga): he rio muyto fermoso, e ávido por sancto
em tanta maneira, que os Bengualas, quando querem mor-
rer, se mandam deitar nelle, scilicet, pondo os pés dentro
na aguoa, a qual aguoa he muyto boa, e eu a provei.
RUAJSO
E os outros Gentios das outras terras tem este rio em
veneracam?
ORTA
Si em muita; porque um rio que dizem ser ramo deste,
que corre nordeste sudeste também chamado Giianga, que
he nas terras do Nizamoxa, todos os mais dos anos se vai
lavar nelle toda pessoa gentia das suas terras. E porque
alguns sam proves, e não podem lá ir a lavarse, manda
elrey, tiranicamente, que quem se quiser ir lavar, que se vá
a lavar, e que toda a pessoa pague por isso 180 reis, que
he meo pardáo de ouro. E pera isto se faz conta na terra
quantas pessoa ha, e os ricos paguam por os proves, e asi
se junta huma soma de dinheiro; e disto sam eu testemunha,
porque vi colher este dinheiro, e me paguaram delle os que
o recadavam dividas que elrey me devia, e mercês que me
Do espiquenardo 293
fazia*. E no rio Guanga de Benguala e Orixá (ou Uria como
elles dizem) lia certos pagodes, aos quaes vam em romaria
os mercadores do Guzarate e do Decam, e vam lavarse no
rio Guanga; e fazem grandes guastos e esmolas aos pago-
des; e de lá vem lavados e rapados e tomados do diabo,
a que elles chamam, santificados.
RUANO
Nova maneira de tiranisar he essa, e porém dizei o nome
em arábio, e se usavam em física desta mezinha os Mouros
e Gentios.
ORTA
Chamalhe Avicena* *, e todolos Arábios que aguora ha cem-
bul, que quer dizer em arábio espigiia; e asi chamam o espi-
quenardo, cembul indi, asi como se dixesse espigua da índia;
e a que nós dizemos espigua céltica, chamam elles cembul
rumin, como se dixesemos espigua da tei'ra dos Rumes.
E se Mateus Silvatico lhe chama cenubel e sobel, he como
pessoa que não sabia o arábio; ou se pode dizer que os
nomes se foram corompendo pouco e pouco. E quanto he
o que perguntaes, se he em uso de física, diguo que si, ácer-
qua dos Mouros e muyto mais acerca dos Gentios.
RUANO
Aguora he neseçario que examinemos os escriptores pêra
me tirardes as duvidas que ha nisso; e Discorides, mais an-
tiguo, diz* * * que ha duas especias, scilicet, huma siria e outra
indica, e nam porque se achem nestas regiões, senam porque
* Este segundo Ganges on Ganga é o Godavery, cujo curso foi mal
conhecido até um período muito posterior a Orta. D. João de Castro
dá -lhe o mesmo nome que Orta, e diz, fallando dos rios do Deckan :
«Guodavam, que per outro nome chamam Gangua». Rot. de Goa a
Diu, 7, Esta phrase e a situação geographica marcada estabelecem
perfeitamente a identificação com o Godavery, que suppunham ser um
affluente do Ganges.
** Lib. 2, cap. 146 (nota do auctor).
*** Lib I, cap. 6 (nota do auctor).
294 Colóquio qiiinqiiagesimo
nasce em hum monte que tem duas faces, e huma delias
olha pêra a Siria, e outra pêra a índia; e depois, falando
na eleiçam, dizem que entre os nardos indicos ha o giian-
jetico, por nascer perto do rio Ganges, e que nasce em huma
montanha, em a qual cresce esta mezinha; e que, posto que
he maior e mais viçosa que a do alto do monte, he de menos
vertude; e dizem que o cheiro delia he como do cipero. A
cerqua destas cousas me digua o seu parecer.
ORTA
Eu nam conheço outro espiquenardo nesta terra, senam
o que já vos dixe, e he o que vem do Chitor, e do Mandou,
terras que confinam com o Deli, e com Benguala e com o
Decam. E asi estas terras, como outras mu3'^to mais avante,
tudo he índia. E dizer que he huma espigua siria e outra
indica, não se pôde entender senão dizer que este monte
tem duas faces, huma do ponente e outra do levante ; porque
o monte ou os montes estam na índia, e a Siria está da
banda do ponente mu3'to longe. E mais he de notar que não
nasce todo neste monte, senam em muytos cabos desta re-
giam, onde o semeam; porque não nasce sem ser semeado,
senam pôde nascer sem se semear em muyto pouca canti-
dade; e he uma raiz que crece deitando huma astia curta
sobre a terra, que a maior pôde ser de três palmos, e outras
muito mais pequenas, e loguo acima da raiz deita a espigua,
e algumas espiguas vai deitando polia astia acima, e asi o
trazem a vender a Cambaiete e a Çurrate, e a Guogua* e
a outros portos do mar, onde lho compram os mercadores
Arábios e Pérsios, porque a menor parte guastamos nós.
E também a gente da terra guasta muyta cantidade, e eu
o comprei já pêra elrey nosso senhor em Dio: e algum delle
he cujo, e cheo de pó feito dos cabellos do mesmo espiqiie,
* Cambaya e Surate são portos bem conhecidos; Gogá ficava em
frente, no mesmo golfo de Cambaya, na costa de leste da península de
Kathywar.
Do espiqiienardo 295
e os mercadores que acima dixe tudo compram, e dizemme
que com o pó lavam as mãos^ nem achamos cá nesta terra
ser hum milhor que outro*, nem os que vem a vender, dizem
que o ha nos montes e nos vales, e que o dos montes he o
milhor; nem as espiguas que vem sam muyto mais grandes
humas que outras; e todas as mais nascem perto da terra;
isto he o que polia maior parte acontece. Huma cousa vos
posso certificar, que se Dioscorides vira este espique, que
nos vem e lá o mandamos, dixera que era o verdadeiro es-
piquenardo; e certo que he de maravilhar destes escritores
modernos que dizem que nam ha cinajnomo nem cassiali-
gnea, confessando que vem da índia, asi como espiqiie. Muyto
milhor dixeram que não he esta índia que elles dizem, se-
nam que he outra que nós não sabemos, por estar escon-
dida, e isto seria milhor; porque certo aver muyto das
mezinhas e valerem pouquo por causa da descuberta na na-
vegaçam os faz duvidar serem ellas.
RUANO
Nam faleis com paixam; porque Mateolo Senense he de
vosso parecer, reprendendo a Menardo, e a Fucio, porque di-
zem que nam ha verdadeiro espiqiie: mas dizeime que direis a
Plinio que diz que he huma frutice pequena e negra, e fraca,
e que hum género delia, que nasce ácerqua do rio Ganges
he de todo danada; e depois diz que o preço delia he de
90 livras, e se he quintal e de espique podese sofrer; porque
vai em Dio a vinte cinquo e a trinta crusados, não he muyto
valer a duzentos e setenta crusados, que sam 90 livras; e
dizem que o que tem as folhas grandes vai a trinta; mas, nas
Anotações de Plinio, diz Hermalao Bárbaro que nam sam
livras, senam dinheiros, porque tem esta nota como X feita,
que vai dinheiro X, isto traz mais rezam asi por o preço ver-
dadeiro desta mezinha, como o áa^ pimenta, e doutras muitas
drogas*.
* Veja-se a nota final do Colóquio.
296 Colóquio qinnquagestmo
ORTA
Eu nesta terra não vi outro espique senão este, que levam
pêra o ponente, o qual vem todo perto do Ganges, e desta
só maneira usam os físicos índios e os Turcos, e Pérsios e
Arábios, que delia vem, e habitam nesta terra, curando os
reis e príncipes. E quanto he os preços serem grandes, não
he maravilha, porque estes caminhos nam eram sabidos. E
asi que Plinio pudia nisto dizer verdade, mas não em dizer
que o espique do Ganges era em todo condenado; pois não
he outro senão este, e, se o ha em outras terras, he em tão
pouqua cantidade que não veo á minha noticia (i).
RUANO
Diz Laguna que o espique que se vende nas boticas não
he espigua, senam raiz,- e a isto não contradizem Diosco-
rides, senão dizendo que parece espigua; e mais dizem que
o espique he suspeitoso na índia, porque delle se faz huma
poçam ou composiçam venenosa chamada jczsío, o qual jcísso
dizem que mata não tam somente per dentro, senam apli-
cado per fora; e asi dizem que vem da Siria. Que respon-
deis a isto?
ORTA
Diguo que a tal composiçam chamada pisso eu nam a vi,
nem delia ouvi dizer; ante vos afirmo que, querendo o Ni-
zamoxa provar hum pouquo do licornio meu, deu a hum
homem que estava preso por caso de morte, napello; e pa-
rece ser que se pisso fora mais venenoso, que lho dera a
beber; asi que por isto e por nunqua ouvir falar neste jcmo,
nem em semelhante mezinha, aplicada por fora, me parece
fabulosa cousa, e por tal a julguo (2). E ao que dizem que vem
da Siria, diguo que vai de cá a Alepo, e de Alepo, que he
a Siria, vai a Veneza alguma parte, que se guasta em Eu-
ropa. E deste modo se entende o que diz Sepúlveda, que
o chama espica aliep, como se dixesse espigua de Alepo;
porque sempre Alepo foy cabeça da Siria, e foi a principal
escala da índia pêra o ponente, e aguora o he muito mais.
E diz Sepúlveda, que huma especia dita satiech, he satiach,
Do espiqiienardo 297
e isto quer dizer Satiguam*, que he um porto muyto cele-
brado em Benguala, onde entra o rio Ganges: e esta me-
zinha, posto que he muyto celebrada, e guastada, não acha-
mos falsificarse : somente, a que he velha, perde o cheiro
algum tanto; e por isto asi passar não temos necesidade de
falar no espiquenardo.
RUANO
Que cidade he Alepo? He por ventura Haram?
ORTA
O bispo Dom Ambrósio, penitenciário que foy do papa
Paulo, veo a esta terra polia Arábia e Turquia, comovido
com zelo de nossa fé; e sabia muito bem o arábio, e lia o
muyto bem. E conversando eu em S. Domingos, porque era
religioso da mesma ordem, me dixe que Abraham, quando
Deos o livrou de Ur, cidade dos Caldeos, veo ter a Alepo,
cidade e cabeça da Suria, e tinha muytos gados em grande
cantidade, e que dava o leite a beber a todos os necesitados
e proves, que vinham a comer e beber o leite cada dia;
e que estes quando vinham, perguntavam: yalep? que quer
dizer ordinharam ou mimgiram já? E que por isto lhe pu-
seram áquella terra este nome. E dizia o bispo que isto lhe
dixeram os antiguos de Alepo, os quaes tem que Alepo foy
abitado e senhoriado de Abraham (3).
RUANO
Poderei eu falar com esse bispo?
ORTA
Não, porque partindo pêra Portugal, morreo em Cochim
antes que se embarcase.
RUANO
Certamente que folguára de conversar esse bispo (4).
* Ou Chatígam, modernamente Chittagong, junto á embocadura
oriental do Ganges.
298 Colóquio quinquagesimo
Nota (i)
O «espiquenardo» de Orta é o ZVa.rd.ostacliys Jata-
mansij D.C., uma pequena planta da família das Valerianeí^, muito
conhecida e usada na índia desde os tempos mais remotos, como
medicamento e principalmente como perfume, e designada pelo nome
sanskritico, sTóTTRTT, jatãmansí. Orta identifica esta planta com o
celebre nardo dos antigos, spica nardi dos velhos escriptores de maté-
ria medica; e esta sua opinião é partilhada pelas melhores auctoridades
no assumpto, como são sir W. Jones, Sprengel, Royle e outros.
— O nome vulgar «cahzçara», citado pelo nosso escriptor, deve estar
muito estropiado; e apenas vagamente se parece com alguns nomes
que encontramos em Dymock, Ainslie e Piddington, como balchar, e
chehur ou chehar.
— O arábico «cembul», isto é jj-;'^-^', senbul, é perfeitamente conhe-
cido; e, segundo o uso dos árabes, juntavam-lhe o qualificativo da re-
gião senbul-i-hindi. E também natural — como Orta diz — que desi-
gnassem pelo de senbul-i-rurni, uma droga análoga, procedente das
terras occidentaes, e produzida por uma planta da mesma familia, do
género Valeriana.
O espiquenardo do commercio indiano vinha eff'ectivamente das re-
giões montanhosas do norte da índia, isto é, do Mandou e Chitor, to-
mando naturalmente estas expressões na accepção lata e um tanto
vaga, em que as tomava Orta, e a que por mais de uma vez nos temos
referido.
(Cf Jones, Asiat. Researches, 11, 405 ; e iv, 109; Sprengel, Diosc, 11,
345 ; Royle, Ant., 33 ; Ainslie, Mat. Ind., n, 367; Dymock,MíZ/. med.y^ij;
Piddington, Index, 90.)
Nota (2)
Creio que a composição venenosa, a que Orta dá o nome de «pisso»,
dizendo não a conhecer, é simplesmente a mesma cousa de que falia
logo em seguida sob o nome de napello.
É muito conhecida na índia uma droga extremamente venenosa,
chamada bish, do sanskrito visha, da qual parece que Christovão da
Costa fallou, dando-lhe o nome de bisa, e que consiste na raiz do
A-conitiiiii fei*ox, Wallich, e talvez também de outras espécies
do mesmo género. E provável que Orta, vendo applicar esta droga pelo
seu amigo Nizam Scháh, conhecesse ser a raiz de um Aconitum, e lhe
desse o nome de «napello», lembrando-se do Aconitinn Napellus da
Europa, também venenoso, posto que menos enérgico. O que elle
chama «napello» e o «pisso» seriam pois a mesma cousa; e unicamente
succedia, que o nosso medico não havia estabelecido a identicação entre
Do espiqiienardo 299
as duas drogas venenosas (cf. Pharmac, 12; Dymock, Mat. med., i.
Chr. da Costa, Tractado de las drogas, 90).
Nota (3)
D. fr. Ambrósio de Rontecalli, natural da ilha de Malta, foi enviado
á índia pelo papa Paulo IV, com o titulo de bispo Aurense, e poderes
de legado a latere. Viveu algum tempo em Goa, naturalmente no con-
vento de S. Domingos a cuja ordem pertencia, gosando a fama de ho-
mem instruído, não só de grande theologo, como de bom mathematico
e orientalista distincto. Morreu effectivamente em Cochim, quando se
dispunha a partir para Portugal (cf. fr. Lucas de Santa Catharina, Hist.
de S. Domingos, iv parte, gSo, Lisboa, lySS).
Excede muito a minha competência a discussão da etymologia, dada
pelo erudito bispo ao nome da conhecida cidade da Syria. Unicamente
notarei, que a forma arábica do nome Alepo ou Aleppo é --^i^»-, Haleb;
e se approxima ou é idêntica a alguns tempos do verbo mungir ou
ordenhar. Os arabistas decidirão se o bispo tinha rasão, e se esta de-
rivação é possível e está no espirito da língua.
De resto, aos que se não contentarem com a etymologia do bispo,
podemos fornecer outra, muito mais singular. E a do conhecido via-
jante e naturalista francez, contemporâneo de Orta, Pedro Bellon: diz
elle, que assim como Aleph é a primeira lettra do alphabeto, assim
aquella cidade se chamava Halep, por ser a primeira da região em que
está situada (Petri Bellonii Observationes, versão latina de Clusius, nos
Exotic, i55).
Nota (4)
Orta deu-se a bastante trabalho para averiguar a concordância dos
preços das drogas, correntes no seu tempo, com os mencionados na
Biblia, e em livros antigos, como o de Plinio. Foi procurar esclareci-
mentos a um trabalho clássico e celebre sobre a matéria, escripto pelo
erudito Guilherme Budeo : De Asse et partibus ejus libri quinque, do
qual vi a edição de i533. Devo, porém, confessar francamente, que não
procurei ali a «conta de Budeo», nem apurei se o resultado a que Orta
chegou é exacto.
Sobre o mesmo assumpto, Orta consultou também as Castigationes
Pliniance de Hermolao Bárbaro, onde, nas Castigationes secimdce, no-
tas ao Livro xii (edição de 1493), encontrou a discussão dos preços do
nardo, e a explicação de que o signal X significava o dinheiro, «dena-
rium ostendat». Esta explicação foi-lhe útil, porque — como antes no-
támos— elle se havia equivocado no CJoloquio da pimenta sobre a si-
gnificação d'aquelle signal.
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO PRIMEIRO
DO ESPODIO
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Entra o espodto em tantas composições feitas pelos Ará-
bios^ tam doutos e esperimentados, que nos faz duvidar po-
derem as composições que o levam, tomarse polia boca o
espodio dos antigos Gregos, pois he metal (e pêra isto vie-
ram a usar os Latinos de oge de outro espodio, chamado
asi dos Arábios)*; e por esta causa queria saber de vós, que
espodio he este que cá usam os físicos.
ORTA
Nam ha mais que hum espodio no mundo, ou pomfolix
ou tutia; e por falta deste tomavam outras mezinhas os
Greguos, e chamavamlhes antispodio, que quer dizer espodio
falso, ou contrafeito; mas os Arábios não fazem mençam
deste espodio, senam debaixo do nome de tutia, ou pomfolix,
nem de antispodio fazem alguma mençam.
RUANO
Pois donde nasce esta distincam de chamar a uma mé-
zinha espodio dos Greguos, e a outra espodio dos Arábios?
ORTA
De Davo Terenciano**, que conturbava todas as cousas:
e este Davo foi Gerardo Cremonense, que trasladou, em
* Toda a phrase é extremamente incorrecta; mas o sentido fica bas-
tante claro.
•* Davus, escravo de Simo, personagem de uma das comedias de
Terêncio.
3o2 Colóquio quinquagesimo primeiro
lugar de tabaxir, espodio, não tendo semelhança com elle
alguma, nem na obra hum do outro, que não seja mais de-
ferente do que he branquo com preto. E não tam somente
errou elle nisto, mas todos os que tresladaram os livros de
arábio en latim, dizem tabaxir, scilicet, espodio, e aquella
exposiçam não he do escritor, senão do tradutor.
RUANO
E parecevos mal, falecendo hum nome, fazerem impo-
siçam de outro em seu lugar?
ORTA
Não, se aquelle nome não significar outra cousa muyto
deferente no parecer e na obra, porque estas equivocações
dam causa a muytos erros, e porque os da física sam mais
periguosos, sam estes maiores erros.
RUANO
Pêra isso dizei o que he o tabaxir, segundo os doutores
e a gente desta terra.
ORTA
O que OS Arábios chamam tabaxir, he nome tirado da
linguoa da Pérsia; e dahi o tomaram os Arábios, asi como
Avicena e outros. E tabaxir quer dizer leite, ou çumo, ou
humidade, que invernou ou demorou em alguma parte; e
por este nome he conhecido de toda a Arábia e Turquia,
e Pérsia.
RUANO
E se esta mezinha he da índia, como se chama nestas
partes ?
ORTA
A gente, onde a ha, a chama sacarmambum, que quer
dizer, açucare de mambiim, porque áquellas canas daquella
arvore chamam os índios onde nasce, mamhú. E porém já
lhe chama aguora a gente da terra tabaxir; porque debaixo
deste nome lho pedem os Mouros, que o vem comprar da
Pérsia e da Arábia, e da Turquia, que se leva a estas re-
Do espodio 3o3
giões por mercadoria; e vai muito, quando falece, e pouquo,
quando vai muyto a venderse; que asi sam todas as merca-
dorias; mas o preço ordinário na Pérsia e Arábia he a peso
de prata.
RUANO
Como sam as canas e os arvores que as criam? E elle
como se tira e he feito? E em que terras é a força e a can-
tidade destas canas?
ORTA
Ha huns arvores grandes, e altos tanto como freixos, e
outros mais pequenos, e isto ha em Bisnaguer e suas terras,
e no Malavar também; e tem os ramos direitos polia maior
parte, senão alguns delles, que vem de boa feiçam, que en-
tortam e acorcovam, pêra fazer as canas dos palanquins e
andores que na índia se usam. Tem entre nó e nó estas
canas cantidade de um palmo, e a folha pouco mais comprida
e larga que a da oliveira nossa; e nestas canas, scilicet,
nos nós, se gera huma humidade grossa que parece como
o amidam, quando está muyto .coalhado; e asi he branca,
e ás vezes he mu3'ta, e ás vezes pouca, como a que nasce
dentro das canas de escrever, a que os moços, em linguoa
portugueza, chamam ladrão. E por o que vos dixe vereis
que nam he raiz de canas nossas queimadas, como dizem
alguns Arábios.
RUANO
Vistes já o tabaxir nas canas? E como he algum delle,
preto ou cinzento?
ORTA
Vi muytas vezes, posto que poucas canas o tem; e sam
as de Bisnaga e Batecalá, e de algumas do Malavar: e a
gente da terra, scilicet, os carpinteiros, quando as lavram
para fazer algum madeiramento, se acham dentro este çumo
basto ou miolo, põemno loguo poUos lombos e rins, e na
fronte se lhe dóe a cabeça, e se o senhor da madeira não
lho toma. E algum delle he preto e cinzento, e nam se tem
por pior; porque he de estar muito na cana, e a humidade
o fazer daquella cor. E já tive por certo em algum tempo,
3o4 Colóquio quinqiiagesimo primeiro
que porque punham foguo ás canas, ficava daquella cor,-
mas depois soube a verdade, porque ás vezes não põem fo-
guo no mato das canas e muytas delias o dam, que nunqua
viram foguo; por onde parece ser a verdade ser da muita
humidade que corre a elle: e asi me foy dito a mim por ín-
dios da terra.
RUANO
Pois os Arábios e Latinos falaram somente neste simple,
pouquo trabalho tereis de me fallar nisso, decrarando o que
dizem-, e dizer onde dizem mal e onde bem.
ORTA
Rasis, posto que fala no tabaxir*, não diz de que he feito,
senão o pêra que aproveita. Serapio diz** que he sataxir
ou mais direitamente espodio; e diz o pêra que aproveita,
aleguando a Rasis, o qual Rasis alegua a Galeno; e diz nisto
bem, mas tal cousa nunqua escreveo o Galeno, nem outro
Grego algum. Mas isto não se pôde tirar a Serapio, ale-
guar a Galeno e a Dioscorides, onde nunqua falaram cousa
alguma; e também diz, aleguando ao mesmo Galeno, que
no sabor he amarguo, no qual erra manifestamente, mas
antes he doce; e por esta rezam, como Já vos dixe, lhe cha-
mam os índios açúcar de mambu E quanto he a não lhe
chamar tabaxir, senão sataxir, nisto nam errou, porque Sa-
rapio tabaxir escreveo, e o tempo corrompeo o nome. E
em dizer, ou mais direitamente espodio, o erro que nisto
se cometeo foy do trasladador, que pôs aquillo de mais da
sua casa. Avicena diz*** que sam raizes de canas queima-
das, o qual vedes ser falso; e nem as canas sam das nossas,
e o Belunense diz que ha de dizer alcaná por outra letra, e
que alcaná he o arvore das canas de que se faz o espodio,
* Rasis, Tratatus, 3, cap. 36 (nota do auctor).
** Serapio, cap. 342 (nota do auctor).
•»* Lib. I, cap. 617 (nota do auctor).
Do espodio 3o5
c nisto faz no seu chamado Vocabulário huma discriçam do
arvore,' mas eu nunqua achei quem lhe chamase este nome
nesta terra. E quanto mais que nem as raizes das canas he o
tabaxir; asi que em ambas traduções erra Avicena. Avcnr-
rois diz* que he carvam dos nós das canas queimadas da
índia, donde parece que o não vio, pois a cousa tam branca
chama carvam.
RUANO
E que vos parece destes homens errarem?
ORTA
Pareceme que o trato e navegaçam não era tam usada; por
onde aviam as enformaçóes falsas e curtas. E diz Valério
Codro** muyto mal dos Arábios, porque fazem o espodio
das raizes das canas, sendo espodio metal ou feito de metal.
E nisto não diz bem, porque os Arábios, como vos dixe,
não conheceram tal nome, senão tutia, e desta escreveram,
conforme aos Greguos. António Musa diz que Avicena usou
do espodio de canas, porque não tinha o de metal (bem vedes
que nunqua falece tiilia nem metaes, mas não usaram delia
tomada por a bocca) e mais diz que nós não aviamos de
usar deste espodio, pois he contrafeito e falso, e diz que nam
faltaram escriptores modernos, como Menardo e outros, que
dixeram que de nenhuma cousa se faz espodio senam dos
metaes. E nisto se enguanou muyto, porque Dioscorides en-
sina a fazer espodio no 5 livro. Mas de todas estas cousas
he livre Avicena; porque não falou senão tabaxir, e nam
sonhou que havia de ter falso tradutor; e pois trabalham
todos na equivocaçam destes nomes, scilicet, espodio, avendo
de significar duas cousas. E ao fim diz que usemos do es-
podio de canas de Avicena, ou de coraes queimados, ou de
marfim queimado, ou de ossos de elefante queimados. Vede,
senhor, quantos erros se pudiam escusar, se olhasem estes
• Coliget, 5 (nota do auctor).
• •Valério Codro (nota do auctor); aliás Valério Gordo.
20
3o6 Colóquio qiiinqiiagesimo primeiro
homens a composiçam; e se for de Greguo, usar do espodio
verdadeiro de metal, e se for de Arábio usareis deste espodio,
que levareis da índia, que eu volo averei; e se for Latino
que receita a composiçam, vereis se he mezinha que se ha
de tomar por dentro ou por fora, e usareis conforme a en-
tençam do escritor, que fez a composiçam; porque loguo
se verá, se querem esfriar coraçam, ou cérebro, ou fígado,
ou rins, ou se querem restringir alguns fluxos; e se asi for
bem he usar do íabaxir da índia. Muytos doutores simpli-
cistas, e copiladores de mezinhas vos trataram sobre esta
matéria; mas casi todos falam de huma maneira; porque
os que dizem que menos mal he tomar espodio feito das
raizes das nossas canas, erram, porque isto não he mezinha
cordial, como he o espodio, nem esfria, como o tahaxir; e
dizer que o façam de coraes ou marfim queimado, se essa
fora a entençam, bem o pudera dizer Avicena e os outros.
E os que dizem que se faz de ossos de elefante, eu sei certo
que não aproveita pêra cousa alguma: e quando morre algum
elefante, comemlhe os Gentios a carne, e deitam os ossos
a longe. Pois como os aviam lá de levar a Europa a vender?
RUANO
Aveis dito muito bem: e por isso o levarei de cá. Per fim
queria saber de vós como usam esta mezinha os físicos ín-
dios, e os dos reis, e os da Pérsia e Arábia e Turquia;
porque com isto fícarey satisfeito.
ORTA
A gente da terra, que sabe física, guasta este tahaxir pêra
os esquentamentos interiores e exteriores, e pêra as febres
coléricas, e pêra as camarás: e os fízicos que tem o Niza-
moxa. Arábios e Persas e Turcos, o usam pêra as mesmas
cousas ditas, e muyto mxais pêra fluxos coléricos, e fazem os
nossos trociscos com semente de azedeiras (i). E deste modo
curei, per conselho de Nizamoxa, a Franguecham Português
(chamado Sancho Pirez) natural de Matosinhos; o qual era
tam querido e privado seu, que o via cada dia, e lhe oulhava
Do espodio 307
as camarás; e nam fiava a cura deste homem senão de mim,
porque avia medo, que lho matasem os físicos, por ser pri-
vado seu.
RUANO
Muyto lhe devia querer. E era mouro ou cristam? E tinha
muyta renda?
ORTA
Ao que me dizia em secreto era christam, e comia co-
miguo as cousas vedadas aos Mouros, e rezava, e dizia mal
delles; e não era circumciso, posto que todos cuidavam que
si, mas eu o vi e nam o era: mas asaz de mal tinha, pois con-
fessava ser mouro, e este morreu com 6 mil crusados de
renda. He verdade que desta renda paguava á gente com
que era obriguado a servir, e certo que se o diabo o não
levara primeiro em o combate de Calabarga, me tinha pro-
metido de vir comigo; e eu já lhe tinha ávido perdam se-
creto do visorey Dom AíFonso de Noronha. E elle fazia
muytas esmolas a Portuguezes, e_a Misericórdias, e a outras
igrejas, de que eu sam testemunha (2).
Nota (i)
Orta começa por estabelecer a distincção entre a substancia vegetal,
impropriamente chamada espodio pelos traductores dos árabes, e o es-
podio, spodo ou spodio dos antigos escriptores gregos e latinos, análogo
ou idêntico ao pompholix e á tutia, substancias mineraes.e absoluta-
mente diversas da primeira. Como elle volta a tratar da tutia em um
Colóquio especial, reservamos para então o que ha a dizer sobre estes
óxidos metallicos
O espodio vegetal ou tabaschir, que faz o assumpto d'este Colóquio, é
uma conhecida concreção siliciosa, depositada nas cavidades dos entre-
nós dos bambus : Ba,nil>usa 0,1*111x01110.06»., Retz., e, segundo
dizem, de outras espécies do mesmo género. Não é, no emtanto, uma
substancia muito vulgar, pois, como já Orta advertia, se não encontra
em todas as plantas, e só excepcionalmente em algumas, desenvolvi-
das em condições especiaes de vegetação.
Bo8 Colóquio quinquagesimo primeiro
É geralmente conhecida no Oriente pelo nome persa, j^Lls, ta-
baschir, derivado do sanskrito ç^=f)Tt U I, tvak-kshírã, e cuja ultima
parte significa leite, como Orta nota acertadamente.
Derramaram-se sobre esta substancia vastos thesouros de erudição,
por isso que alguns escriptores dos séculos passados e já do nosso, como
o eruditíssimo Salmasius, e depois Sprengel e vários mais, suppozeram
ser este tabaschir, e não o vulgar assucar, aquillo de que Dioscorides
e depois Plinio fallaram sob os nomes de ffóxyafov e de saccharum. Posto
que o nome do assucar se não derive primitivamente do sabor doce,
e a palavra sanskrita sarkara, da qual procedem todas as designações
posteriores (o nome portuguez vem pelo árabe, e conservando o artigo,
as-succar), se applique á forma granulosa da substancia crystallisada,
é certo, que tanto Dioscorides como Plinio se referem ao seu sabor
doce, quando classificam o aic/apov ou saccharum como uma espécie de
mel. O tabaschir não é sensivelmente doce, e esta simples mas impor-
tante circumstancia, leva a maior parte dos escriptores mais modernos,
Royle, Yule, Dymock e outros, a julgarem que aquelles antigos auctores
se referiam effectivamente ao assucar, do qual tinham, no entanto, um
conhecimento muito incompleto.
O tabaschir é, como dissemos, uma concreção siliciosa, na qual pa-
recem entrar 70 por cento de silica, e que se apresenta em fragmentos
irregulares de côr branca ou azulada, e um tanto opalina. Ás vezes, a
substancia bruta, encontra-se denegrida e suja, o que parece resultar,
contra a opinião de Orta, de haverem lançado fogo aos bambus, sendo
então necessário calcinal-a para a purificar. Gosa esta substancia, no
Oriente, de grande e mal fundada reputação medicinal, sendo consi-
derada pelos hindus como um tónico poderoso, e tida pelos árabes e
persas na conta de adstrigente, fortificante e cardíaca. Entrava natural-
mente este tabaschir ou espodio em varias composições da pharmacia
árabe, que por muito tempo deu a lei na Europa; mas a substancia
era rara, e por isso lhe substituíram a maior parte das vezes aquelles
succedaneos variados, de que Orta falia, as raizes das cannas, e o coral
ou o marfim queimado. Na Pharmacopéa de Barcelona (1587) nós ve-
mos, por exemplo, como por spodio se deve sempre entender o marfim
queimado : spodium Arabum sunie, hoc est Ebur ustum.
(Cf Dymock, Mat. med., 856; Ainslie, Mat. Ind., i, 419; Amaraco-
cha, I, 227; Royle, Atit., 83; Yule e Burnell, Gloss. v. sugar e tabas-
heer; Concórdia pharmac. barcinonensium, 73.)
A propósito do tabaschir, Orta descreve naturalmente as plantas de
que se obtinha, comparando-as com os freixos, unicamente na altura,
está claro, e assimilhando a íórma da folha á da oliveira. Nota que os
ramos (colmos) eram direitos, a não ser alguns, que artificialmente cur-
vavam para depois servirem nos palanquins.. Esta forma, regularmente
curva, pode observar-se nas curiosas estampas dos palanquins, usados
Do espodio Sog
pelos portuguezes de Goa, e que illustram o livro de Linschoten, A parte
mais interessante do que Orta diz do bambu, é o nome de mambum ou
mambu que lhe dá, e cuja origem é pouco clara. Os primeiros portugue-
zes, no começo do século, não dão nome especial á planta, chamando-lhe
simplesmente canas, e notando apenas quanto eram grandes e grossas,
comparadas com a Arundo do sul da Europa. O nome vulgar no Canará,
segundo Wilson — citado por Yule — parece ser bãnbú, de modo que
não é fácil saber d'onde veio a forma usada por Orta. Poucos annos
depois (iSyS) Costa emprega a mesma forma manbu ou mãbu; e no
fim do século (ogS) Linschoten, pelo menos na versão latina, dá as
duas formas : ea ab Indis Manbu, a Lusitanis Bambu vocatur. D'esta
passagem de Linschoten, se não foi influenciado, como muitas vezes
é, por Orta, resulta que o nome indígena «seria manbu. O que parece
certo, é que a palavra foi introduzida no uso europeu pelos portugue-
zes (Cf. Yule e Burnell, Gloss. v. Bamboo; C. da Costa, Trac/íiio, 296;
Linschoten, Navigatio, 67).
Nota (2)
Sobre este curioso typo de aventureiro portuguez do xvi século, te-
mos, além das interessantes noticias, que nos dá Garcia da Orta n'este
Colóquio, as que nos fornece Diogo do Couto.
Sancho Pires era um portuguez do. norte, natural de Mattosinhos,
que passou á índia como soldado, artilheiro, ou — na linguagem do
tempo — bombardeiro, o que tornava os seus serviços mais apreciados,
pois os bons bombardeiros eram raros, e nós vemos algumas vezes alle-
mães e flamengos, contratados para este mister. No governo de Nuno
da Cunha, passou para o serviço do Nizam Scháh, levado pelo seu es-
pirito inquieto, ou, o que é mais natural, por haver commettido algum
crime, ou algum acto de indisciplina. Estas deserções não eram frequen-
tes, mas poderíamos citar outros exemplos. Devemos dizer desde já, em
abono de Sancho Pires, que o Nizam Scháh esteve quasi sempre em
paz com os portuguezes, e elle não teve de voltar as armas contra os
seus. Sancho Pires parece ter sido um valentão, tendo alem d'ísso ver-
dadeiras qualidades de commando, de modo que chegou a general de
cavallaria, obtendo muita importância na corte de Buhran, e recebendo
o titulo de Frangue khan*. Havia-se feito mussulmano, unicamente
pelos seus interesses, mas sem zelo pela sua nova religião, pois em
segredo se dizia christão, e quando jantava com Garcia da Orta comia
' «Tringuican» diz Couto ; mas era evidentemente Frangue khan. Foi uso entre os mou-
ros deiíar o nome da nacionalidade como distinctivo; assim nós vemos o famoso Rumecão
dos livros ponuguezes, Rume khan, um Rume ; e Tatar khan, um Tártaro; d'ahi Frangue
khan, porque Sancho Pires era um Frangue.
3io Colóquio qiiinquagesimo primeiro do espodio
todas as «cousas vedadas aos mouros». Conservava também escrúpulos
da sua apostasia, e não só mandava esmolas ás misericórdias, como
dissuadia alguns outros christãos de mudarem de religião, mostrando-
Ihes «as obrigações que tinham á lei de Christo». Em summa, parece
ter sido um homem de valor e um bom homem; Diogo do Couto falia
d'elle com muita consideração, e Orta com uma certa amizade.
Buhran Nizam Scháh morreu no anno da hedjira 961 (de J. C. i553),
posto que Diogo do Couto colloque a sua morte no de i555. Deixava
diversos filhos, entre elles Hussein da sua favorita Amina, e outros de
Biby Mariam, irmã do Adil Scháh de Bijapuri. Desejava, porém, que
Hussein lhe succedesse, e entregou-o aos cuidados do seu general e
valido Sancho Pires, o qual o coUocou no throno. O historiador persa
Ferishta não falia de Sancho Pires, pois os mussulmanos guardam ge-
ralmente silencio sobre a intervenção dos christãos nos seus negócios;
mas confirma indirectamente esta noticia de Diogo do Couto, dizendo
que Hussein foi sobretudo apoiado peio partido dos estrangeiros, abe-
xins e outros. Os demais filhos de Buhran fugiram, e o reino obedeceu
a Hussein, ou antes, segundo parece, a Sancho Pires, o seu principal
sustentáculo. Poucos annos depois (967 da hedjira, iSSg de J. C), susci-
tou-se a guerra entre o Adil Scháh, que, alem de outras rasões, pro-
movia os direitos dos sobrinhos ao throno, e o Nizam Scháh, alliado
então com o «Cotamaluco», isto é, com o Qutb Scháh de Golconda.
Sancho Pires commandou n'essa guerra o ataque contra a fortaleza
de Calabarga (Kulbarga), e morreu na brecha como um valente, le-
vando-o o diabo, segundo diz Garcia da Orta, apesar da evidente sym-
pathia que por elle tinha.
Vé-se também do Colóquio, que Sancho Pires havia pensado em
voltar para o serviço de Portugal, servindo-lhe de intermediário Gar-
cia da Orta, o qual, já no governo do vice-rei D. Affonso de Noronha
(i 550-1554), lhe havia obtido um perdão secreto.
(Cf. Couto, Ásia, VII, iv, 9; Ferishta, Hist. of the rise ofthe mahome-
dan power in índia, lu, 236 a 239.)
' Veja-se Garcia da Orta e o seu tempo, pag. 228.
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO SEGUNDO
DO ESQUINANTO '
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Dizem em Portugal que o esquinanto (he mezinha nas
boticas usada) vem da índia; e também em Castella dizem
que vem de levante. Queria saber os nomes delia, scilicet,
na terra onde nasce, e no arábio; porque o greguo e latino
eu o sei, como vós, não tomeis trabalho em mo dizer. E
também me direis as terras onde sabeis que nasce, e se o
usam muyto os físicos Indianos.
ORTA
Asinha sereis nisso servido e -despachado, senão vierdes
çom vosso contraponto ao cabo.
RUANO
Isso não se escusa; por tanto começai em ora boa.
ORTA
Nasce em Mascate e Calaiate (terras da Arábia) onde
ha tanto, como a erva comum que pacem as bestas em
Espanha; e ali lhe chamam cachahar, e alguns lhe chamam
haxiscaçule, que quer dizer erva pêra lavar; e em Pérsia,
que confina com as ditas cidades, se chama alaf, que quer
dizer erva, e podese chamar asi por excelência: cá na índia
não tem mais nome que erva de Mascate; em portuguez,
em latim e greguo já o sabeis. E chamamlhe em nossa terra
palha de Mequa, e não erram muyto, porque esta terra,
posto que por mar seja muito distante de Mequa, indo por
terra he muyto perto; e vam lá os Arábios de Mascate e
3i2 Colóquio quinquagesimo segundo
Calaiate em pouquo tempo: também não erram mu3to em
a chamar palha ou pasto de camélias, porque os ha na terra \
mas nam tantos que guastem a erva e a frol; mas ha muytas
mulas, e asnos e cavalos, que cá chamamos arábios, de
muito preço; e ha muytas vacas e cabras e ovelhas, e pa-
cem esta erva, que he muyta em toda a terra. Vem á índia
pêra mezinha encomendada dos boticairos, mas a mais delia
trazem nas náos os mercadores de cavalos pêra lhe deitar
aos pés, pêra que nam cheire mal a orina e o esterco delles;
e pêra isto trazem fardos, porque como se molha e dana
a erva, deitamna ao mar, e tornam a deitar outra aos pés
dos cavallos. E também alguns marinheiros a trazem em
fardos, pêra vender cá; e eu ouve muitos fardos em Dio,
por pouquo dinheiro, pêra mandar ao reino com outras dro-
gas. E porque vos dixe que se chamava cachabar, não neguo
ter outros nomes nas partes da Arábia, porque Avicena* a
chama adhar, e Serapiam»* adJier; e deste modo a chamam
também os físicos Arábios e Pérsios, que ha na índia; e á
frol chamam yòca,- e desta frol vem pouqua a esta terra ou
nenhuma, porque eu não a vi, e na terra donde nasce não
fazem caso delia, polia gente ser silvestre e de pouquo saber;
e se lhe chama Mateus Silvatico a:{qchir e adcaram, sam
nomes corrutos. Nesta terra não usam dessa mezinha os
naturaes, senão nós e os Arábios e Pérsios; e na terra donde
nasce he comum mezinha, pêra se lavarem os homens e os
animaes.
RUANO
Aguora nos resta examinar os escritores. E começando
por Dioscorides***, por sua autoridade, diz que o ha na
Africa, scilicet, na Arábia, parte delia, e na regiam dos Na-
bateos, donde vem mais excellente; e diz que, loguo após
* Avicena, Lib. 2, cap. 589 (nota do auctor).
»* Serapio, cap. ig (nota do auctor).
*** Dioscorides, Lib. i, cap. 16 (nota do auctor).
Do esquinanto 3i3
elle, he o arábio, chamado babilónico de alguns, e de ou-
tros tcuchites; e o pior de todos he o que nasce em Africa,
e a frol he mais em uso na física. Sabeis se o ha nestas
partes?
ORTA
Sei que o ha nestas partes ditas, e que todas se nomeam
Arábia. E quanto he á terra dos Nabateos, saber se o tem
ou não, diguo que he Nabatea província da Arábia perto da
Judéa (dita assim de Nabatoch, neto de Ismael), e dixeram-
me físicos, que estiveram em Jerusalém e Galilea e nessas
terras, que o que se guastava em ellas vinha do Cairo; e
pergunteilhe se o avia no Cairo, ou se vinha da costa de
Mascate, disseram que nam o sabiam, mas que muitas ve-
zes as ervas medicinaes nam eram sabidas, polia gente da
terra ser pouquo curiosa, e por isto o nam sabiam: e esta
foy a causa porque não perguntei se o avia em Babilónia:
e pôde ser que o aja nella, e pois Dioscorides diz que o peor
he o que nasce em Africa, não curemos de saber se o ha;
pois não diz em que parte da Africa nasce. E ao que diz
da frol, que he o que mais se usa, confesso ser verdade,
mas não sam os médicos curiosos pêra a mandarem trazer.
E eu me culpo nisso, porque por isto se perdeo o uso delia;
e bem sei que esquinanto he vocábulo corruto greguo, que
quer dizer frol, e per excelência se chama asi acerca dos
Greguos, como vós melhor sabeis.
RUANO
Outros o chamam Jimco odorato, ou casi todos os Gre-
guos, e Cornelio (Zúso junco redondo.
ORTA
Assi parece algum Xd^nto junco; posto que não crece tam
alto. E chamarlhe Celso junco redondo, he por fazer dife-
rença do junco triangidar; e os outros junco cheiroso, por
fazer deferença áo junco comum, de que usamos. E também
diz Avicena que hum he arábico, e que he de bom cheiro,
3 14 Colóquio quinquagesimo segundo
e outro da terra de Agiami, e este he o de Damasco. E
porém não sei se o ha nessas partes, como vos já disse.
RUANO
E também diz Avicena* que o esquinanto tem fruto negro,
aleguando a Dioscorides. He falso, nem tal diz Dioscorides.
ORTA
Pode ser que seja depravado o livro, ou que o Diosco-
rides, por onde o leo, estava errado.
RUANO .
Serapiam diz**, aleguando a Bonifá, que o esquinanto he
huma erva que tem raizes debaixo da terra, e que tem muitos
ramos delgados e duros, que he assi como a raiz do chulem,
senão que he mais largua, e tem menores nós, e que tem
o fruto semelhante ás flores das canas, e que o mais sutil
he menor; e diz que poucas vezes nasce só, que quando
virdes huma planta destas parecem muytas ao redor, e que
nasce em ilhas e prados; e que quando se seca fica branco.
ORTA
Diguo que não he planta, senam erva* * *, como elle mesmo
diz mais abaixo, nem nasce cm ilhas, nem cheira a rosa,
mas tem bom cheiro; e isto quando he fresca a erva, senam
as cousas que cheiram bem não fazem nellas a comparaçam
muito certa, e mais parecese tanto á raiz da erva chulem****
que alguns chamam asi ao esquinanto, como acima disse.
RUANO
Mateus Silvatico diz que se conserva por lo annos.
• Avicena, Lib. 2, cap. 5g8 (nota do auctor).
** Serapio, i, cap. 19 (nota do auctor).
*** Orta toma a palavra /«/anía no sentido de arbusto.
*»** Ignoro que planta Orta designa por este nome.
Do esqutnanto 3i5
ORTA
Diguo que nesta terra, ao longuo do mar, dura pouquo;
e porém nas outras terras pôde durar muyto, por ser erva
que não tem muyta humidade; mas isto se entende nam
lhe ficando o cheiro.
RUANO
António Musa diz que nasce na Apulha.
ORTA
Pode ser verdade, se elle o vio.
RUANO
Depois de falar em os Frades, em dizer que não he frol,
senam raiz e palha, e que aquella palha que nas boticas se
vende por esquinanto não o he (como muytos doutos o tem),
e que nam he o de Dioscorides, oulhando os signaes que
delle põem, e que muytos crêem que a raiz do calamo aro-
mático he a raiz do esquinanto; e também diz que outros
tem que a raiz da galanga he a do esquinanto, e que Junco
aromático e calamo aromático não devem ser muito defe-
rentes por a semelhança dos nomes.
ORTA
Bem pode ser que todos os sinaes de Dioscorides nam qua-
drem ao esquinanto, mas o esquinanto he o mesmo que sem-
pre foy, e asi lhe chamam fisicos letrados do Nizamoxa, e á
frol foca, e confessam ser estes nomes greguos; e asi, poUos
nomes gregos, o chamam esquinanto; e estes homens sam
Arábios de naçam. Ora não sei que mais prova quereis; e
mais Dioscorides não o avia de conhecer tam bem, como os
de Mascate, e isto porque Mascate por terra não he muito
longe de Meca. E ao que diz que he calamo aromático, bem
se parece esquinanto hum com outro; porque este parece
junco, e o calamo aromático tem as folhas como lirio, e o ca-
lamo he muyto mais quente, c tem a raiz muyto maior; e o
esquinanto nasce em Mascate, e o calamo na índia, donde o
levam por mercadoria pêra a Arábia. E dizer que he galanga
he pior dito, porque a galanga ha na China duas mil leguoas
de Mascate; e as raizes e folhas sam muyto deferentes, por-
3i6 Colóquio qiiinquagesimo segundo
que aqui ha em Goa galanga semeada. E mais o esquinayito
he nacido na terra muyto e sem se semear, e a galanga e
calayno sam sativos; ao menos sei dizer que os que derem
calamo e galanga por esquinanto, que vão enguanados no
preço, que custam mais estas mezinhas que o esquinanto
duas mil vezes. E o que seria bem pêra curarmos, á vontade
destes homens que escrevem, era bem que fizessem huma
pratica nova, por onde curasemos, e que não levasse ne-
nhuma mezinha destas, em que Fuchio* tem duvida; mas eu
vejo que os que escrevem aguora, destes modernos, usam
das mezinhas na sua pratica dos Arábios, pondo tanta du-
vida nellas (i).
RUANO
Não tomeis tanta cólera, que os homens am de dizer em
que duvidam; e quando estam protervos e pertinaces, dan-
dolhe boas rezões, entonces sam de culpar. E portanto passai
avante, e falemos nos tamarindos, pois sam tanto medeci-
naes, e ao guosto aprazíveis.
* Aliás Fuchsio.
Nota (i)
O «esquinanto» é o Anclropog-on lanigei*, Desf., uma
planta da família das Graminece, de larga distribuição geographica,
pois se encontra espontânea desde a Algéria, pela Arábia e índia, até
ás alturas do Thibet.
Esta droga foi chamada cy.iW/ pelos antigos gregos, e depois com
referencia á flor, oyoívwv ívôo;, ou por contracção cr/oívavôo;, donde fize-
ram na baixa latinidade squinanthum, e herba squinanthi ou schcenan-
thi; foi igualmente conhecida pelas designações de/cenum camelorum,
e de juncus odoratus. Orta conhecia todos estes nomes, ou parte d'el-
les; e menciona também outros, de procedência oriental, cuja identi-
ficação nem sempre é fácil fazer.
— O nome, usado pelos antigos escriptores árabes de matéria me-
dica, parece ser ^.51, adhkhar, o «adhar» e «adher» de Orta; mas mais
modernamente cita-se na forma ^á:^! askher, ou i:;khir, que deve ser o
«azqchir» de Mattheus Silvatico, que o nosso escriptor diz estar «cor-
ruto«.
Do esquinanío 317
—Não encontrei propriamente a designação «haxiscaçule», appli-
cada a esta droga; mas Scaligero diz que ,J~^ ^A-^, haschisch
ghesale, tem effectivamente a significação de «herva para lavar», herba
lotoria. E no Makhzan-el-Adwiya —citado por Dymock— diz-se que
a herva, reduzida a pó, é empregada nos banhos para os perfumar, e
chamada na Mecca ghusúl, que é evidentemente o ghesale de Scaligero
e o «caçule» de Orta.
—O persiano «alaf», nem parece ser persiano, nem significar herva;
mas é arábico ^_^, 'alaf, e significa comida ou pabulum, ligando-se
pois ás conhecidas designações de «pasto dos camellos», ou fcemim
camelorum. Deixo esta ultima indicação, assim como a anterior, sob a
. inteira responsabilidade de Scaligero.
O squinanto era uma droga bastante conhecida, relativamente á
qual se não haviam feito muitas confusões, de modo que Orta teve
unicamente de affirmar, que não era o calamo aromático, nem a ga-
langa, drogas effectivamente muito diversas, das quaes elle, de resto,
já havia tratado em Colóquios anteriores. Esta, de que agora trata-
mos, tinha varias applicações medicinaes, sendo considerada diurética,
sudorífica, expectorante e com varias outras propriedades. Desappare-
ceu ha muito da matéria medica europêa; mas encontra-se ainda hoje
á venda em todos os bazares da índia.
^ Posto que a espécie Andropogon laniger exista espontânea na índia,
não parece ser muito commum, nem muito conhecida, de modo que
ainda modernamente aquella droga vem para os bazares da índia dos
portos do golpho Pérsico, como no tempo de Orta vinha dos da Arábia.
Orta cita dois portos da costa de Oman, Calaiate (Kalhat) e Mascate,
ambos muito conhecidos, dizendo que, por terra, não ficavam muito
longe da Mekka, o que era forçar bastante a geographia.
Devemos notar ainda, que o squinantho, hoje correctamente identi-
ficado com o Andropogon laniger, foi já no nosso século considerado
como sendo uma espécie diversa do mesmo género, Andropogon Schce-
nanthiís, Linn.,que d'esta errada identificação derivou o seu nome scien-
tifico. Esta ultima espécie é hoje largamente empregada na fabricação
de um óleo volátil, chamado rúsa, ou rosa; mas não era conhecida,
nem tinha applicação no tempo do nosso escriptor, que naturalmente
a não menciona.
Varias outras espécies do mesmo género Andropogon existem na
índia, e foram ultimamente enumeradas em uma interessante publica-
ção por mrs. Lisboa, uma senhora de Bombaim, mas de familia portu-
gueza.
(Cf. Sprengel, Dioscorides, 11, 354; Exoticorum, 25o; Ainslie, Mat.
Ind., I, 58; Dymock. Mat. med., 85o; Mrs. J. C. Lisboa, Short notes on
the odoriferous grasses r Andropogon) of índia and Ceylon.)
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO TERCEIRO
DOS TAMARINDOS*
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, SERVA
RUANO
He tam aprazível ao guosto o tamarindo, sendo tam me-
decinal, que não tem preço. He bem que saibamos o nome
dos índios e dos Arábios, e que me diguaes a feiçam do ar-
vore, e como se uza delle acerca dos físicos Indianos.
ORTA
Fruta medicinal he essa em que não ha enguano, por ser
muito conhecida de todos, e porque os ha em muitos cabos;
e asi sam nacidos no monte os milhores, e os que mais du-
ram sam os mais chegados ao norte, asi como os de Cam-
baiete e do Guzarate; chamase no Maiavar jt^z/Zz e no Guza-
rate ambili, e asi lhe chama toda a outra gente desta índia;
e o Arábio lhe chama tamarindi, porque tamar, como vós
milhor sabeis, he tâmara (a que os Castelhanos chamaes da-
til) asi que tamarindi sam tâmaras da índia; e isto fo}'
porque não lhe acham outro nome mais adequado os Ará-
bios, por ter dentro caroços; e nam porque o arvore o pa-
reça, nem o fruto meudo. E o arvore he grande como freixo
ou nogueira, ou castanho ; e a madeira delles he rija, e nam
porosa ou fofa, e he muito cheo de folha, e como fetos cre-
cida por todos os ramos* *. A corteza com que se cobre a fruta
* «Tamarinhos» na edição de Goa; mas como Orta escreve algumas
vezes tamarindos, reduzimos tudo a esta forma.
** Por muitas vezes Orta compara' as /o/AíT5 compostas com -às fron-
des dos fetos; por exemplo, tratando do Phyllanthus Emblica, e em
outras passagens.
320 Colóquio qutnquagesimo terceiro
he verde, e des que se seca he parda, e façil de arrincarse;
tem dentro caroços*, e deitados fora, uzamos da medula,
que he apegadiça. E sam estes tamarindos a modo de hum
dedo feito á feição de arco; quando sam verdes sam mais
azedos, mas não tanto que nam tenham bom sabor. Eu uso
muyto delles espurgados, comendoos com açucare, e achome
com elles milhor que com xarope acetoso. E também lhe
diguo que mu3l:as vezes xaropo os meus doentes com infu-
sam dos tamarindos, deitando quatro onças em aguoa fria
ou de endivia, e deitados ahi per três oras, feita expresam
lhe tiro os tamarindos, e lhe lanço hum pouquo de açucare,
e com isto me acho muito bem, porque digere e evacua al-
guma parte do humor colérico, e incide e corta o freimatico.
E a gente da terra toma purgas deste tamarindo com azeite
de coqiío, que é o fruto da. palmeira, e certo que é boa purga,
e sem moléstia e trabalho. E asi os físicos Indianos usam
das folhas pisadas pêra defensivo nas partes eresipuladas. E
nós usamos delle nos comeres, em lugar de vinagre; porque
he mais agradável azedo, quando he maduro, e levam o a
Portugal com sal, e ás terras da Arábia e Pérsia, e Tur-
quia, porque dizem que dura mais; mas eu o tenho em casa
mu3'tas vezes, com a sua bainha ou corteza e está muito
fresco; e comtudo pôde ser que nam dure muyto; e por
isso a gente da terra o conserva com sal; e fazem deste ta-
marindo huma muyto graciosa conserva com açucare, e he
feita delle fresco e sem sal. E podeme crer que he hum di-
gistivo e purgativo muyto bom, e mu3'to aprazível ao gosto.
Moça, traze cá tamarindo em conserva.
RUANO
Folgarei muyto de o provar.
SERVA
Eis aqui o tamarindo.
* As sementes; mas não impropriamente chamadas caroços, pois
vem envolvidas em uma camada resistente do endocarpo.
Dos tamarindos 821
RUANO
He muyto gentil conserva, e sabe muyto bem. Façame
mercê de alguma pêra a levar, que quero antes que açucare
rosado de Alexandria. E eu não averia por enconveniente,
onde fosse necessário, deitarlhe escomonea retificada.
ORTA
Pode ser; porém em seu tempo, e com concelho de bom
físico. E mais eu mandei estilar os tamarindos, e usava da
aguoa estilada, em lugar de digestivo; mas nam o faço tanto
já, porque acho esta agoa doce. E perdoaime se vos enfadei
em falar nisto mais do necesario.
RUANO
Antes quizera que gastareis nisto mais huma ora; e posto
que nenhuma cousa pôde ser também dita, que aos ouvin-
tes nam ponha alguma duvida, quero propor algumas du-
vidas para a verdade ser mais manifesta. E porque os an-
tiguos Gregos não conheceram esta mezinha, examinalaemos
com os Arábios e Latinos. E o Mesue, a quem tanto onram
os imitadores dos Arábios, diz que sam de palmas silves-
tres da índia; e Avicena* nam fala em dizer que cousa he,
senam na eleiçam, diz que milhores sam os novos; e Se-
rapio**, alegando a Bonifá, diz que em Cesárea, nas terras
do Amem, os ha, e que tem as folhas como salgueiro; e
mais diz, por autoridade de Aben Musuai, que o de fora
do tamarindo, scilicet, o de que usamos, vem da índia; e
que sam frutos de cor vermelha. Que sabeis disto?
ORTA
Diguo que em Cesárea nam os ha, nem nas terras do
Amem ou Jamen, que he nas terras da Siria; e o primeiro
que diz, diz verdade; porque diz que o de fora (que he a
polpa) vem da índia; a isto pêra nos dizer que os caroços
* Avicena, Lib. i., cap. 699 (nota do auctor).
* * Serapio, cap. 348 (nota do auctor).
21
322 Colóquio quinquagesimo terceiro
não sam em uso da física. E o que diz Mesue, que sam
frutos àe palmeiras silvestres, não soube o que dizia; por-
que em toda a índia não ha fruto de palmeiras, antes as
tâmaras he mercadoria da Arábia pêra a índia; e gastamse
em muyta cantidade estas tâmaras secas; e as amasadas,
sem caroços, se gastam muito em toda esta índia, e algu-
mas feitas da feiçam das que chamamos (ia/í7es. Verdade he
que em Cambaia vi eu já algumas palmeiras bravas; porém
sam muyto diferentes dos tamarinheiros, quanto mais que
pêra a Arábia se leva o tamarindo por mercadoria.
RUANO
Dioscorides porque nam falou nos tamarindos, diz o La-
guna (tradutor no vulgar castelhano), que, se damos fé ao vo-
cábulo arabiguo, diremos que sam huma especia de datiles
que vem da índia oriental: e asi afirma que por esta rezam
lhe parece que os tamarindos não differem dos datiles te-
baicos, visto que os trazem de levante, e tem a mesma força
e virtude: e diz mais que, segundo alguns dizem, o arvore
do tamarindo he huma especia de palmas silvestres, que
tem as folhas longas e agudas nas pontas, semelhantes ás
do salgueiro, e que ás vezes acham dentro huns caroços
amarelos, de diversas formas; e temse por perfeitos aquelles
que roxeam, sendo tenros, e frescos e grossos.
ORTA
Não he espécie de datiles, nem tem a feiçam de datiles,
senam em ter caroços e nam ha nesta terra palmeiras que
dêem fruto de datiles; e comtudo em o Guzarate ha pal-
meiras bravas, que não dam fruto algum ou tâmaras, e os
datiles, como vos disse, sam mercadoria pêra esta terra. E
no que diz, que parecem aos datiles tebaicos, nam me pa-
rece que tem rezam; e pareceme que, se forem os veros ta-
marindos, que sam levados doesta terra pêra lá: e quem os
compra tem pêra si serem da terra donde os compra, asi
como acontece nas outras drogas; que chamamos á canela
boa, de Alepo, sendo levada da índia. E os Arábios, que
Dos tamarindos 323
nesta terra trataram, porque lhe viram caroços, chamaram os
tâmaras da índia; e nam porque pareçam tâmaras, nem o
arvore que os dá produz as folhas como elle diz, senão como
vos ja disse; nem os caroços sam amarellos, mas sam lú-
cidos e cor de terra; nem sam de formas diversas, mas sam
como huma forma tamanha como tremoço, redonda, ama-
sada por cima; nem amde ser frescos e tenros e grossos,
senam como diguo; e nam porque façam ao caso pêra física
pois se não usa delles, senam porque os tamarindos vem
amasados, trazem poucos caroços, e sam mal conhecidos.
RUANO
Valério Codro faz adições sobre Dioscorides, diz que o
xiferiix he tamarindo, Qfenico halano he diverso delle.
ORTA
Nisto pode ter rezam, mas não em dizer que os ha, senão
na índia.
RUANO
Os Frades dizem que poucas vezes vem a Europa ver-
dadeiros; e que os bons sam leirom, segundo Mesue, que
os escolhe na confeiçam alijíracost.
ORTA
Se vem sofesticados os tamarindos, he falsidade cuja e
baixa; porque valem cá tam baratos que em Portugal se
podem dar em muy to bom preço ; e os tamarindos que cha-
ma Mesue alcairo, quer dizer que os do Cairo sam milho-
res. A causa disto foy porque ao Cairo vinham ter da índia;
e dahi, per a Alexandria, vem a Veneza; e nam por os aver
no Cairo (i).
RUANO
Que nome tinha o Cairo antiguamente; e porque se chama
asi aguora? E pergunto isto, não sendo física, porque he
muy to famosa e antigua esta cidade.
ORTA
O Cairo antiguamente se chamava Menfís dos Greguos;
onde estam oge em dia aquellas tam famosas pirâmides, e
324 Colóquio quinquagesimo terceiro
onde foy cativo José, e aguora parecem as abobedas, donde
guardou os mantimentos; e chamase dos Mouros Meçet^a.
E porque huma rainha ha pouco tempo que acrecentou esta
cidade em huma parte, e esta rainha se chamava Alcaire,
por isto chamam a toda a cidade o Cairo: a qual cidade,
com o Turco estar em Constantinopla, sempre se despovoou
em alguma maneira (2). E porque acabemos os tamarindos,
vos diguo o que diz António Musa, que será bem desare-
zoado quem não amar aos Arábios por os tamarindos. E
verdadeiramente que tem rezam^ porque eu uzo delles, c
nam de canajistola, nem manná, nas febres muito coléricas,
e isto porque por serem doces, acrecentam a cólera, e não
carece isto de auctoridade, pois que Avenrrois o manda asi.
E este preceito usam muyto os físicos desta terra, que não
querem dar açucare nas febres ardentes. E asi diz o mesmo
António Musa, que craro he nam ser o miraholano de Plí-
nio, e de Dioscorides, tamarindo; porque estes não tem
caroços, e os tamarindos si; e também reprende Menardo,
porque reprende a Mesue, e diz que o fenico baiano tem
vertude de restinguir, e o tamarindo de purgar: e também
não tinha muita razam de reprender a Mesue em dizer, que
era frio no segundo gráo, porque Avenrrois o põe no ter-
ceiro*, porque isto podia ser erro do escritor, e também al-
guns livros de Mesue dizem que he no terceiro. E com isto
diguo que ficam os tamarindos com sua onra.
RUANO
Nam se enfade, se lhe perguntar huma cousa que me disse
este vosso ortelam.
ORTA
Se disse que durmiam de noite acolhidos com as folhas,
por causa do frio, dissevos verdade; porque de noite eu os
vi ajuntados e metidos dentro das folhas; e de dia se des-
encerram e abrem, e saem fora das folhas (3).
* Avenrois, 5 Coliget (nota do auctor).
Dos tamarindos 325
Nota (i)
O «tamarindo» ou tamarindeiro é uma grande arvore da familia das
Leguminosce, Tamariíicivií!» inclica,, Linn., muito conhecida
e commum por toda a índia. É espontânea na Africa, Kordofan, Abys-
sinia e outras regiões; segundo parece, também em parte da índia
meridional, tendo-se sobretudo espalhado depois pela cultura e plan-
tação; e alguns dizem, que igualmente no Yemen, de modo que Orta
não tinha talvez rasão em negar absolutamente a sua existência em
algumas provindas da Syria e Palestina. Os nomes vulgares, citados
no Colóquio, são exactos e de fácil identificação :
— O do Malabar «puli», é o nome tamil /«//, o\i poolie, como es-
creve Ainslie na sua orthographia ingleza.
— O guzerate «ambili,» corresponde ás designações modernas am-
blie ou atnli, e vem do sanskrito ^f^^TT, amlikã.
— O árabe «tamarindi», ^^^JJJSj^sJ', tamar-hindi, significa effectiva-
mente tâmara da índia, sendo uma das designações mais geralmente
usadas no Oriente, e da qual veio a palavra tamarindo.
Este nome de tâmara da índia, dado áquelle fructo pelos árabes,
sem grande rasão, e por uma similhança remota da polpa dos dois
fructos, foi depois a origem de todas as confusões, a que se refere o
nosso escriptor. Não conhecendo a arvore, e guiados unicamente pelo
nome árabe, os auctores de matéria medica, anteriores a Orta, admit-
tiram gratuitamente que o fructo fosse produzido por uma espécie de
palmeira brava da índia. Os nomes usados então, por exemplo, os dos
livros da escola de Salerno, oÇutpoívua, ou dactyli acetosi, traduzem esta
idéa, com a indicação naturalmente de que a polpa do tamarindo era
mais acida que a das tâmaras. Não foi difficil a Orta explicar: primeiro
que o Tamarindus indica differia totó ccelo de qualquer espécie de pal-
meira; depois, para reforçar o seu dito, que as espécies de Phcenix da
índia não produziam fructo comestivel, e as tâmaras da Phoenix dacty-
lifera eram ali importadas em notável quantidade da Arábia e da Me-
sopotâmia. Como nota Dymock, a correcta descripção de Garcia da
Orta veiu desfazer aquelle erro, em que tinham laborado durante toda
a idade media.
A polpa dos tamarindos é extremamente apreciada nas regiões quen-
tes, para preparar conservas e também bebidas refrigerantes. Tem, alem
d'is50, todos os empregos medicinaes, mencionados pelo nosso medico,
sendo considerada digestiva e laxante, ou, segundo dizem os mahome-
tanos, boa para «purgar o systema de bilis e humores adustos», o que
lembra a phrase de Orta : «digere e evacua o humor colérico, e in-
cide e corta o freimatico-). E igualmente conhecida ainda hoje na índia
a applicação externa dos emplastros das folhas d'esta arvore no tra-
326 Colóquio qiiinquagesimo terceiro dos tamarindos
tamento das dores e inflammações. É, pois, muito completa e muito
exacta a therapeutica do tamarindo do nosso escriptor, e unicamente
omittiu alguns usos medicinaes das sementes, de resto pouco impor-
tantes.
Muitos annos antes de Orta, o portuguez Thomé Pires havia men-
cionado a abundância de tamarindos n'aquellas partes orientaes, e o
seu baixo preço : « he mercadoria nestas partes, usa-se em lugar
de vinagre; valem casy de graça».
(Cf. Pharmac, 197; Dymock, Mat. med., 270; Ainslie, Mat. Ind., i,
425; Thomé Pires, Carta, na Ga^. de Pharmacia, 40.)
Nota (2)
A pequena digressão histórica do nosso escriptor é bastante exacta.
A celebre Memphis, sobre cuja exacta situação se disputou largamente,
não ficava em todo o caso longe do Cairo, e não muito distante tam-
bém das pyramides. O antigo Cairo tinha o nome de «Meçera» ou an-
tes Missr ou iMiçr, que se applicava igualmente ao Eg)'pto em geral,
e Edrisi deriva do nome de Miçraim, filho de Cham, fiJho de Noé.
Chamava-se também aquella cidade el-Fostat, ou a tenda, porque se
dizia construída em volta da tenda de campanha, que ali plantou um
dos primeiros conquistadores mussulmanos, Amr-ibn-el-Aci. Quanto
ao novo Cairo, fundado muito depois junto de Miçr, datava do tempo
do quarto Khalifa fatimita, e o seu nome não se prende ao de uma
rainha, mas parece ser simplesmente El-Kahirah, a victoriosa.
O «Turco» não havia passado para Constantinopla; mas o Egypto
independente dos Mameluks fora sujeito ao império Ottomano, cuja
capital era Constantinopla, uns quarenta e tantos annos antes de Orta
escrever; e isto naturalmente diminuíra a importância do Cairo.
(Cf. Niebuhr, Voyage en Arabie, i, 82; Edrisi, Géogr., i, Soo; Noel
des Vergers, Arabie, 462.)
Nota (3)
Orta refere-se aos movimentos de somno e vigilia das folhas com-
postas do Tatnarindus indica, como já, em um dos Colóquios anteriores,
se havia referido aos movimentos provocados das folhas do Biophy-
tum sensitiyum.
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO QUARTO
DO TURBIT •
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA, MALUPA FÍSICO DE GOA
RUANO
O quantas vezes ouvi dizer, em cidades muyto notáveis
de Espanha, que deixavam de fazer diafinicam e outras con-
feições por falta de turbit; outros diziam que nam era ver-
dadein, por ser negro e nam gomoso; outros diziam que
o tiirbii dos Arábios he hum, e o dos Gregos outro; e que
o dos Arábios se chamava tiirbit e o dos Gregos tripolio.
E estes r.omes dizem que os tiram de Dioscorides; e pêra
fazer a sua boa, emmendam os textos antiguos, castigam a
Plinio, e dam a culpa destes errores a Teodoro Guaza*. E
certo que he huma piedade ver quanto trabalho levou Lioni-
ceno doutíssimo, e Menardo e outros em achar este turbit
em Dioscorides, ou Plinio, o qual se não pode achar senão
quando se achar o corno de Amaltea, ou a cidade de Pla-
tam**. Outros mais modernos querem concertar os Gregos
com os Arábios, desejando elles mesmos serem entre si de-
ferentes. Peçovos muito por mercê que me tireis deste tra-
balho, dizendome os nomes arábios, e os desta terra onde
a planta nasce. E se puder ser que o eu veja, seria pêra mim
cousa de grande preço. E asi me aveis de dizer quanto se
aproveitam delle os físicos desta terra, e se usam muyto ou
pouquo delle.
ORTA
Dizervosei, senhor, tudo o que sei, porque conheço muito
bem este simple, e vi a frutice que o dá, quando he verde.
* Theodoro Gaza, o antigo traductor de Theophrasto.
** Porque as cousas que se não podem achar são estas que diguo,
porque nunç.a as vio pessoa alguma (nota do auctor).
328 Colóquio quinquagesimo quarto
c as flores •, e por aqui vereis vós mesmo o que aveis de
responder a estes modernos escritores, ou a quem vos com
elles aleguar, se he este o turbit dos Gregos ou nam. E diguo
que ao que nós chamamos turbit, chamam com o mesmo
nome os Arábios, e Persas e Turcos; posto que Andreas
Belunense, no texto emmendado, o chama terbet; porém os
físicos letrados destas nações todos os mais chamam turbif,
e nam terbet. E os Guzarates, onde ha o mais, o chamam
barcamarn. E os Canarins destas terras de Goa o charram
tiguar. E nasce na frol da terra, quero dizer que não tem
a raiz profunda, e he pequena, e o tronquo delia he jomo
hum dedo de comprido, e ás vezes mais grosso, e Jaz jlo lon-
guo da terra deitado como era*; porque o principio do tron-
quo ou ramo he o bom; e como se vai adelgaçando e se
enche de folhas não tem a feiçam de turbit, nem he bom,
nem faz a guoma senam perto da raiz, que he o próprio páo,
e esta raiz vem ás vezes com o mesmo turbit. E as folhas
e flores sam como de malva francesa; e não se mudam as
flores três vezes no dia, como alguns dixeram. O sabor do
tronquo, e ramo e folhas he insípido, quando se colhe; e
nasce nas terras marítimas, mas não mu3^to perto do mar.
Eu o vi duas legoas do mar e três, em cabo onde a maré
chea lhe não chegua, como alguns dixeram que lhe avia de
cheguar. O mais delle nasce em Cambaiete, e Çurrate e Dio,
e Baçaim com suas comarcas. Também ha algum em Goa,
mas não o tem os físicos da terra por bom, nem querem
usar delle, senam do Guzarate. E dali o levam em muyta
cantidade pêra a Pérsia, e Arábia e Turquia, e pêra Por-
tugal alguma cantidade pouca; posto que eu mandei 40 quin-
taes, quando fíz as droguas pêra elrey, e ouvese por muyta
cantidade. E também mo pediram no Balagate os físicos do
Nizamoxa, que he sinal de o não aver nessa terra, ou de
não ser bom. E já pode ser que em outras partes da índia
o aja, porque se não semea, e nasce per si; e pôde ser que
* Isto é, como a Hera.
Do turbit 329
se a gente da terra fosse mais curiosa, que o acharia. E al-
gumas pessoas me dixeram que o liavia em Bisnaguer (que
he do Guzarate cemo e cincoenta legoas); mas os físicos
daqui de Goa me dixeram huns que o levavam a Bisnaguer
do Guzarate, e outros me dixeram que o avia em Bisnaguer,
porém que não era tam bom, posto que o avia, e que também
o avia em Goa, mas que não era bom, nem se usava, nem
praticava acerca delles, senão o de Guzarate. He verdade
que o que viram Mesue e Sarapio e Avicena era do Guza-
rate; porque sempre as náos que vam pêra o ponente o le-
varam por mercadoria. E vos diguo que não tem o ramo
diviso na parte alta, senam todo he cheo de folhas e flores,
da maneira que vos dixe.
RUANO
Antes que vos tragua os ditos dos escritores Gregos, e La-
tinos modernos, quero que me diguaes como soubestes isto
que me dizeis; e não porque eu não dê inteira fé a vossos
ditos, senão porque saiba dar rezam de mim a quem vos
não conhecer.
ORTA
Tendes rezam no que dizeis ; mas sabei que quando aquelle
invencível capitam Martim Afonso de Sousa foy com 40 ho-
mens a Dio, por mandado do soldam Bhadur (que era o
mais poderoso rey da Mourama) e lhe deu com tanto risquo
e esforço, e saber seu a cidade de Dio, tam nomeada por
todo o mundo, eu estava com elle; e desque tivemos o pra^-
me de elrey de fazer a fortaleza, andava eu oucioso, vendo
a opulência e trato dessa cidade; e estando huma tarde no
baiar (a que nós chamamos praça ou feira) asentado á porta
de hum mercador (aos quaes elles chamam Baneanes) pasou
por sua porta huma molher com hum saco de tiirbit já seco,
e lho vendia; e eu como conhecia a mezinha, e avia ouvido
dizer que dali o levavam pêra as nossas náos, preguntei ao
Baneane que era aquilo, e elle me dixe que era te7~umbu, e
que nós e os Mouros lhe chamávamos asi; mas que os Ma-
ratas (que sam os Gentios) lhe chamavam barcaman. Eu
lhe preguntei pêra que o comprava, e pêra que aproveitava:
33o Colóquio quinqitagesimo quarto
dixeme que aproveitava pêra purguar o ventre, e que era
ávido por boa mezinha, a qual levavam pêra a Arábia, e
pêra Ormuz os mercadores nas suas náos. E elle me pre-
guntou se lho queria comprar, e louvava o muyto, dizendo
que o oulhase, e com isto me mostrava a guomosidade delle,
e a brancura. E, porque eu sabia que os nossos o compra-
vam, lho comprei eu, scilicet, cada mão por huma tangua,
que sam 6o reais, e huma mão 27 arráteis. E elle paguou
á molher muito pouquo; segundo que eu despois soube de
huns Baneanes, certo que dobrou duas vezes comiguo o di-
nheiro*.
RUANO
Eu sam contente de ser esse o turbit que usamos, e cha-
maremlhe asi; mas como soubestes delles que os signaes
da sua bondade era ser branco e guomoso, senam se o
soubestes pelos livros nossos?
ORTA
Diguo que, pollos nossos livros, soube aquilo, mas nam por
mo dizer o Baneane; mas falando convosquo a verdade vos
afirmo, que não sam estes signaes, senão de ser turbit, e não
porque nam possa ser o turbit sem guoma tam bom como o
guomoso, porque a guoma se causa, porque o retorcem ou o
picam os que o colhem, quando he verde, pêra que guome-
fique ou lance goma; porque sabem que he sinal por onde
distinguimos o bom do mao. E isto soube eu despois; porque
tinha um parente físico em Baçaim cidade nossa, que dista
de Dio por 5o léguas por mar, e disseme que o fora colher
com os Indianos muitas vezes, e que elles no principio o
torciam ou cortavam ou picavam, e que dahi a alguns dias
o colhiam, e o achavam cheo de guoma, e que elle fez que
nam torcessem nem cortassem algum outro, e que despois
• Sobre as causas que levaram a Dio Martim AfFonso de Sousa e
Garcia da Orta, pôde ver-se, Garcia da Orta e o seu tempo, pag. 92
e seguintes.
Do turbtt 33 1
não o achava com guoma, e que a algum destes achava
muito pouca.
RUANO ♦
Loguo tam bom he o guomoso, como o outro; pois he
huma mesma pranta?
ORTA
Tendes nisso muita rezam; porque a goma lhe fica dentro;
e também vos diguo que algum turbit será guomoso sem
lhe fazer as torceduras ou golpes nelle; mas gomefica mais
facilmente; e mais a nossa eleiçam que nelle fazemos, deu
aos Indianos ocasiam pêra o torcer; e isto sem duvida he
verdade.
RUANO
E como he o preto ruin e o branco bom, que he huma
das condições da sua bondade?
ORTA
He costume dos boticairos da índia (a quem chamam os
índios guandis) secálo ao sol, dizem que secálo á sombra
o faz preto. E dahi o tomaram os nossos boticairos, e por
experiência se acha isto do modo de secar esta mezinha. E já
pode ser que o que for preto por ser seco com a sombra
seja milhor, mas até o presente não o esprementei.
RUANO
E usam os físicos Indianos deste turbit pêra purguar a
freima ?
ORTA
Senhor, si; e pêra isto quero chamar o físico que nesta
terra me parece milhor, pêra diante de vossa mercê lho per-
guntar. Moça, chama a Malupa*.
SERVA
Aqui vem todos as manhans a curar estas negras : e eilo
sobe.
* Sobre os «íisicos indianos», veja-se a nota ao Colóquio 36 (ii, 146).
332 Colóquio quinquagesimo quarto
ORTA
Malupa, dizei aqui ao senhor doutor, se usaes nestas terras
do turbit; e pêra que; e se lhe mesturaes gengm^e; e de qual
terra he milhor.
MALUPA
Si: usamos delle pêra purguar a freima e o gengivre ás
vezes lho mesturamos; e he quando não ha febre; e isto do
mesturar do gengivre também o mesturamos em outras me-
zinhas purgativas, mas outras vezes o damos sem o gen-
givre. E o milhor turbit he o de Cambaia, e de Cambaia
o levam a algumas partes da índia. E já eu mostrei o turbit
desta terra ao senhor doutor, que presente está: mas di-
guovos que nós ás vezes curamos com o de Goa, e mais
não o ha senão perto do mar; posto que já me dixeram que
o avia em Bisnaguer, mas que nam fazia boa obra.
ORTA
Dizvos mu3^ta verdade ; porque o Nizamoxa me pedia este
turbit de Cambaia, e eu lho mandava do que de lá vinha;
e comtudo pôde ser que o aja dentro no sertam, e que se
não ache polia pouqua curiosidade da gente, que a lingoa
de vaca (de que carecemos), e o fumus terras, vi eu já em
o Balagate. E vós ivos com Deos, Malupa, e dizei a este se-
nhor daqui em diante o que sabeis destas mezinhas.
MALUPA
O doutor Orta as sabe milhor que nós todos, porque nós
sabemos as dos Gentios somente, e elle sabe as dos Cristãos
e Mouros, e Gentios milhor que nós todos. E beijo as mãos
de vossa mercê.
ORTA
Este índio vos diz na retificaçam verdade; porque Rasis*
não o retifica com gengivre, senam com óleo de amêndoas
doces, por temor da escoriaçam que pode fazer.
* Rasis, 8, ad Almansorem (nota do auctor).
Do tiirbit 333
RUANO
Aguora venhamos á examinaçam dos escriptores. E co-
meçando por os Arábios, pois nisto falaram mais certo,
como vós dizeis, tendo os Greguos a sabedoria e a inven-
çam das boas letras.
ORTA
Nam vades mais avante, porque não diguo mal dos Gre-
guos, por serem inventores das boas letras, como dizeis;
mas também sam inventores de muytas mentiras, e muito
mal acustumados, e efeminados em seus costumes: e Roma
desque os recebeo em si, recebeo muytas más cousas. E
comtudo não diguo eu mal delles, no que escreveram que
avia em suas terras, senão o que escreviam das ignotas a
elles", porque ali encheram os livros á sua vontade; como
se pode exemplificar nas cousas que da índia escreveram,
tam fabulosas; mas afirmovos que, nestas terras da índia,
souberam mais os Arábios; e, por milhor dizer, erraram
menos que os Greguos. E ora vinde com vossas contradi-
ções^ pêra que milhor se examine a verdade.
RUANO
Mesue diz que tem as folhas semelhantes ás da fabula,
excepto que sam mais pequenas, e que he das plantas que
tem leite; e que o ha domestico e silvestre, grande e pe-
queno, e branco e preto, e citrino; e que nasce nos luguares
mais secos por a grossura do seu leite; e que tem sete pro-
priedades, branco, e vácuo, arundinoso, ou semelhante á
cana, gomoso, e que tem a corteza cor de cinza, e que he
plano, e que facilmente se quebra, scilicet, novo, e que o
grosso nam he bom.
ORTA
O senhor Mesue falou o melhor que lhe pareceo, e foy
de ouvida; e por isto não acertou em tudo; porque as fo-
lhas não sam semelhantes ás áa ferida, senão ás da bismaha
(a que chamam os Portuguezes malva francesa) nem tem
leite; nem o ha domestico, senam todo he silvestre; ha o
grande e pequeno, como diz; branco e amarelo e preto,
334 Colóquio quinquagesimo quarto
mas não que o seja asi do seu nacimento, senão o que he
mal curado não he branco, e nasce em cabos húmidos e
secos, e mais húmidos que secos; e não em secos, como elle
diz por causa do seu leite; e por ser branco e guomoso nam
he milhor, como antes vos dixe; nem he feito como cana;
nem a corteza he cinzenta, nem muyto plana, senão encres-
pada ou franzida e parda; e o novo he bom, mas nam he
frangibil, senão depois de seco; e também diz que o grosso
nam he bom, e isto he dito sem rezam; antes parece que
terá mais vertude, se não for podre.
RUANO
E que vos parece Avicena*, que diz que a sua reitificaçam
toda que he esfregandolhe a corteza pêra que não fique cin-
zenta, senam branca?
ORTA
Diguo que isso he bom pêra o vender somente, e não
pêra mais.
RUANO
Serapio** diz, por autoridade de Dioscorides e de outros
mu3'tos, algumas cousas, scilicet, que nasce na praia e nos
lugares que o mar cobre com a maré chea somente, e nam
com a vazia, que com ella baixa nam he tocado, e que tem
a folha semelhante á planta chamada arasidis, e sam mais
grossas as folhas, e diz que tem o tronco longuo dous pal-
mos, e que se divide no mais alto, e que muda a frol três
vezes no dia, scilicet, de manhan he branca, e ao meo dia
roxa, e á noite vermelha; e que a raiz he odorífera, e que
quando se mastigua esquenta a linguoa, e que aproveita
contra a peçonha, assi como qualquer mezinha outra be:[e-
darica. Destas cousas e outras traz autorisadas por Galeno,
trasladado por Albataric e por outros Arábios muytos.
* Avicena, 2, cap. 709 (nota do auctor); aliás 71 1 da edição de Rinio.
** Serapio, cap. 33o (nota do auctor).
Do tiirbit 335
ORTA
Já VOS disse que o tiirbit, eu o vi nascer perto do mar; mas
não tam perto que o toque o mar com maré vazia nem chea,
porque nasce ás vezes duas leguoas do mar, onde nam es-
praia o mar; nem tem a folha semelhante á folha da pranta
dita arasentis, nem a ahisatis dita como emenda; e hum mo-
derno diz como bismalva, nem porque* he como a dos muv-
tmhos (como diz Lioniceno); pois sam tam deferentes da
bismalva. E o tronco, como diz, he de dous palmos, porém
ás vezes menor, e outros ha de oito e de dez palmos; e
porém a frol nam se muda três vezes no dia, senam sempre
he mesturada de branca e roxa, e ás vezes branca; e a raiz
não he odorífera; nem mordica a linguoa; nem nós usamos
da raiz, senam do páo que está com as folhas estendidas
no cham, como a era; nem a vi em algum tempo usar contra
o veneno; nem eu o experimentei, e o que vos disse vi com
os olhos.
RUANO
Dioscorides diz**, íd\3.náo áo. pitiusa, que he huma especia
dos laticínios, ou de ervas que deitam leite, que parece
que he tin^bit. E assi o sentem alguns modernos; e também
dizem que he tripolio, do qual fala Dioscorides***, e he tres-
ladado ao pé da letra de Serapio. E Autuario, doutor grego
e de autoridade, diz também <\mq. pitiusa he tiirbit, scilicet,
que o ha branco e preto; e diz que falsamente usam alguns,
por hesula, tiirbit preto, e também he deste parecer Mateolo
Senense. Asi diz o mesmo que alipium he tiirbit, e alipia
* Esta palavra deve estar a mais, e, supprimindo-a, a phrase fica mais
clara.
* * Dioscorides, Lib. 4, cap. 148 (nota do auctor) ; aliás cap. i63, edição
Sprengel. Diz eíFectivamente, que á raiz da pytiusa chamam toúçwtít;
mas esta phrase, que só se encontra na edição Aldina, parece a Spren-
gel suspeita de intercalação posterior.
*** Dioscorides, Lib. 4, cap. 124 (nota do auctor); aliás i33 da edi-
ção Sprengel.
336 Colóquio quinqiiagesimo quarto
he a semente delle; e que isto elle Mateolo nam o crê, por-
que não tem semente o turhit; e mais porque purgua a me-
lancolia, e o turbit purgua a freima. E os Frades dizem o mes-
mo que os modernos e António Musa; e teem porém que he
verdade o que dizem do tripolio Dioscorides e Galeno, e
Plinio*: e dizem que tem o turbit de Serapiam; e por isto que
parece ser tudo hum**. E afirmam mais estes reverendos Pa-
dres, que o turbit que nas boticas se vende, nam he o turbit
de Mesue; e que, os que o colheram com suas próprias mãos
lho dixeram, porque nam tinha as folhas das beldroegas.
E também concede que o turbit de Mesue nam he tapsia,
e que, com seu dano o esprementou, porque alimpandoo e
escarvandoo se lhe incharam as mãos e a face. E portanto
que não se ha de deitar por turbit; e mais também diz que
o turbit que se traz de Apulha he a verdadeira tapsia, e tem
grandes raizes; e que se não ha de administrar, senam seis
mezes despois de colhido, nem quando he comido do bicho.
Estes cousas e outras muytas, que nam fazem ao meu pre-
posito, dizem muytos escritores modernos, e bem ornadas:
ás quaes, pois as ouvistes, respondei o que vos parecer;
pois que he bem darvos fé, como a quem he testemunha
de vista. ^
ORTA
Todas essas cousas que dizeis, e outras muitas li já; e
o que a isso vos respondo he, que as ervas e plantas lati-
cinaes sam muytas, e todas as mais sam venenosas. E das
nossas e desoutras muytas he chea esta terra da índia e a
da Europa. E quis Deus que a terra, por o pecado do pri-
meiro padre, as desse, e comtudo, por a misericórdia di-
vina, ainda que sejam venenosas, aproveitam pêra alguma
cousa algumas, e outras sam puro veneno, sem lhe sabermos
o pêra que aproveita. E eu daria exemplo em muytas nesta
» Plínio, Lib. 26, cap. 7 (nota do auctor) ; aliás cap. 22, edição Littré.
* * Assim se pode talvez reconstruir a phrase da edição de Goa, que
está extremamente errada e incorrecta.
Do turbit 337
terra, e em Portugal; e a que chamam esula* ou alfebr^an
os Arábios e nós esula he poçonhenta, que onde cáe ou seu
çumo ou leite, incha muyto, como eu vi já muytas vezes
em Portugal. E cá nestas partes ha humas plantas com que
tapam e valam as ortas, que fazem o mesmo deitando leite
de si; e o mesmo fazem huma especia de tnangas bicavas (i).
E por esta rezam os antigos escreveram sete especias de
laticínios, e afora estas avia outras mu3^tas ignotas. Cá na
índia ha outras muytas, com que purgam os físicos da terra
e curam algumas enfermidades; e huma destas he o turbit,
pois não tem leite, e se tem algum, he muyto pouco, e não
he mezinha venenosa, e purga sem moléstia nem trabalho;
e tomam o cá os índios em caldo de frangão, ou em aguoa
em maior cantidade do que o nós tomamos, nem em Por-
tugal nem cá, e não incha as mãos e o rosto, tocando o
como fez o turbit, que, por autoridade dos Frades disestes;
se não seria essa especia de laticinio, como esula, e daqui
tomareis que não he esula este turbit, nem tripolio, nem
pitiusa^ nem hisiatis, nem alipium, nem alipia sua semente,
pois o turbit não tem semente ; e porque nam tem as folhas
semelhantes á ferula, nem á beldroega, nem ao inurtinho,
nem nasce tam perto do mar, que o cubra a onda, nem
muda a frol e a cor três vezes no dia, como dizem esses
Greguos. Assi que por essas e por outras muytas causas,
não he turbit dos Greguos, nem o dos Arábios propriamente ;
senão estes Arábios viram usar de turbit á sua gente, tra-
zido da índia, e quiseram buscar em os Greguos alguma
mezinha que se lhe parecese, porque davam tanta autori-
dade aos escritores Greguos como isso; e a causa era por
serem os primeiros escritores nas cousas humanas, porque
nas divinas primeiro escreveram os Hebreos. Esta, que digo,
foy a causa por onde Serapiam treladou ao pé da letra o
capitulo de tripolio de Dioscorides, porque lhe pareceo que
* Ésula, nome dado a varias espécies de Euphorbia, não só á E.
Esula, como a outros. /
22
338 Colóquio quinqiiagesimo quarto
não pudia aver mezinha que a deixassem de escrever os Gre-
guos; e certo que milhor fizera elle de me fazer um capitulo
do que delle sabia somente, e o demais o tempo o fora des-
cubrindo, como aguora o faz, mostrando ser mezinha pró-
pria desta terra. E elle dixera que o tripolio e as outras
mezinhas era huma especia de laticínio a elle nam conhe-
cida, ou conhecida, se a sabia; porque nem Dioscorides
soube tudo, porque elle diz muitas vezes, como lie fama.
RUANO
O Laguna tem que pitiusa he turbit preto, e aliptum he
tm^bit branco e bom.
ORTA
Já vos dixe que nenhuma destas mezinhas he turbit branco
nem preto; nem he esula, porque he muyto forte laxativo,
o que o turbit não he; nem he alipiwji, porque alipium pur-
gua melancolia, e o turbit purga somente a freima; nem he
raiz cheirosa, nem mordica a linguoa o turbit, nem he se-
melhante áferula, nem á beldroega, nem ao tnurtinho^ nem
se levanta do cham covado e meo, senão está ao longo da
terra estendido, como era; asi que por estas razões e outras
muytas não he nenhuma destas mezinhas apontadas pollos
modernos.
RUANO
E O turbit que se traz de Apulha não he turbit?
ORTA
Nam, senão algum laticínio; e alguns dizem ser a verda-
deira tapsia, porque tem raizes grandes; e o turbit, que
usamos nestas terras, tem as raizes muito pequenas, e do
páo usamos somente.
RUANO
Dizem estes reverendos Padres boticairos, que se não
ha de usar, senam seis mezes depois de colhido, e também
que se não ha de usar quando está comido da traça ou
bicho.
Do turbit 339
RUANO
O derradeiro he craro ser verdade, porque esta terra he
sujeita á putrefaçam em tanta maneira, que não se pode
o ruibarbo nem outras mezinhas soster os quatro mezes do
anno, que he inverno, que sam junho, julho, aguosto, e se-
tembro. No outro que diz que ha de estar seis mezes sem
se usar delle, não diz bem, porque elle colhese em novem-
bro, dezembro e janeiro; e, se estivesse mais de seis mezes,
corromperseia. Verdade he que nas terras que estam dentro
no sertam, não se corrompem as mezinhas, como nestas que
estam na fralda do mar. E levai deste simple pêra vós que
os Gregos totalmente o nam conheceram, e que nem delle
diseram menos mal, ou erraram menos que os modernos,
que dizem que não sabem conhecer a raiz, que em nossos
tempos se vende por tiirbit; posto que isto em parte he ver-
dade; porque não he raiz senam páo; e daqui em diante
não lhe chamamos turpetum, senam turbit, ainda que lhe
chameis bárbaro, porque o turbit com seu nome próprio se
contenta. E cavalguemos, que he oge sábado, e hemos de
hir à Madre de Deos (2).
RUAIsO
Muytas cousas me leixaes de dizer, por serem muyto no-
tas; e, se fossem contadas em minha terra, seriam aprazíveis
pêra as ouvir: por isso dessas cidades e terras, donde nasce
o turbit me dizei, scilicet, de Baçaim e Dio, pois sam terras
de elrey de Portugal.
ORTA
Dio he huma ilha, que em si contem huma cidade de hum
bom porto, e muito fermoso e de grande trato, e concurso
de muytos homens mercadores. Venezianos e Gregos, e Ru-
mes e Pérsios, e Turcos e Arábios, a qual deu o gram sol-
dam Bhadur a Martim Afonso de Sousa, sendo capitão mór
do mar da índia; e ouve delle que fizesse ali fortaleza em
huma parte de Dio, qual elle quizesse, a qual elle fez, ou
acentou em parte que estivesse fortificada por mar e por
terra. E depois, per muytas traições que nos fizeram, per-
340 Colóquio quinquagesimo quarto
deram a cidade e a ilha toda, da qual estamos de posse,
muytos annos ha. He muito grande escala e forte cidade,
a qual defendemos do poder do gram Turquo, no anno de
1539, com grande esforço de pouquos, que estavam dentro
cercados. E depois, no anno de 1546, estando de cerquo
sete ou oito mezes, e sendo arrasados os muros, e muyto
pouquos Portuguezes dentro e doentes, a defenderem ani-
mosamente, até que o governador Dom Joam de Crasto
veo, e entrou a ilha e cidade, e deitou fora todos os Mouros,
matando grande numero delles e tornou a edeficar outra
maior fortaleza. E porque as cousas que neste cerquo acon-
teceram sam muyto bem escritas em latim e em portuguez,
não escrevo mais delias, porque, como diguo, sam escritas
em melhor estilo. Huma só coisa direi: que Dom Joam Maz-
carenhas, que era capitam desta fortaleza, fez, neste cerquo
cousas de muyto esforçado capitam, e usou de muyta in-
dustria, e saber e esforço, e manhas, tendo paciência onde
foy necessário; e merece tanto ser louvado, que eu não me
estrevo a falar nesta matéria mais*.
RUANO
Falai de Baçaim, pois he cousa mais grossa, ainda que
nam he tam nomeada.
ORTA
He Baçaim huma cidade muito grande, e debaxo de seu
senhorio contem muytas terras e cidades, e rende a elrey
mais de 100 e sesenta mil cruzados com humas terras e for-
talezas, que deram depois a Francisco Barreto, as quaes
terras chamam Manorá**.
Tem em huma parte huma ilha chamada Salsete, onde
estam dous pagodes ou casas de idolatria debaxo da terra;
» Os successos dos dois cercos de Diu são demasiado conhecidos
para que exijam qualquer palavra de elucidação.
** Sobre as terras e rendas de Baçaim, veja-se o que disse em Gar-
cia da Orta e o seu tempo, pag. 259 a 276.
Do tiirbit 341
hum delles está debaxo de huma serra muyto alta de pedra,
e será maior cantidade que a fortaleza de Dio, a qual se
pôde comparar em Portugal a huma villa de quatro centos
vizinhos cercados i tem esta serra huma subida grande, e
chegando á serra está huma casa grande de pagode, feita
e talhada dentro na pedra, onde depois edificaram os frades
de Sam Francisco huma igreja, chamada de Sam Miguel.
Ha muytos pagodes de pedra, subindo pêra a serra; e su-
bindo mais acima tem outras casas feitas de pedra, e dentro
com suas camarás; e subindo mais acima tem outra ordem
de cazas feitas dentro na pedra, e nessas casas tem hum tan-
que ou cisterna da agoa, e tem canos por onde lhe vem
agoa da chuiva, e mais acima vai outra ordem de casas polia
mesma maneira feitas, Seram por todas até trezentas casas,
todas tem Ídolos esculpidos nas pedras; com tudo isso sam
mui carregadas, e mal asombradas, como cousas que foram
feitas pêra o diabo ser venerado (3).
Tem outro pagode em huma parte da ilha, que chamam
Maljaz; a qual he huma casa muyto grande, também feita
dentro na pedra; e tem dentro muytos pagodes, e muyto
mal asombrados; e todos os que entram nestas casas dizem
que se lhe arepiam as carnes, que sam muyto medonhas (4).
Outro pagode milhor que todos ha em huma ilha cha-
mada Pori, que nós chamamos a ilha do Elefante, e está nella
huma serra, e no mais alto delia tem huma casa debaixo da
terra, lavrada em huma pedra viva, e a casa he tam grande
como hum moesteiro, e dentro tem pateos e cisternas de
muyta agoa muyto boa, e polias paredes ao redor ha grandes
imagens esculpidas de elefantes, e leões, e tigres, e outras
muytas imagens humanas, asi como sam amazonas, e de
outras muytas feições bem figuradas. E certo que he cousa
muyto de ver e parece que o diabo pos ahi todas suas forças
e saber, pêra enguanar a gentilidade com sua adoraçam. E
alguns dizem que fizeram isto os Chins, quando navegavam
por esta terra. E bem pôde isto ser verdade, segundo vai
tam bem fabricado, e segundo os Chins sam sutis. Verdade
he que aguora está muyto danificado este pagode com gado
342 Colóquio quinqiiagesimo quarto
que lhe entra dentro, e no anno de trinta e quatro, que eu
vim de Portugal, estava cousa muyto pêra ver; e eu o vi,
estando Baçaim de guerra comnosquo, e loguo o deu elrey
de Cambaia a Nuno da Cunha (5).
RUANO
De que pessoas he abitada essa terra de Baçaim?
ORTA
Os Mouros a senhoreavam primeiro, e aguora ha poucos
nella, somente alguns que tratam pollo mar, chamados nai-
tias, como se dixesemos mestiços e feitos primeiramente de
Mouros, que vieram de fora, e se mesturaram com os Gen-
tios desta terra. E os Gentios sam de muytas maneiras,
scilicet: os que lavram e semeam a terra pêra o arroz e
outros legumes; estes chamam elles curwnbins e nós lavra-
dores: e os que nós chamamos ortelãos, que sam os que cul-
tivam as ortas e pomares, chamam elles malis: ha outros
escrivães e contadores (a que elles chamam parus) que re-
cadam as rendas de elre}', e de homens, e das fazendas, e sam
grandes negociadores: ha outros piães de armas: ha outros
a que chamam Baneanes, que sam os que guardam o cus-
tume de Pitágoras mui inteiramente. E ha em cada povoa-
çam huma gente desprezada e avorrecida de todos, e não
se tocam com outros; estes comem tudo, e as cousas mor-
tas: a estes dá de comer cada povoaçam do comum, sem
se tocar com elles; o seu cuidado he limpar as çugidades
das casas e ruas; estes sam chamados deres ou fara:[es, e
servem também estes de algozes. Ha outros mercadores de
buticas, que por nome sam chamados coareis, e no reino
de Cambaiete lhe chamam esparcis, e nós os Portuguezes
lhe chamamos Judeus, mas não sam, senão Gentios que
vieram da Pérsia, e tem própria letra sua, e tem muytas
suprestições vãas, que quando morrem os tiram por outra
porta, e nam polia que se servem; tem jaziguos, onde se
deitam quando morrem, e nelles estam asentados até que
Do tiirbit 343
se desfazem; olham pêra o levame; nam se circoncidam,
nen lhe he vedado comer porco, e helhe vedado comer
vacc. E por estas causas vereis que não sam Judeus. Nem
os Judeus, que ha nas terras do Nizamaluco que confinam
com enas, os tem por Judeus; fazem estranhos juramentos,
que, pcrque não fazem ao caso, vos não conto.
RUANO
Não me leixeis sospenso, e dizeimo brevemente.
ORTA
Toma huna vaca o que faz juramento, e põe no cham
de huma banda da vaca aguoa, e da outra foguo, e toma
hum cotelo na mão, e diz certas palavras, que querem dizer,
que asi como e;le mata aquella vaca com ferro, e está cer-
cado de agoa e foguo, asi este elle, e asi padeça, se jura
falso. Huma cousa ha de notar, asi nestes homens como
em outros, que nenhum muda o officio de seu pai, e todos
os da casta de çapateiros o sam .(6).
Nota (i)
A planta leitosa, com que habitualmente na índia «tapam e valam as
ortas», é a Eiiplioi*t>ia, Tivixealli, Willd., tão vulgarmente
empregada em formar sebes vivas, e tão conhecida também pela abun-
dância do seu látex, que, por estas duas circumstancias, os inglezes
lhe dão ali o nome de milk hedge. Esta planta é igualmente vulgar
em Angola, pelo menos eu creio que a cassoneira, empregada ali na
formação de sebes divisórias, é esta mesma espécie. Julguei esta espé-
cie africana, e introduzida na índia pelos portuguezes; mas a passa-
gem de Orta, indicando-nos ser ella já tão commum e conhecida no
século XVI, lança alguma duvida sobre a questão (cf Drury, Use/ul
plants of índia, 206; Roxburgh, Flora Indica, 11, 470; Plantas úteis da
Africa portuguesa, 248).
Os inglezes chamam hoje rvild mango ao fructo da Spondias
janangrif er^7 Willd. ; e é provável que fosse já a manga brava dos
344 Colóquio quinquagestmo quarto
portuguezes. A planta não tem propriamente látex, mas um sueco re-
sinoso amarellado. /
O que Orta diz, que ali existiam muitos «laticínios», é perfeitarrente
exacto, e a índia abunda em plantas laticiferas das familias day Mo-
rece, Apocynecc, Asdepidece e outras (cf. Drury, 1. c, 408 ; RosOurgh,
1. c, 45 1).
Nota (2)
O «turbit» procede da Ipomaafi Tixrpetliixm, R. Brown,
uma planta rasteira, scandente ou prostrada, da familia dis Convolvu-
lacece, bastante frequente em parte da índia.
Sob o nome de \7^^6\ triputã e vários outros, foi esca droga men-
cionada pelos escriptores sanskriticos, os quaes — secundo diz Dy-
mock — conheciam já duas qualidades, branca e prela, isto é, sveta-
triputa e krishna-triputa. A primeira qualidade era a única aproveitá-
vel; a segunda era reputada venenosa. Parece que o conhecimento da
droga passou da índia para os árabes, assim como o nome, natural-
mente muito alterado — o que succedeu a quasi todos — tomando a
forma jo ^ turbedh, ás vezes transcripto nos livros modernos turbad
ou turbud. Do mesmo modo que os sanskriticos, os escriptores arábi-
cos distinguiam também uma variedade branca e outra preta. Se esta
distincção resultava unicamente do modo de preparar a raiz e caule,
como explica o nosso escriptor, ou se nos tempos antigos se designa-
vam assim drogas de procedência diversa, é o que não saberei dizer.
Do arábico veiu o nome hoje mais vulgar turbit, ou turbith, latinisado
em turpethum. Alem d'isso, a droga tem na índia muitos outros no-
mes, entre os quaes não encontro cousa parecida com o «barcamam»
e o «tiguar» de Orta, que ou se enganou, ou transcreveu de ouvido
com muita incorrecção.
A planta, é, como dissemos, rasteira ou scandente, com o porte ca-
racterístico de quasi toda a familia, e tem folhas de forma um tanto
variada, mas sempre lobadas, não muito mal comparadas ás da «malva
franceza». As suas flores são bastante grandes, e muito naturalmente
não mudam de côr três vezes por dia. Esta circumstancia da mudança
de côr havia sido mencionada por Dioscorides em uma planta, muito
diversa d'esta Ipomaea, e na qual, de resto, também não era exacta,
a não ser talvez em algum leve cambiante, que ás vezes se pode dar
da manhã para a tarde. A droga consiste na raiz e parte inferior do
caule, cortados em bocados, de uma côr acinzentada por fora, e de
um branco sujo na secção, que está cheia de resina pallida, um tanto
amarellada. Estas qualidades variam um pouco, e o turbith é mais ou
menos «branco» e «gomoso» — aquellas circumstancias em que tanto
insiste o nosso escriptor.
Do tiirbit 346
O tiirbith é considerado pelos médicos indianos, tanto pelos hakims
mussulmanos como pelos vydias gentios, como sendo um dos seus
mais poderosos catharticos ou drásticos, purgando sobretudo a bilis e
o humor phleugmatico. Costumam juntar-lhe algumas substancias, en-
tre outras, gengibre, o que era já no xvi século a receita do Malupa
do Colóquio. Ainda hoje o turbith parece ser muito empregado na ín-
dia; mas não foi adoptado em geral pelos médicos inglezes, como
succedeu com outras drogas indianas, nem tem logar official na Phar-
macopoeia of índia. Na Europa desappareceu ha muito da matéria me-
dica, na qual continuam a figurar, como catharticos activos, duas drogas
análogas e procedentes da mesma familia vegetal, mas de qualidades
superiores, a scammonea e a. j alapa.
Não succedia assim no tempo de Orta, em que a matéria medica
se regia pelos preceitos dos árabes e pelas formulas de Mesué; e o
turbith tinha ali um logar importantíssimo. D'aqui resulta em parte o
desenvolvimento do Colóquio, pois o nosso escriptor quiz tratar com
toda a largueza de um medicamento de tão grande reputação. Mas
resulta também das duvidas, que havia em relação á historia da droga,
e elle quiz esclarecer. O turbith foi absolutamente desconhecido dos
gregos e dos latinos; mas os escriptores ainda do tempo de Orta, es-
forçavam-se á porfia pelo encontrar em Galeno e Dioscorides, enten-
dendo que isto lhe dava auctoridade. A voga que hoje tem um medi-
camento por ser novo, tinha-a então por ser velho.
Orta, que devia estar de bom humor ao escrever este Colóquio,
diverte-se positivamente á custa do «doutíssimo Lioniceno», e dos «re-
verendos Frades boticairos»; e toda a sua discussão abunda em boa
critica e reflexões judiciosas. A questão é, de feito, um exemplo ty-
pico das discussões de textos e minúcias em que se compraziam os
commentadores do tempo. Queriam, por exemplo, que a pityusa de
Dioscorides (uma Euphorbia da Europa) fosse o turbith, unicamente
porque a raiz era purgante, e em uma edição se achavam intercala-
das as palavras ív )c«Xojci ■:o^^r.i-. A identificação com o tripolio (tam-
bém uma planta da Europa) ainda é mais singular, e parece assentar
unicamente sobre o erro de um copista, que na traducção de Serapio,
em logar de Jj J, tribol, forma arábica de tripolio, escreveu Joy , que
se leu terbed; d'ahi a passagem para o turbith de todos os caracteres
do tripolio — caracteres falsos também para esta planta, qualquer que
ella fosse — isto é, que a sua flor mudava de tom três vezes ao dia, e
outros. No meio d'estas discussões, intervinham argumentos, como o
de Matthioli — citado por Orta — dizendo que o alipio não podia ser
o turbith, porque um purgava a melancolia e outro purgava a freima,
como sq fosse fácil e pratica esta distincção.
E claro, que tudo isto deixava frio Garcia da Orta, o qual se con-
tentava com conhecer perfeitamente o turbith dos bazares da índia;
346 Colóquio quinquagesimo quarto
mas é claro também, que elle se não podia desinteressar absoluta-
mente d'estas discussões, que, em ultima analyse, constituíam a scien-
cia do seu tempo.
(Cf. Roxburgh, Fl. Indica, i, 470; Dymock, Mat. med., 356; Ainslie,
Mat. liid., ii, 382; Sprengel, Dioscorides, i, 614, 656).
Nota (3)
O primeiro pagode, mencionado por Orta, é o antigo vihára ou con-
vento buddhista da ilha de Salsette, muito conhecido pelo nome de
Kânheri, cujas excavaçóes diversas datam de epochas differentes, mas
na maior parte, ao que parece, do 11 ao iv século da nossa era.
O vihára, talhado na rocha vulcânica, na encosta da montanha, con-
siste em excavaçóes distinctas. A primeira que se encontra — como diz
Orta — é o c/^T/Zia ou templo, que era effectivamente «uma casa grande >;,
pois mede perto de 90 pés, por perto de 40, sendo ornamentado nas
paredes de esculpturas, e tendo á roda numerosos pillares, esculpidos
também. Seguem-se pela montanha acima, as excavaçóes do vihára
propriamente dito com as suas camarás, ornadas igualmente com ima-
gens de Buddha e outras. Estas camarás são em numero considerável,
não inferior de certo ao que Orta indica, e dispostas em andares so-
brepostos, como elle também diz. Junto de muitas d'estas camarás,
encontram-se cisternas ou pôndhis, com um systema completo de ca-
nalisação, destinado a receber as aguas da chuva, e a alimentar depois
as diversas partes do convento, circumstancia apontada também pelo
nosso escriptor. Garcia da Orta foi sem duvida alguma o primeiro eu-
ropeu, que fallou d'este celebre vihára de Kânheri, descripto depois
por Diogo do Couto; e do qual os viajantes de outras nações só co-
meçaram a ter conhecimento d'ali a um século ou mais.
F'elo anno dei 535 foi estabelecer-se em Baçaim o franciscano portu-
guez, fr. António do Porto, acompanhado por outros religiosos da sua
ordem, e que se pôde considerar o apostolo do norte da índia, como
mais tarde S. Francisco Xavier foi o apostolo da costa da Pescaria e
outras terras do sul. Fr. António fez em Baçaim e Salsette numerosas
conversões, entre outras as áosyogis, que encontrou em Kânheri; mas
não eram já propriamente habitantes do vihára, abandonado havia sé-
culos, e unicamente alguns mendicantes hindus, que occasionalmente
aproveitavam o refugio das camarás, talhadas na rocha. Diz-se, que
fr. António quiz explorar as excavaçóes, andando por ellas sete dias
sem chegar ao fim, no que ha uma grande exageração; e conta-se tam-
bém como lhe disseram, que os caminhos subterrâneos chegavam ao
interior da índia, até Agra. Deixando de parte estas phantasticas in-
formações, o certo é, que fr. António do Porto consagrou, então ao
Do tiirbit 347
culto catholico o chaytia do vihára buddhico de Kânheri, dando á
nova igreja a invocação de S. Miguel.
(Cf. Fergusson and Burgess, Cave temples of índia, London, 1 880,
pag. 348 a 36o; Couto, Ásia, vii, i, 10; Gerson da Cunha, Hist. and
antiqiiities of Chaul and Bassein, Bombay, 1876, pag. 190; Garcia da
Orta e o seu tempo, 25o e seguintes.)
Nota (4)
«Maljaz», nome que não sei bem explicar, é o pagode, chamado ha-
bitualmente pelos portuguezes Monpacer e Manapazer, correctamente
Mandapesvara. Era um templo brahmanico de Síva, que foi também
convertido em igreja por fr. António do Porto. Para isso, a entrada fe-
chou-se com um muro, corrido diante dos pillares, e cobriram-se as
esculpturas da parede com alvenaria, sem comtudo as destruir. A in-
vocação da igreja era Nossa Senhora da Misericórdia, segundo Fer-
gusson, Nossa Senhora da Piedade, segundo Diogo do Couto, e Nossa
Senhora da Conceição, segundo o sr. Gerson da Cunha, que julgo
o mais bem informado dos três. Ona, que evidentemente nunca visi-
tou este templo, parece dar uma noticia, anterior á transformação em
igreja, quando o pagode de Síva estava ainda muito «mal assombrado».
(Cf. Fergusson aad Burgess, 1. c; 481 ; Couto 1. c; Gerson da Cunha,
1. c, 192.)
Nota (5)
Este ultimo pagode, o mais conhecido de todos, estava situado na
pequena ilha de «Pori«, ou Ghãrãpurl, que os portuguezes começaram
a chamar a ilha do Elephante, por causa de uma grande figura d'este
animal, que ali se via talhada na rocha. Foi depois geralmente desi-
gnado, ilha e pagode, pelo nome de Elephanta. Era um templo brah-
manico, relativamente moderno, do vii ou viii século, tão celebrado
e tantas vezes descripto, que não nos devemos demorar em indica-
ções, correntes e sabidas. Unicamente recordaremos muito brevemente,
quanto é exacta a curta descrição de Orta. O templo media i3o pés de
norte a sul, e proximamente o mesmo de leste a oeste, podendo-se, pois,
dizer, que era «grande como um mosteiro». Aos lados havia dois pa-
teos, e, em um d'elies, uma grande cisterna. Todo o interior estava or-
nado de figuras, ficando ao centro o colossal Trimurti, e dos lados
varias outras, entre ellas Arddhanari, de sexo duplo, representado
unicamente com o seio esquerdo, e que por isso o nosso Orta tomou
por uma amazona. Diversos animaes estavam esculpidos nas paredes
— como Orta diz—; e, Arddhanari, por exemplo, encosta-se á cabeça
348 Colóquio qiiinquagesimo quarto
do boi Nandi, tendo logo atrás a representação de um elephante, pro-
vavelmente o elephante celeste Airãvati.
Orta visitou este pagode logo á chegada de Portugal, quando foi
com Martim AfFonso de Sousa assistir ás pazes de Baçaim, e á entrega
d'aquellas terras, como contámos na sua Vida. Wiu-o, pois, em i534, e
deu noticia d'elle em um livro publicado em i563, sendo, por muito,
o primeiro europeu que d'elle fallou, mais de vinte annos antes de
Linschoten, e quarenta antes de Diogo do Couto.
Sobre as opiniões de Garcia da Orta, quanto á intervenção dos chins
na construcção do templo de Elephanta, devemos remetter o leitor
para o que dissemos já na sua Vida, abaixo citada, e mesmo nas notas
aos Colóquios, no vol. i., pag. 222.
(Cf. Fergusson and Burgess, 1. c, 465 e seguintes; Niebuhr, Voyage
en Arabie, 11, 25 e seguintes; Gerson da Cunha, 1. c, 204; Couto,
Ásia, VII, III, II, Garcia da Orta e o seu tempo, 255 a 259.)
Nota (6)
Esta enumeração de castas é extremamente deficiente, ou antes
Orta dá apenas alguns exemplos, pois elle conhecia sem duvida muitas
outras castas e muitos outros nomes.
Curinnbins foi uma designação que os portuguezes davam aos cul-
tivadores do campo ou lavradores, e parece derivada da palavra Ku-
mari, que os inglezes hoje escrevem Cootnry, e designava um systema
de cultura seguido na índia meridional : mas é bem possível que tenha
outra origem, pois não estou nada seguro n'esta derivação.
Malis ou mãlís era e é eífectivamente o nome dos jardineiros.
Paru está mal escripto, e encontra-se no Tombo da índia na forma
mais correcta /"arvM, modernamente entre os inglezes jcarvoe. Deriva-se
do sanskrito prabhu, e era um titulo honorifico, tomado pela casta já
mais elevada dos escrivães.
Dos Baneanes tratámos já em uma nota antecedente.
Deres Qfara:;es; a casta inferior, á qual é de notar Orta não dá o
nome de parias — que se usou geralmente mais tarde, e não é muito
correcto — a casta inferior áos paruaris subdividia-se em varias, entre
as quaes os mehters tinham o emprego de varredores de ruas e immun-
dicias. Estes devem ser os deres de Orta. A palavra /ara;^ parece ser
de origem árabe, e applicava-se aos creados inferiores; muitas vezes,
entre os nossos portuguezes, aos creados de cavallariça.
Esparcis são os conhecidos Parsis, uma colónia de origem persiana,
e conservando na índia a sua religião. Muitos viajantes notaram, como
Orta, os seus hábitos de não queimarem nem enterrarem os mortos, e
de os exporem em torres, expressamente construídas para aquelle fim.
Do tiirbit 349
Os portuguezes deram o nome portuguez de castas áquellas divi-
sões e subdivisões da sociedade hindu, e este nome foi depois recebido
n'aquella accepção especial por francezes, inglezes e outros. Não é Orta
o único que nota o rigor com que os hindus permaneciam fieis ás suas
castas e profissões, sendo — como elle diz — sapateiros todos os filhos
dos sapateiros. Vários portuguezes, dos que foram á índia, faliam n'isso,
e mesmo os que lá não foram, como Garcia de Rezende :
4 Todos os officiaes
nunca deixam seus officios,
nem hã de sobir jamais
que seus avós e seus pães,
nem ter mores beneficios.
(Cf. Yule e Burnell, Glossary, v. Coomry Parvoe, Parsee; Simão
Botelho, Tombo do Estado da Índia, iSy, 211, nos Subsidias; Sinclair
Notes on castes on the Dekhan, em Tlie Indian Antiquary, m (1874)
março, abril e maio.)
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO QUINTO
DO THURE QUE HE ENCENÇO, E DA MIRRA
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
^ RUANO
O
Porque escrevem que ha duas maneiras de encenço, sci-
licet, huma da Arábia e outra da índia; he necesario sa-
bermos da arvore delles, como se chama nas terras donde
o ha, e saber se he mezinha usada n'esta terra.
/" ORTA
Nesta terra não ha encenço, mas mandam o a elrey de
Portugal de cá, pêra que faça esmolas a muytas casas de
religiosos da cristandade; mas na índia não o ha, senão
trazido da Arábia, onde o chamam lovam, corrompendo o
vocábulo grego, que he olibano^ de que elles muito usam;
e elles o chamam conder, scilicet, Avicena*, porque conder
ou condros quer dizer resina, e çamac quer dizer goma
em arábio; e por isto chamam á guoma arábia çamac
arabi. Verdade he que Serapio** o chama ronder; mas o
nome he corruto; porque falei com muytos Arábios já, e
todos me dixeram que poucos lhe chamavam conder, e to-
dos os mais lofam; mas que nenhum o chamava ronder,
nem na própria terra da Arábia, onde nasce, E perguntei
a Portuguezes, que nessa terra delle residiram muito tem-
po, e todos me dixeram que não tinha outros nomes; e que
a arvore se chamava também lovam; e estes homens me
dixeram que o milhor he o das serras muyto fraguosas, e
o dos campos he roim, e que vem mesturado com outras
resinas de arvores, e que usavam delle pêra brear as náos.
* Avicena, Lib. 2, cap. 533 (nota do auctor) aliás 532.
•» Serapio, cap. 17S (nota do auctor).
352 Colóquio qiiinquagesimo quinto
asi como nós usamos do breu; e que estas arvores sam do
próprio rey; que nenhuma pessoa o podia colher sem li-
cença de elrey; e que vinham os mercadores de Adem e
Xael e de outras partes da Arábia, e contratavamse com
elrey na cantidade que aviam de colher, e no preço que
aviam de dar por o encenço, sendo bom, a que nós cha-
mamos encenço macho; e o preço não he grande, vendo que o
milhor trazido da Arábia e posto cá na índia vai hum quin-
tal dous crusados,
RUANO
E chamamlhe elles madio?
ORTA
Não, mas chamam ao bom na Arábia melato; e o mao,
que he o preto, tem outro nome, e he nacido no campo e
não na serra, e ás vezes mesturam hum com outro pêra o
vender cá na índia, e vai mu3^to menos; e este vem mes-
turado com as cascas do arvore, e a rezam porque lhe nós
chamamos macho, scilicet, porque parece aos testículos, não
aceitam cá os Arábios esta semelhança; e o arvore donde
se cria esta guoma, não he muyto grande, e as folhas e a
feiçam sam de folhas de aroeira; e nesta terra da índia
nam o sofesticam ou falsificam; nem ganhariam muyto em
o falsificar, poUo pouquo preço delle. Usam muyto os fí-
sicos Indianos do encenço pêra unguentos e perfumes, e
comido pêra muytas enfermidades da cabeça e pêra ca-
marás. Mas a maior cantidade de todo o que se gasta he
levandoo á China, pêra lá o venderem, e gastam muyto
delle. E se acerta ir huma vez pouquo, ganham os que de
cá o levam muyto nelle, asi como perdem se da índia vai
muito, porque também o gastam pêra outras partes confi-
nes a Malaca; asi como gastam a mirra (que na índia cha-
mamos bolla).
RUANO
Dioscorides, e Avicena e outros muytos dizem avelo na
índia, e este he o negro; nam sei como dizeis, que não
ha na índia encenço?
Do thure que he encenço, e da mirra 353
ORTA
Este nome iJido tomam muytas vezes por negro, como
Mesue o diz nos mirabolanos indos que sam os negros,
como já vos disse, falando nelles (i).
RUANO
E pois falaste na mirra, e me disestes tam poucas cousas
novas no encenço, será cousa justa que me digaes donde ha
a mirra e como he feita.
ORTA
. Muita vem á índia da Arábia e da terra do Abexim, que
he a Etiópia; mas nunqua pude saber desta guoma ou re-
sina a verdade, e como a arvore he feita; somente hum
mercador que tratava de Melinde pêra Moçambique me
disse, que os Bedoins a traziam a Brava e a Magadaxo
por terra, e que vinham, segundo elles diziam, da Caldéa,
assi chamada por estes Bedoins. E sam estes homens gente
montez, e falam o arábio puro, que dizem ser mais che-
gado a lingoa Caldéa ou da Suria antigua. E isto me dixe
hum sacerdote abexim e hum bispo arménio. E porque
Pico Mirandolano diz na sua Apologia, que mago em lin-
goa caldéa quer dizer sabedor, progunteilhe, pois que elle
dizia que a escritura sagrada estava escrita acerqua delles
em lingoa caldéa, que me disesse que queria dizer mago;
elle me disse que magoxi queria dizer naquella linguoa cal-
déa letrado e sabedor, e que destes eram os magos, que
vieram adorar a Nosso Senhor. E asi me dixe que nam
eram reys estes homens, senão letrados grandes, assi nas
estrellas, como nas outras cousas naturaes. E mais me dixe
este bispo que a estrella que guiava a estes magos não
era de natura celestial, senão elemental; asi como dizemos
cometa: dizeime o que vos nisto pareça, porque eu nam
tenho nenhuma cousa destas por boa, até que o digam os
que regem a Santa Madre Igreja de Roma (2).
RUANO
E a mim com essa condiçam me parece bem o que di-
zeis, e folgara que me dixereis mais cousas do encenço,
23
354 Colóquio quiriquagesimo quinto
porque os nossos Castelhanos lá dizem que o ha nas índias
occidentaes de nosso rey.
ORTA
Eu não diguo as cousas senam que sei bem sabidas, ou
ditas por pessoas dignas de fé. E isso que dizeis dos es-
critores das índias occidentaes já o li, mas como o nam vi,
não sei dizer se he verdade ou não. Vós o podeis saber
em Gastella e escrevelo cá*, se vos Deus levar; porque
isto não releva muyto (3).
* Deve ser «lá».
Nota (i)
Seria fácil alargar esta nota sobre o incenso, de que muito se tem
escripto, mas devemos limitar-nos apenas a esclarecer com brevidade
alguns pontos em que toca o nosso auctor.
O incenso é a resina de varias espécies do género Boswellia, da famí-
lia das Burseracece. Entre estas, citaremos unicamente a Bos-vrel-
lia Cartex*i, Birdwood, que habita a Arábia meridional e as ter-
ras fronteiras da Africa, e a Bosvrellia Blia.ii-Dajia.iia.,
Birdwood, da terra dos Somalis. As duvidas, que ainda restam, sobre
as variedades d'estas espécies, e sobre outras do mesmo género, não
vem ao nosso caso^.
E bem sabido, como aquella substancia foi conhecida desde a mais
remota antiguidade, sendo repetidas vezes mencionada na Biblia, e
tendo feito o objecto do commercio dos Phenicios. Foi chamada Xioavos
e olibanum pelos gregos e latinos, palavras que se prendem ao hebraico
lebonah, significando leite, e também ao nome arábico de que logo
fallaremos. O de thus julga-se derivado do verbo 3j:iv, sacrificar. Em-
quanto á palavra incenso, vem simplesmente de incendere, queimar.
— O nome arábico, dado por Orta, «lovam», é o conhecido J, lú-
ban, que significa leite como o hebraico lebonah, e procedeu do aspe-
cto da resina emquanto fresca. Não é, pois, o «vocábulo grego» cor-
rompido; mas é pelo contrario este vocábulo grego, que se deriva das
línguas semíticas.
' Veja-se sobre a parte puramente botânica, e também sobre a historia da substancia,
o excellente e completo trabalho do dr. Birdwood, On the genus Boswellia, nas Trans. of
íhe Linn. Soe, xxvii (1871), pag. iii a 148; igualmente Oliver, Flora of tropical Africa,
I, 324; e Engler, Burseracece, em A. D.C., Monographiae Phanerogamai-um, n.
Do thure que he enccnço, e da mirra 355
— O nome «conder», mencionado igualmente por Orta, é do mesmo
modo conhecido, jJj5', kunder ou konder, e parece ser a adaptação
arábica do nome sanskritico kundu, ou kundiir.
Orta diz muito claramente, que o incenso ia para a índia da Arábia,
o que é exacto, comquanto talvez em outras epochas procedesse prin-
cipalmente da Africa oriental, terra dos Somalis e outras próximas.
Alguns séculos antes, Marco Polo dava-o também como sendo expor-
tado da Arábia meridional, pelo porto de Dufar, Dofar ou Dhafar. E
d'esta povoação, de que hoje não ha vestígios, fallou mais tarde o
nosso Duarte Barbosa: «hum lugar de Mouros. ... do Regno de Far-
taque». Dofar é igualmente mencionado por Camões, com referencia
especial ao incenso:
Olha Dofar insigne, porque manda
O mais cheiroso incenso para as aras.
Vários viajantes modernos têem observado na Arábia meridional,
na região do Hadramaut, a arvore do incenso, e os processos de ex*
tracção da resina, sendo particularmente interessante a relação do
dr. Cárter (1844- 1846). Segundo diz outro viajante, o capitão Miles, a
droga não é ali colhida pela gente da terra, e sim pelos Somalis, peri-
tos n'aquelle trabalho, os quaes atravessam em grande numero da costa
africana fronteira para fazerem aquelle serviço, pagando por isso um
certo tributo. Parece que alguma cousa n'este género succedia já no
tempo de Orta; mas elle ignorava que os trabalhadores fossem afri-
canos, e apenas falia dos mercadores de Aden e outros pontos da
mesma Arábia, os quaes «se concertavam» com ps reis da terra antes
de procederem á extracção da resina.
O incenso era empregado na medicina mussulmana e na hindu, como
diz Orta, e foi mesmo oíficialmente admittido na Pharmacopceia da ín-
dia; mas hoje consome-se principalmente ou unicamente nas cerimo-
nias religiosas do rito romano e do rito grego.
Orta não admitte a existência de incenso na índia, e em rigor tem
rasão; mas encontravam-se ali muitas resinas, mais ou menos análo-
gas, procedentes de varias plantas, da Bostvellia thurifera — que se
julgou um tempo dar incenso verdadeiro — da Vateria indica, da Gar-
dénia lúcida e de outras.
Notaremos ainda, que o nosso escriptor, não tendo visto a planta,
tinha no emtanto algumas idéas correctas sobre ella; e sabia ser uma
arvore pequena, e ter folhas similhantes ás da «aroeira», o que é bas-
tante exacto, tratando-se de uma Burseracea.
(Cf. Pharmac, 120; Sprengel, Diosc, 11, 376, Ainslie, Mat. Ind., i,
i36; Yule, Marco Polo, 11, 386 e 442; Duarte Barbosa, Livro, 265; Lu-
síadas, X, 101.)
B56 Colóquio quinquagesimo quinto
Nota (2)
Diz-se que a myrrha é produzida por uma arvore da família das
mesmas Burseracece, Comniiplxoi-a IMyrrlia, Engler (Bal-
samodendron Myrrha, Nees); mas é forçoso confessar, que a sua ori-
gem botânica ainda levanta bastantes duvidas.
Em compensação a substancia foi bem conhecida desde os mais an-
tigos tempos. O nome de myrrha, como o grego afijova, vem do he-
braico mur, que ainda hoje usam os árabes exactamente na mesma
forma, y», murr. O de «bolla», ou bola, ou boi, usado ainda na índia,
é quasi sem alteração o sanskrito c{ |(r{, vola.
A myrrha tem vindo sempre pela maior parte, se não exclusiva-
mente, da Africa oriental, sobretudo da terra dos Somalis e do Ha-
drar, onde se encontram as arvores que a produzem. O commercio de
Bombaim recebe modernamente esta mercadoria da grande feira de
Berbera, e de outros pontos da costa africana, onde concorre de va-
rias regiões do interior. A noticia de Orta é substancialmente a mesma,
posto que elle faça n'esta parte bastantes confusões. Depois de dizer,
que aquella substancia ia a índia da Ethiopia e também da Arábia,
aponta unicamente dois portos africanos, Magadaxo e Brava, situados
na terra dos Somalis, para o sul do cabo Guardafui. Em resumo, in-
dica correctamente a Ethiopia e a terra dos Somalis, e não devia estar
nada seguro de que a myrrha viesse também da Arábia. A sua con-
fusão é manifesta, quando nos diz, que os beduínos, vindos da Caldéa,
a levavam a Brava e a Magadaxo por terra. Evidentemente baralhou
e confundiu na cabeça os dois lados do mar Vermelho.
Tomando, pois, a parte mais definida da sua informação, a expor-
tação pelos portos africanos, nós vemos que a myrrha procedia, como
ainda procede, d'aquelle grande triangulo, que termina no cabo Guar-
dafui. Somente, dinge-se hoje aos portos do norte, Berbera e outros
em frente de Aden, e dirigia-se então mais para o meio dia, sem que
a região productora variasse.
A propósito de incenso e de myrrha, Orta lembrou-se muito na-
turalmente dos reis Magos, e trouxe-nos aquella curiosa referencia á
dissertação de Pie de la Mirandole, De Magia naturalis et cabala; e
aquella engraçada opinião do bispo arménio sobre a natureza elemen-
talf e não celestial, da estrella que os conduziu.
(Cf Pharmac, 1 24; Ainslie, Mat. Ind., i, 242 ; Dymock, Mat. med., 1 52.)
Nota (3)
Abundavam nas Índias Occidentaes resinas mais ou menos simi-
Ihantes ao incenso, que não eram esta substancia, mas foram varias ve-
Do thure que he encenço e da mirra 357
zes confundidas com ella. No livro de Pedro Martyr — que Orta po-
dia perfeitamente ter lido — encontramos, por exemplo, a noticia de
que a Vicente Yanes Pinzon vieram os Índios de Cuba offerecer uma
porção de objectos de oiro, e um vaso cheio de incenso i mas não é
fácil saber o que seria realmente a resina cheirosa que elles trouxe-
ram, e á qual se deu impropriamente aquelle nome (P. Martyr, era
Ramusio, iii, 22).
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO SEXTO
DA TUTIA «
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Levam de cá da índia tutia pera Portugal, segundo me
dixeram lá; e também Avicena diz que na índia ha tutia,
e Serapio pella mesma maneira diz que huma especia de
tutia he da índia. Ora pois isto asi passa, com rezam me
direis o que he esta tutia; e em que parte da índia nasce
ou se colhe.
ORTA
Nas partes que sabemos indianas não ha tutia nem espo-
dio, como dizem os Greguos, nem cobre nem outros metaes
de que se faz esta tutia; mas se me quiserdes crer, vos di-
rei qual he a tutia que usam na índia, e em Portugal e Es-
panha; a qual nam he mineral, senão o antispodio de que
faz mençam Dioscorides, ou outro semelhante ao mesmo
que elle diz.
RUANO
E donde vem esta tutia, e como he feita e pera onde
vai?
ORTA
Hum mercador riquo destas terras, e muito corioso (pos-
toque he homem leiguo), me disse que soubera por muyto
certo de mercadores naturaes da terra da Pérsia, que se
fazia em Guirmon (terra da Pérsia e vezinha das terras de
Ormuz); e fazse da cinza de hum páo que se chama goan;
e que esta arvore dá uma fruta, que se chama também goan,
que tem casca e côdea ou corteza; e comeselhe a côdea,
e o miolo, e a casca não; e desta arvore, que dá esta fru-
ta, se faz esta tutia, scilicet, da cinza desta arvore. E esta
cidade de Guirmon he muito celebrada por ter os melhores
cominhos, que ha na Pérsia. E esta he levada a Ormuz e
36o Colóquio qiiinqiiagesimo sexto
ás outras partes da Arábia, donde vai ter a Alexandria, e
esta he a que levam a Portugal, e em muitas náos, que se
tomaram de preza, acharam d'esta tiitia, que vinha por mer-
cadoria; e eu a vi mandar a Portugal pêra elrey. E segundo
me disse hum buticairo portuguez, esta tiitia he a que se
guasta em Espanha e França, e he chamada alexandf~ina,
e nam por se fazer ali, senam porque se leva ahi da Pérsia,
e este he hum dos antispodios dos Greguos.
RUANO
Não me maravilho d'estas cousas contrafeitas, porque vi
que vos trouxe hum físico huma pouca de caparosa contra-
feita, e.dissevos que usavam delia os çurgiaes Indianos, e
que llie achavam bons efeitos porque era bom cáustico.
ORTA
Nas cousas dos metaes sabem os índios médicos fazer
obras; porque, queimando e polvorisando os metaes, eu vi
aço e ferro queimado, e polvorisado, e azougue; e a elrey
de Cranganor no Malavar deramlhe muyto tempo a beber
azougue polvorisado, e fezselhe huma previa disposiçam
pêra lepra, de que o curei eu, e está muito milhor aguora,
e cura-se ao modo dos Portuguezes já (i).
Nota (i)
No Colóquio do Espodio, Orta havia explicado, como aquelle seu
«espodio» vegetal era diverso do espodio metallico dos antigos e do
pompholix. EfFectivamente o espodio dos antigos era um oxydo impuro
de zinco, obtido no trabalho do latão, ou pela combustão de certos
minérios de zinco; e o pompholix era pouco mais ou menos a mesma
cousa, somente este ultimo nome dava-se ao oxydo mais puro e mais
leve, que se deposita nos cadinhos como uma matéria branca e em
flocos, á qual a antiga chimica chamava também lana philosophica.
Depois de tratar d'estas substancias metallicas, Dioscorides fallava no
seu livro das cinzas de varias plantas, que podiam substituir aqueUas
Da tiitia 36 1
substancias quando faltassem — uma espécie de espodio falso, ou de an-
tispodio; e isso contribuiu para que Orta acreditasse o que lhe conta-
ram sobre a tiitia ser feita com as cinzas de uma arvore, chamada
Goan.
Isto não era assim; e a tutia é um oxydo impuro de zinco, do mesmo
modo que o espodio. Alguns séculos antes de Orta, Marco Polo havia
íiallado correctamente da tutia da região de Kerman, como sendo ob-
tida de uma certa terra que ali havia (um minério de zinco) queimada
em grandes fornalhas, e dando uma substancia mais pura, a tutia, e ou-
tra mais grosseira e cheia de impurezas, o espodio. Aqui, a tutia é assi-
milhada ao pompholix dos antigos. Annos depois de Orta, Teixeira re-
pete a mesma informação de Marco Polo, somente o processo varia
um pouco: diz elle, que em uma serra próxima da cidade ou villa
de Kerman, se encontrava uma terra especial, a qual, amassada com
agua, se punha a cozer em formas de barro, e depois de bem cozida
em fornos ficava dentro a tutia, a que os persas chamavam tutyah.
No fundo este processo, descripto por Teixeira, é o mesmo de que
falia Marco Polo; trata-se também de um minério de zinco, do qual,
pela alta temperatura, se obtém o oxydo de zinco, naturalmente muito
impuro, dados os grosseiros processos de que se usava. E — continua
dizendo Teixeira— /«e mal informado el dotor Garcya dorta, que en
sus diálogos de los simplices de la índia di:^e que la Tutia se ha^e de
la cénica de cierto arbol y fruto dicho Gune. Effectivamente foi mal
informado; era verdade que a tutia se preparava em Kerman (o seu
Guirmon), ao norte e não longe de Hormuz; mas aquella tutia era me-
tallica — ou, servindo-nos da linguagem do tempo, era um espodio, e
não um antispodio.
E exacto, que a medicina indiana se aproveitasse com frequência
dos metaes, e dos seus preparados, obtidos com uma certa habilidade,
como por mais de uma vez indica W. Ainslie no seu excellente livro,
tantas, vezes citado n'estas notas. No caso do rei de Cranganor, não é
provável que o «azougue polvorisado» lhe fizesse uma disposição para
lepra; mas antes, que, por elle ter aquella disposição, lhe appiicassem
um tratamento mercurial.
(Cf. Sprengel, Dioscorides, i, 747, 748; Yule, Marco Polo, i, 129, i3o;
Teixeira, Relaciones, 121.)
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO SÉTIMO
DA ZEDOARIA E ZERUMBET
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
RUANO
Bem sabeis quanta duvida lia em o que se chama ledoa-
ria, e o que se chama icrumbet; porque Avicena faz dous
capítulos, e Scrapio hum só de lerumbet, e Rasis faz hum
capitulo de ambos: decraraime isto, dizendo os nomes e se
o usam a gente da terra.
ORTA
A mesma duvida, que vós tendes, tive eu muyto tempo;
e asentei que, por ledoaria ser mais famosa, era o que cha-
mamos '{eriímba, drogua usada pêra Ormuz e dahi levada
pêra a Turquia e Veneza; e que o lerumbet era o que cha-
mamos açafram da terra, que na feiçam sua se parece com
a ruiva seca nossa, de que já vos falei acima no croco m-
diano. E depois que muyto cuidei nisso e o enqueri, soube
que estava enguanado, por os efeitos e obras diversas que o
açafram da terra faz das que escrevem da ^edoaria e ^e-
rumbet, asi chamado de nós; porque da '{edoaria faz capi-
tulo Avicena* e de {erumbet; e isto que chamamos '{edoaria,
chama Avicena geidiiar, e outro nome lhe não sei; porque
o não ha senam nas terras confins á China. E este geiduar
he huma mezinha de muyto preço, e não achada senão nas
mãos dos que os Gentios ch^nid^m. jogues, ou outros a que
os Mouros chamam calandares; e todos estes sam peregri-
nos, que vivem mendicando e peregrinando, e visitando as
suas casas de idolatrias; e destes vos falei já, dos quais ham
* Avicena, Lib. 2, cap. 742 (nota do auctor). Na edição de Rinio,
cap. 745 De ^edoaria, 747 De ^^urumbetf 754 De :jediiar.
364 Colóquio quinquagesimo sétimo
os reis e grandes pessoas este geidiiar, a que nós corru-
tamente chamamos :{edoaria.
RUANO
E como soubestes isto, que tam ousadamente falaes?
ORTA
Os fizicos do Nizamoxa mo dixeram: querendoa dar a
hum homem no arraial do Nizamoxa contra a mordedura
de huma bicha, a mandaram pedir ao rey; aos quaes eu dixe,
que os buticairos a tinham, e lha mostrei; elles responderam,
que isso que lhe eu mostrava era '{eriímba, e não o geidiiar;
e dandoa contra a mordedura da bicha, se achou o traba-
lhador bem, e lhe tornou o pulso, e se lhe esforçou a vir-
tude.
RUANO
E de que feiçam era essa ledoaria?
ORTA
Tamanha como huma bolota, e casi dessa feiçam, e a cor
era lúcida: pedi a elrey hum arrátel dessa mezinha; e disse-
me que não me podia dar tanta, e deume hum pedaço que pe-
saria mea onça; a qual mostrei aos buticairos de Chaul e de
Goa, e todos me diseram que não conheciam aquella mezi-
nha, e que não usariam delia. E esta mandei a Portugal
com huma pedra arménia, e tudo se perdeo, e a náo em
que hia, Deos seja louvado. E despois achei na mão de hum
jogue huma pouca, e nam lha comprei, porque a não conhe-
cia bem. E se tivera algum fizico ahi, eu lha comprara, e
vola mostrara aguora.
RUANO
Aproveita pêra outras cousas este geiduar?
ORTA
Diseme o Mula Ucem (e este era um fizico letrado, que
eu conversei, estando em Juner curando os filhos do Niza-
moxa) e me disse que aproveitava pêra 36 cousas; e elle
Da '{edoaria e :{erm7ibet 365
me disse muytas delias, e eu lha vi aplicar em hum giolho,
que estava com dor hum mercador. E ao menos podeis crer
que he mezinha que se estima em muyto, e o principal he
contra a peçonha.
RUANO
Pois Aviçena nam faz tanto caso delia.
ORTA
Avicena não a conheceo, e foy muyto duvidoso nesta me-
zinha-, porque nas cousas de duvida faz Avicena dous capí-
tulos, e assi fez nesta porque no capitulo 762 diz: geiduar
qiiid est? E diz que estima que será algeiduar; e Dioscori-
des nunqua falou nisto*. E por aqui vereis que Avicena ti-
nha nesta mezinha duvida. E o Belunensis, na exposiçam
dos nomes arábios, parece que cheirou isto; porque faz
mençam de leduar e de :[edoaria, e de :{erimibat. E por
aqui sabereis que he :[edoaria nome corruto, e geiduar ver-
dadeiro. E aguora vos direi o que he :[enimbet, e vós ao
cabo vireis com vossas contradições, como acustumaes; mas
eu ei de ficar em pé, porque a verdade tem pés, e anda e
nunqua morre. E diguo que o ^eriímbet se chama dos Ará-
bios e Persas e Turcos ■{erumba, e dos Guzarates e Deca-
nins e Ganarins cachorá, e dos Malavres çua**. A maior can-
tidade delia he no Malavar, scilicet, em Calecut e Cananor;
e nasce no mato, e, se a plantam ou semeam, nasce em
mu3^tas partes, e em todo o cabo. Ghamamlhe muytos gen-
givre do mato, e tem re:{am; porque na folha he semelhante
ao gengivre, senão que a folha he mais larga da :^enimba,
e mais aberta, e a raiz da lerumba he mais grande; e des
que he colhida a secam em talhadas, e a levam a Ormuz
* Aliás, cap. 754. — O curtíssimo capitulo de Avicena é textualmente
o seguinte: Zeduar quid est? Inquit Dios. Est algieduar, i. seciindum
quod existimo.
** Sic na edição de Goa, mas deve ler-se cua; e as cedilhas são
postas em todo o livro com uma grande irregularidade.
366 Colóquio qiiinqiiagesimo sétimo
por mercadoria, e á Arábia e Pérsia ; donde vai a Alexan-
dria e a Gida, e dahi a Veneza e a outras partes; e ganha-
se nella dinheiro, levandoa por mercadoria pêra lá, e tam-
bém a fazem em conserva de açucare, e he milhor que
gengivre. E isto he noto a todos, e por aqui vereis que não
he arvore, como alguns falsamente diseram*.
RUANO
Já he necessário que venhamos ás duvidas que disto na-
cem. E digo que Avicena diz que a ■{edoaria sam humas
talhadas semelhantes ás da aristologia, e que aquella plan-
ta he milhor, que nasce perto do napelo ou rabaça de Pêro
Jogral, porque tira ao napelo a virtude venefica ou mortífe-
ra, e que he triaga dos venenos, em especial da bicha e do
napelo. E no Capitulo 745** diz do :{erinnhet que he erva se-
melhante ao cipero, ou junca avelanada, senão que he me-
nos odorífera, e em outra letra diz que he arvore: no pêra
que aproveita diz que presta pêra as cousas, que Serapio
diz da -edoaria. Serapio capitulo 172 diz que '{erumbet que
he :^edoaria, por autoridade de Isac Aben Amarani; que
:[erumbet sam raizes redondas, semelhantes á arislologia, e
sam semelhantes na cor e no sabor ao gengivre; e que se
trazem de Seni. Ora veja isto, e digame o que lhe parece.
ORTA
Avicena não vio senam a :^eriimba ou lerumbet, como
nós dizemos \ e porque huma delias vai ao estreito de Meca,
feita em talhadas redondas, e outras compridas, pode ser
que dahi tomou ocasiam de cuidar que eram de duas ma-
neiras, scilicet, ^edoaria e :{enimba. E porque nunca vio
as folhas, nam a pintou, senam como a levam da índia, sci-
* A traducção de Andreas, porque uma letra diz erva e outra lignum
(nota do auctor). EfFectivamente o capitulo 747, De ^urwnbet diz, por
engano do traductor, Est lignum símile cypero.
* * Aliás 747.
Da :{edoarta e lerumbet 367
licet, as raizes como as do gengivre. E ainda agora tem
diversos preços a ^erumba redonda da comprida; e também
o gengivre pequeno vai menos que o grande. E o que diz
que a que nasce vezinha do napelo he a melhor, isto he
muyto fabuloso, porque de napelo ha pouco, e a :{eriimba
nasce em todo cabo que a semeam; posto que a maior can-
tidade é no Malavar, no mato; e a que semeam nestas terras
he muyto pouca, e o mato nam he aparelhado a criar o na-
pelo; e sei o nome do napelo na linguoa d'esta terra, nun-
qua me diseram os de Malavar que nascia vezinha ao na-
pelo. E do leynimbet diz o mesmo Avicena que a erva he
semelhante a junca, e outra letra enmendada diz que he
lignum ou arvore; por onde vereis que o nam conheceo
Avicena; pois nam he arvore, senam hum legume. E no
Serapio não está escrita aquella diçam expositiva, scilicet,
\edoaria: que he isto acreçentado do treslador, que não
conheceo a deferença de :{edoaria a ieriimbet\ e porém diz
ao cabo que se trazem estas raizes de Seni. E na índia não
nascem estas raizes, senam na China; e achamse poucas
na índia, trazidas da China, como já vos disse; asi que
ha lerumba na índia, e a ^edoaria na China.
RUANO
E como sabeis que China quer dizer Seni?
ORTA
Por muytas raz5es cá o podeis saber. Mas por aguora
VOS abaste saber que raban seni quer dizer rai^ da china;
e asi o he, porque o bom 7-uibarbo não o ha senam na China ;
asi que nisto não tendes que duvidar.
RUANO
António Musa, recupilando os ditos de todos, diz uma
grande deshonra da ^edoaria chamandoa barbara; e o nome
de ser bárbaro he que não lhe pode dizer maior pragua; e
porque Serapio, falando de ^erumba, entendeo a :{edoaria,
porque o que diz delia Simão Genuense mostra serem di-
368 Colóquio quinqiiagesimo sétimo
versas mezinhas, porque Mesue, descrevendo o letuario de
gemis, faz mençam da ^edoaria em certo peso, e mais abaixo
falia do :{erumbet em outro peso, e diz mais que alguns outros
diseram que :{edoaria era arnaho^ ou :{arnabo, que acerca
de Paulo e Aecio he arnabo, e que he do género de cheiros,
e alegua outros, e aos que dizem ser bem álbum e rubeum,
e outros carpesio\ e assi que não sei o que se possa nisso
dizer.
ORTA
O carpesio craro he não ser nenhuma destas mezinhas,
e asi bem álbum, item rubeum; porque nesta terra não ha
tal mezinha, senam a que vem do Estreito, que se cá vende
bem. E de estoutra muyta ha nesta terra, e he mu}!© de-
ferente. E o carpesio claro he nam o ser; pois hum he raiz
e outro he grãos. E larnabo não pode ser, porque he ar-
vore grande, como diz Avicena, e mais he pouco cheirosa,
e larnabo ou arnabo he arvore muyto grande, e a ledoaria^
ou lermnba he legume. E com isto respondeis a Fuchsio
e Mateolo, e Ruelio, e aos Frades, que dizem casi huma
cousa (i).
Nota (i)
Este ultimo Colóquio da serie alphabetica suscita algumas duvidas
e difíiculdades. Para as expor com a possivel clareza, necessitamos dizer
primeiro o que hoje se julga geralmente ser a ^^edoaria e o ^erurtibet,
seguindo principalmente os excellentes capitules de Dymock sobre
o assumpto.
A :;edoaria amarella procede da Ciix-ciinia. aromática,
Salisb. (Curcuma Zedoaria, Roxb.), uma planta da familia das Seita-
minece.
Este rhizoma é o vanaharidra dos livros sanskritos, e parece também
ser o jij-^^, djeduar ou geiduar dos árabes e de Avicena. É conside-
rado medicinal pelos hindus, e nomeadamente útil em casos de envene-
namentos, mordeduras de cobras e outros. D'aqui lhe veio um dos nomes
sanskriticos, f7ff^rjj> nirvishã, e d'aqui sem duvida procedia também
■aquella idéa de Avicenna, de ser melhor o que crescia junto ao napello,
■e enfraquecia o napello. A Curcuma aromática é espontânea no Concan,
Da '{edoaria e ^erumbet 869
e também no Malabar, d'onde hoje se abastece em grande parte o mer-
cado de Bombaim. A droga parece ser bastante commum.
A :;edoaria cinzenta procede da Curcuma Zecloaxda,
Roscoe (Curcuma Zerumbet, Roxb.), do mesmo género e família que
a precedente.
Esta droga é o ^L^jj, ^erumbad (nas versões ^erumbeíj de Avi-
cenna, Serapio, e em geral dos árabes. É chamada kachúra pelos hin-
dus, do sanscrito <:^^^à \ karchúrã; e é igualmente a droga de que
Rhede falia sob o nome geral de kua, dado também no Malabar a
mais espécies do mesmo género. A planta parece ser bastante vulgar
na índia meridional, e é commum nas hortas de Bombaim, onde Dy-
mock julga teria sido introduzida pelos portuguezes. A droga encon-
tra-se com frequência nos bazares, e tem algumas applicaçóes medici-
naes, sendo também usada como condimento ou especiaria. Dimock é
de opinião, que a ^^edoaria longa e a ^edoaria redonda do commercio
procedem ambas d'esta espécie, e são simples formas do mesmo rhi-
zoma. Esta ^edoaria vinha desde tempos antigos para a Europa, onde
foram conhecidas as suas variedades longa e redonda.
Isto posto, vejamos o que diz Orta. É claro que elle conheceu per-
feitamente o rhizoma da Curcuma Zedoaria, de que falia sob o nome
de ^erumbet. Dá-nos todos os nomes vulgares, que citámos acima: «ze-
rumba» entre os árabes, «cachorá» entre os hindus, «cua» no Malabar.
Conheceu as duas formas redonda e longa; e está perfeitamente ao
facto do commercio que para a Europa se fazia n'esta droga.
Não é igualmente claro que elle se refira ao rhizoma da Curcuyna
aromática, pelo nome de ^edoaria e geiduar. Por um lado, é favorável
a esta identificação o facto, que elle cita, de o darem para a amorde-
dura de uma bicha»; mas, por outro, a sua descripção concorda mal
com aquelle rhizoma, que não é «lúcido», nem tem o tamanho e a fei-
ção de uma bolota. E não é provável, que nem elle, nem os boticários
de Chaul e de Goa, conhecessem uma droga, que a final não é rara na
índia. O que parece ser é que Orta confundisse algumas cousas que
lhe disseram do verdadeiro geiduar, procedente da Curcuma aromá-
tica, com uma droga rara da China, que viu em poder do Nizam Scháh.
Esta droga poderia ser algum rhizoma ou tubérculo de outra Curcuma,
vindo d'aquellas regiões. Uns tubérculos de uma Curcuma, descriptos
e figurados por Hanbury nas suas Notes on chinese Matéria Medica,
procedentes da China, onde são chamados ynih-kin, corresponderiam
approximadamente á descripção de Orta. Não é possivel affirmar, que
esta fosse a sua ^edoaria, mas seria alguma cousa similhante.
(Cf. Dymock, Mat. med., 769, 771; Ainslie, Mat. Ind., i, 490, Han-
bury, Science papers, 254.)
COLÓQUIO QUINQUAGESIMO OITAVO
QUE TRATA DE ALGUMAS COUSAS, QUE VIERAM Á NOTICIA
do autor, e das mezinhas ditas atraz; e asi se acrescentam outras
algumas mezinhas ou frutas; e falia de uma maneira de arroz que
tem manteigua em si, e do betre, e da cidade de Badajoz, e da ca-
nafistola, e do cirifoles, mezinha louvada pêra as camarás; e da ci-
dade de Chitor, e do marfim, e dos mangustáes, e das patecas, e do
pao da China, e de huma pedra muyto louvada contra a peçonha, que
he achada no fel do porco espinho.
INTERLOCUTORES
O LICENCIADO DIMAS BOSQUE, RUANO, ORTA
DIMAS (I)
Dos amiguos todalas cousas sam commuas; e asi tem os
amiguos licença pera enmendar as cousas dos que o forem
seus: quanto mais que vós me rogastes, que vos dixese as
cousas que por fora soubesse pera as praticarmos ambos,
e ver se podiamos desencovar a verdade nam sabida de todos :
e já antes me tinheis dado licença pera enmendar o que me
parecesse, e por isso venho aguora alembrarvos algumas
cousas : he necessário que de novo me deis licença pera isto.
ORTA
Vós a tendes Já, escusado he pedila de novo, porque an-
tes me fazeis grande mercê nisso.
DIMAS
Do arroz que comemos, vos quero dizer que vem de Jaoa
a Malaca hum arroz que chamam pulot, o qual cozendose
somente com o baíTo da aguoa, apeguase tanto ás mãos e
he tam húmido, que parece ser cozido com manteigua*.
» O nome javanez do arroz é pari, transformado em pali n'oiitfas
linguas do Archipelago, o que pôde ter dado este pulot. Os javanezes
gabam-se de cultivarem na sua ilha quarenta e seis variedades de arroz.
372 Colóquio qiiinquagesimo oitavo
ORTA
Do primeiro efeito me não maravilho, que he de ser co-
zido com o baífo, como o cu:{ciq, porque destoutro arroz
acontece o mesmo aos que vam a Portugal, cozendoo da
mesma maneira com aguoa salguada, por falta da doce: mas
essoutro, que he de ser manteiguoso e húmido, nunqua o
esprementei, porque não sam muito amiguo de arroz.
DIMAS
Pois perguntai a toda a gente de vossa casa, e dirvoloam;
quanto mais que eu o esprementei já, e podeisme dar nisto
fé.
ORTA
Em tudovola dou; e dizeime o que vos disseram os or-
telões da vossa ilha, do betre, se vos disseram mais alguma
cousa nova?
DLMAS
Nunqua pude saber mais que dizeremme que se quer
muj^to mimoso, e que asi quando se colhe nam he bom
ser tocado muyto com a mão; sei que não quer muita
quentura, nem muyta frialdade.
ORTA
Pareceme que tendes rezam, porque este betre não se dá
no sertam, e de cá da fralda do mar he levado para o Bala-
guate; e mais sei que não se dá na China por ser terra mu3'to
fria; nem em Moçambique, nem Çofala, por ser terra muyto
quente, e em todas estas terras fazem muyto por elle*.
DIMAS
Também achei escrito em hum vosso colóquio, dito acaso,
que a cidade de Badajoz, dita asi dos Castelhanos, se avia
de chamar Guadajoz, que quer dizer Rio de tio^es: e achei
* Do betre falia Orta no Colóquio seguinte.
Das cousas novas 378
escrito eu em hum escritor moderno muyto lido^ e muyto
douto e curioso, chamado Guaspar Barreiros, que diz que
os Mouros lhe corromperam o nome, porque se chamava
primeiro Pax Augusta, e porque os Mouros não tem p, e
põem o b em seu lugar, lhe chamaram Bagus.
ORTA
Eu achei isto escrito, e pareceme o autor homem de
muyto bom juizo e muito lido; mas certamente que a diri-
yaçam me parece muyto torta, e pareceme milhor o que eu
diguo. E mais confessando isto os mesmos Mouros, e ser
a fama comua. E já pode ser que me enguane eu, porque
a todoUos mais dos homens lhe parecem milhor as suas cou-
sas que as alheas; e quanto he ao que diz que os Mouros
nam tem p, verdade he que nam tem o próprio caratere
do p; mas servemse por p pondo no b dous pontinhos, e en-
tonces pronunciam p*.
DIMAS
Do que me encomendastes da -canajistola^ se agora avia
em Malaca, soube que ha muyta em Malaca, e em Siam,
e em todas essas partes. E também ainda que estas cousas
nam relevam muyto, porque não sam mais que curiosida-
des, vos alembro que falaes muitas vezes na cidade Chitor,
e não sei se sabeis que quer dizer sombreiro; porque asi
* Orta já havia fallado da etymologia de Badajoz (ante, pag. 85 e 89),
e volta agora ao assumpto, pelo que leu no livro de Gaspar Barreiros,
um livro moderno então, publicado no anno de i56i, e que elle já tinha
na índia. Effectivamente se deram variadas etymologias do nome de
Badajoz: derivou-se de rio ou pai^ de no^jes (Orta e Nebrixa); depaij
dos alimentos (Fr. João de Sousa e Marmol); da corrupção do nome
latino Pax Augusta, em Bagus ou Badaxus (Gaspar Barreiros e mui-
tos outros).
Orta volta também á questão do p arábico, que evidentemente o
intrigava. Havia dito antes, que era similhante ao f, do que procurámos
dar uma explicação (vol. i, pag. i65); e agora diz ser similhante ao b
com mais dois pontinhos; isto é verdade, v^^ e v^_>, somente este p
não pertencia ao alphabeto arábico e sim ao persiano.
374 Colóquio quinquagesimo oitavo
o escreve hum cronista da índia, e não fora máo meterdes
isto ahi, porque folgua a gente de ouvir cousas novas.
ORTA
As diriv^acÕes dos nomes sam mui más de acertar nas
>
próprias regiões onde nacemos, e onde sabemos tam bem
as linguoas; que fará nas estranhas, onde escasamente sa-
bemos hum vocábulo, quanto mas saber a dirivaçam delle.
E portanto vos diguo que cetri quer dizer sombreiro, e al-
guns lhe chamam chatri. E falando com alguns Guzarates
sobre isto, me dixéram que chitor queria dizer hum pássaro
asi chamado, e mais propriamente queria dizer debuxo ou
pintura; e esta dirivaçam me parece que lhe quadra mais:
mas como nisto vai pouco, seja como vossa mercê mandar;
mas verdadeiramente a cidade he hum debuxo ou pintura,
segundo dizem os que a viram, porque eu não a vi*.
DIMAS
Estas cousas que até aqui vos dixe, sam flóreos de esgri-
midores; mas esta que aguora vos direi he de huma mezi-
nha muyto boa pêra as camarás. E já sabeis que huma das
principaes curas, que avemos de exercitar nesta terra, sam
as camarás •, porque ainda que aja muytas mezinhas pêra
curarias, ás vezes achaes algumas camarás antiguoas, que
per nenhuma maneira se podem arrincar: e vem depois
huma velha, e arrinca as com huma mezinha simple \ e por
isso traguo a mezinha aqui pêra vola amostrar.
RUANO
Diganola vossa mercê, e também nos dirá, se a espre-
mentou já.
* Chitra i-cjpj significa como substantivo /"/«íurj ou maravilha; mas
é propriamente um adjectivo, significando manifesto, visivel. Chitor, a
celebre fortaleza do paiz de Méuar, seria pois «a (fortaleza) vistosa»,
a «maravilhosa». Como se vê, a derivação para que Orta se inclina é
perfeitamente acceitavel.
Das cousas novas SyS
DIMAS
Nunca ouvistes dizer marmelos de Bengiiala?
ORTA
Si ouvi; e algumas vezes os vi em conserva, e pareceme
Cousa muyto estitica, e os físicos Guzarates usam desta
frua, sendo elles novos e tenros, em conserva de vinagre
(a que elles chamam achar) e em conserva de açucare, como
nós asamos; e sempre aquelle sabor estitico lhe dura por
mais maduro que seja.
RUANO
Já qae concordaes ambos em ser cousa estitica e boa
pêra camarás, será bem que diga o doutor primeiro os no-
mes e feições desta fruta ou arvore.
ORTA
A esta fruta lhe foy chamado o nome de tnarmelo de
Bengiiala, porque em hum navio meu se trouxe esta con-
serva, e veo de mestura com outras, que me de lá vieram.
E já veo com nome de ser boa pêra as camarás. E gaban-
doa eu muyto a hum meu amiguo, homem de muyto bom
saber, que muytas vezes andava á caça no mato, me dixe
que não se avia de chamar este pomo marmelo de Ben-
giiala, pois aviam muytas arvores nas terras firmes desta
ilha, na qual ilha avia alguns. E pois quereis saber o nome
desta fruta, diguo vos que em Benguala, e em todos os ca-
bos se chama cirifoles e belas. E porque eu sabia que se
chamava beli em Baçaim, perguntei a estes físicos da terra
qual era o seu próprio nome, se cirifole ou beli; e elles me
dixeram que cirifole era o nome vulguar, e porém que beli
era o nome dos físicos, e que elles o tinham em suas escri-
turas. He o arvore do tamanho de huma oliveira, o que he
maior: as folhas sam como de peixigueiro e o cheiro também
de peixeguos; dá pouca frol, e duralhe pouco; sam em
principio tenros, e a cor he verde escura, e a casca he del-
guada neste principio, e depois se vai engrossando, fazen-
dose seca, até quando he madura a fruta, porque entonces
tem a casca casi tam dura como a do coquo; e no principio
376 Colóquio quinquagesimo oitavo
he do tamanho de huma laranja pequena, e vem a crecer
tanto, que muytas vezes he maior que hum grande mar-
melo; do qual tiram huma medula (que quando he maduro
he já mu3'-to teso) e a fazem em talhadas grandes, e depois/
em conserva de açucare, como já dixe; e quando sam maiy
tenros e novos, os comem em achar ou salguados, e isto
he o que sei desta fruta ou mezinha. Aguora pode diyer
o senhor licenciado a experiência que tem desta mézinhi, e
o que com ella lhe aconteceo; porque elle também he de nu-
mero dos físicos amadores da verdade. y
DIMAS '
Estando o visorey Dom Constantino em Jafanapatam, com
os contínuos trabalhos da guerra, e muytas aguoas, em que
sempre os homens andavam metidos, e falta de mantimen-
tos, adoeceo muyta gente de camarás, a cura das quaes
todas passou por minha mão, por nam aver outro físico
na armada. E como as medecinas, que de cá se levaram,
eram já gastadas na ilha de Manar, com os doentes de duas
náos do reino, que a ella vieram ter tam mal tratados que
em espaço de quarenta dias curei passante de trezentos
homens; e não avendo depois com que acudir ás camarás,
que tanto trabalho davam ao exercito, foime neçasario e
forçado esprementar o que destes marmelos da gente da
terra tinha ouvido; e com elles curei a muytas pessoas,
mandando fazer mivas e emprastos pêra o estomaguo e bar-
rigua. Mandei também fazer marmelada, a qual não sabia
mal, antes tinha hum azedo de muyto guosto; mandava aos
doentes que os comesem asados com açucare; e mandei
também fazer, no tempo que duravam estas camarás, cris-
teis do cozimento das suas cascas, e faziam o efeito nam
muyto deferente das halaiistias e cousas estiticas, que cá
usamos; de modo que, com estes chamados de nós mar-
melos, foy remediada a falta das outras mezinhas. Huma
cousa não posso leixar de vos contar, que com estes mar-
melos me aconteceo. Tinha Agustinho Nunez, fílho de Lio-
nardo Nunez, físico mór destes reinos, muitos dos seus sol-
Das cousas novas 877
dados doentes; e eu mandei assar dous marmelos a hum
seu negro, pêra dar a hum soldado enfermo; e arrebentando
no foguo estes marmelos, queimou o miolo delles o negro
que os assava, de maneira que parecia ser queimado com
panella de pólvora, porque nos peitos e rosto e braços não
deixou cousa que não abrasáse: pareceme que este foguo
obrou mais, porque a matéria em que se fundou, foi mais
estitica e ajuntada; porque o foguo queima mais posto em
ferro ou em pedra, que em estopa. Isto he o que vi desta
mezinha, e o que delia posso testemunhar.
ORTA
Alem de o vossa mercê dizer, traz isso muyta rezam;
porque aquelle miolo de dentro, quando o fruto não he muyto
seco, he tam glutinoso e pegadiço, que aos que o comem,
não se pode desapeguar das mãos.
RUANO
Eu levarei alguma jarra de conserva destes marmelos, se
os puder achar (2).
ORTA
Buscalosemos, e fazervosei delia serviço. E emtanto me
dizei se vos trouxe algumas cartas de Malaca aquelle catur
que ontem chegou de Cochim, porque traz novas que ficam
já ahi as náos de Malaca.
DIMAS
Trazme cartas e novas da minha fazenda: folguo de achar
aqui ao senhor doutor Ruano, porque veja a feiçam dos do-
riôes e mangustães^ ante que se vá pêra o reino, porque
me vem aqui de cada hum seu pomo feito de cera.
RUANO
Posto que este anno me não vou já pêra o reino, e en-
verna cá a náo, folgarei muito de ver esses pomos.
ORTA
Muito fermoso pomo he, porque he tamanho como huma
muyto grande pinha, e he da mesma feiçam da pinha, senão
3 78 Colóquio quinquagesimo oitavo
que tem os bicos mais delguados, e sam como os do ou-
riço cacheiro, animal conhecido.
DIMAS
Na minha carta diz que ha outros mais grandes que estes,
a que elles soem chamar cabeça de ali/ante: tem dentro de
quatro camarás pêra cima (a que elles chamam peitacas);
a folha he como de huma lança pequena, dividida pello meo
com dous fios, e outros que se tecem pêra as ilharguas; he
muyto verde o arvore, e muyto grande e bem copado; di-
zem que não dá fruto, senão de 40 annos: o pomo quando
he maduro tem o verde mais craro.
ORTA
Hum homem casado de Malaca me disse que dava fruto
aos quatro annos, e que elle o vio.
DIMAS
Seja o que for, que a verdade não se pode saber tão des-
tintamente. E asi me escreve do doriam, que o miolo de
dentro he como nata. E vedes aqui o mangostajn: também he
verde escuro; e do tamanho como huma laranja pequena*.
ORTA
Pois aqui estam plantadas, asi daram fruto; e veremos
por esperiencia a como sabem, se nos Deos der dias de
vida.
DIMAS
Também me lembra que, lendo o vosso capitulo do mar-
fim, vi que nam falaes ahi no marfim mineral, do qual
fala Andreas de Laguna. Huma de duas cousas me parece
nisto: ou que não vistes este autor, lendo todo o capitulo
que escreveo, ou que deve ser algum vosso amiguo, e não
* Sobre o dorião veja-se antes (i, 297 e 3oi); e sobre o mangostão
(11, 161, 162).
Das cousas novas 879
o quereis reprender. E já pode ser que não lhe lestes o ti-
tolo, pois lhe erraes nome, e lhe chamaes Tordelaguna, cha-
mandose elle Andreas de Laguna.
ORTA
Fala esse Laguna huma cousa tam fora de rezam, que ouve
vergonha de reprender isto, pois de si he tam visto ser falso;
e mais elle não alegua autor algum que o digua; asi que
pois só quer dizer a falsidade, com elle fique o erro. E
quanto he a dizer de que lhe errei o nome, não me ponhaes
culpa; porque nao li bem o titolo, e mais porque conheci
em Alcalá a ouvir medecina hum, que se chamava Torde-
laguna, o qual avia sido buticairo, e sabia algum pouquo
de arábio, e era grande ervolario, e por isso me pareceo que
devia ser esse; mas folguo de o não ser; porque o outro
era meu amiguo, e não avia de folgar de errar de tal ma-
neira, como este errou*.
RUANO
Se andamos a acusar erros, Leonardo Fuchsio, homem
douto, diz que não ha marfim verdadeiro no mundo.
ORTA
Ha humas mentiras tão grossas, que não he bem, nem me-
recem ser reprendidas, senão leixalas passar avante, até que
dêem doze badaladas, como relógio de meo dia. Este homem
ha muytos annos que escreve, e eu não acustumo nomealo
poUo seu nome; porque ainda que soube na física bem,
soube muyto pouco em condenar sua alma, e ser hereje con-
denado por luterano; porque, alem de os seus livros virem
no catalago condenados, hum religioso da ordem dos Pré-
guadores me dixe que o conhecia de Alemanha, e que pra-
ticara muytas vezes com elle, e que nunqua o poude con-
vencer; e por esta causa me vieram a avorrecer suas obras;
* Eífectivamente em todo o livro, Orta escreveu Tordelaguna, que
n'esta edição substituímos por Laguna, em vista da emenda feita n'estç
Colóquio.
AV M. •■
38o Colóquio qiiinquagesimo oitavo
e ainda que a medecina não he ciência de religiam cristan,
comtudo me avorreceo o autor, e foi muyto desenvergo-
nhado em dizer que nao avia marjim verdadeiro, avendo
tantos alifantes em todalas bandas da índia, e da Etiópia, e
serem levados a Portugal. Parece que os Luteros devem ter
no inferno algum marfim^ que seja guardado pêra elles*.
RUANO
Pareceme que se pudera escusar Andreas de Laguna;
porque me mostrastes aqui, ha poucos dias, cornos, que
criavam raizes no cham, e eu os vi com muyto grandes
raízes.
ORTA
He verdade que vos mostrei isto, e ha muyto nesta terra,
por ser húmida**; mas o marjim não se enterra, nem ha ma-
neira disso.
DI^LA.S
Aveis de escrever desta fruta, que chamam anana\; por-
que certo que he rey das frutas no sabor, e muyto mais no
cheiro.
ORTA
Escreve desta fruta Oviedo, o que escreveo das índias
ocidentaes, como de fruta própria dessa terra; por onde
não he necesario escrever eu cá delia, avendoa lá, e na
provinda de Sancta Cruz, chamada de nós o Brasil (que
he terra que está muyto perto de Espanha), onde saberam
milhor escrever delia***.
* Orta conserva todo o seu bom humor, mesmo n'esta passagem,
em que manifesta uma certa intolerância religiosa.
* * Pela primeira vez encontramos uma asserção de Orta, da qual
não podemos dar uma explicação plausível; e é difficil imaginar o que
seriam estes cornos enraizados.
* * » É interessante esta citação directa da Natural hystoria de las
índias de Oviedo, á qual, de resto, Orta se referiu já mais de uma vez,
mas sem mencionar o nome. Onde este diz, que o Brazil está perto
de Hespanha, quer evidentemente significar, perto das possessões ame-
ricanas da Hespanha.
Das cousas novas 38 1
DIMAS
Lendo das patecas achei escrito, que não eram ellas as
balancias de Africa, e pareceme que nisto vos enganaes,
porque aqui me dixeram homens criados e nacidos em Aza-
mor, e outros em Tanger e Arzila, que sam as mesmas as
balancias de Africa, como as patecas da índia.
ORTA
Eu não disse que era deferente huma fruta da outra, por-
que pêra julgar isto, avia de conhecer ambas as frutas, e
eu nunqua vi a de Portugal; mas disse que se pudiam en-
guanar nisso, porque a mata destas jca/ecas he muyto defe-
rente da que dá os melões de Portugal, e também as al-
budiecas, e sandias de Gastella sam deferentes das patecas
da índia. Eu me remeto ás pessoas que viram humas e
outras*.
DIMAS
Também aveis de acrecentar mais no pao da China o que
me delle escreveram; e he que se dá onde o semeam arri-
mado a arvores, assi como a era.
ORTA
Eu creo isso, pois que volo escrevem testemunhas de
vista* *.
DIMAS
Esta mezinha, que vos quero dizer aguora, he muito ne-
cesaria, porque he contra a peçonha, e trála das bandas
de Malaca hum homem letrado, vosso amiguo, que vós mui
bem conheceis.
ORTA
Se he o homem com quem faláveis o outro dia, quando
fomos visitar aquelle íidalguo, bem sei que mezinha he. E
* Sobre esta questão das patecas e sandias, veja«se a nossa nota
<ii, 144).
• * A Smilax China é eífectivamente uma planta trepadeira.
382 Colóquio quinquagesimo oitavo
porém não ousarei escrever delia, sem vós primeiro me di-
zerdes o que tendes nella visto, e o que ouvistes dizer delia;
porque se formos duas testemunhas, ajuntadas com a pu-
brica voz e fama que dessa mezinha ha nas bandas de
Malaca, darlheemos autoridade.
DIMAS
Já sei que vistes isso, pellos signaes que daes.
ORTA
Eu não a vi, mas seu dono me dixe que era huma pedra
contra a peçonha, e que estava em vossa mão, e que como
fosse á sua nola amostraria, e mais me dixe a feiçam da pe-
dra, e que lhe foi dada em Malaca em grande estima; a qual
pedra se acha em Pam (terra confim e acheguada a Malaca)*
e achase metida no fél do porco espinho, e a gente da terra
a tem em grande estima.
DIMAS
Sabeis em quanta estima; que outra que se achou irmã
desta foi mandada dessas terras ao conde de Redondo, viso-
rey da índia; e nesta terra de Pam onde se acha 3. pedra
ba:[ar em muyta cantidade, ou, ao menos, em mais canti-
dade que esta, he esta, como diguo, mais estimada que a
pedra ba^ar de que antes escrevestes.
ORTA
Eu não me lembro aver lido desta jceJra do fel do porco
alguma cousa, e por isso queria saber delia alguma espe-
riencia.
DIMAS
Pois eu vos darei rezam e esperiencia.
* Pam, as terras na costa de leste da península de Malaca, moder-
namente Pahang, ou melhor Páang.
Das cousas novas 383
ORTA
Muyto me prometeis.
DIMAS *
Pois sabei que já me dixestes, praticando na. pedra ba^ar,
que diziam os Mouros da Pérsia, que em três cabos se achava
a pedra ba^ar, convém a saber, no Goraçone, e na ilha das
Vacas (perto do cabo do Comorim) e em Pam, que he ve-
sinho de Malaca, e que a erva que pasce o gado nestas
partes he toda de huma maneira-, e que por esta causa os
carneiros e os bodes criam no estamaguo esta pedra, que
vai contra a peçonha: ora pois nesta mesma terra se acha
esta pedra no fél do porco espinho, e a gente da terra co-
nhece a vertude delia; he conforme á rezam que se não
enguanem. E quanto he á esperiencia, eu a dei a duas pes-
soas, ás quaes aviam dado peçonha; e estando muyto mal
delia, dandolhe eu a aguoa desta pedra se acharam muito
bem. Ora vedes como compri comvosco e vos dei a rezam
de a pedra ser contra peçonha, e a esperiencia, como a es-
pr ementei.
ORTA
A isso não ha que dizer senão, está tudo muyto bem dito;
e dandome Deos dias de vida, eu a esprementarei muytas
vezes, porque a peçonha he acustumada muyto nesta terra.
DIMAS
Aguora a quero mostrar ao doutor Ruano, e vedela aqui.
RUANO
A cor delia he vermelho craro, e achoa amarguosa no
guosto, e ao tocar he como sabam francês, e asi he languida;
he necessário que nos diguaes, como a esprementastes, se
foi em sustancia, se em vertude.
DIMAS
Deiteia em aguoa, onde esteve um pouco, e deilha a be-
ber; os quaes confessavam que lhe amarguava aquella aguoa,
e porém que ficavam com o estomaguo rijo e confortado.
384 Colóquio qiiinquagesimo oitavo
ORTA
Tudo isso he verdade, porque o homem cuja he esta pe-
dra me disse, que elle provou a aguoa delia, e que lhe amar-
gou, e porém que ficou muyto contente do estamago, e
não fora máo que déreis esta pedra em alguma aguoa cor-
dial.
DIMAS
Não avia ahi outra aguoa aparelhada tam asinha, e avia
periguo na tardança.
ORTA
Eu sam muito satisfeito desta pedra, e se viver saberei
delia mais.
RUANO
E eu queria aver huma, pêra levar a Portugal.
ORTA
Se me vier á mão, eu vola darei, mas não me parece, por-
que nam ha tantas como isso; porém o tempo que descobre
tudo, a descubrirá; e certamente que vos devem muyto os
físicos desta terra, pois a esprementastes: porque, por mais
mezinhas que aja contra a peçonha, mais sam necesarias;
e também parece ser que em Roma teria esta pedra muyta
valia (3).
Nota (i)
O licenciado Dimas Bosque era hespanhol, natural de Valência, e
havia talvez começado os seus estudos médicos em uma das universi-
dades da Hespanha, Salamanca ou Alcalá; mas em todo o caso com-
pletou-os na universidade de Coimbra, pois elle próprio nos diz (vol. i,
pag. i3) ter ouvido ali as lições do doutor Thomaz Rodrigues da Veiga.
Foi para a índia, segundo parece, no anno de i558, acompanhando
o vice-rei D. Constantino, irmão do duque de Bragança. Ia na qualidade
de medico particular da sua pessoa; mas, como geralmente succedia,
exerceu ali as funcçóes de physico mór, intervindo officialmente nos
negócios e assumptos da sua profissão. Vê-se, por exemplo, de um re-
querimento do boticário Balthazar Rodrigues, que o vice-rei D. Cons-
Das cousas novas 385
tantino, «tomando verdadeira informação com o Licenciado Dimas Bos-
que e outros officiaes», havia mandado emendar uma tabeliã de preços
das drogas. Embora Dimas Bosque não seja claramente nomeado por
physico mór, é claro do documento que elle exercia aquella funcção.
Passado algum tempo, Dimas Bosque, sendo provavelmente rico, e
tencionando talvez estabelecer-se na índia, adquiriu ali uma proprie-
dade. Um certo Jorge Vaz de Magalhães, almoxarife da ribeira e arma-
zém de Goa, havia morrido, ficando alcançado com a fazenda publica;
e fez-se uma penhora nos seus bens moveis e de raiz. Entre estes pos-
suía elle uma ilha, chamada de Santa Cruz, dos lados de Goa a velha —
não o que hoje chamam a velha Goa, que então estava em toda a sua
prosperidade, mas a Goa antiga, na parte sul da ilha, fronteira ás terras
de Saífeette. Postas em leilão as propriedades do fallecido almoxarife,
a 4 de setembro de i56i, foi arrematada a pequena ilha de Santa
Cruz «ao Licenciado Dimas Bosque, Fisico mór de Sua Alteza nestas
partes», pela quantia de i :56o pardaus de tanga. A ilha de Dimas Bosque
ficava, como dissemos, da parte de Goa velha, isto é, no rio Zuarí, hoje
chamado ás vezes rio de Mormugão. Era uma verdadeira ilha, pois o
documento tem o cuidado de explicar, que estava «cercada d'agua por
todalas partes»; e tinha dentro um palmar de perto de quinhentos co-
queiros, algumas outras arvores de fructo, e umas casas térreas. D'esta
ilha lhe falia no Colóquio Garcia da Orta, perguntando-lhe se os seus
hortelões contaram alguma cousa nova do betre.
Dimas Bosque, como também elle próprio diz no Colóquio, acompa-
nhou D. Constantino na expedição a Jafnapatam, na extremidade norte
da ilha de Ceyláo, empreza brilhantemente começada e terminada com
menos felicidade, da qual Diogo do Couto dá uma relação circumstan-
ciada, que não será necessário recordar. O medico valenciano era, como
nos diz, único da sua profissão na grande armada portugueza, e teve
muito que fazer n'aquella expedição, pois nas demoras em Jafnapatam
e na ilha de Manaar adoeceu muita gente de dysenterias. Parece ter
sido um medico zeloso e intelligente, fazendo ali as suas observações
sobre os marmelos de Bengala, de que fallaremos em outra nota; e
também o estudo de um animal interessante, facto que recordaremos
brevemente, por ser pouco conhecido.
Foi o caso, que andando elle na praia como costumava, conversando
com o padre Henrique da companhia de Jesus, foram ambos chamados
a toda a pressa por uns pescadores, para que vissem um espectáculo
maravilhoso : .... cum clamoribus piscatores Patrem Henricum ad suas
ut iret scaphas rogantes, spectatum ingens miraculum naturce. Acaba-
vam de cair nas redes dezeseis cetáceos, nove fêmeas e sete machos,
da curiosa espécie, chamada dugong — Halicox*e indicu»^, Cu-
vier. Dimas Bosque examinou-os e estudou-os attentamente. Notou a
forma redonda da cabeça; as orelhas parecidas com as do homem; os
25
386 Colóquio quinquagesimo oitavo
olhos muito diversos dos dos peixes, e cobertos por pálpebras; os den-
tes, igualmente diversos dos dos peixes; as mammas das fêmeas simi-
Ihantes ás da espécie humana: neque eas feminis pendidas, sed quales-
virginibus globosas. Apertando aquellas mammas, o medico observou
também que deitavam leite branco. Examinou igualmente os órgãos
çenitaes, e advertiu que se pareciam muito com os da espécie humana,
tanto exterior como interiormente, por onde se vê que se não con-
tentou com a inspecção externa e procedeu a dissecções. Nos mem-
bros posteriores é que se observava a principal differença em relação
ao homem, pois terminavam em uma cauda de peixe, tal qual como os
auctores antigos contavam das sereias. Embora sahisse um pouco do
nosso assumpto, pareceu-me curioso desenterrar esta noticia, que se
acha perdida nos volumosos in-folios da Historia da sociedade de Jesus,
Por ella se vê, como Dimas Bosque estudou, muito antes de BuíTon e
Cuvier, e mesmo de mais antigos escriptores, por exemplo Camper,
aquelles singulares cetáceos dos mares da índia, próximos do manatus,
ou peixe mulher da Africa. Claro está, que o seu estudo não foi compa-
rável como dos grandes naturalistas, que nos occorreu citar; mas não
deixa por isso de ser interessante, attendendo sobretudo ao periodo
em que o fez.
Os dugongs não são raros nas aguas de Ceylão, e assim como servi-
ram provavelmente de typo ás sereias dos antigos escriptores, é possí-
vel que influíssem igualmente na creação das rãkchasis, as mulheres
malfazejas e cannibaes, em parte terrestres, mas também, segundo pa-
rece, aquáticas, que figuram em algumas lendas buddhicas relativas
justamente a Ceylão.
Voltando, porém, a Dimas Bosque, devo dizer que nada sei da sua
vida posterior. Vê-se que elle não regressou a Portugal com D. Cons-
tantino, porque este entregou o governo em setembro de i56i,e justa-
mente poucos dias antes o seu medico havia comprado a ilha de Santa
Cruz, o que seguramente não faria no momento da partida. Alem d'isso,
este Colóquio, em que elle figura, foi de certo escripto pouco antes da
impressão do livro, sem duvida já nos fins do anno de i562.
(Cf. Rivara, Archivo portugue^-oriental, fase. v, parte ii, 5o5 e 877;
Couto, Ásia, vir, ix, i, 2, 3, 4 e 3; Orlandino, Hist. Soe. Jesu, na Pars
secunda do padre Francisco Sacchino, lib. iv, pag. i62;Tennent, Cey-
lon, II, 557; Vasconcellos Abreu, Fragmentos de Estudo Scoliastico,
pag. 5i, Lisboa, 1880.)
Nota (2)
Os marmelos de Bengala são o fructo da espécie ^íEg-le jVXar-
iiielos, Corrêa da Serra (Cratceva Marmelos, Linn.), uma arvore da
familia das Aurantiacece, ou da familia das Ruíace^r, na qual se funde
Das cousas novas 887
hoje geralmente a primeira. Esta arvore parece ser espontânea nas
florestas de algumas montanhas da índia, e é, alem d'isso, cultivada
ali com muita frequência.
— O nome «bela» ou «beli» é muito conhecido, e vem citado por
vários escriptores modernos nas formas bela, beli, bel, bael. A forma
bél parece ser hoje a mais usada em hindustaní e bengali.
— O nome «cirifole» encontra-se no Index de Piddington, na forma
shreephula, applicado a uma variedade menor da mesma espécie. A
Pharmacographia também o menciona como um nome hindustaní, na
forma siri-phal; e no Amaracocha encontramos '^TFJTc^, sriphala, entre
os synonymos do ^Egle Marmelos^.
Esta arvore é sagrada para os indianos, e, na sua interessante no-
ticia sobre as plantas consagradas ao culto, o dr. Lisboa diz-nos que
ella representa a trindade hindu, Bhrama, Vichnu, e Mahecha ou Síva,
mas é especialmente empregada na adoração de Síva. É por isso cul-
tivada em todos os jardins -da índia, considerando-se um sacrilégio
arrancal-a ou destruil-a.
É também medicinal, e, sob o nome de vilva ou bilva, vem men-
cionada em muitos livros sanskriticos, sendo uma das dez plantas ou
dasamula, varias vezes aconselhadas n'aquelles livros, e, entre estas,
uma das cinco maiores, vrihat pancha mula.
As folhas e a casca têem variados usos therapeuticos; mas são so-
bretudo os fructos, imperfeitamente fnaduros, que gosam da reputação
de um remédio efficaz na diarrhea e na dysenteria. Depois de Dimas
Bosque e de Garcia da Orta, Bontius também os descreveu sob o nome
de malinn cydonium, e louvou o seu eífeito : indubitatum est remedium
adversus dysenierias. Apesar de este medicamento ser assim conhecido
e celebrado na índia desde os mais antigos tempos, só recentemente
attrahiu as attenções dos médicos inglezes, sendo incluído em 1868 na
Pharmacopceia of índia, e ainda depois, segundo creio, na British
Pharmacopcsia (cf. Dymock, Mat. vied., iSg; Phannac, 116; Piddin-
gton, Index, 2 ; Amaracocha, 86 ; Lisboa, Useful plants of the Bombay
presicleny, 285; Bontii Hist. nat., 98).
A planta, que foi descripta pelo nosso botânico portuguez, Corrêa
da Serra, creador do género ^Hgle, e também por Roxburgh e por
outros, corresponde de modo bastante exacto ás indicações dadas por
Orta, sendo de notar a casca dura do fructo, e a consistência extre-
mamente glutinosa da sua polpa interior, «glutinosa e pegadiça», como
diz o nosso escriptor (cf Corrêa da Serra, Trans. Linn. Soc.,v, 222;
Roxburgh, Flora Indica, 11, 5-jg).
' Nas Asiaí. Researches, ii, 349, se diz que se chama shreephula, porque nasceu do
leste de Shree ou Srí, a deusa da abundância.
388 Colóquio quinquagesimo oitavo das cousas Jiovas
Nota (3)
No Colóquio quadragésimo quinto, Orta fallou de um bejoar de
Malaca e terras próximas, que devia ser idêntico ou muito similhante
ao verdadeiro be^oar da Pérsia e ilha das Vacas, como recorda n'este
Colóquio. Outros escriptores, por exemplo, Teixeira, mencionam igual-
mente aquelles be^oares de Malaca e mais terras de leste, como aná-
logos aos da Pérsia, ainda que de qualidade inferior.
A pedra de Malaca, ou pedra de porco, era uma cousa muito diversa,
comquanto fosse também o calculo intestinal de um animal. Parece que
esta pedra de Malaca é aquillo que Guibourt descreveu, pelos exem-
plares pertencentes á eschola de pharmacia de Paris, sob os nomes de
be:^oard fauve ou be^oard ellagique, e considera como sendo cálculos
intestinaes — e não do fel — de um animal não determinado, mas pro-
vavelmente de um roedor, ordem a que pertence o porco espinho.
Pedro Teixeira, que falia largamente d'esta pedra, pretende ter visto
o animal em que se creava, e assegura ser um porco espinho : por ver
si los animales que crian estas piedras convenian con el novibre, hi:je,
estando en Malaca, traherme uno de Syaka (uma terra próxima) j' allé
que es un puerco spin sin diferencia alguna de los communes. O medico
hoUandez Bontius affirma ter tido em seu poder duas d'aquellas/'i>ífra5
de puerco, tiradas, a mais pequena de um porco espinho, e a maior de
um porco bravo ou javali: unum parvulum ex Hystrice, alterum ex
Apro, excisum. É, porém, difficil saber se elle averiguou com cuidado
a procedência. Kampfer descreveu também a pedra de porco pretiosa
malaccensis, distinguindo-a de uma pedra de porco falsa, que vinha de
Ceylão. Não sei se elle se pronunciou sobre a natureza do animal que
a produzia, pois não tenho n'este momento á minha disposição o seu
livro. Em resumo, a pedra de Malaca, ou pedra de porco, ou pedra de
porco espinho, era um calculo intestinal, como o be^oar, mas de um
animal diverso.
Gosava de uma grande reputação no Oriente, superior mesmo á do
verdadeiro be^oar, e Pedro Teixeira affirma que a viu obrar maravi-
lhas nas duas grandes epidemias de cholera em Cochym, nos annos
de 1590 e 1591. Não admira que se lembrassem de a applicar ao trata-
mento do cholera, porque estas doenças epidemicas e de marcha rápida
eram geralmente — e não sem rasão — assimilhadas a um envenena-
mento, k pedra de porco, como o be^oar, foi sobretudo considerada um
antídoto, e são curiosas as ultimas palavras de Orta, e aquella allusão
a Roma, que no xv século fora a terra clássica dos Borgias e do veneno.
(Cf. Guibourt, //;5/. nat. des drogues simples, iv, io5; Teixeira, Rela-
ciones, t6i ; J. Bontii Hist. nat. et med., 48; Pharmaceutische Post, xxv,
(1892), 20).
COLÓQUIO DO BETRE E OUTRAS COU-
SAS EM QUE SE ENMENDAM ALGUMAS FALTAS DE TODA
a obra, as quais ficaram por esquecimento, e pode as o leitor ler
acabados os colóquios da letra B, que he no colóquio do betre*.
INTERLOCUTORES
RUANO, ORTA
ROANO
Pareceme, senhor, que nos esqueceo falarmos do betre,
pois he tam acostumado a comelo a gente de todas estas
partes, somente a vossa mercê o não vi comer, nem provar;
e disme a gente desta casa que nunqua volo viram comer.
Parece ser que, ou sois muito pertinaz, ou em vós ficou a fé
de portuguez somente.
ORTA
Eu pêra mim tinha que já a pratica do betre era acabada,
mas pois a minha memoria he.tam fraca, perdoaime este es-
quecimento com outros muytos, que por mim podiam passar.
E quanto he a não o comer eu, nam he isso prova de não
ser elle muyto bom, senão de minha pertinácia, como vós
dizeis; porque eu provei este betre, quando vim de Portu-
gal, em Pangim, que he huma fortaleza pequena, que está
na boca do rio, e amargoume, e assi amargua a todos os
que o comem, se lhe nam misturam Lweca, e alguma pouca
quantidade de cal, e com esta mistura dizem ser muyto sa-
boroso çumo, e a mim me ficou desta prova tal avorrecimento,
que nunca pôde acabar comigo o Nizamoxa que o comese,
quanto mais tomalo da boca da mulher como muitos o fa-
zem (ainda que sejam portuguezesi; porque nenhuma mu-
lher conversa com homem, que o não leve mastigado na boca.
* Pelo facto de Orta emendar n'este Colóquio «algumas faltas de
toda a obra»), pareceu-nos melhor deixai- o n'este logar, e não o inserir
na sua ordem aiphabetica.
3go Colóquio do beire
RUANO
Nam lhe mesturam outra cousa alguma mais que o que
dixestes?
ORTA
Misturamlhe cate, e as pessoas poderosas cânfora de Bitr-
neo, e alguns linaloes, e almisquere ou ambre.
RUANO
Cânfora me parece que lhe não lançaram, porque faz os
homens inpotentes.
ORTA
Si, misturam: e disso se ria o gram soldam Bahadur, rey
de Cambaia, dizendo: E dirmeis os portuguezes que este-
reliza e faz inpotentes os homens esta cânfora? E eu lhe
respondi que a cânfora, em pouca quantidade, misturada
com outras mezinhas, não faz os homens inpotentes, e por-
que, nos colóquios que tratam da cânfora e da areca e cate,
vireis estoutras mezinhas, nellas vos não falarey, aqui so-
mente vos digo do betre; o qual, feito com esta mistura, he
tam aprazível ao gosto e faz tam bom cheiro, que todos o
mastigam continuadamente; porque muyto pouco tempo
passa, que o não mastigam os que o podem gastar. E digo
isto, porque no sertam e terras afastadas do mar, vai muyto
caro e por esta causa gasta o Nizamoxa cada anno em elle
3o mil cruzados, porque toda a fruta que vos dam he essa;
e quando vos querem dispidir, com isso vos dispedem; e
gasta cada hum deste betre, como pode; e também os se-
nhores cada hum segundo seu merecimento; e ás vezes o
dá elrey por sua própria mão, e a outros pella alhea, que
é o pagem delle, aquém chamam xarabdar, e outros tam-
buldar. Só duas pessoas vi que avorreciam este betre, e
o não podiam comer; e eu sam hum delles, e outro era um
físico arábio de Nizamoxa, que avia nome Mula Ucem.
RUANO
Mu3^tas pessoas vi que o não comiam?
e outras cousas 3gi
ORTA
Verdade he; mas podiam o essas pessoas comer, se qui-
sessem; eu não o posso comer, nem tenho apetito pêra elle.
E prezamse tanto os índios disso que, porque o betj-e tem
humas veas ou nervos ao longo da folha, tomam huma fo-
lha na mão, e tiramlhos com a unha do dedo poUegar, a qual
não tem romba ou redonda, como nós, senão com huma
ponta aguda no meio, que pêra este eífeito fazem; e assi
dobram a folha, e lhe misturam a cal em pouca quantidade,
e at-eca em pedaços, ou moida, e, dobrada a folha três ou
quatro vezes, a mastigam; e o primeiro çumo lançam fora,
o qual he de cor de sangue. E algumas pessoas não fazem
isto, senam tudo mastigam logo, e tomão depois outras fo-
lhas pella mesma maneira feitas; e o ordinário disto he
quando despedem alguma pessoa, ou se ella despede por
si, damlhe, sciiicet, folhas eni uma bolsinha de tafetá com
alguns grãos de arequa e cate, e huma pouca de cal amas-
sada; e esta cal não lhe faz mal, porque he em pouca quan-
tidade; e mais porque a cal que se dá he feita de ostras
queimadas polia mor parte. Já lhe dixe que, segundo a pes-
soa que o dá, ou a quem o dam, assi he o numero das fo-
lhas; porque os príncipes que despedem alguma pessoa, ou
cila se despede, nam se parte até que lhe não dêem o beíj-e,
c com isto se vam, que é o sinal de se despedirem.
RUAXO
Muyto usada cousa he essa, e parece que he o principal man-
timento da terra. E ha o em todas as partes? E quando he
o tempo mais usado pêra o mastigar?
ORTA
Principalmente quando vam os homens falar a alguma
pessoa de qualidade o levam mastigando na boca, por fa-
zer bom cheiro; e he entre elles tam avorrecido cheirar mal
o bafo, que se falam os menores com alguma pessoa de au-
toridade, tem a mão adiante da boca hum pouco afastada
por lhe não dar máo cheiro; e asi a mulher que ha de tratar
392 Colóquio do betre
amores, nunqua fala com o varam, sem que o traga mas-
tigado na boca primeiro, e assi tem ellas que para as vodas
de Vénus he principal alcoviteiro; e depois de comer, toda
a pessoa desta terra o come ou mastiga, porque dizem, que,
não o fazendo, lhe vem o comer á boca, e arevesam. E muytos
Portuguezes dizem que, como comem pexe logo arevesam
senão comem betre; e dizem muytos, que as pessoas acos-
tumadas a o comer lhe cheira mal o baffo se o não comem
por a indigestam ou putrefaçam do cibo causada no estô-
mago; porque o não comiam, e quando o comiam não a
tinham. Este betre nam o comem alguns dias os que per-
deram pay ou may, e assi o não comem em alguns grandes
jejuns; e também os Mouros, e os chamados Moalis, que
sam os que seguem a Al}^ em dez dias que elles fazem jejuns,
porque estes filhos de AI3', dizem elles, que morreram de sede,
cercados em huma fortaleza*. E nisto contam mil fabulas
graciosas, ou dignas de se rir delias, e deitamse no cham,
e não comem este betre. E quanto he o que dizeis onde o
ha, digo que em todas as partes da índia sabidas dos Por-
tuguezes; e isto se entende nas terras que estão perto do
mar; porque em todo o mais do sertam não o ha, senão
trazido da fralda do mar, He verdade que em Dultabado
(cidade famosa de Decam), e em Bisnagua o ha, mas destas
cousas se não faz regra, por ser em pouca quantidade. Pêra
as partes da Pérsia e da Arábia não chega mais que até
Calaiate (distante de Ormuz oitenta legoas), e dahi avante
vai algum de carreto muyto caro aos que o podem comprar;
e outros mastigam areca com cardamomo ou cravo.
RUANO
Queria saber da feiçam da arvore; posto que a folha a
vi; e como se chama, e qual he o milhor, e pêra que apro-
veita em uso da física?
* Os imams, os doze filhos de Ali Hucein, netos de Ali, o ultimo
dos quaes, El-Mahdi, ainda não morreu e deve vir a reinar na terra»
segundo crêem os Schiitas, a que Orta chama Moalis.
e outras cousas SgS
ORTA
O nome em malavar he betre; e em decani, guzarate e
canarim, pa??i; e em malaio círi.
RUANO
E como tomam o nome malavar, e deixaram aos outros?
Porque mais rezam fora que lhe chamáramos ^/n/w indum,
como nós temos que he, ou chamarlhe, como em Goa lhe
chamão, scilicet,jDam.
ORTA
Chamamoslhe betre^ porque a primeira terra dos Portu-
guezes conhecida foy o Malavar : e a mim me lembra que
não diziam em Portugal que vinham á índia, senão a Ca-
lecut; e isto porque esta cidade fo}^ donde se levava toda a
droga e especiaria ao estreito de Meca; e era huma requis-
sima esquala; e agora, em vingança do que nos fizeram em
Calecut, he perdido o trato todo delle. E sendo o rey de
Calecut emperador, tem menos poder que o de Cochim,
porque nos ajudou em principio-, de modo que todos os no-
mes .que virdes, que não sam portuguezes, sam malavares;
assi como betre, chuna, que he cal, majniato, que he lava-
dor de roupa, jt?a/a;;zar, que he caminheiro, e outros muytos.
E ao que dizeis que se chama foliiim indum, não se chama
assi em nenhuma lingoa; e o folium indum he muyto defe-
rente delle. E Avicena faz capitulo de hum e de outro se-
parado.
RUANO
Muyto espantado estou, porque sempre tive que foi iufjt
indum era mais conforme nome pêra o beire.
ORTA
Eu tive esse vosso error quando cheguei á índia, e dahi
a alguns dias foy ver o Nizamoxa a quem vulgarmente cha-
mão Nizamaluquo: querendolhe fazer huma composiçam
pêra o estamago lho receitei, e dizendo que folium indum
era o que mastigava cada ora, se rio de mim, porque entendeo
aquella palavra de folium indum em portuguez e entonces
amostrou o Avicena em arábio, onde estavam dois capitulos
394 Colóquio do betre
diferentes hum de outro, scilicet, o folium indiim, duzentos
e cinquenta e nove, e o do betre, setecentos e sete% e ali
me mostrou o folium induiii; e porque no capitulo do ^-
liutii indum fizemos delle mençam, não o meteremos aqui; so-
mente sabei, que Avicena chama ao betre, tembul, e parece
ser vocábulo hum pouco corrupto, porque todos lhe chamao
tambul, e não tembul.
RUANO
Afora dizelo hum rey, não tendes outra prova; porque
ainda que se digua comummente palavra de elrey he pro-
vérbio, não quer dizer, que não mentem os reys, senão que
nunca aviam de mentir, pois sam reys.
ORTA
Tenho os dous capitulos diversos de Avicena; e pergun-
tai a qualquer Arábio ou Etiope, como se chama o betre, e
dirvosá tambul; e diz o mesmo Avicena, que conforta a carne
que ha entre os dentes, e sempre o mastigam os índios pêra
isso; e abaixo diz mais, conforta o estômago; e por isso
o mastigão sempre os índios.
RUANO
Não sei que diga a tam fortes sinais, com que o pinta
Avicena; e pêra isso quero ver o livro, porque, como dizem,
ver e crer.
ORTA
Eis aqui o livro dos enmendados pello Belunensis.
RUANO
Assi diz, mas tenho duvida em dizer, que he frio no
primeiro, e sequo no segundo.
ORTA
Está corrupta a letra; e os Mouros todos leterados dizem
que foy enganado Avicena na compreisam, e que falou nisto
* Na tradocção latina, edição de Rinio, o capitulo áo foliimi indum
é 25q, e o do tembul, 709 ; adiante, Orta mostra a Ruano uma d'estas
edições, com as emendas do Bellunense.
e outras cousas SqS
por falsa informaçam; e não he muyto daremlha má; porque
o povo erra muitas vezes nestas graduações, que tem a pi-
menta e o cardamomo e a cebolla por frias de compreisam.
E quanto he ao betre ser quente e sequo no fim do segun-
do, eu o tenho assi pêra mim, por ter tal sabor e cheiro; e
assi he proveitoso pêra mais cousas na física; o qual vós
sabereis por as compreisões que tem.
RUANO
Dizei a feiçam da folha, e se tem semente, e como se
planta, e qual he milhor.
ORTA
A feição da folha, como vedes, he ser mais comprida e
mais estreita na ponta, que a da larangeira: e temse por
milhor o mais maduro, que he casi amarelo; postoque algu-
mas mulheres folgam mais com o que não he tam maduro,
porque lhe trinca, e soa mais na boca. Tem este betre em
Maluquo huma semente trocida, como rabo de lagartixa, e
esta comem em Maluco*, porque a acham mais saborosa e
milhor, e já esta semente foy trazida a Malaca, e comemna
e achama muyto boa, e plantase como a pereira, e poelhe
alguma estaca, a que se arrime e vay por ella trepando, assi
como a nossa era: algumas pessoas, por fazer mais proveito
a arrimão ás arvores ád. pimenta* * , ou da arequeira, e fazem
humas graciosas ramadas delle: querse muito bem tratado
e muyto limpo, e bem agoado.
RUANO
Tendes dito muyto bem; queria saber se o tendes por
certo.
• Os amentilhos femininos, filiformes, com as flores imbricadas, dis-
postas em espiraes, é o que significa este «rabo de lagartixa». Não sei
por que Orta diz, que dava esta «semente» em Maluco, quando a podia
ver na índia; mas é possivel que não florecesse com muita frequência.
* * Quer dizer ás mesmas arvores a que arrimam a pimenta, que é
igualmente uma trepadeira.
396 Colóquio do betre
ORTA
Digo que todos os que vos escreveram o contrario, antigos
e modernos, erraram; porque diz o Musa e o Pandecta* que
he malabatriim e isto he alheo da verdade : no colóquio que
falia do folio indo, vereis tudo ser falso no que elles dizem.
E cavalguemos, e mostrarvosey o betre nas hortas (i).
RUANO
Em tanto me dizey algumas cousas, que vos esqueceram,
ou tem necessidade de declaraçam.
ORTA
No capitulo do aloés digo, que o aloés e outras muytas
mezinhas de cá da índia vam a Ormuz, e dahi a Adem e
ao Cairo: hase de emmendar, que este caminho não he de
bom piloto, senão hase de dizer, que o que vay a Ormuz,
vai dahy a Bácora, e ao Cairo; e o que vay a Adem, vay
dahy ao Cairo e Alexandria, e não o de Ormuz; porque
he andar o caminho duas vezes, E portanto eu falei isto,
sem o considerar bem**. E também me lembra que o arvore
triste, que estilam a agoa delle, molhando os panos nella,
he boa pêra os olhos.
RUANO
Dizemme que ha muyta canela, e muyto boa na ilha de
Mindanao.
ORTA
He muyta verdade; e também a ha nas ilhas de Aynão,
que confinam com a China, que he donde vai a areca e be-
tre á China: por tanto podeis acrecentar isso no capitulo
da canela***.
* Matheus Sylvatico, o que escreveu o Liber pandectarum medicines.
** Veja-se a nota (vol. i, pag. Sg). Ainda n'esta emenda vae envol-
vida uma inadvertência, pois o que ia a Hormuz e Bassora passava
d'ali á Syria e não voltava ao Cairo.
*** A Cássia lignea do Extremo Oriente; veja-se a nota (vol. i,
pag. 226).
e outras cousas 897
RUANO
Sabemme tam bem as cousas da Jaca, que queria que
me dixeseis se aproveita pêra alguma cousa mais.
ORTA
Seivos dizer, que aproveitam as castanhas dâjaca pêra
estanquar as camarás: e em mim e em outras pessoas o
tenho experimentado. E nam he muito, considerando a fei-
çam do sabor delias; podeislo acrecentar no capitulo delias*.
E assi podeis acrecentar, onde falo na torre de Babilónia,
e digo que não he Bagada nem Bácora: tenho por enfor-
maçam muito certa que a torre de Babilónia, ácerqua da
gente da terra era em hum monte perto delia; mas neste
monte não aparece pedra nem ladrilho, nem cousa alguma,
somente a fama he que foi aly; e ainda que estas cousas
não relevam muyto, o podeis acrecentar**. E onde falo do
mor^bo galico, que os Pérsios lhe chamam hade frangi, que
na nossa lingoa quer dizer mal france:{* * * .
RUANO
E esses homens da Pérsia não vos dizem alguma cousa
mais da pedra ba^ar^?
ORTA
Dizem que he agora muyto guardada nas terras onde a ha,
e que fazem muitas diligencias pêra que todas vam ter á mão
de elrey, e que se fazem coutadas delia, assi como ha em
Espanha, e em toda a christandade se fazem****. E da pe-
* Veja-se antes (11, 23).
** Veja-se a nota (11, 97).
» * * Veja-se a nota (11, 1 16).
* » * * Coutadas das regiões em que se encontrava a cabra selvagem.
Teixeira diz quasi o mesmo : Xa Abbas Rey de Pérsia tiene guardiãs en
aqiiel lugar para que las piedras que tuvieren mas de im cierto peso las
tomen por suyas.
SgS Colóquio do betre
dra de Malaqua me não pergunteis, porque cada dia acho
novas de mais louvores delia, heide screver isto, se me Deos
der dias de vida,
RUANO
E também, pois me parece tão galante este olho de gato,
que me destes, que* aveis de dizer alguma virtude delle.
ORTA
. Posto emcima delle hum panno apertado de modo que
chegue ao olJio de gato, não se queima com fogo algum,
e eu o esprementei com huma candea e achei que he muyta
verdade; podeis esprementalo, ou credelo**.
RUANO
Tudo farey; e mais vos peço que comamos a.qué[\e pavão,
que agora vos troxeram, porque dizem que é carne, que
não apodrece. E isto não he fabula, porque alem de o di-
zerem Plinio e outros estoriadores, o diz S. Agostinho; e
he em tanta maneira isto verdade que alguns doutores, no
Regimento da peste, louvam mu}!© a carne do pavão, por
não ser aparelhada á putrefaçam.
ORTA
He verdade que tudo isso passa assi; porém he esta terra
(como mu3tas vezes vos tenho dito) tam sujeita á putrefaçam
que não dura o pavão mais sem apodrecer do que dura
d. perdi^, e isto tenho eu esprementado mu3'tas vezes.
RUANO
Será isso nesta fralda do mar, mas não dentro na terra
firme, que não he tam húmida como esta, e he mais fria
nos tempos frios, segundo mo todos dizem.
* Deve ser «me».
** Não é muito fácil crer n'esta experiência do nosso bom Orta.
e outras cousas Sqo
ORTA
Antes lá no Balagate comy mais pavões que em nenhum
cabo, em special na cidade de Juner, que he cercada de ser-
ras e he terra fria; e de industria quis esprementar isto, e
achei que apodrecião mais, que cá em Goa; e por tanto po-
deis crer, que essas propriedades que lhe lá achão, não lhas
achamos cá; e os que screveram isso de lá dessa Europa
disseram verdade; e nós dizemos verdade, falando nesta terra
do que conhecemos*.
RUANO
Lendo ontem em uma coronica, que me mostrou este moço
de elrey de Portugal, achei no cabo hum tratado de muytas
misturas de cousas, que em seu tempo vio este scriptor;
e achei ahi que no reino Dely avia huma raiz muyto peço-
nhenta que matava, e tinha uma fruta que dava saúde a
todo o homem empeçonhentado, e que era muyto saborosa;
a raiz se chama baçaraga, e a fruita se diz mivabixi: muito
me maravilho de vós não escreverdes disto**.
* Orta emenda Santo Agostinho com todas as precauções oratórias-
mas nao deixa de o emendar. A referencia do grande bispo africano
a carne de pavão, vem na De civitate Dei, cap. iv.
** Orta refere-se á Miscellania de Garcia de Rezende, na parte que
damos, com a sua nota marginal :
A raiz se No reyno de Deli ha
chama Ba- arbores daquesta sorte,
çaragua, e que a raiz é tão má
a fructa mi- peçonha que se se dá
rabexi. a comer dá logo morte;
a fructa tem tal virtude,
que comendoa dá saúde '
a todo peçonhentado,
he fructo muy estimado
com que se á peçonha açude.
Foi publicada com a 2.-^ ediçcão da Chron. de D. João II {i55a)- q
temos assim mais um livro citado pelo nosso escriptor. '
40O Colóquio do betre
ORTA
Esse reino Dely he muyto pouco conversado de nós outros ;
pois pêra falar de ouvido tratamos com iiuma gente, que
ch.2in\3.m jogues, que o que oje dizem, amanhã o negão, e he
gente que vive pedindo esmola, como já vos dixe; eu isso
nunca o ouvi, e conversey com muytos, e nunca me tal
disseram; mas pareceme isso contra toda boa filosophia,
porque da raiz se mantém o tronco, e do tronco se mantém
os ramos, e dos ramos se mantém a fruita; de modo que
do primeiro até o derradeiro a fruita que he contra a pe-
çonha se mantém da raiz, que he peçonhenta a respeito do
mesmo homem: e sendo, assi a raiz como a fruta, mezinhas
simples, he contra rezam dizermos que he retificada a fruta.
Isto que dixe foy porque a triagua, sendo o seu principal
fundamento vibora peçonhenta, he retificada com outras ses-
senta e três mezinhas, e está muyto tempo primeyro que
seja retificada, mas estoutra não traz caminho por onde
possa ser.
RUANO
Se andais per filosophias, cada dia achamos plantas e se-
mentes, que tem em diversas partes compreisões contrarias;
assi como he a -{argatoa. E de algumas arvores se diz cá
na índia, que a raiz estilada he a aguoa muyto fria, e a
casqua e a semente mu3'to quente. E também me dixeram
homens de Malaqua que a erva que mata, untada nas fre-
chas, he de uma banda de huma arvore que olha o levante
confeiçoada; e contra erva me dixeram que se fazia da mesma
arvore, da banda que olha o ponente.
ORTA
Estas matérias dos simples não se querem tratar com tanta
subtileza, nem he necessário pêra ellas tantas filosophias,
porque tudo tem resposta; que nam he muito huma planta
ser na raiz fria, e nas folhas e fruta quente; pois em nenhum
cabo delles tem a qualidade em summo gráo; mas que seja
huma cousa na raiz venenosa, e na fruita cibo ou comer.
e outras cousas 401
e comprendido debaxo do género que se pode chamar nu-
tritivo, e o veneno é totalmente contrario a isto; porque
o veneno em si não tem rezam de nutrir, senão de matar.
E ao que dizeis que a contra erva de Malaqua, e a erva
com que são empeçonlientadas as frechas, sam ambas de
huma arvore, he muyto falso isto, porque a erva he huma
raiz, e não erva; e isto he muyto sabido. E por tanto dei-
xemos isto pêra quem o milhor souber; porque eu vos pro-
meto que ey de tirar grandes inquirições, como me topar
com esses jogues do reino Del}^ E crede que, se Deos me
der dias de vida, que vos ey de falar verdade, ou ao me-
nos será ella bem examinada (2).
RUANO
Pois tendes, polia via de Ormuz, conversaçam com os
Mouros da Pérsia, dizeime destas rosas persiquas, que asi
as chama Avicena, e nós lhe chamamos açuquare rosado
de Alexandria; e se tem cá os da Pérsia estas rosas por so-
lutivas, pois nós achamos ser assi, scilicet, das que lá foram
levadas e plantadas.
ORTA
Mezinha he muyto usada acerqua dos moradores da Pér-
sia e de Ormuz, e pêra hum homem se purgar levemente,
tomão rosas em boa quantidade e cozemnas muyto, e deste
cozimento dam a beber dez onças com hum pouco de açu-
quare, e fazem cinquo ou seis camarás, e outros dez e doze.
E hum fidalgo muyto honrado me dixe que fazia mais de
doze, e he este fidalgo tam dureiro, que anda hum mez sem
fazer camará. Mas falando a verdade, os homens a quem
dei esta mezinha por menorativo, nunqua os vi passar de
seis camarás.
RUANO
Folgo muyto de saber isso que me contais; e porém du-
vido em huma cousa, que he coseremse muyto as rosas
tendo a vertude muyto superficial, como a tem todas as
outras flores.
•26
402 Colóquio do beire
ORTA
Já ao menos temos experiência, nas rosas, em contrario;
quanto mais que as rosas sam estitiquas e purgam compri-
mendo; por onde não he de maravilhar sofrerem as rosas
muyto cozimento, como todas as outras cousas estitiquas (3).
Nota (i)
O beire de Orta e dos portuguezes d'aquelles tempos, hoje mais
habitualmente chamado betei, é a folha de uma planta trepadeira da
mesma família e género das que produzem as pimentas, o Pipev
Betle, Linn. Esta folha foi e é de uso muito commum e muito
conhecido nas terras do Oriente. Como é natural, tendo um emprego
geral e espalhado por varias regiões, a planta e folha foi designada por
muitos nomes diversos:
— O de betre, ou betle, ou betele, ou betei, é a adaptação portugueza
do tamil vettilei, maláyalam vettila, que se diz significar simplesmente
a folha, isto é, a folha por excellencia. Como Orta adverte com rasão,
os primeiros portos visitados pelos portuguezes foram os do Malabar,
e ali, em Calicut, e depois em Cochim e Couláo, elles aprenderam os
primeiros nomes indianos, e alguns árabes, das drogas. De vettila fize-
ram, pois, betele ou betre, que se transformou mais tarde em betei.
— O nome de «pam» é o hindustani e deckani i^j pán, o mais usado
nas regiões do norte da índia, e que os anglos-indianos escrevem hoje
geralmente na forma panm.
— O nome arábico, tanto nos escriptores antigos como na linguagem
corrente, é Jj-ou, tanbul, que Orta escreve «tambul». Como muitos
outros nomes de drogas, é a simples adaptação arábica de um nome
sanskritico rTH-^F^T, tãmburi. Aquella designação arábica foi a pri-
meira que os portuguezes ouviram em Calicut aos mouros d'ah; e —
como logo veremos — deram á herva ou folha do Piper Betle o nome
de atambor, que é simplesmente J_a.^J'wJl, at-tanbul.
— O nome malayo é «ciri» como diz Orta, ou sirih, como hoje ge-
ralmente escrevem.
A folha do betre forma a parte essencial de um masticatorio, muito
usado na índia, Ceylão, Archipelago, e em geral no Oriente. Mistura-se
para isso com talhadas da no^ de areca (vol. i, pag. 828 e 334), impro-
priamente chamada ás vezes no^ de betei, alguma cal, cate (vol. 11,
pag. 69), e também cânfora, linaloes, almíscar e âmbar gris, substancias
bem conhecidas e de parte das quaes Orta já tem fallado nos seus Colo-
e outras cousas 40 3
quios. Este uso é tão geral, e constitue um habito tão característico dos
orientaes, que quasi todos os viajantes o tem mencionado, e limitar-
nos-hemos a citar o que diz o companheiro de Vasco da Gama, um dos
primeiros portuguezes que o observou. Na entrevista do Gama com o rei
de Calicut, este
'' tinha á mãoo escequerda huma copa d'ouro muito grande
d'altura de um pote de mêo almude, e era de largura de dous parmos
(palmos) na boca, a quall era muito grosa ao parecer, na qual talha
lançava bagaço de humas ervas que os homens desta terra comem
pella calma, a qual erva chamam atambor; e da banda dirreita estava
um bacio d'ouro quanto hum homem podése abranjer com os braços,
em o qual estavam aquellas ervas »
Da mesma circumstancia faz menção Gaspar Corrêa, e outros dos
nossos escriptores, entre elles Camões :
Bem junto delle hum velho reverente
Co'os giolhos no chão, de quando em quando
Lhe dava a verde folha da herva ardente,
Que a seu costume estava ruminando.
Merece ainda ser citada, pelas falsas idéas que envolve, a menção
de Varthema. Diz elle que o sultão de Cambaya comia algumas folhas
da herva, chamada tambor (che alcuni chiamano tãbor), juntamente com
cal de ostras e outras substancias; e, quando as tinha bem mastigado,
assoprava na cara da pessoa que queria matar, de modo que esta em
meia hora caía morta por terra (per modo che in spatio di me^^a hora
casca ynorta í terra). É um exemplo, entre muitos, das noticias phan-
tasistas d'este celebre viajante. O uso do betre é, pelo contrario, inof-
fensivo para as pessoas que o mastigam, e com muito maior rasão para
as outras. O nosso Orta indica mesmo, e é esta a opinião geral no
Oriente, que aquelle uso tinha justamente o fim de tornar o «bafo»
sadio e perfumado.
Orta toca de novo n'este Colóquio na confusão geralmente feita
em períodos anteriores entre o betre e o folio indo ou malabathrum,
questão que elle já debateu, e nós explicámos largamente em outro
logar (vol. I, pag. 343 e 35 1), e sobre a qual nada será necessário acres-
centar agora.
O betre, de que naturalmente se fazia um largo consumo, consti-
tuía um dos rendimentos importantes da índia portugueza, pelo systema
conhecido dos arrendamentos, isto é, dos monopólios de venda conce-
didos a certas e determinadas pessoas, mediante o pagamento ao es-
tado de uma somma fixa. A «Renda do betei», comprehendendo o
direito de vender betei, areca, jacas, gengivre, laranjas, limões, etc,
andava annexa á «Renda da ortaliça», direito de venda de rabãos, bre-
404 Colóquio do beire
dos, alhos, cebolas etc; e foram ambas arrematadas no anno de 1549-
i55o, por 5:3oo pardáos por anno na ilha de Goa, o que equivale a
perto de Siioooí^ooo réis da nossa moeda e valor de hoje. Pelo nome da
renda se vê, como o betre devia ser a mais importante das mercadorias
mencionadas. Em Baçaim, em Diu, e outros pontos, também o betre an-
dava arrendado em quantias importantes, posto que muito menores.
Sobre esta «Renda do betei» se faziam os pagamentos ao bispo,
dignidades da Sé e outros eclesiásticos; mas, de uma carta do rei a
D. Duarte de Menezes no anno de i585, se vê que a dita renda havia
diminuído muito, e já não chegava bem para o pagamento d'aquelles
ordenados; é verdade, que os ordenados tinham augmentado.
(Cf Dymock, Mat. med., 727; Yule e Burnell, Glossary, v. Be-
tei e pawn; Ainslie, Mat. Ind., 11, 465; Rot. da viagem de Vasco da
Gama, 59; Lusíadas, vii, 58; Varthema, em Ramusio, Navig., i, 157;
Tombo do Estado da índia, 48, nos Subsidias; Arch. Português; -orien-
tal, fase. 3.0, 38.)
Nota (2)
Deixaremos sem commentarios, que os não necessitam, as «philoso-
phias» do nosso escriptor acerca de physiologia vegetal, que em globo
assentam sobre idéas muito racionaes, posto que n'um ou n'outro ponto
se lhes poderiam fazer alguns reparos.
Como elle, de passagem, menciona a triaga e as sessenta e três me-
zinhas com que retificavam a sua base de «vibora peçonhenta», damos,
a titulo de simples curiosidade, uma das formulas d'aquelle celebre me-
dicamento, reduzindo-a á simples enumeração dos ingredientes. Esta
fórmula complicada remata bem as nossas notas, dedicadas aos velhos
simplices e drogas, pela maior parte já fora de uso. Eis a fórmula:
«Rec. trochiscorum squillas, et trochisc. viperíe, et trochisc. piperis
nigri, et opii boni, et allii sylvestris, et rosarum rubearum siccarum,
et seminis rapi sylvestris, et iridis illiricae, et agarici, et succi liquiritite,
et olei balsami, et cinamomi, et myrrhae, et prasii, et croci, et macro-
piperis, et zinziberis, et calamenthi, et petroselini, et pentaphilon syl-
víestris, et reubarbari, et costi amari albi, et stoechados, et piperis albi,
et pulegii, et floris squinanthi, et glutinis alimbat, et olibani, et cássias,
et nardi indicie, et anisi, et storacis liquidce, et siseleos, et spicae celticcc,
et seminis ameos, et chameepithyos, et chamfedryos, et hypoquistidos
et folii, et epithymi, et fu, et meu, et seminis apii, et seminis foeniculi,
et luti albaira, et colcotar assati, et amomi, et hypericon, et acori, et
carpobalsami, et acaciee, et gumi arabici, et cordumeni, et galbani, et
opoponacis, et serapini, et bituminis judaici, et centáureas, et aristolo-
chiae rotunda, et castorei, et ozimi fluvialis, et chie, et dragaganthi, et
arthanite, et aristolochiae longcc, et seminis hyusquiami albi.»
e outras cousas 406
Nota (3)
As rosas pérsicas vermelhas, que, acabamos de ver, formavam um
dos ingredientes da triaga — rosaram rubearum siccarum — , foram um
medicamento contiecido e clássico, e parecem ser uma variedade da
fS>osa, Damascena, Miller, cultivada na Pérsia e outras partes
do Oriente. Um contemporâneo do nosso Orta, o celebre medico hes-
panhol Nicolao Monardes, escreveu um pequeno tratado ou artigo so-
bre as suas virtudes e propriedades medicinaes, intitulado De Rosis
persicis seu alexandrinis, que poderá ver o leitor, desejoso de mais am-
plas informações (cf. Monardes, em Exoticorum, 48).
Da mesma Rosa Damascena procede o óleo, otto, ou attar de rosa,
o conhecido, celebre e caro perfume, ainda hoje fabricado na Pérsia,
e principalmente na Turquia.
TABOADA DO CONTEÚDO NESTE LIVRO
pelo ABC, scillicet das cousas de notar
Vol. Pag.
AçAFRAM chamado na índia açafram da terra, e he mezinha
usada dos físicos desta terra, e provase que escrevem delia
Avicena e outros Arábios I 278
Allaqueca ha muyta cantidade delia em o Guzarate, e he mer-
cadoria pêra as partes do ponente II 222
Aloés tem nome em todas as línguas, e o milhor he de Çoco-
tora acerca de todos, e não he milhor o de cima que o de
baixo, se se faz limpamente; nem se falsifica com acácia e
gomma arábica, e dizse a maneira de se conhecer, e dizse
como nam o ha em Alexandria pêra delle se fazer caso, e
dase a rezam por que se chama cabalino o ruim; e he me-
zinha muyto usada de todos os Indianos; e a herva do aloés
também usam delia pêra purgar, e pêra as chagas dos rins e
bexiga, e pêra quebraduras I 25
a erva do aloés amarga muyto em todas estas partes, e
quanto se ha de tardar o cibo sobre ella; e porque se mu-
daram as pirolas de Rufo e as de.Rasis; e porque o aloés
mesturado com mel purga menos; e porque por dentro he
solutivo, e por fora restringe I 33
aloés metálico não o ha em Jerusalém como alguns es-
crevem I 34
O ALJOFRE e PÉROLAS tcm uomes em todas as linguas, e dase
rezam porque se chamou aljôfar, e porque se chamou pé-
rolas orientaes; e como esta pescaria da índia he decorada
com os padres e hirmãos da companhia de Jesus; e como
as pérolas das índias ocidentaes valem cá mais que em Es-
panha; e como nam ha pérolas furadas cá, nem verdes, como
dizem que as ha em Peru, e de tudo isto se trata ......... II 119
Algarves que quer dizer e onde sam I 78
Apilidos dos reis e senhores desta terra, e o que querem di-
zer, e como foram os reis expelidos, e como ficou a casta
delles I 122
Arabis sam huns Mouros, e Magarabis outros, e o que querem
dizer estes nomes I 78
» Conservamos sem alteração a taboada da primeira edição, a não ser nas referencias ao
volume e pagina.
4o8 Taboada
Vol. Pag.
O AMBRE se chama assi em todas as linguoas, ou varia muyto
pouco; dizemse as opiniões que ha do seu nacimento, e con-
tase huma muvto conforme á rezam; dizse dos grandes pe-
daços que delle se acharam, e o grande preço em que he
tido na China I 45
Do AMOMO se diz donde vem a esta terra, e como o estimão
em muyto os reis, pêra fazer metridato, de que usam I fg
O ANACARDO ha muyto nesta terra, e he muyto usado na lisica,
e presumese ser diverso do de Cecilia, e uzase pêra muytas
enfermidades na índia I 65
O ARVORE que se chama triste não dá froles, senão de noite,
e cheira muyto, e contase delle algumas fabulas graciosas. . I 69
Anil que cousa he, e donde ha mor cantidade delle, e asi se
fala dos âmbares, que he huma fruita azeda I 86
Assa fétida de quantas maneiras seja, e assa doce não he alca-
çus, e serve nesta terra pêra temperar os comeres, e he hum
cibo muyto medecinal nestas parles, e muyto usado I yS
Alepo he cabeça da Suria I 202
foy senhoreado de Abraham e póese a derivaçam delle. . . II 297
AvicENA donde foy e em que hnguoa escreveo I 77
Babilónia, a antiguoa, não he o que agora chamamos Bácora,
nem he o que chamamos Bagada II 93
Baçaim, cidade delrey nosso senhor, tem em si cousas de notar II 840
Badajoz cidade de Castella, se ha de chamar Guadajoz II 85
Baneanes sam os genosotistas, que guardam o costume de Pi-
tágoras, e tem esprital de pássaros pêra os curar II 104
Bangue que cousa he, e como nam he amfiam nem linho al-
canave; e pêra que se toma, e como se faz I 95
Benjoim tem nomes em diversas partes, e donde o ha, e pêra
onde o levam; e da feiçam do arvore, e de quantas manei-
ras o ha; e como se mestura hum com o outro I io3
Os BRiNDÕES, scillicet, a sua casca aproveita pêra tingir, e pêra
fazer vinagre I 117
Balagate o que quer dizer; e como o Gate he huma serra di-
ferente das outras I 121
Berilo ha muyta cantidade em Cambaia, e Pegu e Ceilam, e
fazemse delle grandes peças II 199
As BOUBAS quando vieram á Europa II 107
Cancamo he anime e dizse delle II 87
Calamo aromático nam o ha senam na índia; he mezinha
muyto uzada dos Indianos pêra os homens, e pêra cavallos;
nam se chama aromático, por ser cheiroso; e ahi se trata
também das Caceras I 141
Taboada 409
Vol. Pag.
Cam he vocábulo corrupto, porque ha de dizer ham, que quer
dizer rei acerca dos Mogores I izi
Cânfora he de duas maneiras; de Burneo e da China, e de
muy diferentes preços; e como se falsifica ás vezes, e dos
nomes que tem, e da sua compreisam; e ahi se trata das ca-
rambolas, fruta indiana I 1 52
Choaris sãos uns Gentios, que vieram da Pérsia, e tem diversa
supristiçam, da que tem o gentio de Baçaim II 342
Canela e cassialinea e cinamomo tudo he huma cousa, e nam
differem em mais, senão em ser boa ou má; nam a conhe-
ceram os Gregos, nem a ha na Etiópia, e tem nomes em di-
versas linguoas, e foy levada pellos Chins pêra o ponente;
póese a derivaçam dos seus nomes, e como não ha cinamomo
alipitino I 201
Cássia fistola ha em todolas partes da Índia, e tem nomes
acerca de todolas linguoas; e as vacas nam a pascem, por
onde he falso dizer que as camarás da índia vem por sua
causa, pois os arvores sam tam altos I igS
Carbúnculo he toque dos rubins II 218
Cardamomo ha mayor e menor na índia, e dizse como se se-
mea, e qual he milhor, se o maior, se o menor; e como o
autor descobrio esta mezinha, com algumas historias do que
nisso o autor passou; onde se trata da feiçam e da cor das
carandas I i yS
Cravo contase delle o nacimento, e como nam o ha senão
em Maluco ; não he mezinha conhecida dos Gregos, ao menos
de Galeno: e contase de outra fruita redonda, que ha na
ilha de S. Lourenço, que cheira como cravo, assi contase
como veo a ser conhecido dos Malucos I 35q
Ceilam he huma das melhores ilhas do mundo I 216
Chins sam muyto sutis e letrados e usam muyto de justiça; da-
vam as leis a esta terra; damse lá gráos ; a arte da empre-
sam foy lá sempre I 260
dos Chins ficou huma pedra em Cochim, que levou elrey
de Calecut, e pôla em Repelim, onde se coroava, a qual to-
mou Martim Afonso de Sousa per guerra, e a poz em Cochim I 2o5
Cheiros sam muyto gastados na índia, porque a gente da ín-
dia he muyto enclinada a elles, que deixam de comer pêra
gastar em cheiros I 71
Coles foram primeiro senhores de muyta parte do Balagate,
e aguora vivem de roubos I 119
O çoFi ou soFi não he o Xatamaz, nem o Xaismael, senão foy
o seu capitam principal I 124
41 o Taboada
Vol. Pag.
Colérica passio, chamase na índia morxi; mata em 24 oras;
põese os sinaes delia, e a maneira de curar dos índios, e
nossa em casos que aconteceram ao autor I 261
Grisocola ou tincal vem do Chitor, ou do Mandou I 277
Crisolita pedra ha no Balagate, e em Ceilam, e na costa de
Choromandel 11 222
CosTO ha somente na índia, e não em outro cabo; vem de Chi-
tor; he a principal mercadoria pêra a China e Malaca; e pêra
as partes do ponente em pouca cantidade; não ha costo doce
e amargo senão for corrupto, nem he verdadeiro costo o que
não for trazido da índia I 255
O coQUO tem nomes em todas as lingoas; poese os sinaes
da arvore, e muytas cousas pêra que aproveita; e como as
cascas não aproveitam pêra os paralíticos, como alguns di-
seram; do olio do coquo pêra que aproveita; e como escre-
veram desta mezinha os Arábios, e dos erros que tiveram
outros escritores nelle I 284
Cairo se chamou assi por causa de huma rainha assi chama-
da II 324
Cubebas não foram conhecidas dos Gregos nem he carpesio,
nem mirto silvestre, sam muyto usadas dos Mouros em' fí-
sica, e cozemnas na Jaoa, porque nam se dêem em outro
cabo I 289
GuRCAs sam huns inhames pequenos, provase escreverem
delias os Arábios, e dizse os nomes que tem I 279
O DiAMAM he precedido da esmeralda e do rubi em igual can-
tidade e bondade, porque as pedras preciosas não tem o
preço somente polia virtude, senam polia falta e bom pa-
recer delias; e he usado em física acerca dos Gentios; e
não he peçonha o pó delle, nem nace na mineira do cristal,
porque o cristal não no ha cá II 19:)
o diamam se quebra não tansómente na bigorna mas
com um martello pequeno; e o sangue do bode nam o faz
mais brando, que he falso dizer que o quebra, e achase
maior muyto que uma avelan, e nam sam vigiados das ser-
pentes, nem ha mister carne confeiçoada pêra lhes dar. ... II 199
■os diamães não tem roca em Espanha, nem em Arábia
nem em Chipre, como dizem alguns autores; e a pedra de
cevar traz o ferro, presente estando qualquer diamam ; e
posto debaixo da cabeceira da mulher, não dá sinal da sua
bondade e maHcia; e os diamães muito fínos, esfregandoos
se apegam hum ao outro, e trazem a palha como os alam-
bres II 202
Tahoada 411
Vol. Pag.
Dio foy entregue a Martim AfFonso de Sousa, estando lá com
pouca gente, e depois foy defendido duas vezes por nós com
muyto esforço II SSg
Os DURiÓES he huma fruita muyto gabada nas bandas de Ma-
laca e põese a feiçam delia e do arvore I 297
Datura he huma mezinha venenosa, que causa riso e prazer,
e poe-se a feiçam delia, e a cura e os sinais I 295
Do ELEFANTE náo se uza em física mais que dos dentes, por-
que os outros ossos e as unhas se deitam por ahi, contra
Paulo Egineta; e contamse estorias verdadeiras e muyto gra-
ciosas dos elefantes, e os nomes que tem nas terras donde
os ha, e em nenhuma se chama barro, contra Simam Genoes I 3o3
gastase cada ano na índia pasante 6000 quintais de mar-
fim; e contase huma suprestiçam que tem os Baneanes de
Cambaia, por onde se gasta tanto marfim I 3o5
contamse as enfermidades dos elefantes, e como se cu-
ram, e como tomam bem as lingoas, e assi se conta o ajun-
tamento do macho com a fêmea, e como deferem pouco do
dos outros quadrúpedes; e põese a maneira de os amansar,
e provase terem memoria porque se lembram das emjurias
recebidas I 3o8
A ESMERALDA não cmtra no letuario 'de Gemis, senão a tur-
quesa; provase isto evidentemente II 220
esmeralda ha muytas contrafeitas de vidro, e ha outras
que não sam verdadeiras, nem as do Peru tem cá por verda-
deiras II 221
EspiQUENARDO tem nomes diversos, e não vai tanto como valia
antiguoamente, e por isso se não falsifica, e nace o espique
perto do rio Ganges, e nelle se lava todo o gentio, e paga
por isso meo pardao; e o verdadeiro nace na índia, e não
na Siria, e dáse a rezam por que se enganavam nisso II 291
Espique não he suspeitoso por fazerem delle piso, que he pe-
çonha, nam ha tal cousa II 29o
Espique aliep he o espique que vai de Alepo, avendo vindo pri-
meiro da índia II 296
Espique satieche he espique de Satigam, porto famoso de Ben-
gala II 297
EspoDio não se ha de chamar assi senão tabaxir, por escusar
equivocaçam, que foy causa de muitos erros II 3o2
o espodio nam se faz das canas semelhantes ás nossas,
nem o cinzento he pior II 3o3
EsQuiNANTO pasce todo o gado em Calaiate e Mascate, terras
da Arábia perto de Meca por terra II 3 1 1
412 Taboada
Vol. Pag.
EsQUiNANTO tem pouca frol, e essa que ha nam vem á índia;
nem o ha na terra dos Nabateos, nem em Jerusalém, nem
he calamo aromático, nem galanga II 3i5
O FAUFEL, que he areca ou avelan da índia, come a gente mis-
turado com o betre, e he rectificativo delle, e conforta o es-
tamago, e aperta as gengivas, e dizemse os nomes delle nas
terras donde o ha I 325
Os chamados figos da índia sam escritos pellos Arábios, e cada
anno se plantam de si mesmos; ha os em muytas partes
todo o anno I 829
Os Físicos INDIANOS tem enganos e cautelas em suas maneiras
de curar os enfermos 11 140
Frangue quer dizer cristam do ponente, e frangistam quer di-
zer cristandade, e frangui quer dizer boubas; e tudo isto se
prova II 107
Galanga não foy conhecida dos Gregos, e ha de duas maneiras,
scilicet, na China e na Jaoa, e ambas se dam em Goa, e ne-
nhuma he o açoro nem a raiz do esquinanto I 354
Gengibre tem muitos nomes nesta terra; e dáse a rezam por-
que em verde não he tam quente; e porque se cobre com
barro; e como se faz em conserva, e de que terra he milhor II 5
Granadas ha as no Balagate, e na costa do Malavar e Choro-
mandel, e he rubi preto II 216
Guadalupe se emtrepretará Rio do amor e não Rio de lobos II 85
GuAiACAM pao foy degradado da índia, porque matava os ho-
mens com fome II 26 1
Da HERVA contra as camarás, chamada herva de Malavar, dáse
a rezam porque se chama assi, e dizse como se faz, e qual
aproveita mais, e de que compreisam he, e qual he mais forte
mezinha; e doutra maneira de curar camarás, segundo os
da Arábia ; dizemse outras cousas peraque aproveita, e huma
estoria, que aconteceo ao autor com hum Hsico malavar;
e assim se conta de outra erva, que se não deixa tocar. ... II i3
Jambos, jambolóes, jacas, jangomas sam frutas da índia boas
pêra ver II 23
Jacintos ha no Balagate em muyta cantidade e na costa do
Malavar II 216
Índias chamadas occidentaes não são propriamente índias; e
dáse a rezam por que esta terra he chamada índia II 107
O LACRE tem nomes em arábio e pérsio, e nas terras onde nace,
e a rezam por que se chamou locsumutri; e como he falso
o dizer que as formigas o criam na vasa em paos pequenos,
que lhe antes punham, porque antes se cria em huma certa
Taboada 413
Vol. Pag.
arvore, onde as formigas ás vezes lavram, a qual não he se-
melhante á murta, antes he huma arvore grande II 20
O LACRE não foy conhecido de Avicena, nem tem a virtude
do carabe, nem he o cancamo de Dioscorides; e em muytos
cabos estam os nomes corruptos; nem o arvore onde se cria
he nespereira ou sorveira jj 3
-ha verdadeiro lacre na índia, e verdadeiro cancamo, e
não he do arvore do benjoim jj 3
o lacre vai muyto menos do que valia, porque se achou
nas terras do Turco outras tintas semelhantes H 38
. o lacre não o ha em Ceilam, que he hum breu pêra cala-
fetar navios, e dizse por que se mudou o nome dos Pegus,
que era trec jr o
O LiNALOEs se sabe delle o arvore, ainda que com perigo dos
que vam buscalo, por causa dos muytos tigres; e Galeno não
o conheceo nem o ha na Arábia; nem he bom dizer que se
gasta por falta de encenso; decrárase os nomes das terras,
donde dizem que nace, e descobrese a causa dos errores
donde naceo; nem no ha em Cantão, nem em toda a China,
nem o cosem nas terras donde nace, como dizem comum-
mente .■ „
ÍI 49
nao vem do paraíso terreal, e ha muyto nestas terras,
posto que o bom e grande vai muyto, e não vem pollos rios
abaixo, senão em pouca cantidade, nem he falsificado com
a camelea, pois a não ha nestas terras H 53
o linaloes he sujeito a putrefaçam, mas nam tanto se-
gundo o âmago; e os Portuguezes não cortam as arvores
(como dizem), nem ha tanta cantidade delle; e o mais fino
chamase calambac tt c
^ , íí 59
U Licio que chamam na Europa chamase na índia cate; he
mezinha muyto usada dos índios; fazse de hum pao muyto
pesado; he mercadoria pêra Malaca e pêra a China, e he
milhor o da índia, que o da Licia; e póese a maneira como
se faz, e as maneiras de fazer este lido nas outras terras; não
sam tam faciles de haver como levando de cá da índia, e
por falta do indiano se hade gastar o de Licia e não pello
contrario como dizem jj
A MAÇA como he feita, e a que se parece o arvore que a dá,
e como emcima delia ha outra casca, de que não fazem caso'
senão pêra conserva de açucare; e Galeno, nem os Gregos
conheceram esta mezinha ■ jr o
Mangas podem competir com as melhores frutas da Europa,
e as frutas de espinho da índia excedem as da^Europa; sam'
414 Tahoada
Vol. Pag.
de compreisam fria e húmida contra o povo indiano, e os
caroços aproveitam pêra os fluxos II 99
^LA.NNÁ ha de três maneiras, e huma delias se parece com a de
Calábria, e a que chamam tiriamjabim se corrompe muyto
nesta terra II 91
MiRABOLANOS he nome inventado pollos trasladores, e não
porque seja o mirabolano dos Gregos; poêse as especias dos
mirabolanos e os nomes, e a causa de tudo; e não sam todos
de huma arvore, como alguns dixeram, senão de cinco; ser-
vem de tingir e de curtir pelles, como çumagre ; e não sam
cá reitificados pollos físicos, como em Portugal II i5i
Mangostam he fruta muyto saborosa feita como laranjas pe-
quenas e he das bandas de Malaca II i6i
Mirra se diz dela alguma pouca cousa donde vem, porque
vem da Caldea, da qual lingoa ha nota II 353
MuNGO he semente muyto conhecida nesta terra, e he cibo me-
decinal chamado por Avicena e pellos outros Arábios mex;
ha também na Palestina, e contase huma estoria, que o au-
tor passou com o sultão Badur, sobre a cura de Martim Af-
fonso de Sousa, e outra que pasou com o Nizamoxa sobre
a cura de seu filho, e decrarase hum dito de Avicena II iSq
Negundo he huma mezinha indiana resolutiva e mitigativa de
dor; tem outro nome em Decanim, e outro em Malavar; he
boa para chagas e inchaços, nam he agno casto, como alguns
cuidaram II i63
Nimbo he huma arvore grande, cujas folhas pisadas sam muyto
esprementadas, e he mundificativo pêra as chagas das bestas
e dos homens; tem huma fruta de que se faz hum azeite
muyto medicinal II 167
Noz he fruita de huma arvore nacida em Banda, pôese ao que
se parece; he mezinha não conhecida dos Gregos II 81
Odres de rinocerotes nem de camelos não os ha nesta terra^
e pôese onde ha o rinocerote, e outro animal que parece
unicórnio, e dizse como este rinocerote foy levado a Portu-
J^^ n 74
Olho de gato o milhor he o de Ceilam, e dizemse delle suas
propriedades, e vai cá mais que em Portugal H 222
O opio se chama na índia amfiam, faz os homens impoten-
tes, e por outra maneira aproveita pêra dilatar o jogo de
Vénus; o milhor he o do Cairo (que he o tebaico) e o mais
usado he o de Cambaia, e de Adem; face de semente de
dormideiras brancas, e nam leva trovisco, nesta terra, nem
o ha na terra donde se faz \\ 181
Taboada 41 5
Vol. Pag.
Ostras que dam pérolas sam de outra feiçam, do que sam as
ostras que comemos II 122
as ostras e búzios que chamamos madrepérola, se usa
muyto delias em cousas de policia, e assi se usa da tartaruga II i23
Pao de cobra aproveita pêra as mordiduras peçonhentas, e
pêra as lombrigas, bexigas, e sarampam; e pêra a colérica
passio, e pêra as febres de dificultosa eradicaçam; e dizse
como isto se veo a saber, em que se conta huma estoria
verdadeira; e diz-se como este pao ha em muytos cabos, e
outro de semelhante virtude em Jafanapatam II 181
Patecas he o que Avicena chama melam da índia II i35
Peixe e leite tudo misturado não he tam defeso na índia como
Avicena diz II 1 06
Pecegos, nunca foram venenosos na Pérsia, nem agora o
sam II 25o
Pedra bezar he criada no estamago de hum carneiro ou bode,
que ha no Coraçone, e no cabo de Comori e em Pam; e
criase sobre huma palha, e falsificase algumas vezes, e apro-
veita pêra todalas emfermidades venenosas, e pêra a colérica
passio, e pêra lepra e quartãas; e tomamna os Mouros ricos
e honrados duas vezes por anno, pêra esforçar a natureza,
e aproveita pêra muyta cousa segundo se vê II 23 1
Pedra arménia ha em Ultabado, cidade de Decam, e purga
pouco II 203
Pedra safira não passa de mil crusados, e as milhores de todas
sam as de Pegu II 216
Pedra de cevar faz o homem ser mais novo, comendoa em
pouca cantidade, ou feitas panelas delia e fazer o comer
nellas. E os que dizem que os que navegam de Calecut pêra
Ceilam levam pregos de pao nas nãos, porque não as tra-
guam os montes de pedra de cevar pêra si as nãos, he fa-
buloso; e assi dizer que a pedra de cevar não pesa mais com
muyto ferro, que com pouco '. II 204
A pedra criada no fel do porco espinho aproveita muyto con-
tra a peçonha II 383
Pimenta não se cria senam ao longo do mar, e a maior canti-
dade de todas ha no Malavar, e na Çunda; e o arvore da pi-
menta se planta arimado a outro arvore, como a era; e cresce
tanto como a arvore a que está arimado, e nace em cachos
como uvas, senão sam mais meudas II 241
da pimenta ha três arvores distintos, e hum he da pimenta
preta e outro da branca, e outro da longa; e assi nacem em
terras distintas, e não em huma só arvore, porque as terras
4 1 6 Taboada
Vol. Pag.
donde se dá a pimenta preta sam muy longe daquellas donde
se dá a pimenta longa, e a pimenta preta não nasce na raiz
do monte Cáucaso; põese os nomes delia em todas as lin-
goas, e em nenhuma se chama barcamasim; e os físicos da
índia também erram na graduaçam da pimenta, a que cha-
mam fria ; nem põem fogo ao mato pêra afuguentar as ser-
pentes que a guardam II 243
Raiz da china como se soube II 260
a cantidade que na China se dá desta raiz, e que não se
dê sem ser retificada, e tomase pêra as chagas dos rins, e
da bexiga, e pêra os tisicos II 2Ò3
a raiz da China se toma nesta terra muytas vezes, por a
terra ser quente, e nesta terra se tolhe o sal poucas vezes,
e muytos homens no Balagate mesturam dragma e mea desta
raiz moida e com mel mesturada II 265
na China comem esta raiz cozida com carne, e aproveita
pêra os paralíticos, e pêra todas as enfermidades dos nervos
e juntaras, scilicet, e pêra alporcas, e aproveitou pêra huma
febre latica II 267
O RUIBARBO vem da China todo, e algum vem da província do
Usbeque, e este he o que chamamos ravamturquino II 275
o ruibarbo que vai a Espanha pella via de Veneza he
milhor, que o que vai da índia por mar, porque apodrece;
e gasta mais hum mez de mar, que hum anno de terra, e se
dana muyto nas terras que estão perto do mar; e com o rui-
barbo se curam os cavalos na Pérsia, e cá na índia, e he
muito boa mezinha II 276
RuBiNS tem mineira e roca conhecida II 217
Rumes diferem dos Turcos I 32
Sabores nesta terra não ha mais que três sabores, doce e azedo
e amargo, e todo o sabor que lhe não sabe chamam amar-
gozo 1 208
Sândalo branco e vermelho e amarelo em que terras o ha,
e o sândalo vermelho em que difere do Brazil; e a feiçam
do arvore do sândalo e a fruta e a frol que dam; e como
não o ha senão na índia, nem o ha em Calecut, senão o que
he trazido de Timor, e das outras partes II 281
O sândalo amarelo he todo hum pao, e não feito de branco
e vermelho, e sândalo macharazi quer dizer sândalo amarelo II 283
Sândalo chamado assi na ilha de S. Lourenço, não he verda-
deiro sândalo, nem o sambaram he do Malabar, posto que
os arvores do sândalo se dam em muytas partes, mas não
cheira II 287
Taboada 417
Vol. Pag.
Tamarindo põese como he feito o arvore do tamarindo, e como
se faz em conserva, e como não he palmeira silvestre, nem
os ha nas terras de Jamem, nem sam dateles tebaicos, nem
tem feiçam delles; e os caroços do tamarindo não aprovei-
tam pêra cousa alguma, nem os ha em o Cairo, nem sam
o fenicobolano dos Gregos, nem se falsificam os tamarindos
da índia II Sio
O TURBiT dos Arábios nunca foy conhecido dos Gregos, senão
dos Arábios somente; e he pao e não raiz, e não ha mister
que o toque o mar, nace por si sem ser semeado; e por
ter goma nam he milhor, porque a tem, por ser picado ou
torcido; nem por ser preto he pior, senão fôr podre; nem
se mistura com o gengivre por necesidade II 327
o turbit nam tem a folha semelhante á da ferula senam à da
malva franceza, nem he semelhante à planta chamada aristis?
nem he raiz cheirosa, nem esquenta quando a comem; nem
vai contra a peçonha, nem muda a frol três vezes ao dia ; nem
he semelhante à planta dita arasentis, nem à hisiatis, nem
aos murtinhos II 335
o turbit não he especia de esula nem he alipium, nem
alipia, nem empola as mãos nem o rosto quando se colhe . . II 337
o turbit não he pitiuza, nem esula, nem tapsia II 338
Thure ou emcenso não o ha na índia senão todo vem da Ará-
bia, nem ao bom chamão macho, nem a gente da terra aceita
a comparação que lhe damos dos testículos, e tem feiçam
das folhas da aroeira e todo o mais se gasta na China II 35i
TuTiA da que usam em Espanha, como he levada da província
de Tartaria, e fazse da cinza de hum certo arvore II 359
Turcos sam deferentes dos Rumes, porque os Turcos são da
Asia-menor e da província da Natolia, e os Rumes sam de
Constantinopla e do seu império I 32
UzBEQUE he a província de Tartaria, e confina com a China. . II 92
XÁ quer dizer rei na Pérsia, e xeque he defferente de xá, e o
xaismael e o xatamaz, se chamam xá, que quer dizer rey por
excellencia e os reis seus sujeitos se chamam paxá, que quer
dizer pé de rey II q3
Zangue zingui quer dizer, em pérsio e em arábio, Cafre ou Etio-
pio, e Zingue quer dizer a terra dos Cafres I 5i
índice
Colóquio vigésimo sexto — Do Gengivre 5
Colóquio vigésimo sétimo — Das Hervas i3
Colóquio vigésimo oitavo — Da Jaca, dos Jambolóes, dos Jambos
e das Jamgomas 23
Colóquio vigésimo nono — Do Lacre 29
Colóquio trigésimo — Do Linaloes 47
Colóquio trigésimo primeiro — Do Cate 69
Colóquio trigésimo segundo — Da Maça e noz 81
Colóquio trigésimo terceiro — Do Maná 91
Colóquio trigésimo quarto — Das Mangas 99
Colóquio trigésimo quinto — Da Margarita 119
Colóquio trigésimo sexto — Do Mungo e Melam da índia i33
Colóquio trigésimo sétimo — Dos Mirabolanos i5i
Colóquio trigésimo oitavo — Das Mangostaes 161
Colóquio trigésimo nono — Do Negundo i63
Colóquio quadragésimo — Do Nimbo 167
Colóquio quadragésimo primeiro — Do Amfiam 171
Colóquio quadragésimo segundo — Do Pao da cobra 181
Colóquio quadragésimo terceiro — Do DiamSo igS
Colóquio quadragésimo quarto — Das Pedras preciosas 21 5
Colóquio quadragésimo quinto — Da Pedra bezar 23 1
Colóquio quadragésimo sexto — Da Pimenta 241
Colóquio quadragésimo sétimo — Da Raiz da China 259
Colóquio quadragésimo oitavo — Do Ruibarbo 275
Colóquio quadragésimo nono — Do Sândalo 281
Colóquio quinquagesimo — Do Epiquenardo 291
Colóquio quinquagesimo primeiro — Do Espodio 3oi
Colóquio quinquagesimo segundo — Do Esquinanto 3 1 1
Colóquio quinquagesimo terceiro — Dos Tamarindos 319
Colóquio quinquagesimo quarto — Do Turbit 327
Colóquio quinquagesimo quinto — Do Encenso e da Mirra 35i
Colóquio quinquagesimo sexto — Da Tutia 359
Colóquio quinquagesimo sétimo — Da Zedoria e Zerumbet 363
Colóquio quinquagesimo oitavo — Das Cousas Novas 371
Colóquio do Betre 389
Taboada , 407
índice alphabetico
abada, bada, rhinoceronte, 3i8. II.
8o.
Abd-er-Razzak, embaixador, yS.
Abrahão. II. 297.
Abreu (António de), Syo. II. 88.
Abrusprecaiorius.il. i3o, 196.
Abulfeda, 220.
Abu Zeyd, 219.
Abyssinia, 187. II. 325.
Acácia Catechu. II. 79; A. Suma, 76.
Acanthus, 3oo.
açafrão, 3 1, 70; — da índia, 278, 283.
achar, conserva, 66, 68, i85, 365. II.
5, i53, 159, 375.
Achem, 17.
Achillea, 64.
Aconitwnferox. II. 298; A. Napellus,
298.
açoro, 59, 141, 144-149, 355, 356.
Acosta (Christoval). II. 21, 89, 168,
192.
Acra, 39, 375.
Adão, 33 1, 337; Pico de — , 217,
233; Ponte de — , 221.
Aden, 39, 223. II. 173, 178.
Adil Scháh de Bijapur. II. 97, 3 10.
Aecio de Amida, auctor do Tetra-
biblos,58, i5i, i56, 162.11.56,368.
^gle Marmelos. II. 386.
Afghanistan, 88, 91, 3i5. II. 79, 94,
95.
Africa, 188-190, 228, 336. II. 44, 78,
1 12.
Agaçaim (passo de), 295, 299.
agaloco. II. 56.
agathas. II. 226.
agno casto, 292. II. 164, 166.
Agostinho (Santo). II. 206.
Agrimonia, 64.
agua marinha. II. 227; — rosada. I.
35, 199, 242.
aguila, 142. II. 48, 61, 64,65; — brava,
5o, 52.
Ahmedábád (Amadabar), 268, 277.
II. 18.
Ahmednaggar, 39. II. loi, 287.
Akbar, 148.
Aláed-Din Khiljy, 128, i33.
Albuquerque (Affonso de), 89, i34,
139, 320, 370. II. 10, u, 79, 126,
127, 176, 179.
Albuquerque (D. João de), bispo de
Goa, i5, 274. II. 124.
Alcáçova (Fernão de). II. 259.
alcaçuz, 76, 88.
Alcalá de Henares, 352.
Alcalá (Pedro de). II. 145.
Alepo, 202, 216. II. 296, 297, 299.
42 2
índice alphabetico
Alexandre ou Ezcader, Sy, 3 17, SSg.
II. 107, 1 13, 1 14.
Alexandria, 26-28, 89, 377.
algalia, 71.
Algarve, 78, 8g.
Alhagi Camelorum. II. gS ; A. Mau-
rorum, gS.
Ali ben Redhwan, 39.
aljôfar, 170, 206, 217, 223, II. iig-
123, 126- I 3).
Al-mamun, khalifa, 40.
almecega, 35, 40, 366. II. 16.
Almeida (D. Francisco de). II. 11,
41, 253, 254.
almíscar, 71, gy, iSg, i6g, 170, 206,
223, 347. II. 2g, 42.
Alóe, 36, 37; A. abyssinica, 3j; A.
Perryi, 37.
aloés, 24-42, 83, 187, 223.
aloés (páo de). II. 60^64, 66.
Aloexylum Agallochtim. II. 62.
Alpinia Cardamotniim, 186; A. Ca-
lunga, 357; A. officinarum, 357.
alsi, g6, 98.
altiht, 75-78, go.
Aluf Khán, 128.
alvará, para a impressão dos Coló-
quios, 3, 14.
alvará relativo aos physicos india-
nos. II. 148.
alvará relativo á pimenta. II. 256.
Alvares (Sebastião), 371.
alveitaria, 29.
Amadabar, 256, 268, 277.
Amarello (rio). II. 278.
Amato Lusitano, 210. II. 44, 237.
âmbar, 36, 45, 47, 48, 55-57, 7') 97^
i58, 328,347.
âmbares, 87, g4.
Amboyna, 25i, 383.
ameos, 142, 148. II. 14.
America, ig8, 226, 840. II. -44, 11 3,
129, 288.
amethista. II. 221, 229.
Ammiano Marcellino, historiador,
53.
amomo, 59-63, 177, 187-igo, 207,
224.
Amomum Zingiber. II. g.
Amoy, 167.
Amr-ibn-el-Aci. II. 326.
Amu-Darya, ou Oxus, 88. II. g7.
Amurat II, i33.
Anacardium occidentale, 67.
anacardo, 65-68.
ananaz. II. 38o.
Anchusa ojfficinalis, 64.
André Milanez, 3ii, 323.
Andropogon, 149; A. laniger. II. 3 16,
317; A. Schaenanthus, 3ij.
anfião, g5, 97, 100. II. 171-175.
Angélica archangelica, q3.
Angelo Palia (Angelus Palia Juve-
natiensis), 291, 293. II. 66.
An-hsi (Parthia), 219, 23o.
anil, 68, 75, 86, 87, g3.
anime, 87, 48, 44.
anjuden ou angeidan, 75, go.
António do Porto (Fr.), franciscano.
II. 346, 347.
Antuérpia. II. 258.
Aplotaxis Lappa, 267.
Aquilaria Agallocha. II. 61, 62.
árabes, 3i, 42, 187, 2og, 2g3.
Arábia, 228, 326, 335.
arábica (gomma), 25.
Aragão (Rebello de), 218.
Arai, gi.
Aravalli. II. 178.
Arcádio (imperador), 210.
arcebispo de Goa (D. Gaspar), i5.
Archangelica officinalis, 85, g3.
archipelago Malayo, 114, 162, i63,
3oi.II. 86, i32.
areca, 96, 187, 282, 325-327, 334. II
69, 73, 78.
arequeira, 334, 335.
Aripo (praia de). II. 128.
índice alphabetico
423
Aristolochia indica. II. 189.
Aristóteles, 28, Sy, 48, 191. II. 36,
io3, ii3.
armada hespanhola, 373.
armada de Rumes. II. 89.
armadas, 276.
Arménia, 27, 178.
Arriano, 220, 228, 3 18, 32 1.
arroz. II. 371, 372.
arruda. II. 7.
arte de imprimir, 260, 270.
Artocarpus integrifolia. II. 26.
Arum indiciim, 285.
arvore triste, 69-72. II. 396.
asa-fcEtida, 75-84, 88, 90-93, io3-
io5, iio.
Asdepias pseudosarsa. II. 192.
Ásia, 173, 256, 267, 282. II. 42, 112;
— central. I. 219; — menor, 32,
41. II. 178, 179.
Ásia, entrada da inquisição, bulia,
i5.
Asparagus, 64.
assa dulcis, 104; — odorata, io3, 104.
Assam, 284. II. 61.
assucar. II. 3o8.
Assyrios, 228.
Astragalus. II. 96.
Astruc, medico. II. 1 16.
Asuan. II. 227.
Athayde (Tristão de), 373.
atropina, 3oo.
Auctuario, 290, 346, 358. II. 159, 335.
Auklandia Costus, 267.
Austrália, 252.
Ava II. 42, 224.
avacari. II. 17, 20.
avelã da índia, 325.
Avenzoar (Abd-el-Malek ben Zohr),
48, 54, 58, 179.
Averrhoa Bilimbi, 170; A. Caram-
bola, 170.
Averròes (Abu-1-Walid Mohammed
ben Rosch), 48, 54, 58, 78, 104,
157, 174, 290. II. 53, 82, 84, 285,
3o5, 324.
Avicenna (Abu Ali Huçein ben Ab-
dallah ben Sina), 28, 36, 39, 42,
55-57, 60-64, 75-78, 88, 149, i53-
i56, i58, 160, i63, 166, 179-181,
187, 207, 278, 283, 33o, 343. II. 3 1,
32, 54, 86, 89, 91, 106, 143, 147,
i5o, 363, 365,367, 394.
awál, 55.
Ayres (Diogo), 268.
Ajadirachta indica. II. 168.
azar, moeda. II. 45, 178.
azevre, 25-29, 37, 38.
azougue, 159, 169. II. 207, 36o.
Babel. II. 93, 98.
Bab el-Mandeb, 228.
Báber, i3o, 317. II. 79, 80.
Babylonia. II. 93, 97, 3i3, 397.
Baçaim, 38, 74, 246, 326. II. 77, 328,
33o, 340, 342, 348.
Bacham (Batchian), 369.
Badajoz II. 85, 89, 372, 373.
Baghdad. II. 93, 97, 397.
Bahádur Schah (rei de Cambaya),
29, 97, loi, 120, i28-i3o. II. 140.
bahar (baar, bar), peso, 11 3, 159,
i65, 214, 376, 377. II. 282.
Baillon. II. 278.
Balaam, 362.
Balagaie, 121, i32.
Balassia (Badakhshan). II. 225.
Balk, 89.
Balsamodendron Myrrha. II. 356.
Baltanas (Fr. Domingos de). II. 201.
bambu. II. 3o2, 309.
Bambusa arundinacea. II. 307.
bananas, 33o, 335-341.
bananeira, 336-340. II. 26.
baneanes, 3o6. II. 52, 104-106, 1 10,
329, 342.
424
índice alphabetico
bangue, gS-ioo.
Barace. II. 252.
Barbaria. II. 7, 83.
Barbosa (Duarte), 56, 73, 114, 128,
189, 22 5, 3 16, 369, II. 63, 77, 129,
i58, 177.
Baroche. II. 178.
Barreira (Fr. Isidoro de), 338.
Barreiros (Gaspar). II. 373.
Barreto (António Moniz). II. 148.
Barreto (Francisco). II. 77, 340,
Barros (João de), 53, 54, 56, 127-
129, i3i, i32, i37, 188, 218, 220-
222, 245, 247, 248, 285, 286, 369,
371. II. 19, 87, III, 211, 252, 253,
255, 288.
Fr. Bartholomeo, (Bartholomasus
Urbevetanus), 291, 293.
Barús (Bairros, Fansur), porto de
Sumatra, 11 5, i53, 164.
Bassora (Basra), 27, 39, 219, 283. II.
38, 92, 95-97, 397.
bastão (do cravo), 363, 374, 375.
Batecalá. II. 9, 26, 154.
bazarucos, 38 1.
Beadala, 2o5, 223, 23 1. II. i25, 235.
Beatriz (Infanta D.). II. 229.
Beduinos, 353, 356.
Behar, i3i, 3i5.
beijoim, 84-86, 93, io3-ii6; — de
boninas, 347. II. 34, 37.
Beja (Diogo Fernandes de), 320.
bela, bel. II. 375, 376, 387.
Bellas. II. 216, 226.
Belleau (Remy). II. 207.
Bellon (Pedro). II, 299.
Bellunense (André), i58, 283.
Beluchistan, 88. II. 95.
Bengala (El-rei de), 120. II. 154.
ber, 118, 126. II. 3o, 40.
Berar, 134. II. 210.
Berbera. II. 356.
Berbéria. II. 7.
Berberis. II. 77, 79; B. aristata, 79.
beribéri. II. i65.
Berid (Kasim), (Verido, Veriche),
I2I-I23, i35, i38.
Bernier. II. 187.
berylo. II. 199, 209, 221, 222, 227.
betle (betele, betei), 80, iii, 184,
265, 325, 327, 328, 343, 35i. II.
69, 78, 372, 389-396, 402-404.
Beyrut, 39.
Biblia. II.'273, 354.
Bider, 121, i33.
Bijapúra, i33.
Bijayanagar (Bisnaguer), 73, 198.
bilimbeiro, 170.
Biophytum sensitivum. II. 21, 326.
Birdword (Dr.) II. 109, 354.
Birs-Nimrud. II. 98.
bispado de Nossa Senhora da As-
sumpção da cidade de Malaca,
276; — de Santa Cruz de Cochim,
276; — de Goa, 276.
Blandford. II. 189.
Blumea balsamifera, 168.
Bocchus. II. 226.
Boissier. II. 175.
Bokhára (Bochorá, Bocora), 77, 89.
II. 91, 97.
bola (boi, vola), 28. II. 356.
Bombaim, 268, 326, 335. II. 28, 356,
369.
Boodt (Boecio de), 206-208.
Borassus, 246; B.Jlabellifonnis, 232.
borato de soda, 281.
bórax, 277, 281.
Borba (Diogo de). II. i25.
Bornéo, 164, 3 16. II. 128, 211.
bornéol (agua de cânfora), i63, i65,
166.
Bontius (Jacob de Bondt), 275. II.
159, i65, 166, 387, 388.
Bosque (Dimas), i5, 234. II. 146, 164,
186, 384-386.
Boswellia Bhau-Dajiana. II. 354;
B. Carteri, 354; ^- thur i/era, 355.
índice alphabetico
42b
Botelho (Francisco Marques), inqui-
sidor, i5.
Botelho (Simão), 128, 246, 38 1. II.
128.
Brahma. II. 1 12.
brahmanes, 36, 100, 233. II. 104-106,
no, i3q.
Brahmaputra. II. 42.
branca ursina, 207, 3oo.
Brava. II. 353, 356.
brazil (páo). II. 283, 288, 289.
bredos, 79, 80, 92.
Bretschneidei. II. 177.
Briggs (coronel), i38.
brindão, 117, 118, i25, 126.
Brindisi, 285.
Brindonia indica, i25.
Brinjam. II. 90.
Brito (António de), 370.
Brown (Roberto), 336, 341.
Bruce, 229, 233.
Buddha, 269.
buddhistas, 222, 233.
Budeo (Guilherme), II. 291, 299.
Buhrán Nizam Sháh, 126, 127, 817.
II. 147, 309, 3io.
bulia do Papa Alexandre VI, 371.
burladora, herva, 3oo.
Burmá, 322, 324. II, 40, 42, 76, 225.
Burmanno, 248. II. 190.
Burnell (A. Coke), 129, 275. II. 80.
Butea frondosa. II. 41.
búzios. II. 123, i3i.
bybo, 65. 67.
C
cabo de Boa Esperança, 2o3. II. 75;
— de Calimere ou Canhameira,
182; — Comorim. I. 21 5. II. 49-52,
63, 127; — das Correntes, 75; —
de Fartaque. I. 335; — Mesurado,
188; —das Palmas, 188 ; —Verde,
332.
Cabral (Pedro Alvares), 222. II. 253.
Cabul, 88. II. 94.
caceras, 147, 149.
cachalote, 54-57.
cacho. II. 77.
Cães de Santa Catharina. II. 21.
Ccesalpinia Sappan. II. 288.
Caiado (Thomé), 16.
Cairo, 258, 280, 285. II. 173, 3i3,
323, 326.
cairo, do coco, 237, 245.
caixa, moeda, 38o.
cajueiro, 67.
Calabarga (Kulbarga). II. 3o7, 3 10.
Calaiate (Kalhat), 356. II. 3 11, 3 17,
392.
calambac. II. 55, 58, 61.
calamo, 83, 141-149, 324, 355, 356.
II. 3 1 5-3 17.
calandares. II. 363.
calcedonia. II. 23o.
Calcuttá, 2Õ7. II. i32.
Calicut, 2o5, 220, 222. II. 88, 286,
393 ; Rajá de — . I. 58. II. 403.
Camarão. II. 119, 126, 127.
Cambaya, 25-27, ^^9' ^^^1 '^^j ^56,
268, 3o5, 3 10, 3 16. II. 77, 177-179,
294; El-rei de — , 75, 342, 403.
Cambayete, 256, 268, 277. II. io5,
140, 174, 328.
Cambodja. II. 63, 64.
camellos. II. 74.
caminhos que seguiam as merca-
dorias, 39. II. 396.
Camões, ode ao conde de Redondo,
7; razão da lição adoptada, 16.
Citado a pag. 18, 55, i32, 163,220,
23o, 233, 25o, 369, 370. II. 63, 87,
112, 126, 172, 254, 255, 258, 290,
355, 4o3.
Çamorim, 2o5.
canafistola, 193, 197. II. 373.
canal de Paumben, 221.
Cananor, 189. II. 10, 254.
426
índice alphabetico
Canará, 244. II. 76, 286, 288, 3og.
Canarium commune. II. 87.
cancamo. II. 32-37, 43, 44.
candil, medida. II. igS.
Candolle (De), 334, 336, 341. II. 177.
canela, 201-217, 223-23 1, 265, 328,
345, 352. II. 396.
cânfora, 97, 11 5, iSi-iSg, 162-169,
187, 212, 21 3, 328. II. 390.
cânhamo, 98-100.
Cannabis, 98-101.
Cantão (Kuang-cheu), i56, 219. II.
5o.
caparosa. II. 36o.
capillus veneris, 60.
Capra Aegagnis. II. 236.
carabe. IJ. 3i, 32, 37,43.
Caradiva. II. 127.
carambola (kamaranga, camariz),
161. 170.
Carapatão, 333.
carbúnculos. II. 217, 224.
Carpophaga concinna. II. 87.
cardamomo, 173-190, 206, 223, 327.
II. i38.
Cardoso (Jorge), 352.
caril, 238, 270, 284, 285.
Carissa Carandas, i85, 191.
Caryophyllus aromaticus, 3 59-36 1,
368, 374, 375.
Carlos Magno, 319.
Carlos V, 371, 373'. II. 238.
Carlos VIII, de França, 11 5, 116.
Carneiro (Padre Belchior). II. 149.
carpata, 285.
carpessio, 289-292.
Carquizano (Martin Iniguez de), 373.
carta de Affonso de Albuquerque a
D. Manuel. II. 176; — de Felipe II,
128; — geographica. I. 228, 25i.
Caryota, 232.
casa da índia, 210, 320, 382. II. 72,
248, 258, 276, 279.
Cássia Fistula, 34, 179, 193-199;
C. lignea, 201-204, 207-210, 216,
224, 226, 396.
cassoneira. II. 343.
Castanheda, 56.
castas. II. 342, 348.
Castella, 195, 362; El-rei de — , 36i.
Castello Branco (D. Francisco de),
041.
Castro (Balthazar de), 218.
Castro (D. João de), 154, 190. II.
114, 340.
cate, peso da China, 11 3, 159, i65,
327, 328. II. 69-79.
Catechu. II. 76, 77.
Calhar tocarpus Fistula, 197.
Cathayo, 271. II. 5o, 64.
Catifa (El-Qatif). II. 119, 126.
Cáucaso, 88. II. 246.
causónes. II. 134.
Caxem. II. 48.
cebar. Vide aloés,
celidonia, 279, 284.
cerca de S. Domingos, em Goa. II.
169.
cetreiros ou falcoeiros, 29; medica-
mentos que usavam, 40.
Ceylão, 17, 5i, 52, 56, 181, 186-
189, 206, 210-216, 221, 222, 224,
230-233, 3o5, 309, 3i5, 324, 335.
II. 5o-52, 63, 125, 127, 181, 184,
199, 224-226, 385, 386, 388.
Chagatay (Khanato de), 89. II. 97.
Chaggi Memet (Hadj Moharamed),
mercador. II. 278.
Chaldéa, 23o, 23 1. II. 353, 356.
Champá. II. 62, 63.
Champanel (Champanír), 129.
champe, champa, champaka, 71, 73.
chanquo ou chank, II. i23, i3i.
Charaka, 375. II. 149, 159.
Chatigam (Chittagong). II. 297.
Chaul, 100, 214, 326, 333. II. 9, 26,
28, 134.
Chauveau, vigário. II. 278.
índice alphabetico
427
Chavica officinantm. II. 25 1 ; C. Rox-
burghii, 25 1.
chego, peso, i3o, i3i.
Chelidonium majus, 283.
Chengiz-Khan, 89. II. 97.
Chevers (Dr. Norman), 3oo.
Chiammay. II. 42. 80.
Chilam (baixos de), 2o5, 21 5, 221.
II. 232.
China, 58, i55-i58, 166-170, 204,
214, 219, 222, 223, 226, 229-231,
. 260, 268, 270-272, 288, 353, 357.
II. 64, 161, 162,179, 259,315,367.
Chinacota, 222.
Chincheo (Chang-chau), 167. II. 5o.
chins, 204, 206, 219, 221-223, 270,
364. II. 285.
Chitor, 256, 267. II. 374.
cholera, 272-276. II. 388.
chrisobalanus. II. 83.
christandade. II. 108, 120.
christãos. II. 108, 11 5, i25; — de
Socotora. I. 37, 38.
chrysocolla, 281.
chumbo. II. 207.
cinabrio, 169.
Cinnamomum, 198, 202-211, 2i3,
21 5, 216, 224-230, 348; C. Tamala,
349, 35o; C. nitidinn, 349; C. Catii-
phora, 166-168.
Cirenia (península Cyrenaica), 104,
1 10.
cirifoles, II. 375, 376, 387.
Cissus vitiginea, 62.
Citrullus vul garis. II. 144-146.
Clematis indica. II. 190.
Clusius, 41, 55., 62, 72, 88, 127, 140,
198, 253, 294, 341. II. 5o, 65, 184,
191, 192.
cobras. II. i8i-i83, 187-191.
cobre, 129, 169, 206, 223.
Cocais lacca. II. 40,41; C. mannipa-
rus, 96; C. nucifera. I. 232, 244,
25o. í
Cochim, 159, 190, 2o5, 373. II. 10, 55,
127, 235, 254.
Cochinchina, 162, i65. II. 61, 62, 64,
129, 102.
coco, 235-252, 279, 3 10. II. 84.
códices arábicos, 40.
Coge Çofar, 280, 285.
Coje Perculim, 26, 38, 77.
Celebrooke. II. 149.
colérica passio, 261, 272, 280. II. i3.
Colles ou Kolis, 119, 128, 129.
Colocasia, 285; C. indica, 285; C.
antiquorum, 285.
Colombo (Christovam). II. 10, ii3,
ii5.
Colombo (porto de Ceylão), 23 1.
cominhan, 84, 104, 109, 11 5.
Commiphora Myrrha. II. 356.
Companhia de Jesus. II. 120.
Concam, 54, 121.
conde da Castanheyra. II. 258; —
de Redondo (D. Francisco Cou-
'tinho). I. 14, i5. II. 382; — de
Villa Nova. I. 341.
Congo, 247, 336.
Constantino de Bragança (D.), i5
II. 376, 384, 386.
Constantinopla, 39, 53.
Conti (Nicolo di), 249. II. 62, 209.
convento de S. Francisco, 199. II. 20.
Cooley (Desborough), 224, 229, 23 1.
copal duro. II. 44.
copra, 238, 239, 243, 245.
Coptis Teeta, 284. .
coqueiro, 240, 244-249.
Coraçone. Vide Khorásán.
cordierite. II. 225.
Cordo (Valério), 63, 176, 188, 191,
209. II. 56, 323.
Córdova (Gonçalo de). II. 11 5.
cornalina ou cornelina. II. 23o.
Coromandel (Choromandel), 170,
221, 222, 244. II. 41, 182, 235,
282, 288.
428
índice alphahetico
corte de Scháh Jehan. II. 187; —
de Aureng Zeb, 187.
córtex cinnaviomi, 225; — cassia-
lignea, 226; — margosce. II. 168.
cortimento de peUes. II. 154, iSg.
coru. II. 17.
Coruna, 373.
contidon. II. 223.
Cosmas Indicopleustes, 248, 368. II.
227, 289.
Costa (Christovão da), 67, 68, 72,
3oo. II. 298, 309.
costa do Abexim, 33 1 ; — da Abys-
sinia. II. 127; — da Arábia, 127;
— de Arracán. I. 273; — da Mala-
gueta, 188, 189; — de Malé, 53;
— da Pescaria. II. i25, 127; — de
Zanzibar. I. 57.
costo, 177, 244, 255-260, 267-269,
282. II. 79.
Cota, 23i, 232.
Cotamaluco (Qutb el-Mulk), 121-
123, 134, i35, 137, 3o5, 3i5, 326.
II. 3 10.
Cotoneaster mnmnularia. II. 94.
Cottonara. II. 252.
Coulão, 220, 222, 375. II. 10, 253.
Coutinho (Vasco Fernandes), 317.
Couto (Diogo do), 40, i3i, 222, 373.
Covarrubias (D. Sebastian), 247. II.
25l.
Cranganor (El-rei de). II. 36o.
Cratceva Marmelos. II. 386.
cravo, 97, 187, 201, 206, 223, 325,
347, 352, 361-384. II. 10, 88.
Crawfurd, 244, 335, 368. II. 62, 86,
129, 224.
Cremonense (Gerardo), 42, 76, 166,
176, 193, 198. II. 95, 3oi.
Crindle (Mac), 322.
crisocolla, 277, 281.
cristal de rocha. II. 197, 199, 209.
croco indiaco, 282, 283.
Cruz (Fr. Gaspar da), 221, 271.
crysoberyl ou cymophana. II. 23o.
crysolitha. II. 221, 229; — oriental.
23o.
Cubeba officinalis, 187, 287-293.
Cucumis Melo. II. 144.
Cucurbita Citrullus. II. 144.
Cueva (Luiz de). II. 238.
Cunha (Gerson da), 129. II. 109.
Cunha (Nuno da), 38, 286. II. 18,89.
Cunha (Tristão da), 319.
curcas, 279, 280, 284, 285.
Curcuma, 281-284; C.angustifolia,
284; C. longa, 282, 284; C aromá-
tica. II. 368, 369; C. Zedoaria, 369.
curumbins. II. 342, 348.
Dabul, 214. II. 6, 7, i34, 154.
Daghestan, 87,
Dahlac. II. 127.
Damão. II. 69, 77.
Damarkand, 89.
Damasco, 39.
Darien. II. 1 13.
Datura, 295; D. alba, 3oo; D. fas-
tuosa, 3oo.
daturina, 3oo.
dauco silvestre, 292.
Daugim (passo de). II. 169.
Daulutábád. II. loi, 204.
David, 106.
Deckan (Daquem), 98, 121, i33.
Dehli, 75, 87, 88, 119, 120, 127, i3o,
i3i, 140, 256, 267. II. 294.
Delia Valle, 54.
Derbend, 87.
deres. II. 342, 348.
Dhibat-el-Mahal, 53.
diamante. II. 195, 198, 206, 207, 209-
212.
Dianthus caryophyllus, 367.
Diarbekr. II. 96.
índice alphabetico
429
Dicíamus, 64.
Didjelah. 11. 93, 97.
Dimocarpiis Lichi. II. 162.
dinheiros. II. 291.
Dioscorides, 27, 62, 191. II. 44, 79.
Diu (Tiyu), 219, 286, 320.11. 89,
339.
Diul. II. 107, 1 12.
Djazirat al-Yacut. II. 224.
Djebel Zabbara. II. 227.
Djidda (Judá), 27, 39.
Djilolo, 364, 368, 369.
Djolfar. II. 126.
Dofar, 326, 335. II. 48,355.
dorião, 297, 298, 3oi. II. 109, 161,
377, 378.
dormideiras. II. 174.
Dourado (Vaz), 25i.
drago (sangue de), 40. II. 32, 34, 35,
39.
Drake, navegador, 63.
Dryobalanops aromática, i63, 164,
166, 168.
dugong. II. 385, 386.
Du Halde (Padre), 270, 272.
dulce ligninn, 224.
Dultabado. II. 392.
duque de Bragança, 372; — de Lo-
rena. II. 66.
Durio ^ibethinus, 3o i.
Duzgun, 91.
Dyaks de Bornéo, 164.
Dymock (W.) 63, 91, 199. II. 20, 25i,
325.
dynastia de Bahmany, 133;^— Han,
375; -Ming, 112, 170; — Sung,
167; — Thang, 219.
E
Echites antidysentericum. II. 19.
eclypses, 36 1, 372.
Edrisi, 37, SS, 219. II. 227.
egreja de Nossa Senhora da Con-
ceição. II. 347; — de Nossa Se-
nhora da Misericórdia, 347 ; —
de Nossa Senhora da Piedade,
347; — de S. Miguel, 341, 347.
Egypto, 286. II. 178, 227, 326.
ela^omel, 240.
El-Beckri, 89.
electarium de gemmis. II i3i, 223.
Elephanta. II. 347.
elephantes, 217, 232, 3o3-3o4. II. 80;
— branco. I. 3o5, 3 16.
elephantiasis, 60, 63.
Elephas indiciis, 3 16; E. sumatra-
nus, 3 16.
Elettaria Cardamotnutn, 186-189.
Eleusine Coracana. II. 78.
Elichpúra (Lispor), 134. II. 198,210
Elliot (Walter). II. 19.
Elvas, 371.
Empoli (João de), 272.
Epiphanio (Santo). II. 208.
ermida da Piedade, na Povoa, 341.
ermida de S. Braz, em Goa, 299.
Erskine, historiador. II. 80.
escamonea, 34, 196.
Esclavonia, 293.
esmeraldas, 241. II. 196, 227-229.
espadana, 355, 356.
espinhela, rubi. II. 218.
espique, 268.
espiquenardo. II. 291-298.
espodio, 3o3. II. 3oi-3o8, 36o, 36i.
esquadra portugueza, de André
Furtado de Mendonça, 252.
» 7
esquinanto, 356. II. 3ii-3i7.
Estatutos da Universidade de Coim-
bra de iSgi. II. io3.
estipendio ao governador da índia,
127; — ao physico mor, 127.
estoraque liquido, 107, 112.
Estrabão. II. 75.
estrada de Santa Luzia, em Goa,
299.
43o
índice alphabetico
estreito de Magalhães, 3 70; — de
Tanjampur. II. 211.
Ésula. II. 337.
Ethiopia, 3o5. II. 106, 112, ii3.
Eugenia caryophyllata, 368 ; E.
jambolana. II. 27; E. inalaccen-
sis, 27.
Eupatorio, 64.
Euphorbia. II. 337; E. Tirucalli, 3^3.
Euphrates, 219, 23o. II. 93, 96, 97.
Evangelho de S. João, 41. II. 60.
Êxodo, 227.
Ezequiel, 227-229.
Falcão (Aleixo Dias), i5.
Falcão (Figueiredo), 1 1 2, 276. II. 257,
Falcão (Luiz). II. 114.
falcoeiros ou cetreiros, 29, 40.
Falconer (Dr.) 268.
Faleiro (Ruy), 362, 370.
Fallopo (Gabriel). II. 116.
fanão, moeda, 93, 378.
farazes. II. 348.
farazola, peso, 93.
Faria (António de). II. 129.
Faria (Dr. João de), 319.
Faria (Nicolau de), 319.
Faria e Sousa (Manuel de), 16.
Fars ou Farsistán, 89.
faufel, 334.
fava de Malaca, 65.
feitoria de Flandres, 382. II. 258.
Felici (Acácio). II. 55.
Félix jubata, iSj.
Ferishta, historiador, i35.
Fernandes (Álvaro). II. 18.
Fernando II, de Nápoles. II. 108, 1 15.
Ferreira (Fernandes), 40.
Ferreira (Miguel), 139.
ferro, 232.
Ferula alliacea, 90-92; F. Asa-foe-
tida, 90; F. Narthex, 90.
feruzegi. II. 223, 228.
festucce caryophylli, 374.
Ficus religiosa. II. 40.
figos da índia, 329-339.
Firdusi, 1 14.
Flacourtia cataphracta. II. 27 ; F.
Jan gomas, 27.
Floyer (E. A.). II. 227.
Fliickiger, 162. II. 168, 176.
Fo-kien, 167.
folio indo, 343-352. 11.393.
formigas que lavram o lacre. II. 3o.
Forstera magellanica, 63.
fortaleza de Calicut. II. 187; — de
Cananor, 11; — de S. João, de
Ternate. I. 370.
Frade de S. Francisco, 337. II. 341.
frades, dominicos e franciscanos,
271-
fragmenta preciosa. II. 223.
Francisco I, 32 1, 38i.
S. Francisco Xavier (Mestre Fran-
cisco). II. 120, 125, 346.
francos. II. 108.
frangues, 40. II. 107, 11 5, 273.
Franguístan. II. 107.
Fraxinus Ornus. II. 96.
Frederico II (Imperador), 68.
Freitas (Jordão de), 374.
fructus carpesiorttm, 293.
Fu-chau, 167.
Fuchsio (Leonardo). II. 295, 379.
fules, 71, 73, 236, 246.
Fu-lin, 219.
Fumaria, 64.
fumus terrce, 62.
Galacia, 356.
galanga, 144-146, 149, 353-358. II.
3 1 5-3 17.
Galeno, 179, 227, 289-292, 359. II.
47» 144, 245.
índice alphabetico
43 1
Galilea. II. 3i3.
gallas, 229.
Galles (Ponta de), 221.
Gallus Lafayetti, 232.
Galvão (António), 369. II. 252.
Gama (D. Estevão da). II. 124.
Gama (Vasco da), 53, 57, 249, 377.
II. 1 1 1, 253, 4o3.
ganda, rhinoceronte, 3io, 3 18. II. 75,
79-
Ganges (Guanga), io5. II. 292-297.
ganta, peso ou medida. II. 261.
Garcinia indica, 1 25 ; G. mangos-
tana. II. 162.
Gardénia lúcida. II. 355.
Gaspar Corrêa, loi, i3i, 225, 245,
273-275, 2q9, 320. II. 11, 19, 80,
89, 187.
Gaspar de S. Bernardino (Fr.), 3i5.
Gaza (Theodoro). II. 327.
Génesis, 338.
gengibre. II. 5-ii, 345.
geruda, 25i, 253.
Ghates (Montes dos), 121, i32.
ghí, manteiga, 126, 148.
Gil Vicente. II. io3.
Gill (William). II. 278.
Giunti (Thomazo). II. 278.
Glanvilla (Fr. Bartholomeu de). II.
66.
Glycyrrhi^a, 88.
Goa, i5, 100, 122, i39, 276, 333. II.
235, 385.
Gobi. II. 279.
Godavery. II. 210, 293.
Góes (Damião de), 3 14, 319.
Gogá. II. 294.
Golconda, i35, 3i5. II. 210.
golfo de Manaar. II. i25, 127, i3i ;
— de Oman, 126; — Pérsico. I.
39, 218, 375. II. 126.
Gomes (Diogo), 188.
Gomes (Ruy), 139.
gomma da herva-babosa, 3i.
Gonçalves (Jorge). II. 93, 98.
gongs, de Java, 379.
grãa ou kermes. II. 39, 45.
granada. II. 216, 226.
granum paradisi, 188.
Grão Cão do Cathay. II. 224.
Grão-Mogol, i3o. II. 129.
Grão Turco, 124, i38. II. 39.
gravura em madeira, 270.
gregos, 37, 40, 229.
Guadalupe. II. 85, 89.
guaiacam, 179. II. 259-261, 270.
Guaiacum officinale. II. 270; G. san-
ctum, 270.
Guardafui, 228. II. 356.
gubera. II. 33, 43.
Guibourt, 55^1 91, 269. II. 388.
Guiné, 2o3, 249, 336.
Guirmon. II. 359.
gundras, 245.
Guzerate, 128, 256. II. 140, 23o.
gymnosophistas. II. iio, 112.
Haçan Gangú, i33.
Haiiramaut, 335. II. 355.
Hadrar. II. 356.
Hai-nan, 357.
hakims, 39, 42. II. 146.
Halicore indicus. II. 385.
Haly Rodoam, 28, 43.
ham (khan), 120, i23, i36.
Hamadan, 134.
Hamza de Ispahan, 219.
Hanbury (Daniel), 112, 227, 357.
Hariz, i55.
Harun er-Raschid, 40, 55, 319.
haschisch, 99-101.
Haussknecht. II. 94.
Helleborus. II. 238.
Hemidesmus indicus. II. 192.
Henrique (Infante D.), 217.
432
índice alphabetico
Henrique III, de Inglaterra, 3 19.
Henrique (Padre), da Companhia
de Jesus. II. 385.
Herat, 91. II. 95.
herba sentiens. II. 21.
herva de besteiros. II. 238.
Herbelot íD'), 100, 23o.
Hermano iWolferio), 252.
Hermanno. II. 191.
Hermolao Bárbaro. II. 295, 299.
Heródoto, 100, 227.
Herpestes Mungo. II. 188; H. gri-
seiís, 1S8.
Herrera (António), Syi.
herva-babosa, 25; — cidreira, Ó2.
Hespanha, 38, 90.
Himalaya, 64, 268.
hing (ingu), asa-foetida, j5, 86, 90.
Hippocrates, 42.
hippopotamo. II. 80.
Hirah, 219.
Hirth (F.), 219.
Hitaspis (batalha de), 317.
Hola?-rJiena. II. 89; H. antidysen-
terica, 19.
hollandezes, 383.
Hooker. II. 190.
Hormuz, 09, 71, 88, 107, m, 219,
220, 228. II. 38, 94, 114, 178.
hospital de aves. II. io5, 1 12.
Huçpin. II. 141, 147.
Huen Thsang. II. 224.
Humboldt, 341.
Hungria, 260, 271.
Hutten (Ulrich von). II. 271.
Hyoscyaimts, 100.
Ibn-al-Baitàr, 283. II. 23o.
Ibn Batuta, 53, 164, 220. II. 63, 225.
Ibn Khurdádbah, i63, 358, 375.
ichneumon. II. 188.
Iconium, 41.
Idalcam (Hidalcão), 121, i33.
ilha do Almirante, 25 1; — Angediva,
46, 53, 121, 249; — Aynam ou
Hai-nan, 170. II. 129 396; — de
Bahrein, 126, 129; — de Banda. I.
365, 370, 375. II. 81, 82, 86-88;
— do Cabo Verde. I. 372; — das
Cabras. II. 236; — Chandana, 289;
— de Chypre. I. 338; — Cômoro,
46, 52. II. 6; — do Corpo Santo.
I. 25 1; — deDelft. II. 236;— de
Divar. I. 100, 246; — de Engoxa,
46; — Espanola, 199. II. 11 3, ii5;
— Formosa. I. 166; — de Jeru (Je-
run ou Gerun), 220; — Kamaran.
II. 127; — dos Ladrones. I. 248;
— de Mahé, 25 1; — Manaar, 221.
II. 129, i32, 376, 385; — de Mas-
carenhas. I. 25 1; — de Mindanáo.
11. 396; — Polluoys. I. 252; — de
Pori ou do Elephante. II. 341, 347;
— Praslin. I. 25i ; — de Ramese-
ram, 221. II. i25; — de Repelim.
I. 2o5, 223, 23 1; — da Reunião,
383; — do Sal, 372; — de Santa
Cruz. II. 385; — de Santo Antão.
I. 372; — de S. Domingos, 194; —
de S. Lourenço, 2o3, 218. II. 6;
— de S. Thomé. I. 217, 233, 337;
— Seychelles ou dos Sete Irmãos,
25 1; — Ternate, 362, 369, 870; —
Tidore, 369; — Timor, 25 1. II. 283,
285, 289; — dos Três Irmãos. I.
25i; — das Vaccas, 232. II. 232,
235, 236, 383.
Imad Scháh. II. 210.
Imam de Mascate. II. 127.
Imperatoria Ostruthiwn, 93.
império do Maharadja, 187.
império ottomano. II. 98.
impostos, 74, 128, 246, 247.
incenso, ii3, 269, 282, 335. II. 48
351-357.
índice alphabetico '
433
índia, 38, 53, 162, 170, 182, 194, 222,
249, 269, 272. II. 49, 5i, 106, 107,
1 12, 259, 282.
índias (Companhia das), 5j.
Indo (Rio). II. 107, 112.
Indo-China, 23o, 3 16, 323. 11.41,61.
inhames, 280, 285.
iolite. II. 225.
Ipojncea Turpethum. II. 344.
Iravaddi (Delta do), 324. II. 42, 225.
Isaac do Cairo. II. 85, 89, 204.
Ismael Adil Scháh, 89, 124, i34, i38.
Ispahan, 88.
Itália, 321, 333. II. 11 5.
italianos, 3i.
Izidoro (Santo). II. 206, 245.
jaca. II. 23-27, 397.
jacinthos. II. 208, 216, 226.
Jacquemont (Victor), 268.
Jafnapattam, i5. II. i85.
jagra, 236, 238, 246.
jalapa. II. 345.
jambolóes. II. 24, 27.
jambos. II. 25, 27.
jangomas. II. 25-27.
Japão, 166-169. II. 77, 259.
jaqueira, 340. II. 26.
jarras martavans. II. 270, 273.
Jasminum Sambac, 73.
Java, 109, 114, 190, 288, 292, 356,
375. II. 283.
Jeronymo di Santo Stephano, 249.
Jerusalém, 33 1. II. 3i3.
Joanes Jacobi. II. 67.
João II (D.), 352.
João III (D.), 217, 371-373. II. 89,
124, 235.
jogues. II. 112, 182, 186,400.
Johannes de Monte Régio, 372.
Jones (SirWilliam), 349. II. 149, 189.
Jordão (Fr.), 245, 248. II. 49.
Jorge de Santa Luzia (D. Fr.), 276.
Jorge Themudo (Fr.), 276.
Judéa, 41, iio. II. 3i3.
jujubas, 118, 126.
Julfar. II. 119, 126.
junca. II. 7.
juncos da China, 2o5, 218-223, 23o.
junco aromático. II. 3i5; — odo-
rato, 3i3; — redondo, 3i3.
Juner (cidade de). II. 399.
Kabul. II. i58.
Kachmira, 268, 269.
Kampfer, 91, 1 12. II. 237, 388.
Kandahar. 88, 91, 92. II. 94, 95.
Kándésh, i35.
Kashgaria. II. 279.
Kathiawar. II. 18, 294.
Kayal (Çael), i25. II. 128.
Kerman (Guirmon), 36i.
kermes. II. 39, 40.
Khán, i36.
Khorásán, 87. II. 383.
Kiachta. II. 279.
Kiang-mai ou Xiang-mai ou Jamay.
II. 29, 42.
Kiang-si, 167.
Kipchak (Khanato de), 89. II. 97.
Kircher (Padre). II. 278.
Kiruan, 75, 87.
Kishna. II. 210.
Kordofan. II. 325.
Krishna, 73.
Kurdistan. II. 96.
Kyat-piyu (Capeiam). II. 225.
,, 244.
Lacadivas,
lacca. II, 29, 33, 39-45.
lacre. II. 29-45.
28
434
índice alphabetico
Lagondhnn vulgare. II. i65; L. lit-
torale, i63.
Laguna (André), 38, 178, 237, 35 1.
II. 248, 259, 379.
Landino, 190.
Laos. II. 42.
lápis lazuli. II. 2o3, 2i3.
laqueca ou alaqueca. II. 221, 23o.
Lar (Província de). II. 237.
Laredo (Fr. Bernardino de), 352. II.
66.
Laristan, 91.
laserpitiinn, 75-86, 92.
Lassen, 340.
Laurus, 349; L. Camphora, i66.
leis chinas, 260, 271.
Lemos (Fernão Gomes de), 1 39, 3 1 7.
Leoniceno (Nicolau), i5o, 293. II.
116.
liamba ou riamba, loi.
Libéria, 188.
lignum aloés, 41, 162, 206, 328. II.
47-67; — sanctum. II. 271; — vi-
tce. I. 339. II. 271.
Lima (D. Fernando de). II. 19.
Lima (D. João de), 317.
Ligustrum. II. 190.
Limadura. II. 23o.
limonata smaragdonim. II. 228.
linho alcanave, 95-98.
Linschoten, 67, 247, 3oo. II. 79, 227,
273, 309.
Liqiiidcimbar altingiana, ii3; L.
orientalis, 1 12.
Lisboa, 238, 253, 259. II. 65, 238,
Lisboa (Dr.), 73, 149. II. 387.
Littré, 359. II. 236.
Loaysa (Fr. Garcia de), 373.
loc ou looch. II. 45.
Lodoicea Seychellarimt, 25 1.
Lopes (Duarte), 247, 337.
louça da índia, 170.
Loureiro (Padre). 284, 367. II. 61.
Luang-prabang. II. 42.
Luiz (S.), rei de França, 319.
Lycia. II. 71-79.
lycio. II. 71-79.
M
Macassar, 282. II. 283.
maça, da noz muscada, 97, 206, 223,
345, 352, 365. II. 81-89.
maçans d'anafega, 117, 118, 126.
maceira. II. 3o.
macer. II. 88.
Maçudi, 37, 55, 187, 337. II. 114.
Madagáscar, 218, 35 1.
Madrasta. II. 235.
Madremaluco (Imad êl-Mulk), 121-
123, i34, i38.
madrepérola. II. i23, i32, 229.
Magadaxo. II. 353, 356.
Magalhães (Fernando de), 370.
Magalhães (Jorge Vaz de). II. 385.
Maghreb ou Maghrib, 89.
Magno (Alberto). II. 206, 207.
Mahmud Scháh II, i33.
Mahommed Bahmany, i33.
Makh:^an-el-Adyviya, livro árabe,
1 13. II. 317.
Malabar, 53, 169, 211, 219-221, 243,
3i3, 332, 35o. II. 99, 252,393.
malabathruin, 347, 349, 35o.
Malaca, 107, iii, 169, 214, 220, 298,
317, 377. II. 178, 285, 382, 388.
malagueta, 178-189.
Maldivas, 46, 5i-53, 236-252, 326.
Maljaz (pagode de). II. 341.
Malum cydonium. II. 387.
Malupa. II. 147.
Mahvá, 268. II. 178.
Mambré (Michele). II. 278.
Manapá (Manahpaud). II. i25.
Manardo (João), 199.
manatus, peixe mulher. II. 386.
manchuas. II. 255.
Mandalay. II. 225.
índice alphabetico
435
Mandeslo (João Alberto de), i3o.
Mandou, 256, 267, 268. II. 178, 294,
298.
manga. II. 99-104, 109; — brava,
337, 343.
mangelim, peso. II. 196.
Mangifera indica. II. 109.
mangustão. II. 161, 162, 377, 378.
mangues, 228.
manná, 77, ii3, 179. II. 40, 91-96.
Manorá. II. 69, 77, 340.
Manuel (El-rei D.), 38, 268, 3 18-82 1.
II. 10, 41, 79, 127, 176, 229, 233,
256.
mão, peso, 169. II. 178, 195, 33o.
Maquien (Makian), 369.
Alaranta Galanga, 3Sj.
Marco Polo, 55, 164, 167, 169, 271.
II. 42, 277.
marfim, 3o3, 3o6, 3 16. II. 378-380.
margarita. Vide pérolas,
margosa. II. 168.
MarignoUi (Fr. João de), 240, 338.
II. 27.
marmelos de Bengala. II. 375-377,
385-387.
marquez deVilla Real, i5.
mar Caspio, 87; — Mediterrâneo, 39,
23 1; — Roxo. II. 173; — Vermelho.
I. 39, 23 1, 375. II. 127.
Martaban, 107, ii5, 3i6. II. 41.
Martin (Andrés de S.), 372.
Mascarenhas (D. Francisco). II. 18.
Mascarenhas (D. João). II. 340.
Mascarenhas (D. Pedro de), 190, 299.
Mascate, 356. II. 3ii, 3i5, 317.
matical, peso, i65.
Matthioli, 62, 188, 234, 294, 314. II.
234, 278.
Maundeville (Sir John). II. 224.
Mauro (Fra), 18.
Mawarunnahar. II. 95.
Mecca, 169. II. 10, 53, 3i5, 317, SgS.
Mecia Dandrade (D.). II. 229.
Megasthenes, 814, 32i, 322.
Mekong. II. 42.
melancias. II. 144-146, 38i.
Meleagrina margaritifera II. 12 5.
Melia Ajadirachta. II. 168; M. in-
dica, 168.
Melinde, 57, 3o5, 3i5. II. 49, 52, 1 1 1.
melique, i23, i36.
Melissa officinalis, 64.
Mello (Martim Affonso de), i3i, 272.
melões. II. 144.
memiran, 279, 281, 283.
Memphis. II. 323, 326.
Menam. II. 42.
Mendonça (André Furtado de), 25o,
252.
Menezes (D. Christovão de). II. 18.
Menezes (D. Duarte de), 139.
Menezes (D. Manuel Tello de). II.
16, 18.
Menezes (D. Tristão de), 370, 379.
Mesopotâmia, 219, 376. II. 97.
Mesué, 39, 240, 294, 367. II. 333,
345.
Mewár, 268.
mex. II. 143, i5o.
Michele (Michele San). II. 378.
Michelia Champaca, 73.
Mindanáo. II. 128.
Minjak. II. 278.
Miranda (Simão de), 3 16.
Mirkond. II. 1 14.
Mir Mohammed. II. 95.
Mir Mohammed Hussein. II. 64.
missionários, no Thibet. II. 278.
mithridato, 60-64.
moalis (schiitas), 326, 355. II. 392.
Moçambique, 217, 249, 25 1.
Mogok. II. 225.
mogores, 120, i3o. II. 92, 97.
mogory, 69, 73.
Mohammed (Hadj), 89,
Molucas (Maluco), 36 1-3 70,373,383
Mombaça. II. 1 1 1
436
índice alphabetico
Mombaim (Bombaim), 326, 335.
Monardes (Nicolau), 198. II. 206,
237, 271, 4o5.
monções, 52. II. 100.
Monpacer (pagode de). II. 347.
Monte Corvino (Fr. João de), 23o,
248.
Moraes (Gaspar de). II. 208,
Moringa aptera. II. 157.
Mormugão (rio de). II. 385.
morphina. II. 179.
morxi, 261, 264, 266, 275.
Moscovia. II. 259.
Moutel (Mortir), 369.
Moysés, 227. II. 273.
múmia, 40, 41.
mungo. II. 139-143, i5o.
Munster (Sebastião), 18.
Musa (António), 35i, 355. II. 56^ 1 16.
Musa sapientum, 335, 337; ^- Pa-
radisíaca, 336.
muscadeiras. II. 87.
mussulmanos. II. 11 5.
Muzaffar Scháh, 32o. II. 79.
Myrepso (Nicolau), 358.
Myristica fragrans. II. 86; M.offi-
cinalis, SÇ) ; M. moschata, 86.
myrobalanos. II. i5i-i6o.
myrrha, 28, 3i, 41, 107. II. 3i, 60,
352, 356.
Myrtus silvestris, 289, 290, 293.
Mysore, 189, 226. II. 289.
N
nachani, naxenim. II. 71, 78.
Nagapattanam (Negapatam). II. 182.
naique, capitão, i35.
naires, 326, 334.
Naja tripudians. II. 187.
Nápoles. II. 1 15.
nardo, 177, 345-347.
Nardostachys Jatatnansi. 11. 298.
Narsinga, i36. II. 41, 210.
Narthex Asa-foetida, 90.
nau Algaravia, 276; — Assumpção,
276; — Chagas. II. 257; — Trin-
dade. I. 373; — Victoria, 371.
Nebrija (António de), 65, 68.
Nebuchadnezzar. II. 98.
Nectandra cinnamomoides, 226.
Nees von Esenbeck, 224.
negundo. II. i63.
Nepaul, 349, 35o.
Nephelium Litchi. II. 162.
Nerium antidysentericum. II. 19.
ngai, espécie de cânfora, 168.
Nicodemo. II. 60.
Nicolau António, 352.
Niebuhr, 39. II. 96.
Nieuhof, 72.
Nigela citrina, 178.
Nikitin (Athanasio), 148.
Nilo, 229.
nimbo. II. 167.
Nipa/ruticans. II. io5.
Nirukta. II. 289.
Nischapur (Nixábur). II, 228.
Nizamaluco (Nizam el-Mulk), 26,
121-124, i33, i34, 137. II. 75, 141,
309 ; filhos de — . I. 3oo.
Noronha (D. Aífonso de). II. 307,
3io.
Noronha (D. Garcia de), i34, 190.
noz muscada, 97, 187, 223, 359,365.
II. i5, 16, 81-89; — da índia,
coco. I. 235, 244-249; — de ben
ou glans unguentaria. II. 157.
Nunes (António), 379. II. 160.
Nunez (Agostinho). II. 376.
Nunez (Leonardo). II. 376.
Nyctanthes Arbor tristis, 72.
Odorico de Pordenone (Fr.), 190,
220.
óleo de linhaça, 98.
índice alphabetico
437
oleum cinnamomi radieis, 227.
olho de gato. II. 222, 23o, SgS.
olivastro de Rodas. II. 56.
OUver. II. 354.
Oman (costa de), 220, 228, 335.
Ophiorrhit^a Mungos. II. 189.
Ophioxylon serpentinum. II. 190.
Ophir. II. 289.
ópio, 95, 100. II. 14-16, 171, 175-179.
opium thebaicutn. II. 178.
opus cyrenaicum, 85, 1 10.
Orissa, 3i5.
Orixá. II. 293.
Ormuz. Vide Hormuz.
orraca, 236, 246.
Orta (Garcia da), 38, 119, 127. II.
3 10, 348; indicações para a sua
biographia, 28 ; viagem á Ilha das
Vaccas, 235 ; quando saiu de Por-
tugal, 342.
Ortelius, 18,
ostras. II. i32.
Otranto, 285.
ourivesaria, 281.
ouro, 223, 232.
Ouseley (William), 23o.
Ovidio, 71.
Oviedo (Gonçalo de), 199, 247. II.
1 13, 116, 271.
Oxalis semitiva. II. 21.
Oxus, 88. II. 225.
Pacem, i53, 164.
Pacheco (Duarte), 188.
Pachyma Cocos. II. 272.
Pacifico, 370.
Padre Ignacio (Santo Ignacio de
Loyola). II. 120.
pagodes. II. 346-348.
Paizes Baixos, 140.
Paleacate (Pulicat). II. 235.
Palestina, 34. II. i5o.
palha da Meca. II. 3 11.
Palk (bahia de), 232.
palmeira, 232, 235-237, 241, 249.
palmitos, 240, 245.
Paludano (Dr.), 68, 35i.
Pam (Pahang, Páang). II. 382.
panditos. II. 148.
Pangim. II. 389.
Panipát (batalha de). II. 80.
Panjáb, i3o.
Pantaleáo de Aveiro (Fr.), 338.
Papa Leão X, 3 19, 32 1.
Papa Paulo IV, 210, 276. II. 299.
Papaver somniferum. II. 175.
Paranda, 122.
parava. II. i25.
pardáo, moeda, 127, 195, 38o. II. 45.
parizataco, 70-72.
paros (paráo), barcos, 2o5.
parvu. II. 342, 348.
parteiras, 354.
Parthia, 112.
Partibus (Jacob de), 33.
parsis. II. 342, 348.
pashtu, i3i.
Passo-Secco, 299.
patane, i3i.
Patane. II. 79.
patecas ou melões da índia. II. i33-
i36, 144-146, 38i.
pau de aguila. II. 60; — de cobra.
I. 241. II. 181, 185-188; —de con-
tra herva. I. 266.
Paula de Andrade, 299.
pavão. II. 398.
pecegos. II. 249, 258.
pedra arménia. II. 2o3, 212; — be-
zoar. I. 241, 266, 276. II. 23 1-238,
382-384, 388, 397; —de cevar ou
iman, 195, 202-205, 21 3; — do fel
de porco, 382; — hume. I. 223;
— de Malaca. II. 239, 388, 398;
— sanguinha. I. 40.
438
índice alphabctico
Pedro Martyr. II. SSy.
Pegolotti, 375. II. 160, 256.
Pegú, 3 12, 3 16, 324. II. 41.
Pe-king, 271.
Penha (Garcia de la). II. 1 14.
Pereira (Diogo), 52, 57, 314.
Pereira (Jonatham), 187, 188.
Periploca indica. II. 192.
perdas, 170. II. 1 19-132, 195.
Persépolis. II. 98.
Pérsia, 77, 88, 229.
Peru, 340. II. 201.
Peshawár, i3i.
Pessoa (Balthazar), iSg.
Peucedanum, ofi.
Phaseolus Mungo. II. 1 5o ; P. Max,
i5o.
Phenicia, 229.
phenicios. II. 354.
Philippinas, 370.
Phillips, 167.
Phwnix dactylifera, 232. II. 325.
Phyllanthus Emblica. II. i58.
Physeier macrocephahts, 54.
Pie de la Mirandole. II. 353, 356.
Pictet (A.). II. 176.
Piddington, 72.
Pigafetta (António), 247, 337. II. 273.
pilulas de Rasis, 3i; — de Rufo, 3 1.
pimenta, 206, 265, 268, 287-289, 365,
379. II. 241-258.
Pina (João de), 32i.
Pinto (Fernão Mendes), 170. II. 42,
80, 129.
Pinzon (Vicente Yanes). II. 357.
Piper Betle. II. 402; P. Clusii, 253;
P. Cubeba. I. 292 ; P. longum. II.
25 1; P. nigrum, 25o; P. offici-
nalis, 25 1; P. trioicum, 252.
Pires (Sancho). II. 3o6, 309.
Pires (Thomé), 38, 41. II. 127-129,
160, 177, 278, 326.
pityusa. II. 335, 345.
Planchon. II. 62.
Platearius (Mattheus), 3o.
Platina, 32.
Plinio, 38, 41, 190, 3 18, 340, 359. II.
188, 206, 244.
Plutarcho. II. 1 13.
polipodio. II. 18.
Poli (Nicoláo). II. 271.
Polónia, 271.
Polycrates de Samos. II. 226.
Pomet, 35i.II. 62.
pompholix. II. 307, 36o.
Pondichéry, 275.
Ponto Euxino. II. 277.
porcelana, 170, 223. II. 221. 229.
Poro, 317.
prata, 169, 282.
Prjevalsky. II. 278.
Prospero Alpino, 285. II. 178.
Pterocarpus santalinus. II. 288.
Pterygium costatum, i63.
Ptolomeo, 228, 229.
pucho, 267. II. 70.
Pulegiiim, 64.
Pyrard de Lavai (Francisco), 53, 252,
3oo. II. 273.
Pythagoras, 79. II. 1 10, 1 12.
Q
quartzo. II. 209, 229.
Queda. II. 255.
Quercus Vallonea. II. 95; Q_. Pérsica,
95.
Quevedo, 25o.
Quindur. II. loi.
quintaladas. II. 257.
Quito, 226.
Rabello (Diogo), 221.
radix mustelce. II. 191.
rainha Candace, 233 ; — de Coulão,
II. 255.
índice alphabetico
439
raiz angélica, 267; — da China. II.
259-272, 38i ; — de mongo, 191.
rájá, )35; — de Bijayanagar, i36.
Rájputana, 128.
Rama, 221.
Ramusio, 89, 337, 35/. II. 129, 278.
Rasis, Rhazes (Abu Bekr ben Zaka-
ria er-Rasi), 39, 276. II. 43, 147,
159.
Ratnadvipa. II. 224.
ratti, peso, i3o, 175, 196.
Rauwoljia serpentina. II. 189, 190.
Ravensara aromática, 218.
Rawlinson (Henry), 23o.
Regimento do hospital real da ci-
dade de Goa. II. 18.
rei de Cranganor. II. 36 1; — de Hor-
muz. I. 319; — de Porca. II. 254;
— de Xael, 19.
Reino da Pimenta. II. 254.
reisbutos (Rajpúts), 119, 128.
reis christãos, em Goa ( Tabarija,
de Tanor, das Maldivas, de Ter-
nate), 374; — de Pegu, 324.
renda da especiaria. II. 160.
rendas do estado, 74, 100, 246, 403.
rendeiro de Bombaim. II. 25.
Rezende (Garcia de), 270. II. 349,
399.
RJiamnus. II. 78.
Rhede van Drakenstein, 244. II. 191,
255.
RJieum officinale. II. 277.
rhinoceronte, 3 10, 3 18. II. 75, 79.
RJiinoceros indicies. II. 79; R. son-
daicus, 79.
rhuibarbo, 28, 34, 83, 157, 179. II.
275-279, 367.
Ribeiro (João), 323. II. 127, 188, 23o,
236.
Ritter, 248, 340.
roçamalha, 109, 1 12.
Rodolpho II (imperador), 252.
Rodrigues (Balthazar). II. 384.
Rodrigues (João), 233.
Roma, 32, 3 18. II. 388.
romeos, 32.
Rondot, 168.
Rontecalli (D. Fr. António de). II.
299-
Rosa Damascena. II. 405 ; — de Ge-
ricó. I. 59, 62 ; — pérsica. II. 401,
405.
rosalgar. II. 76.
Roumea jangomas. II. 27.
Roxburgh, 72. II. i65.
Royle (Dr.), 62, 267. II. 79.
Ruano, 19, 21.
rubi. II. 195, 217-225 ; — balax, 225 ;
— espinela, 225.
Ruelio (Jean de La Ruelle), 63, 85,
191.
ruiva. II. 45.
Rumes, 32, 40.
Rúm ou Rúmestan, 41.
Rumphius, 166, 198, 25o-252, 339,
' 374. II. 191.
Ruscits, 2g3.
Rússia, 271. II. 279,
S
Sabayo, i33, 137.
Sabéa, 23 1.
Salerno (Fabrício Mordente de), 72.
II. 325.
Salomão, 106. II. 289.
Salsette. II. 340, 346.
Saluen. II. 42.
Samarkanda, 89, 91. II. 97, 279.
sambucos (sambacos), 365.
sândalo, 70, 142, 187, 206, 223. II.
64, 281-290; — vermelho. I. 325.
II. 73.
sandias. II. 38 1.
Santa Cruz (Vera Cruz). II. 288.
Santalum álbum. II. 64, 289.
440
índice alphabetico
Santo Agostinho. II. 399.
Santos íFr. João dos), 3 14, 3i5.
sapphira. II. 21 5, 223; — de agua,
200, 202, 2 1 5, 225 ; — oriental, 225.
Saragoça, SyS.
sardonix. II. 216, 223, 226.
sarsaparilhas. II. 272.
Saumaise. II. 244.
Saussurea Lappa, 26-j^ 268.
Savonarola (Miguel). II. 66.
Scaligero, 41, 87, i65, 166, 224. II.
3i, 317.
scammonea. II. 345.
scháh, 124, 137; — da Pérsia, 89. II.
127, 239; — Rock. I. 73.
Schans (Terra dos). II. 42.
Schat el-Arab. II. 96.
Scheik el Djibal, Velho da Monta-
nha, lOI.
Scher Khan (Scher Schah), i3i.
Schirwân, 87.
Schmauss (Leonardo). II. 116,271.
Schwanbeck (Dr.), 322.
Scirpus Kysoor, 149.
Scorodosma foetida, 90.
Scythas, 100, 260, 271.
Scythia. II. 208.
Seda, i5o, 170, 206, 223.
Seldjukidas (Turcos), 41.
Semecarpus Anacardium, 67.
Séneca. II. ii3.
Sepúlveda (Fernando de), 94, 196,
199. II. 286, 296.
Sequeira (Diogo Lopes de), 218, II.
41, 255.
Serapio, 55, 149, 166. II. 33.
sereias, II. 386.
Serra (Correia da). II. 387.
Serra da Pimenta. II. 254.
Serrão (Francisco), 370.
Servius. II. 112.
Shan-si. II. 278.
Sheibáni Khan. II. 97.
Shen-si. II. 278.
Shen-nung Pen Ts'ao king, Maté-
ria medica do imperador Shen-
nung, 23 I.
Sião, 114, i65, 3i6. II. 42, 63.
Siculo (Lúcio Marineo). II. 89.
Sikait. II. 227.
Silhet, 349. II. 61.
Silveira (Gonçalo da), 218.
Silvestre (Vida de S.) 32.
Sinai. II. 96.
Sinf. II. 63, 64.
Sinforiano (Symphorien Champier)
II. 66.
singhalezes, 232, 244.
Siqueira (Pêro Vaz de), 276.
Siraf, 219.
Sison, 148. II. 14.
Síva, 233. II. 347, 387.
Smilax China. II. 271, 38 1; S.ferox,
271.
Soar (Soer), 220, 335.
Soares (Fernão). II. 256.
Soares (Lopo), 39.
Sociedade Linneana de Londres,
357.
Socotora, 37, 55.
Sofala, 5i, 2o3, 3o5, 3i5. II. 52.
Solapor, 122.
Soleyman, escriptor arábico, 221.
Soliman Pachá, 286.
Soliman II. II. 98.
Solino. II. 1 13.
somalis, 229. II. 355.
Sonnerat, 218, 275. II. 148.
Sophi, 124, i38.
Sorbus domestica. II. 43.
Sousa. II. 149.
Sousa (Francisco de), 276.
Sousa (Fr. João de). II. 89, 145.
Sousa (Fr. Luiz de), 25o. II. 258.
Sousa (Manuel de), loi.
Sousa (Martim Affonso de), i5, 32,
97, i3o, 2o5, 23i. n. 18, 125, 140,
235, 260, 33o, 348.
índice alphabetico
441
Sousa (Ruy de), 218.
Sphagnum, 63.
spinela. 11. 225.
Spondias mangifera, 94, II. 343.
Sprengel, 63, 223, 248, 294, 349. II.
36, 60, 79, 335.
Stewart. II. 95,
Stigmarosa jangomas. II. 27.
Streeter. II. 210, 224, 23o.
Strombus. II. i32.
Strychnos colubrina. II. 191; S. mi-
nor, 192.
Styrax Ben^oin, 1 15.
succino, âmbar amarello. II. 43.
Succuir (Suchau, Sukchur). II. 277.
sudras. II. 139, 147.
Suez, 39.
Suimo (serra do). II. 226.
sultão de Babylonia, 285; —de Cam-
baya, iii.
Sulu ou Suluk (Solor). II. 128.
Sumatra, 17, 114, i56, 233, 25i, 3 16.
II. 29, 52, 62.
Sumba. II. 289.
Sunda, i53, 289, 292.
sura, 236, 246.
Surate, 268. II. 294.
Susrúta, 272. II. 149, 159.
Sylvaticus (Mattheus), 259. II. 246,
293, 396.
syphilis. II. 107, ii5, 259, 272, 397.
Syria, 293, 341, 376. II. 294, 299, 325.
systemaVaidak. II. 146; — Yunáni,
146.
Sz-chuen. II. 278.
Tabarija, 373, 374.
tabaschir. II. 38, 3o2-3o8.
Tali-fu (lago de). II. 42.
Tâmara (Francisco de), 233. II. 201.
tâmaras. II. 322, 325.
tamargueira. II. 96.
tamarindo. II. 319-326.
Tamarindus indica. II. 325.
Tamarix, 64 ; T. gallica. II. 96.
Tanjampur (estreito de). II. 211.
Taprobana, 17, 233.
Tapti, i35.
taras, peso. II. 196.
tarifas de Marselha, 375 ; — de Bar-
celona, 375.
Tartaria, 77, 271. II. 97.
Tártaros, 120, 271; — Uzbeks, 89.
tartaruga. II. 124.
Tavernier (João Baptista), 3 16. II.
112, 127, 209, 236.
Teixeira (Pedro), 57, 89, 91,220.11.
97, i58, 2i3, 228, 236, 36i, 397.
templo de Somnath. II. 290.
Tenasserim. II. 61, 255, 285, 289.
Tennent (Emerson), 23o. II. 236.
Tenreyro (António), iii, 139. II.
114, 126.
Terêncio, 191.
Tenninalia Chebula. II. 1 57 ; T'. be-
lerica, 1 58 ; 7". citrina, 1 58.
terra arménia. II. 212; — japonica,
77; — de Lemnos, 212; — merita.
I. 282; ^sigillata, 241. II. 212.
Thalictruyn foliosum, 284.
thalisafar (talisfar), 352.
Thamasp Scháh (Xatamaz), 124,
i38. II. 98.
Thapsia garganica, 92.
Thebaida. II. 178.
TTiemistio, 191.
Theobald (W.). II. 40, 42.
Theophrasto, 191, 248, 293, 339. II.
1 10, 229, 252, 327.
Thibet, 170, 282. II. 42, 114.
thugs, 3oo.
Thumbadra. II. 210.
tigres, 1 16, i56.
Tigris (rio). II. 93, 96, 97.
tincal, tincar, 268, 277, 281.
Tinnevelly. II. i25.
442
índice alphabetico
Tipura, 323.
toUa, peso. II. lyS.
Tombo do Estado da índia, 128,
i35, 38o.
tones, barcos. II. 255.
Tong-king. II. 42.
topázio. II. 200, 202, 224.
toques. II. 218.
Toro. II. 48, 96.
Toscano (Simão), II. loi, 109.
transmigração. II. io5, iii.
Transoxiana, 89. II. 95.
Tratado deTordesillas, 371.
Travancore, 189, 226. II. 255, 289.
Trebisonda, 39.
Tremelle (pagode de). II. 235.
triaga, 61, 63, 241, 265, 276. II. 404.
trigo. II. 139.
trindade hindu. II. 387.
Tripoli, 39, 375. II. 140
tripolio. II. 345.
Trogoldita. II. 7.
Tiirbinella pyrum. II. 1 3 1 ; T. rapa,
i3i.
turbit. II. 327-339, 344-346.
Turcomanos. II. 272.
turcos, 32, 40.
Turkestan, 88. II. 94, 279.
turqueza. II. 220, 228.
tutia. II. 3oi, 3o7, 3 59-361.
Tutikorin. II. i25.
Tyro, 229.
U
ud, 109, II 5.
Udipúra, 268. II. 178.
unicórnio, 265. II. 75, 233.
unio. II. 125.
uperção. II. 193.
uplot, 267, 268.
Ur, 23o. II. 297.
Uruk (rei), 23o.
Uzbek Khan. II. 97.
Uzbeque, 77, 88. II. 92, 94, 97.
Vaidak Hindu. II. 149.
Valle (Pietro delia). 11. 98, 1 12.
valores monetários, 376-378.
Varthema (Luiz), 106, iii. II. 27,
4o3.
Valeria indica. II. 355.
Vaz (Miguel). II. 124.
Vedas. II. 188, 289.
Vega (convento de S. Francisco da
cidade da), 195, 199.
Vega (Garcilaso de la), 226.
Veiga (Thomaz Rodrigues da) i5.
II. 234, 384.
Veneza, 27, 178, 199, 271, 35i.
Venezaras, 1 19, 129.
Verbali. II. 283.
vermelhão, 169.
versões arábicas, latinas e syriacas,
40, 42.
Vesalio (André). II. 272
Vicente de Burgos (Fr.). II. 66.
Vicente Maria (Padre), 338. II. iii.
Vidara, 126.
vidyas ou vityas. II. 146-149.
vihára. II. 346.
Vincent (Dr.), 227, 35i.
Vindhya, 268. II. 178.
violas, 62, 64.
Visapor, 122.
Vishnu, 54. II. i32.
Vitex, 291-293 ; V. Negundo. II. i65;
V. trifolia, i65.
Viverra. II. 188.
Volga. II. 277.
Vulgata, 338.
. "W
Wadding (Fr. Lucas), 352.
Wallace, 3oi. IL 87.
Wallich (Dr.), 126.
Wan-ti (imperador), 270.
índice alphabetico
443
Waring (Dr.). II. i65.
Wedel de lena. II. 77.
Wellstead, 38.
Wight, Soo.
Wilson. II. 149, Sog.
Wrightia antidysenterica. II. 19.
W. tinctoria, 20.
xadrez, i25, iSg.
■Xael (Xaer), 335. II. 16,48.
xaráo (xarave, xarope), 246.
Xarnauz (Sornau, Shahr-i
114.
Xeque, 124, i36.
xerafim. II. 128.
Yarkand, 99. II. 279.
Yemen. II. 325.
náo),
yoga. II. 186.
Yule (Henry), iii, 129, i65, 167,
223, 275, 38o. II. 26, 63, 78.
Yun-nan. II. 42.
Yusuf Adil Khán, i33, 137.
Zaidam. II. 278.
Zanzibar, 5^^ 383. II. 49, 112.
zargatoa. II. 14.
Zaytún, 166, 167.
zedoaria. II. 363-369.
Zegir, 21 5.
Zendj, 56, 336.
Zerumbet. II. 363-369.
Zingiber officinale. II. 9.
zingis, 5i, 56, 21 5.
Zi^yphus jujuba, 126. II. 4o;Z. vi//-
garis. I. 126.
Zuarí (rio). II. 385.
Zumaco, 21 3, 226.
RS
Orta, Garcia de
178
Colóquios dos simples
07
e drogas da índia
1891
V.2
Bblorcal
&i ^'lrJical
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